setembro 21, 2026
NGC 4372 (Caldwell 108), o globular da Mosca: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.
Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. UK Schmidt Telescope (UKST) / AAO–ROE. Créditos
Bakich propôs um gancho para este objeto: "o globular que parece aberto". Ele tem razão. O NGC 4372, na Mosca (Musca), é um dos globulares menos concentrados do céu: praticamente não tem adensamento central, e em um telescópio de 200 mm parece mais um aglomerado aberto do que um globular. Ao lado, uma estrela azulada de magnitude 6,6 que ofusca quem procura pelo aglomerado. Como o NGC 4372 fica a apenas cerca de 3° do NGC 4833, os dois formam um par ideal para comparar. No Rio de Janeiro, ele é circumpolar. Este guia reúne os dados, os gráficos de altura e a estratégia de observação e de captura.
Texto em revisão. Este é um guia do novo formato, do segundo lote Caldwell. As fontes estão listadas no final.

Ficha técnica e designações
Visão geral: o que é um aglomerado globular
Um aglomerado globular é uma esfera de centenas de milhares de estrelas muito antigas, presas pela gravidade e distribuídas em um halo em torno da Galáxia. Alguns têm um núcleo apertado e brilhante; outros são frouxos, com as estrelas espalhadas até o meio. O NGC 4372 pertence ao segundo tipo, e de forma extrema.
O NGC 4372 em números. A paralaxe do SIMBAD (0,187 milissegundo de arco) dá cerca de 17.400 anos-luz, valor adotado aqui; Mobberley cita 19.000 e Bakich, 15.000. O tamanho aparente vai de 10′ a 24′ conforme a fonte (o SIMBAD traz 24′, Mobberley, 19′, e Tonkin, 18,6′), e o diâmetro real é de algo em torno de 100 a 120 anos-luz. A idade é de cerca de 12 bilhões de anos (Mobberley). A magnitude integrada é de 9,85 no SIMBAD (V), muito mais fraca que os 7,2 a 7,3 de Mobberley e Bakich. É também o Caldwell 108.
Por que o número engana. Mobberley explica que o aglomerado é fraco e grande, e que por isso o brilho por área é uma magnitude mais baixo que o do NGC 4833. Ele acrescenta que há desacordo sobre a magnitude e o tamanho: onde as bordas de um globular frouxo se dissolvem no fundo de estrelas da Via Láctea é sempre incerto, a menos que se conheça a distância de cada estrela. Tonkin diz que o NGC 4372 é grande e de baixo brilho superficial, e que precisa de um céu escuro e transparente.
Poeira no caminho. O Data Book, segundo o guia do NGC 4833, observa que o NGC 4372 e seu vizinho são parcialmente obscurecidos por nuvens de poeira da Via Láctea, o que ajuda a explicar a variação de magnitudes e tamanhos.
A estrela intrusa. A cerca de 5′ a noroeste do núcleo, uma estrela de magnitude 6,6 (GSC 9236 2380, para Mobberley; SAO 256939, para Bakich) complica a observação. É uma estrela de primeiro plano, a cerca de 300 anos-luz, 63 vezes mais perto que o globular (Mobberley). Em um buscador pequeno, a luz concentrada dela pode cegar você para o aglomerado, fraco e espalhado por 19′, a menos que você use visão indireta.
Estruturas notáveis
- A falta de núcleo. Quase não há adensamento central (Bakich): é um dos globulares menos concentrados do céu.
- As estrelas resolvidas. Um número razoável de estrelas de magnitude 14, algumas de 13 e até de 12 (Mobberley); em 200 mm, estrelas de magnitude 12 a 14 espalhadas (Bakich).
- A estrela de magnitude 6,6. A intrusa a noroeste do núcleo, que Bakich sugere tirar do campo.
- O triângulo. A cerca de 0,5° a sudeste, um pequeno triângulo de estrelas de magnitudes 5,9, 7,0 e 7,1 (Mobberley), que serve de referência.
- O vizinho NGC 4833. A cerca de 3° a nordeste (Mobberley), menor e mais brilhante, na borda da Via Láctea.
Como localizar
O NGC 4372 é fácil de achar: fica no mesmo campo de Gama Muscae (magnitude 3,8), cerca de 0,5° ao sul e 0,5° a oeste dela (Mobberley), ou 0,7° a sudoeste (Bakich). Tonkin também o descreve no mesmo campo, logo ao sul da estrela. Para chegar à Mosca, use o Cruzeiro do Sul, cuja base aponta para a região. Em binóculo, ele aparece em um campo largo, mas o brilho de Gama Muscae e da estrela de magnitude 6,6 exigem um céu escuro para não afogar o aglomerado.

Quando e como observar
Com declinação de −72,7°, o NGC 4372 é circumpolar no Rio de Janeiro (Mobberley: abaixo de 18°S). A altura máxima é de cerca de 40°, na passagem superior, e a mínima, de cerca de 6°, na passagem inferior. Bakich indica março como a melhor época; pela ascensão reta (12h26m), ele culmina à meia-noite por volta do fim de março, e no outono está bem posicionado no início da noite.
Olhando para o sul, o norte fica para baixo e o leste, à esquerda. Como o objeto passa perto do polo, a orientação no ocular gira ao longo da noite.
O primeiro gráfico mostra a altura do objeto ao longo do ano para o local do observatório; o segundo, o caminho dele pelo céu nesta noite (zênite no centro, cores pela altura e linha pontilhada, tracejada ou contínua conforme o crepúsculo), seguido da altura hora a hora.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
2026-10-12 · 19:20 – 04:10
Esta noite no céu
Este objeto não passa de 30° de altura nesta noite (máximo: 18°). Não é um bom alvo hoje.
- Melhor horário
- 04:00 · 18° SSE
- Horas acima de 45°
- 0,0 h
- Lua
- Lua crescente · 6 %
- Nota da noite
- 0 / 100
- Posição no céu
- 0
- Brilho
- 41 mag 9,9
- Enquadramento
- 100 ocupa 27 % do campo
Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).
- Crepúsculo civil (Sol até −12°)
- Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
- Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
- Altura abaixo de 20°
- Altura abaixo de 30°
- Hora cheia e meia hora
- Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
| Hora | Altura | Direção | Da Lua |
|---|---|---|---|
| 19:30 | 12° | SSW 194° | 55° |
| 20:00 | 10° | SSW 192° | 55° |
| 20:30 | 9° | S 190° | 55° |
| 21:00 | 8° | S 188° | 55° |
| 21:30 | 7° | S 186° | 55° |
| 22:00 | 6° | S 184° | 55° |
| 22:30 | 6° | S 182° | 55° |
| 23:00 | 6° | S 180° | 55° |
| 23:30 | 6° | S 177° | 55° |
| 00:00 | 6° | S 175° | 55° |
| 00:30 | 7° | S 173° | 55° |
| 01:00 | 8° | S 171° | 55° |
| 01:30 | 9° | S 169° | 55° |
| 02:00 | 11° | SSE 167° | 55° |
| 02:30 | 12° | SSE 166° | 55° |
| 03:00 | 14° | SSE 164° | 55° |
| 03:30 | 16° | SSE 163° | 55° |
| 04:00 | 18° | SSE 162° | 55° |
Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
O que ver
| Instrumento | O que esperar |
|---|---|
| A olho nu | Não visível em Bortle 7. |
| Binóculo (7×50 a 15×70) | Tonkin o inclui entre os alvos de binóculo de 100 mm e diz que ele precisa de céu escuro e transparente. Em Bortle 7, uma mancha muito tênue a sul de Gama Muscae, se tanto. |
| Telescópio de 100 a 200 mm | Mobberley recomenda 10 cm ou mais, sem filtro. Com 200 mm, estrelas de magnitude 12 a 14 espalhadas, mais parecendo um aglomerado aberto (Bakich). |
| Telescópio de 250 a 400 mm | Mais estrelas de magnitude 13 e 14 e o aspecto de "globular sem coração" fica evidente. |
Expectativa honesta: o NGC 4372 é um objeto de céu escuro e de paciência. Em Bortle 7, o aglomerado tem contraste baixo e o brilho superficial fraco o esconde. Mobberley acrescenta que, em um buscador pequeno, a estrela de magnitude 6,6 pode ofuscá-lo. O melhor é usar um binóculo ou um telescópio de campo largo, com o objeto perto do meridiano, e visão indireta.
Astrofotografia: estratégia de captura
Enquadramento
Mobberley classifica o NGC 4372 como fácil de fotografar, em cor ou em mono. Com um telescópio de 1.000 mm de focal e uma câmera como a ASI294MC Pro, o campo é de cerca de 1,1° × 0,75° (calculado a partir do sensor e da focal): o aglomerado, de cerca de 19′ a 24′, cabe com folga, junto da estrela de magnitude 6,6. Para incluir também Gama Muscae e o triângulo a sudeste, use um campo de 2° a 3°; para o par com o NGC 4833, a cerca de 3°, um campo de 5° (lente de 200 a 300 mm).
Desafios do alvo
- Baixo brilho superficial. É um alvo em que o tempo total de exposição e a calibração do fundo importam mais que a abertura.
- A estrela de magnitude 6,6. Ela estoura o quadro e cria halos; procure não saturar demais, ou combine exposições curtas e longas.
- Altura baixa. A extinção perto do horizonte prejudica a cor; fotografe perto do meridiano, quando o aglomerado está a cerca de 40°.
- Fundo da Via Láctea. As bordas do aglomerado se perdem no campo estelar denso.
Equipamento e filtros
Como em todo globular, não há filtro que ajude. Uma câmera colorida de um disparo ou uma monocromática com LRGB funciona bem. Uma imagem de Daniel Verschatse, publicada por Mobberley, usou 30, 9, 9 e 9 minutos em L, R, G e B, com exposições individuais de 3 minutos e um refletor de 37 cm f/9.
Exemplo de sessão (ponto de partida)
| Tipo de quadro | Quantidade | Exposição | Finalidade |
|---|---|---|---|
| Light (RGB ou colorida) | 60 a 100 | 60 a 120 s | Estrelas do aglomerado; o mais importante é o tempo total |
| Dark | 30 | igual aos Lights | Calibração do ruído térmico |
| Flat | 30 | automática | Correção de vinheta e poeira |
| Bias ou dark-flat | 50 | mais curta possível | Calibração do ruído de leitura |
Esses números são um ponto de partida, e não vêm dos livros (a referência de Verschatse está acima).
Smart telescopes e campo de visão
O NGC 4372 cabe com folga no campo de um smart telescope como o Seestar S50 (cerca de 1,3° × 0,7°), com a estrela de magnitude 6,6 no quadro. Como o aglomerado é frouxo e fraco, ele pede muitas horas de empilhamento para mostrar as estrelas. Escolha o seu modelo no mapa abaixo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.
Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.
Considerações finais
O NGC 4372 ensina que o brilho total não é tudo: um aglomerado grande e frouxo pode ser mais difícil que um pequeno e denso. Para continuar, compare-o com o NGC 4833, a 3°, mais brilhante e mais compacto, e, para o contraste extremo, com o 47 Tucanae, um globular de núcleo denso que brilha a olho nu.
Referências
- BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 253 (NGC 4372).
- MOBBERLEY, Martin. The Caldwell Objects and How to Observe Them. New York: Springer, 2009. Caldwell 108, p. 222-223.
- MOORE, Patrick; REES, Robin. Patrick Moore's Data Book of Astronomy. Cambridge: Cambridge University Press, 2011. Verbete Mosca (Musca), página impressa a conferir (cerca de p. 454).
- TONKIN, Stephen. Binocular Astronomy. London: Springer, 2007. NGC 4372 (Musca), p. 198 (a conferir).
- SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, paralaxe, fluxo V e dimensões de NGC 4372, em 21 set. 2026.
- HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.