setembro 21, 2026

NGC 3132 (Caldwell 74), a Nebulosa do Anel Sul: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2) de NGC 3132 — Nebulosa do Anel Sul — objeto ainda não capturado no observatório

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.

Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. UK Schmidt Telescope (UKST) / AAO–ROE. Créditos

Se você conhece a Nebulosa do Anel em Lira, conhece o formato geral da NGC 3132: uma elipse de gás com uma estrela no meio. Mas a Anel Sul, em Vela, guarda uma pegadinha bem mais interessante: a estrela brilhante que se vê no centro não é a que faz a nebulosa brilhar. Essa é uma companheira bem mais fraca, escondida ao lado, e o Hubble mostrou várias camadas sobrepostas, o que rendeu o apelido "Oito Explosões". Do Rio de Janeiro, a nebulosa culmina quase a 73° de altura no outono e é um dos alvos planetários do sul mais fáceis de se conseguir com um telescópio médio. Este guia junta os dados, o mapa, os gráficos de altura e a estratégia de observação e captura.

Texto em revisão. Este é um guia no novo formato de objeto, ainda em rascunho. As fontes estão no final; as divergências aparecem como pendências.

Imagem de referência (DSS2) de NGC 3132 — Nebulosa do Anel Sul — objeto ainda não capturado no observatório
Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. UK Schmidt Telescope (UKST) / AAO–ROE. Imagem de referência: este objeto ainda não foi fotografado no Observatório. Créditos

Ficha técnica e designações

Visão geral: o que é uma nebulosa planetária

Uma nebulosa planetária é o envoltório de gás expelido por uma estrela de massa parecida com a do Sol no fim da vida; o núcleo, uma anã branca muito quente, ilumina o gás. O nome vem de William Herschel, que achou que alguns desses discos lembravam planetas (Mourão; Moore e Rees). Bakich descreve a Anel Sul como a história de uma estrela parecida com o Sol que terminou a vida há cerca de 10 mil anos: o núcleo virou uma anã branca do tamanho da Terra, com superfície a cerca de 100 mil °C.

A Anel Sul em números. A luz total é de magnitude 10,0 (SIMBAD; os livros trazem de 9,4 a 9,7, e Coe, mais otimista, cita 8). O tamanho aparente é de cerca de 45″ (SIMBAD; os livros trazem de 30″ a 85″, conforme quanto se conta do halo). O brilho superficial é de 19 magnitudes por segundo de arco quadrado (Mobberley), mais fraco que o da Nebulosa Saturno (NGC 7009). Segundo Mobberley, é cerca de um oitavo do tamanho linear da Hélice (NGC 7293), duas magnitudes mais fraca e quase quatro vezes mais distante.

Distância. A paralaxe do SIMBAD, de 1,32 milissegundo de arco, dá cerca de 2.500 anos-luz (livros mais antigos trazem 2.000). A essa distância, a nebulosa tem cerca de meio ano-luz (6 meses-luz) de extensão.

A estrela errada. É o ponto central do objeto. A estrela de magnitude 10 no centro (HD 87892) é visível, mas não ioniza o gás. Quem faz isso é uma companheira de magnitude 16, com cerca de 100.000 K, separada por menos de 2″ (Mobberley; Coe cita 1,6″ e magnitude 15,8; Monks também destaca essa exceção: as anãs brancas costumam ter magnitude 15 ou mais, mas aqui a estrela da frente é de magnitude 10). Ao ocular, a estrela do meio é a única que se vê; a fonte da luz, não.

Nomes. É chamada de Nebulosa do Anel Sul pela semelhança de tamanho e forma com a Nebulosa do Anel de Lira, M 57 (Bakich; Mobberley); e de Oito Explosões (Eight-Burst), nome que Bakich atribui a Robert Burnham Jr., pelo aspecto complexo em fotografias. É o objeto 74 da lista Caldwell.

Estruturas notáveis

  • A elipse principal. Uma forma ovalada, de alto brilho superficial, com concha interna difusa em torno da "estrela impostora" (Bakich). Coe mede 1,5 × 1 com PA 15° em 13″ a 150 aumentos.
  • Os anéis sobrepostos. O Hubble mostra vários anéis e ovais sobrepostos e inclinados, provavelmente causados pelo movimento excêntrico do par de estrelas (Mobberley; Bakich). Isso dá o nome de Oito Explosões.
  • O filamento vertical. A imagem do Hubble mostra uma fita de gás que divide a cavidade azul interna em duas partes (Mobberley).
  • As duas estrelas. A de magnitude 10 (visível) e a de magnitude 16 (que ioniza), separadas por menos de 2″.

Como localizar

A Anel Sul fica em Vela, ao sul de uma região de estrelas médias. Mobberley indica um pulo de 7° para leste a partir de uma estrela do seu campo de partida: no texto extraído do livro a letra grega aparece como "y", mas a conta pelas coordenadas indica psi Velorum, à mesma declinação, cerca de 7° a oeste da nebulosa (ver pendências). Outros marcadores: NGC 3201 (Caldwell 79), um globular a cerca de 6° (cálculo a partir das coordenadas), que forma uma boa dupla de alvos na mesma noite. Coe, ao tratar de Vela, também cita o Lápis de Herschel (NGC 2736), um remanescente de supernova mais a oeste.

Carta de localização de NGC 3132: as estrelas-guia nomeadas, setas tracejadas com a distância em graus até o alvo, escala em graus e indicação de norte e leste.
Carta de localização (star-hopping), no mesmo estilo das cartas de constelação: norte e leste indicados no canto. Anéis laranja: estrelas-guia; setas tracejadas: o caminho até o alvo, com a distância em graus; anel verde: o alvo (e, com a designação, outros objetos do campo); a barra mostra a escala. As linhas são as oficiais das constelações (d3-celestial), os limites são os da IAU e as estrelas vêm do catálogo HYG.

Quando e como observar

Com declinação de cerca de −40°, a Anel Sul culmina a cerca de 73° de altura no Rio de Janeiro (cálculo a partir da declinação; confira no gráfico), ao sul do zênite. A melhor época vai de fevereiro a maio (Mobberley); Bakich a indica para fevereiro. Em abril e maio ela passa ao meridiano no início da noite.

Como ela passa ao sul do zênite, você observa de frente para o sul: o norte fica para cima e o leste, à esquerda, como nas cartas comuns.

Mobberley lembra que, no equador, seria possível ver M57 e NGC 3132 na mesma noite de maio, com uma baixa a sudoeste e outra a nordeste, e que há 73° de diferença em declinação entre elas. Do Rio, a M57 (declinação +33°) nunca passa muito alto; veja o guia da Nebulosa do Anel para a melhor época.

O primeiro gráfico mostra a altura do objeto ao longo do ano para o local do observatório; o segundo, o caminho da Anel Sul pelo céu nesta noite, seguido da altura hora a hora.

Altura de Nebulosa do Anel Sul ao longo do anoAltura à meia-noite astronômica e altura máxima da noite, a cada 5 dias. Melhor época: de dezembro a maio. O objeto chega a 72° à meia-noite em fevereiro.0°30°60°90°JANFEVMARABRMAIJUNJULAGOSETOUTNOVDEZ15 fev · 72°hoje
Altura ao longo do ano, a cada 5 dias: linha contínua = altura no meio da noite astronômica (Sol abaixo de −18°); tracejada = maior altura durante a noite escura; faixa verde = melhor época; linhas pontilhadas em 30° e 45°. A linha vertical marca hoje. Melhor época para este local: de dezembro a maio (objeto acima de 30° no meio da noite). Ponto mais alto: 72° em 15 de fevereiro.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

2026-10-13 · 19:20 – 04:10

Esta noite no céu

Melhores alvos da noite
Melhor horário
04:00 · 32° SE
Horas acima de 45°
0,0 h
Lua
Lua crescente · 12 %
Nota da noite
25 / 100
Posição no céu
23
Brilho
51 mag 9,2
Enquadramento
4 ocupa 1 % do campo

Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).

Trajetória de NGC 3132 — Nebulosa do Anel Sul pelo céu nesta noiteCéu visto de baixo, zênite no centro e horizonte na borda. O objeto fica acima do horizonte entre 01:10 e 04:50 durante a noite; o ponto mais alto é às 04:00, com 32°. A tabela ao lado traz os mesmos valores.15°30°45°60°75°NNELSESSOONO02:0003:0004:00
Caminho do objeto pelo céu nesta noite, do fim do crepúsculo civil ao amanhecer. Centro = zênite, borda = horizonte; visto olhando para cima (leste à esquerda, oeste à direita). Marcadores a cada 30 minutos.
  • Crepúsculo civil (Sol até −12°)
  • Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
  • Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
  • Altura abaixo de 20°
  • Altura abaixo de 30°
  • Altura abaixo de 45°
  • Hora cheia e meia hora
  • Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
Altura e direção do objeto a cada 30 minutos
Hora Altura Direção Da Lua
19:30 -25° — 69°
20:00 -26° — 69°
20:30 -27° — 70°
21:00 -26° — 70°
21:30 -25° — 70°
22:00 -23° — 70°
22:30 -21° — 70°
23:00 -18° — 70°
23:30 -14° — 71°
00:00 -10° — 71°
00:30 -6° — 71°
01:00 -1° — 71°
01:30 4° SE 133° 71°
02:00 9° SE 130° 71°
02:30 15° SE 128° 72°
03:00 20° SE 127° 72°
03:30 26° SE 125° 72°
04:00 32° SE 125° 72°
Altura de NGC 3132 — Nebulosa do Anel Sul ao longo da noiteAltura em graus a cada 30 minutos. O ponto mais alto é às 04:00, com 32°. A tabela abaixo traz os mesmos valores.0°30°60°90°202122230001020304abaixo do horizonte04:00 · 32°
Altura em graus ao longo da noite escura (linhas em 30° e 45°). A Lua aparece tracejada.

Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

O que ver

Instrumento O que esperar
A olho nu Fora do alcance.
Binóculo (7×50 a 15×70) Em baixo aumento, uma estrela um pouco "gorda" (a estrela central de magnitude 10, mais a névoa). Não espere a forma.
Telescópio de 100 a 150 mm Mobberley indica 15 cm ou mais em aumento alto, com filtro OIII ou UHC. Coe vê, em 13″ a 150 aumentos, uma forma de 1,5 × 1 com PA 15°. Sem filtro, cor aqua.
Telescópio de 200 mm Uma elipse fantasmagórica com uma estrela central que é a "errada" (Mobberley). A mais de 250 aumentos surge a concha interna difusa em torno da estrela (Bakich). Coe, em 12″ com 30 mm, vê a forma de anel.
Telescópio de 300 mm ou mais Mais detalhe na borda, a região mais brilhante do gás, e o contraste entre o interior e o anel. Com OIII revela-se um pouco mais e a estrela do meio some (Coe).

Expectativa honesta: ao ocular se vê menos do que nas imagens do Hubble, como diz Mobberley: uma elipse fantasmagórica e uma estrela central. Em Bortle 7, a Anel Sul é boa porque tem brilho superficial razoável e está alta; um filtro OIII ou UHC ajuda. Monks a inclui entre as planetárias que respondem ao filtro.

Astrofotografia: estratégia de captura

Enquadramento

Com cerca de 45″ (de 30″ a 85″, conforme a fonte), a Anel Sul é pequena. Com um telescópio de 1.000 mm e um sensor de 19 × 13 mm, o campo é de cerca de 1,1° × 0,75° e a nebulosa ocupa cerca de 1% a 2% do quadro (cálculo a partir do sensor e da focal). Uma focal de 1.500 a 2.500 mm dá um bom recorte. Mobberley sugere fotografar em LRGB, com H-alfa como luminância e OIII no canal verde.

Desafios do alvo

  • Tamanho e seeing. É pequena; o detalhe dos anéis depende de céu estável.
  • Estrela brilhante no centro. A estrela de magnitude 10 tende a dominar; controle o histograma e a estrela no processamento.
  • Cor e camadas. O azul-esverdeado (OIII) do interior e o vermelho (H-alfa) do halo pedem tratamentos distintos.
  • Altura. Com cerca de 73° no meridiano, a refração e a extinção são baixas.

Equipamento e filtros

Câmera colorida com filtro dual-band, ou monocromática com H-alfa e OIII. Mobberley recomenda LRGB com H-alfa como luminância e OIII como verde.

Exemplo de sessão (ponto de partida)

Tipo de quadro Quantidade Exposição Finalidade
Light (dual-band ou RGB) 100 a 200 60 a 120 s Nebulosa e halo; muitos quadros para rejeitar os borrados
Dark 30 igual aos Lights Calibração do ruído térmico
Flat 30 automática Correção de vinheta e poeira
Bias ou dark-flat 50 mais curta possível Calibração do ruído de leitura

Esses números são um ponto de partida e não vêm dos livros.

Smart telescopes e campo de visão

Num smart telescope como o Seestar S50 (campo de cerca de 1,3° × 0,7°, escala de cerca de 2,4″ por pixel), a Anel Sul ocupa da ordem de 20 pixels: aparecem a forma oval e a cor, mas não os anéis. É um alvo de "identificar". Escolha o seu modelo no mapa abaixo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.

0°

Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.

Considerações finais

A Anel Sul é uma planetária que ensina a duvidar do que se vê: a estrela mais brilhante do centro não é a responsável pelo brilho, e o "anel" que parece simples é, no Hubble, uma pilha de camadas. Do Rio de Janeiro ela está alta e é acessível a telescópios de 150 mm, o que a torna um bom passo depois da Nebulosa do Anel (M57) e da Hélice (NGC 7293). Combine-a com o globular NGC 3201, que fica perto, e com o restante de Vela.

Referências

  • BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 134 (NGC 3132).
  • COE, Steven R. Nebulae and How to Observe Them. London: Springer, 2007. Vela, NGC 2736 e NGC 3132, p. 82-85.
  • MOBBERLEY, Martin. The Caldwell Objects and How to Observe Them. New York: Springer, 2009. Caldwell 74, p. 156-157.
  • MONKS, Neale. Go-To Telescopes Under Suburban Skies. London: Springer, 2010. Planetárias e filtro OIII, NGC 3132, p. 37-38 (conferir).
  • MOORE, Patrick; REES, Robin. Patrick Moore's Data Book of Astronomy. Cambridge: Cambridge University Press, 2011. Nebulosas planetárias.
  • MOURÃO, Ronaldo Rogério de Freitas. Dicionário enciclopédico de astronomia e astronáutica. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987. Verbete "planetária, nebulosa" (p. 561).
  • SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, paralaxe e dimensões de NGC 3132, em 21 set. 2026.
  • HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.