setembro 21, 2026

M 51, a Galáxia do Redemoinho: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2) de M51 — Galáxia do Redemoinho — objeto ainda não capturado no observatório

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.

Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Créditos

Poucas galáxias são tão reconhecíveis quanto a do Redemoinho: um disco visto de frente, com braços em espiral nítidos e uma galáxia menor presa à ponta de um deles. É o objeto que os livros do hemisfério norte recomendam aos iniciantes e que aparece em qualquer calendário de astrofotografia de primavera. Aqui está o problema: M 51 fica em Cães de Caça, perto da Ursa Maior, a mais de 47° ao norte do equador celeste. Do Rio de Janeiro, ela nunca passa de cerca de 20° de altura. Este guia é honesto sobre isso. Ela dá para observar e fotografar do Rio, mas é um alvo de limite, e a expectativa precisa ser ajustada.

Texto em revisão. Este guia segue o novo formato de guia de objeto. As fontes estão listadas no final.

Imagem de referência (DSS2) de M51 — Galáxia do Redemoinho — objeto ainda não capturado no observatório
Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Imagem de referência: este objeto ainda não foi fotografado no Observatório. Créditos

Ficha técnica e designações

Visão geral: uma espiral de frente e a companheira que a cutuca

M 51 (NGC 5194) é uma galáxia espiral que vemos quase de frente, o que deixa os braços à mostra, diferentemente da Galáxia de Andrômeda (M 31), muito inclinada em relação a nós (Moore, The Observer's Year). Ela tem uma companheira, NGC 5195, mais de uma magnitude mais fraca (Kambič), ligada a um dos braços.

A galáxia em números. O SIMBAD lista magnitude visual 8,4 e dimensões de cerca de 9′ × 7,8′, com o eixo maior a 28° do norte, e a classifica como espiral com um núcleo ativo de tipo Seyfert 2. Os livros dão tamanhos maiores ou menores conforme incluem ou não os braços fracos: 8′ × 7′ (Bakich), 11′ × 7′ (Mollise) e 11′ × 8′ (Kier). O ponto importante é o brilho superficial: uma galáxia de face, com a luz espalhada por uma área grande, é bem mais difícil que o número da magnitude sugere. Mollise resume: sob luz urbana, é "meio decepcionante".

Distância. O SIMBAD não traz distância nem paralaxe para galáxias como esta. Os livros divergem bastante: 15 milhões de anos-luz (Kier), 35 (Mollise) e 37 (Kambič e Moore). Por isso o texto diz apenas que M 51 está a algumas dezenas de milhões de anos-luz, bem além do Grupo Local, mas é das galáxias espirais brilhantes mais próximas.

Interação. Kier descreve a colisão entre a galáxia e a companheira: ela rasga a estrutura da menor, espalha um fluxo de estrelas e estica um dos braços da maior, o que dispara surtos de formação de estrelas (aglomerados azuis e regiões HII vermelhas). Bakich acrescenta um detalhe importante: NGC 5195 está atrás do plano do disco, de modo que o "braço de ligação" das fotografias é em parte efeito de perspectiva, e modelos de computador apontam uma passagem próxima há cerca de 70 milhões de anos. Mollise fala de uma aproximação "recente", nos últimos milhões de anos, e o leitor deve tratar a data como incerta.

História. Messier a descobriu em 13 de outubro de 1773, enquanto observava um cometa, e Méchain encontrou NGC 5195 em 1781 (Bakich). Em 1845, William Parsons, o Lorde Rosse, foi o primeiro a reconhecer a estrutura espiral, com seu refletor de 1,8 m, na Irlanda (Bakich; Kambič; Ridpath).

Estruturas notáveis

  • Os braços espirais. Vistos de 200 mm em diante em bom céu; com 300 mm aparecem pontos e linhas escuras de poeira nas bordas internas dos braços (Bakich).
  • NGC 5195. A companheira, a cerca de 4′ a nor-nordeste do núcleo de M 51 (calculado a partir das coordenadas do SIMBAD). Tem núcleo mais brilhante, ainda que M 51 seja maior (Bakich); nas fotos, tons amarelados e amarronzados (Kier).
  • A ponte e o fluxo de estrelas. Numa foto profunda, uma ponte parece ligar as duas galáxias, e um rastro de estrelas sai de NGC 5195 (Kier).
  • Regiões HII e aglomerados jovens. Manchas vermelhas e azuis ao longo dos braços, reveladas por exposições longas (Kier).

Como localizar

Encontre a Ursa Maior, que do Rio fica baixa ao norte, e ache Alkaid (η UMa), a estrela na ponta do cabo da "concha". M 51 fica cerca de 3,6° a sudoeste dela, seguindo Bakich e Mollise (3°37′). Kambič sugere posicionar Alkaid na borda nordeste do campo de um binóculo, e a galáxia surge na borda sudoeste. Mollise prefere partir de 24 Canum Venaticorum (mag. 4,7, pouco mais de 2° a oeste de Alkaid) e ir até um par de estrelas de 7ª magnitude separadas por 47′: M 51 fica logo fora da linha entre elas, mais perto da estrela oriental.

Orientação vista do Rio. Você olha para o norte, perto do horizonte. O norte celeste fica para baixo, o leste para a direita: as cartas dos livros do hemisfério norte (norte para cima, leste para a esquerda) aparecem giradas de 180°. NGC 5195 fica logo abaixo (ou ligeiramente à direita) de M 51.

Carta de localização de M51: as estrelas-guia nomeadas, setas tracejadas com a distância em graus até o alvo, escala em graus e indicação de norte e leste.
Carta de localização (star-hopping), no mesmo estilo das cartas de constelação: norte e leste indicados no canto. Anéis laranja: estrelas-guia; setas tracejadas: o caminho até o alvo, com a distância em graus; anel verde: o alvo (e, com a designação, outros objetos do campo); a barra mostra a escala. As linhas são as oficiais das constelações (d3-celestial), os limites são os da IAU e as estrelas vêm do catálogo HYG.

Quando e como observar: o limite dos 20°

A declinação de +47° e a latitude do Rio de Janeiro (−23°) dão uma altura máxima de cerca de 20°, na passagem pelo meridiano, calculada sem refração. Isso implica:

  • Poucas horas úteis. Acima de 15° de altura ela fica por cerca de 4 horas (2 antes e 2 depois da passagem); acima de 10°, por cerca de 5,7 horas.
  • Muita atmosfera. A 20° de altura, a luz atravessa cerca de três vezes a massa de ar do zênite, e a 15°, cerca de quatro. Isso apaga o brilho superficial já baixo da galáxia e amplifica o efeito do brilho do céu urbano na direção do horizonte.
  • Obstáculos. No Rio, prédios, morros e a iluminação urbana ao norte podem bloquear o alvo. Escolha um local com horizonte norte limpo.

Melhor época. Com ascensão reta de 13h30, M 51 cruza o meridiano à meia-noite por volta de meados de abril, às 23h no fim de abril e às 21h no fim de maio. Na prática, a janela vai de abril a junho, com o pico entre maio e início de junho: a noite de inverno é longa e a galáxia passa cedo. Aproveite noites de céu transparente e sem umidade, de preferência sem Lua.

Altura de Galáxia do Redemoinho ao longo do anoAltura à meia-noite astronômica e altura máxima da noite, a cada 5 dias. O objeto não passa de 30° à meia-noite em nenhuma época do ano.0°30°60°90°JANFEVMARABRMAIJUNJULAGOSETOUTNOVDEZhoje
Altura ao longo do ano, a cada 5 dias: linha contínua = altura no meio da noite astronômica (Sol abaixo de −18°); tracejada = maior altura durante a noite escura; faixa verde = melhor época; linhas pontilhadas em 30° e 45°. A linha vertical marca hoje. Neste local o objeto não passa de 30° de altura no meio da noite em nenhuma época do ano.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

2026-10-13 · 19:20 – 04:10

Esta noite no céu

Melhores alvos da noite

Este objeto não passa de 30° de altura nesta noite (máximo: -31°). Não é um bom alvo hoje.

Melhor horário
19:20 · -31° NW
Horas acima de 45°
0,0 h
Lua
Lua crescente · 12 %
Nota da noite
0 / 100
Posição no céu
0
Brilho
64 mag 8,4
Enquadramento
100 ocupa 30 % do campo

Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).

Caminho do objeto pelo céu nesta noite, do fim do crepúsculo civil ao amanhecer. Centro = zênite, borda = horizonte; visto olhando para cima (leste à esquerda, oeste à direita). Marcadores a cada 30 minutos.
  • Hora cheia e meia hora
  • Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
Altura e direção do objeto a cada 30 minutos
Hora Altura Direção Da Lua
19:30 -33° — 78°
20:00 -38° — 78°
20:30 -43° — 78°
21:00 -48° — 78°
21:30 -53° — 78°
22:00 -57° — 78°
22:30 -61° — 79°
23:00 -64° — 79°
23:30 -65° — 79°
00:00 -66° — 79°
00:30 -65° — 79°
01:00 -62° — 79°
01:30 -59° — 79°
02:00 -55° — 80°
02:30 -50° — 80°
03:00 -46° — 80°
03:30 -41° — 80°
04:00 -36° — 80°
Altura de M51 — Galáxia do Redemoinho ao longo da noiteAltura em graus a cada 30 minutos. O ponto mais alto é às 19:20, com -31°. A tabela abaixo traz os mesmos valores.0°30°60°90°202122230001020304abaixo do horizonte
Altura em graus ao longo da noite escura (linhas em 30° e 45°). A Lua aparece tracejada.

Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

O que ver

Instrumento O que esperar
A olho nu Nada.
Binóculo (7×50 a 10×50) Uma mancha redonda de cerca de 5′, só o núcleo, em boa noite e com a galáxia no ponto mais alto (Kambič). NGC 5195 só aparece em condições perfeitas; do Rio, a 20° de altura, conte com pouco.
Telescópio de 100 a 150 mm Duas manchas redondas de nebulosidade, uma maior e outra menor, sem núcleo definido. Mollise a viu com um refletor de 150 mm a menos de 2 km de um shopping iluminado, em boa noite e com a galáxia alta; ele costumava precisar de pelo menos 100 aumentos.
Telescópio de 200 a 300 mm Os braços começam a aparecer em 200 mm, sob céu escuro; em 300 mm surgem pontos e faixas de poeira (Bakich). Com um SCT de 280 mm (11″), Mollise viu as duas galáxias mais brilhantes, um núcleo quase estelar ocasional em M 51 e um pouco de nebulosidade além do núcleo, com visão desviada.
Filtros Nenhum ajuda muito; não há gás emissor suficiente.

Uma expectativa realista. As fotos mostram braços vistosos, mas ao ocular, em céu urbano, M 51 é um par de borrões (Mollise). Do Rio, a 20° de altura, é um teste de paciência, e a versão fotografada está muito acima do que o olho vê.

Astrofotografia: estratégia de captura

Enquadramento

Com cerca de 9′ de diâmetro, M 51 pede foco longo. Kier recomenda enquadrar a galáxia com um campo pequeno, para ganhar resolução. Com um telescópio de 1.000 mm e uma ASI294MC Pro, o campo é de cerca de 1,1° × 0,75° (calculado), suficiente para M 51 e a companheira com folga e para uma parte do halo de estrelas. Com 500 a 600 mm, a mesma câmera cobre mais de 2°, mas a galáxia fica pequena no quadro.

Desafios do alvo

  • Altura mínima. A 20°, o seeing tende a piorar e o gradiente de poluição luminosa do norte cresce. Kier lembra que o seeing estável facilita muito: ele conseguiu resultado com só 3 h de exposição numa noite de seeing de 2″.
  • Rotação de campo. Em montagem azimutal, o campo gira mais rápido perto do horizonte; prefira uma montagem equatorial bem alinhada.
  • Halo e fluxo de estrelas. Para mostrar o fluxo de estrelas de NGC 5195, Kier pede ajustar o histograma com agressividade, mantendo o núcleo nítido. Isso só funciona com muitas horas de dados.
  • Brilho de fundo urbano. Kier informa que resultados agradáveis podem ser obtidos mesmo em subúrbios com poluição; o método LRGB é o mais eficiente.

Equipamento e filtros

Kier considera o LRGB o método mais eficiente e o RGB comum ou câmera colorida de um só tiro capazes de bons resultados com mais tempo. Para o processamento, ele indica começar pela deconvolução e terminar com nitidez de raio pequeno para as feições finas e raio maior para contraste entre os braços. O filtro de banda estreita ajuda pouco em galáxias, mas um filtro de poluição luminosa de banda larga pode ajudar no Rio.

Exemplo de sessão (ponto de partida)

Tipo de quadro Quantidade Exposição Finalidade
Light (câmera colorida) 120 a 240 120 s Acumular sinal: muitas horas por causa da altura baixa
Dark 30 igual aos Lights Calibração do ruído térmico
Flat 30 automática Vinheta e poeira
Bias ou dark-flat 50 mais curta possível Ruído de leitura

Esses números são um ponto de partida, e não vêm dos livros: ajuste-os ao seu sensor, ao telescópio e ao céu da noite. Prefira uma janela de 2 horas em torno da passagem pelo meridiano.

Smart telescopes e campo de visão

Um Seestar S50 (campo de cerca de 1,3° × 0,7°) enquadra M 51 e NGC 5195 com folga. O desafio é a altura: aparelhos de foco curto sofrem com o gradiente de brilho do horizonte norte, e a paciência conta mais que o equipamento. Abra o mapa abaixo, escolha seu modelo e veja o retângulo do campo sobre o objeto.

0°

Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.

Considerações finais

M 51 é uma galáxia belíssima que o hemisfério norte trata como alvo de iniciante, e que do Rio é um projeto para gente decidida. Sem mentir sobre isso: a 20° de altura, com o brilho urbano ao norte, o olho vê pouco, e a fotografia exige horas e uma boa noite. Para quem quer começar por galáxias com mais folga de altura, o Trio do Leão, no outono, passa a mais de 50°, e a Galáxia de Andrômeda rende bem no fim do ano.

Referências

  • BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 334 (M 51).
  • KAMBIČ, Bojan. Viewing the Constellations with Binoculars: 250+ Wonderful Sky Objects to See and Explore. New York: Springer, 2010. Cães de Caça, M 51, p. 218-219.
  • KIER, Ruben. The 100 Best Targets for Astrophotography. New York: Springer, 2009. "May 29: Whirlpool Galaxy M51", p. 145-146.
  • MOLLISE, Rod. The Urban Astronomer's Guide: A Walking Tour of the Cosmos for City Sky Watchers. London: Springer, 2006. M 51, p. 96-97.
  • MOORE, Patrick. The Observer's Year: 366 Nights of the Universe. 2. ed. London: Springer, 2005. Noite de 24 de março ("The Whirlpool"), p. 90-91.
  • PARKER, Greg. Making Beautiful Deep-Sky Images: Astrophotography with Affordable Equipment and Software. New York: Springer, 2007. Alvos brilhantes para o campo de um SCT, p. 51.
  • RIDPATH, Ian. Astronomia (Guia Ilustrado Zahar). 4. ed. Rio de Janeiro: Zahar. Verbete Cães de Caça (Canes Venatici).
  • SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, tipo, dimensões e brilho de M 51 e NGC 5195, em 21 set. 2026.
  • HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.