setembro 21, 2026
NGC 4833 (Caldwell 105), o globular da Mosca: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.
Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. UK Schmidt Telescope (UKST) / AAO–ROE. Créditos
Poucos objetos ilustram tão bem a diferença entre o hemisfério norte e o sul quanto o NGC 4833. Ele é um globular de brilho respeitável, na constelação da Mosca (Musca), a poucos graus da Cruz do Sul, e para quem mora ao norte do equador é praticamente inexistente. No Rio de Janeiro ele nunca se põe, mas também nunca sobe muito, e é um alvo que combina bem com quem quer aprender a observar globulares menos concentrados, mais soltos e mais difíceis. Este guia reúne os dados, os gráficos de altura e a estratégia de observação e de captura.
Texto em revisão. Este é um guia de teste do novo formato de guia de objeto, do lote Caldwell. As fontes estão listadas no final.

Ficha técnica e designações
Visão geral: o que é um aglomerado globular
Um aglomerado globular é uma esfera densa de estrelas muito antigas, presas pela gravidade e distribuídas em um halo em torno da Galáxia. Eles variam de bolas muito concentradas, com um núcleo de luz contínua, a aglomerados frouxos, em que as estrelas aparecem espalhadas até o meio. O NGC 4833 pertence ao segundo tipo.
O NGC 4833 em números. A magnitude integrada é de 7,0 (Mobberley) a 7,8 (Bakich e catálogo do site), e o tamanho, de 13,5′ no SIMBAD (Mobberley dá 13′). Mobberley avisa que, no telescópio, o aglomerado pode parecer ter metade do diâmetro citado, como acontece com vários alvos do extremo sul. A paralaxe do SIMBAD (0,164 milissegundo de arco) dá cerca de 19.900 anos-luz (Mobberley traz 20.000). O diâmetro físico é de aproximadamente 78 anos-luz (calculado com os 13,5′ do SIMBAD) e a idade, de cerca de 11 bilhões de anos (Mobberley). É também o Caldwell 105.
Um dos menos concentrados. O Bakich explica que ele é um dos globulares menos concentrados que se pode observar: as estrelas externas ficam bem separadas, e o núcleo, longe de ser um ponto de luz, é uma região oval difusa. Isso torna o aglomerado menos "espetacular" do que um M13 ou um 47 Tucanae, mas ideal para quem quer ver a estrutura de um globular.
Poeira no caminho. O Data Book observa que o NGC 4833 e seu vizinho NGC 4372 são parcialmente obscurecidos por nuvens de poeira da Via Láctea, o que ajuda a explicar a variação de magnitudes e tamanhos entre as fontes.
A Borboleta do Sul. Mobberley registra que Stephen O'Meara batizou o aglomerado de "Southern Butterfly": em observação visual, cadeias de estrelas a leste e a oeste sugerem as asas de uma borboleta. Uma estrela azulada de magnitude 8,8, a 2,5′ ao norte do núcleo, é do primeiro plano e contrasta com o tom "dourado" do aglomerado.
Estruturas notáveis
- O núcleo oval. No telescópio, o centro é oval e alongado de leste a oeste (Bakich).
- As cadeias de estrelas. As correntes a leste e a oeste, que dão nome à Borboleta (Mobberley).
- A estrela azul do primeiro plano. De magnitude 8,8, a 2,5′ ao norte do núcleo (Mobberley), é um contraste de cor com o aglomerado.
- As estrelas do aglomerado. A maioria é de magnitude 15 ou 16; as mais brilhantes são de 12, com uma de 11 e cerca de duas dezenas de 12 (Mobberley). Como aglomerado, ele só "brilha" em telescópios muito grandes.
- O vizinho NGC 4372 (Caldwell 108). Um globular ainda mais aberto, a cerca de 3° a sudoeste (Mobberley), que vale a comparação na mesma noite.
Como localizar
O globular fica na Mosca, logo ao sul da Cruz do Sul. Mobberley dá duas rotas: partir de alfa Muscae (magnitude 2,7) e andar 1¾° para o sul e 2° para leste; ou achar delta Muscae (magnitude 3,6) e olhar cerca de 40′ a nor-noroeste, o que o Bakich confirma (cerca de 0,7°). Em um campo de binóculo, o globular é uma mancha fraca ao lado de delta Muscae. Para chegar à Mosca, use a Cruz do Sul como guia e siga para o sul: a constelação fica logo abaixo de Crux, como descreve o guia do Cruzeiro do Sul.

Quando e como observar
Com declinação de −70,9°, o NGC 4833 é circumpolar no Rio de Janeiro, como o NGC 362: nunca se põe, e Mobberley diz que ele é circumpolar abaixo de 20°S. A altura máxima é de cerca de 42° e a mínima, de cerca de 4°, na passagem inferior. Mobberley nota que, sendo diametralmente opostos em relação ao polo sul, o NGC 4833 e o NGC 362 ficam melhores com seis meses de diferença: o da Mosca passa pelo meridiano à meia-noite por volta de abril (Bakich também indica abril), enquanto o do Tucano faz isso em outubro.
Olhando para o sul, o norte fica para baixo e o leste, à esquerda. Como o objeto passa perto do polo, a orientação no ocular gira ao longo da noite.
O primeiro gráfico mostra a altura do objeto ao longo do ano para o local do observatório; o segundo, o caminho do NGC 4833 pelo céu nesta noite (zênite no centro, cores pela altura e linha pontilhada, tracejada ou contínua conforme o crepúsculo), seguido da altura hora a hora.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
2026-10-13 · 19:20 – 04:10
Esta noite no céu
Este objeto não passa de 30° de altura nesta noite (máximo: 15°). Não é um bom alvo hoje.
- Melhor horário
- 04:00 · 15° SSE
- Horas acima de 45°
- 0,0 h
- Lua
- Lua crescente · 12 %
- Nota da noite
- 0 / 100
- Posição no céu
- 0
- Brilho
- 72 mag 7,8
- Enquadramento
- 75 ocupa 19 % do campo
Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).
- Crepúsculo civil (Sol até −12°)
- Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
- Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
- Altura abaixo de 20°
- Hora cheia e meia hora
- Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
| Hora | Altura | Direção | Da Lua |
|---|---|---|---|
| 19:30 | 12° | SSW 197° | 51° |
| 20:00 | 10° | SSW 195° | 51° |
| 20:30 | 9° | SSW 193° | 51° |
| 21:00 | 7° | S 191° | 51° |
| 21:30 | 6° | S 189° | 51° |
| 22:00 | 5° | S 187° | 52° |
| 22:30 | 4° | S 184° | 52° |
| 23:00 | 4° | S 182° | 52° |
| 23:30 | 4° | S 180° | 52° |
| 00:00 | 4° | S 177° | 52° |
| 00:30 | 5° | S 175° | 52° |
| 01:00 | 5° | S 172° | 52° |
| 01:30 | 7° | S 170° | 52° |
| 02:00 | 8° | SSE 168° | 52° |
| 02:30 | 9° | SSE 166° | 52° |
| 03:00 | 11° | SSE 164° | 52° |
| 03:30 | 13° | SSE 163° | 52° |
| 04:00 | 15° | SSE 162° | 52° |
Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
O que ver
| Instrumento | O que esperar |
|---|---|
| A olho nu | Não visível em Bortle 7. |
| Binóculo (7×50 a 15×70) | Fácil de achar em binóculo ou buscadora, como uma mancha difusa a 0,7° de delta Muscae (Bakich). Com magnitude 7 a 7,8, precisa de céu razoável. |
| Telescópio de 100 a 150 mm | Uma bola de luz de contorno oval, sem estrelas isoladas ou só com algumas nas bordas. Mobberley recomenda 10 cm ou mais. |
| Telescópio de 200 a 350 mm | Com 200 mm a 200x, cerca de 30 estrelas externas, com o centro oval, alongado de leste a oeste (Bakich); cadeias a leste e a oeste sugerem asas (Mobberley). |
Expectativa honesta: este é um alvo de céu escuro. Em Bortle 7, com o aglomerado no máximo a cerca de 42° e sobre o brilho do horizonte sul, ele aparecerá como uma mancha pequena e apagada, e as "asas" da borboleta só vão aparecer em um telescópio médio, em uma noite boa e com o objeto no meridiano. Não há vantagem em usar filtro (Mobberley).
Astrofotografia: estratégia de captura
Enquadramento
Mobberley classifica o NGC 4833 como um alvo fácil de fotografar, em cor ou em mono. Com um telescópio de 1.000 mm de focal e uma câmera como a ASI294MC Pro, o campo é de cerca de 1,1° × 0,75° (calculado a partir do sensor e da focal): o aglomerado, de cerca de 13′, cabe com folga, junto da estrela azul do primeiro plano e de estrelas de campo. Para incluir também o NGC 4372, a cerca de 3°, é preciso um campo de 5°, com uma lente de 200 a 300 mm.
Desafios do alvo
- Altura baixa. A extinção do horizonte prejudica a cor; fotografe perto do meridiano, quando o aglomerado está a cerca de 42°.
- Contraste baixo. Sendo frouxo, o globular é fácil de perder no fundo de estrelas da Via Láctea em que está mergulhado. Um bom empilhamento e exposições longas ajudam.
- A estrela do primeiro plano. A estrela de magnitude 8,8 pode estourar; procure não saturar demais.
Equipamento e filtros
Como em todo globular, não há filtro que ajude. Uma câmera colorida de um disparo ou uma monocromática com LRGB funciona bem; a cor de fundo do aglomerado é amarelada, em contraste com a estrela azulada do primeiro plano.
Exemplo de sessão (ponto de partida)
| Tipo de quadro | Quantidade | Exposição | Finalidade |
|---|---|---|---|
| Light (RGB ou colorida) | 60 a 100 | 60 a 120 s | Estrelas do aglomerado; o mais importante é o tempo total |
| Dark | 30 | igual aos Lights | Calibração do ruído térmico |
| Flat | 30 | automática | Correção de vinheta e poeira |
| Bias ou dark-flat | 50 | mais curta possível | Calibração do ruído de leitura |
Esses números são um ponto de partida, e não vêm dos livros. Como referência, a imagem de Daniel Verschatse publicada por Mobberley usou 50, 12, 12 e 12 minutos em L, R, G e B, com um refletor de 37 cm f/9.
Smart telescopes e campo de visão
O NGC 4833 cabe com folga no campo de um smart telescope como o Seestar S50 (cerca de 1,3° × 0,7°), com a estrela azul do primeiro plano. Como o aglomerado é fraco e frouxo, ele pede muitas horas de empilhamento para mostrar as cadeias de estrelas. Escolha o seu modelo no mapa abaixo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.
Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.
Considerações finais
O NGC 4833 não vai impressionar ninguém em uma primeira olhada; o valor dele é outro: ensina a observar globulares frouxos, revela o quanto a poeira da Via Láctea pode alterar o que vemos e vive em um pedaço de céu que só nós, do hemisfério sul, temos inteiro. Para continuar, vale comparar com o NGC 362, do lado oposto do polo, e com o NGC 6752, muito mais brilhante e em altura mais confortável.
Referências
- BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 319 (NGC 4833).
- MOBBERLEY, Martin. The Caldwell Objects and How to Observe Them. New York: Springer, 2009. Caldwell 105, p. 216-217.
- MOORE, Patrick; REES, Robin. Patrick Moore's Data Book of Astronomy. Cambridge: Cambridge University Press, 2011. Verbete Mosca (Musca) e tabela Caldwell, página impressa a conferir (cerca de p. 454).
- SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, paralaxe e dimensões de NGC 4833, em 21 set. 2026.
- HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.