setembro 21, 2026

Céu de outono no hemisfério sul: Cruzeiro do Sul no alto, Leão e Virgem no norte, Carena e Vela em cima da Via Láctea

Mapa do céu inteiro de outono visto do hemisfério sul, com o Cruzeiro do Sul e Centauro perto da Via Láctea no sul, Leão e Virgem no norte e leste, Órion e o Cão Maior descendo no oeste

Quando o outono chega ao Brasil, o começo da noite muda de cara. As constelações de verão, com Órion, o Cão Maior e a brilhante Sirius, vão para o oeste e se despedem; o Cruzeiro do Sul sobe e fica de pé no sul; e do lado do leste começam a nascer as estrelas do inverno, com Virgem, Libra e, de madrugada, o Escorpião. Este guia cobre as noites de março a maio, com o céu de 15 de abril às 21 horas como referência, visto de uma cidade como o Rio de Janeiro (latitude 23° sul). Nessas mesmas noites, quem vive em Madri ou Nova York está na primavera, e o céu de primavera no hemisfério norte é exatamente o mesmo céu, visto do outro lado da Terra.

Texto em revisão. Este é um rascunho escrito a partir de fontes de referência e de cálculos do projeto; as fontes estão listadas no final.

O céu de outono do sul, em uma frase

É o céu do Cruzeiro do Sul alto, da Via Láctea baixa e delicada de Carena e Vela, do Leão e da Virgem inclinados para o norte e de um Órion cansado, quase no horizonte do oeste. É também o céu mais "vazio" de estrelas brilhantes do ano: sem o Triângulo de Verão nem os astros de Órion e do Cão Maior, sobra a Via Láctea austral como guia, e as constelações do outono, como Hidra, Sextante e Máquina Pneumática, são figuras discretas que pedem carta e paciência.

O mapa e como lê-lo

Mapa do céu inteiro de outono visto do hemisfério sul, com o Cruzeiro do Sul e Centauro perto da Via Láctea no sul, Leão e Virgem no norte e leste, Órion e o Cão Maior descendo no oeste
Céu de 15 de abril, 21h locais, latitude 23° S (Rio de Janeiro). Visto olhando para cima, com o norte em cima e o leste à esquerda. O centro do mapa é o zênite (o ponto sobre a sua cabeça) e a borda é o horizonte; o Polo Sul Celeste, marcado com uma cruz azul, fica pouco acima do horizonte, perto da borda de baixo. A linha dourada é a eclíptica, o caminho do Sol; a azul, o equador celeste. Estrelas: catálogo HYG v4.1 (CC BY-SA 4.0); linhas: d3-celestial/IAU. Gerada por Astronomia no Telhado.

Para ler, segure o mapa sobre a cabeça: a borda de baixo é o sul, que é para onde você olha quando o Cruzeiro está à sua frente. Por isso o leste fica à esquerda, o inverso de um mapa de rua. O norte, com a Ursa Maior de cabeça para baixo, fica em cima. No mapa, dá para ver logo que o sul e o oeste estão cheios de estrelas azuladas e da Via Láctea, e que o norte e o leste têm figuras mais esparsas: Leão, Virgem, Boieiro.

Como se orientar

O Cruzeiro do Sul e o polo sul celeste

No hemisfério sul não há uma "estrela polar" brilhante. O ponto em torno do qual o céu parece girar, o polo sul celeste, é um lugar vazio; a estrela mais próxima que dá uma indicação, Sigma Octantis, é fraca demais para ser vista com facilidade de cidade. A saída é o Cruzeiro do Sul: prolongue o braço maior da cruz, de Gacrux até Acrux, cerca de quatro vezes e meia, e você chega perto do polo (Ridpath, p. 134). Outra dica é usar as duas Apontadoras, Alfa e Beta do Centauro: a perpendicular ao meio da linha entre elas cruza o prolongamento do Cruzeiro perto do polo. No Rio de Janeiro, o polo fica a 23° acima do horizonte sul, isto é, o Cruzeiro em abril está bem alto e o polo, embaixo dele (Ridpath, p. 227, sobre o Oitante e o polo). Como o polo tem a mesma altura que a latitude, quem está mais ao sul o vê mais alto, e quem está no Nordeste o vê mais baixo.

Em abril, às 21 horas, o Cruzeiro está a cerca de 48° de altura, no sul, em pé. A estrela do pé, Acrux, e a do topo, Gacrux, ficam alinhadas na vertical; Beta Crucis (Mimosa), à esquerda do braço maior, é uma gigante azul a cerca de 280 anos-luz; Gamma Crucis (Gacrux) é uma gigante vermelha a cerca de 89 anos-luz, com cor laranja visível mesmo a olho nu. Ao lado do Cruzeiro, o Saco de Carvão é a nuvem escura que parece um buraco na Via Láctea, e a Caixa de Joias (NGC 4755) é um aglomerado aberto colorido perto de Beta Crucis.

Os Apontadores e a Via Láctea

À esquerda do Cruzeiro (leste), a 10 a 15 graus, estão as duas estrelas mais brilhantes de Centauro. Beta Centauri (Hadar), no mapa logo abaixo à direita da constelação, está a cerca de 390 anos-luz. As duas "apontam" para o Cruzeiro e ajudam a distinguir o Cruzeiro verdadeiro da Falsa Cruz, uma cruz maior e mais apagada entre Carena e Vela, do outro lado do Cruzeiro (à direita e abaixo, no mapa). A Via Láctea desce do zênite para o sul, passando por Vela, Carena, Cruzeiro e Centauro: é o eixo do céu de outono, e uma noite sem Lua a mostra bem, mesmo em cidades pequenas.

As estrelas-guia do norte

Voltado para o norte, você tem outro conjunto de guias. O primeiro é Regulus, a estrela mais brilhante do Leão, a cerca de 79 anos-luz, quase no meridiano em abril às 21h, a uns 55° de altura. Mais a leste, a bela Spica, de Virgem, azul-branca e a cerca de 250 anos-luz, e depois dela, em direção ao nordeste, Arcturus, do Boieiro, uma gigante laranja a apenas 37 anos-luz, a mais brilhante do céu do norte que se vê do Brasil. Um método clássico é seguir a curva do cabo da Ursa Maior (as estrelas Alioth, Mizar e Alcaid, a cauda) até Arcturus e continuar até Spica (a chamada "curva até Arcturus e depressa até Spica"). No Brasil, a Ursa Maior fica baixa, perto do horizonte norte, e em cidades com prédios pode ficar escondida; o Leão e o Boieiro são melhores pontos de partida.

Para o oeste, Sirius, a estrela mais brilhante do céu noturno (8,6 anos-luz), Rigel e Betelgeuse dão as últimas dicas do verão. E no leste, perto do horizonte às 21h, Antares, o coração do Escorpião, a cerca de 550 anos-luz, é o primeiro sinal de que o inverno se aproxima.

Constelações do hemisfério sul nesta estação

Perto do polo: as circumpolares

Em 23° S, são circumpolares (nunca se põem) as constelações a menos de 23° do polo. Em abril, às 21h, isso inclui Mosca, Peixe Voador, Camaleão, Mesa, Ave-do-Paraíso, Oitante e Hidra Macho, a maioria pequena e apagada. São constelações que ganharam nome no fim do século XVI, quando navegantes holandeses catalogaram as estrelas do sul; nenhuma tem uma estrela brilhante, mas elas se aproximam de aglomerados globulares (a Mosca guarda os globulares NGC 4372 e NGC 4833) e o Oitante contém o polo sul celeste. O Cruzeiro do Sul não é circumpolar em latitudes como a do Rio, mas quase: só se põe por poucas horas em julho e agosto, e no Sul do Brasil fica sempre no céu.

Carena, Vela e Popa: a antiga Argo

Carena, Vela e Popa formam o que os antigos chamavam de nau Argo, o navio dos Argonautas, que foi dividida em três. Em abril, às 21h, Vela e Carena estão altas e quase no sul (63° e 46°), e Popa desce a oeste (46°). Carena guarda Canopus, a segunda estrela mais brilhante do céu, a cerca de 310 anos-luz, em cima do mapa no lado sudoeste, e a Nebulosa de Carena, NGC 3372, uma das maiores e mais espetaculares regiões de formação estelar visíveis a olho nu. Ao redor, há vários aglomerados abertos: NGC 2516, NGC 3532 (o Poço dos Desejos), IC 2602 (as Plêiades do Sul), NGC 3293 e, em Vela, IC 2391 e NGC 2547, além do globular NGC 3201. Em Popa, os aglomerados M 46, M 47, NGC 2477 e M 93 se acumulam na Via Láctea que desce para o oeste. Entre Vela e Popa, a nebulosa planetária NGC 3132 (Anel Sul) e, em Carena, NGC 2867 são alvos para telescópio.

Centauro, Compasso e o Triângulo Austral

Centauro, com 51° de altura no sudeste, tem duas das maiores joias do céu do sul: o globular Ômega Centauri (NGC 5139), visível a olho nu como uma estrela turva, e a galáxia Centaurus A (NGC 5128), com sua faixa de poeira. Perto de Centauro, o Compasso (34°) e o Triângulo Austral (24°) contêm o aglomerado NGC 5823 e NGC 6025. Mais a leste, Lobo e Esquadro sobem lentamente; o Altar, o Esquadro e o Escorpião estão ainda perto do horizonte às 21h, e só ficam altos de madrugada ou nos meses seguintes.

As constelações zodiacais e do norte, vistas do sul

Do sul, as constelações do lado norte do céu aparecem inclinadas: as figuras estão de cabeça para baixo em relação às cartas do norte, e mais baixas.

  • Leão, a 54° de altura e a norte: é o zodiacal mais alto do céu de outono. A "foice" (Regulus e as estrelas que formam a curva) fica com a lâmina para baixo, olhando para o horizonte. Nele, o Trio do Leão, com M 65 e M 66, e NGC 2903.
  • Virgem (43°, leste): Spica é a estrela-guia. A constelação contém o aglomerado de galáxias de Virgem, com M 49, M 87, M 104 (Sombreiro) e NGC 4697.
  • Câncer (39°, noroeste): o Presépio (M 44) e M 67 são aglomerados abertos, e o primeiro aparece a olho nu em céu escuro como uma nuvem.
  • Gêmeos (22°, noroeste): Castor e Pollux descem para o oeste e se põem cedo em maio; o aglomerado M 35 fica no mesmo trecho.
  • Libra (24°, leste) e o Escorpião (7°, sudeste): sobem ao longo da noite; o Escorpião só fica alto depois da meia-noite em abril e é a grande atração do céu de inverno.

Outras figuras da região: Hidra, a mais longa das 88 (Alphard, a cerca de 180 anos-luz, é sua estrela mais brilhante), Sextante, Taça e Corvo, todas discretas, e o Cão Menor, com Procyon a cerca de 11,5 anos-luz. Cabeleira de Berenice e Cães de Caça têm o globular M 3 e a galáxia M 51, mas ficam baixas no céu do Brasil em abril.

Constelações equatoriais e o que elas têm em comum com o norte

Constelações perto do equador celeste são vistas dos dois hemisférios, e a diferença é só a altura e a orientação. Em abril, a esta hora, as equatoriais visíveis dos dois lados incluem Leão, Hidra, Sextante, Corvo, Taça, Virgem, Câncer, Cão Menor, Unicórnio, Órion, Lebre e Cão Maior. Elas aparecem altas no norte do céu para quem está no sul (o Leão a 54° no Rio, contra 63° em quem está a 40° N, e a Hidra está a 72° no Rio contra 34° lá) e mais baixas para o norte do equador.

A Nebulosa de Órion (M 42) é o exemplo mais famoso: está no oeste do céu de outono, baixa e se pondo, nas noites de março, e é o objeto que o Brasil compartilha com todo o mundo. O Cão Maior e as constelações de Órion e Unicórnio, com M 50, estão em abril entre 10° e 40° de altura no oeste, e no fim de maio já se põem ao anoitecer.

O que o hemisfério norte vê diferente

O par deste artigo é o céu de primavera no hemisfério norte. Comparando os dados do mesmo horário:

Constelação No Rio (23° S) A 40° N
Cruzeiro do Sul 48° de altura, ao sul nunca aparece
Centauro 51° de altura, sudeste não se vê (só as estrelas de cima, muito baixas)
Carena e Vela 46° e 63° de altura, sul não se vê
Ursa Maior 16° de altura, norte 76° de altura, circumpolar
Leão 54° de altura, norte 63° de altura, sul
Órion 11° de altura, oeste 15° de altura, oeste
Escorpião 7° de altura, sudeste não nasce até depois

Enquanto o Rio vê o Cruzeiro do Sul de pé, quem está a 40° de latitude norte tem, no mesmo horário, a Ursa Maior lá no alto, quase no zênite, e Polaris a 40° de altura, ao norte. Dragão, Cefeu, Cassiopeia, Girafa e Ursa Menor são circumpolares para eles e não aparecem, ou aparecem só no horizonte, para nós. E o Leão, que para eles fica no sul, é visto pelo Brasil no norte: se você olhar para cima nas duas cidades, as figuras aparecem invertidas. Os números da tabela vêm da mesma hora e data; o que muda é o lado do céu.

A orientação das figuras também muda. No Rio, o Leão aparece com a cabeça (a "foice") à direita e a garupa à esquerda, e a Ursa Maior de cabeça para baixo, em relação à imagem mais conhecida do norte. Órion, no sul, também aparece de ponta-cabeça, com as Três Marias na horizontal, e no céu de outono ele está quase deitado no horizonte oeste.

Dicas de observação

  • Bortle 7 (cidades grandes, como o Rio). O que vale em cidade é o brilho: o Cruzeiro do Sul, Canopus, Sirius, Regulus, Spica, Arcturus e Antares aparecem bem. Tente binóculos 10×50 para M 44, M 46, M 47, IC 2602 e o Poço dos Desejos. Nebulosas como a de Carena pedem um céu mais escuro, mas o núcleo pode ser visto em binóculos até em bairros moderadamente iluminados.
  • Melhor horário. Para o Cruzeiro e Centauro no alto, o começo da noite (19h a 22h) em abril. Para Leão e Virgem, o meio da noite. Para o Escorpião, depois da meia-noite.
  • Via Láctea. O outono é a temporada da Via Láctea de Carena e Vela ao anoitecer; o centro da Galáxia (Sagitário e Escorpião) só aparece de madrugada. Uma Lua nova, uma viagem para longe da cidade e as noites mais frescas, secas e limpas do outono ajudam muito.
  • Planetas. Podem aparecer em qualquer parte da faixa da eclíptica, a linha dourada do mapa; consulte um almanaque do mês para saber quais estão visíveis.
  • Comece pelo Cruzeiro. Achar o polo sul e usar Sirius, Canopus, Regulus, Spica e Arcturus como guias é mais rápido do que decorar constelações.

Considerações finais

O céu de outono do hemisfério sul é uma transição: o verão se despede no oeste, o inverno começa no leste, e o Cruzeiro do Sul reina no alto, com a Via Láctea austral descendo do zênite. Para quem mora no Brasil, é um bom momento para aprender a achar o polo sul e para explorar as regiões de Carena, Vela e Popa. E, se você tiver um amigo em Madri, Nova York ou Lisboa, esse mesmo céu é o dele, olhando para o lado oposto: vale ler o céu de primavera no hemisfério norte e comparar, noite a noite.

Referências

  • BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die. New York: Springer, 2010. Verbetes dos objetos de céu profundo citados nos guias ligados a este artigo.
  • KAMBIČ, Bojan. Viewing the Constellations with Binoculars. New York: Springer, 2010. Capítulos sobre Carena, Vela, Popa, Centauro, Leão e Virgem (páginas a conferir).
  • MOORE, Patrick. The Observer's Year: 366 Nights of the Universe. 2. ed. London: Springer, 2005. Noites de março, abril e maio (páginas a conferir).
  • MOORE, Patrick (ed.). Philip's Astronomy Encyclopedia. London: Philip's, 2002. Verbetes das constelações citadas.
  • MOURÃO, Ronaldo Rogério de Freitas. Dicionário enciclopédico de astronomia e astronáutica. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987. Verbetes das constelações e estrelas citadas.
  • RIDPATH, Ian. Astronomia (Guia Ilustrado Zahar). 4. ed. Rio de Janeiro: Zahar. Como encontrar o polo sul celeste (p. 134) e Oitante (p. 227).
  • VIEIRA, Fernando. Identificação do céu. Capítulos sobre o Cruzeiro do Sul, os alinhamentos do outono (Spica, Arcturus e Coroa Boreal) e a orientação no hemisfério sul (páginas a conferir).
  • SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a magnitudes, tipos espectrais e paralaxes, em 21 set. 2026.
  • HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, usado no mapa do céu; limites das constelações da IAU e linhas do d3-celestial.