setembro 20, 2026
NGC 3372 (Caldwell 92), a Nebulosa de Carina: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.
Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. UK Schmidt Telescope (UKST) / AAO–ROE. Créditos
Os observadores do hemisfério norte quase nunca veem o melhor objeto de nebulosa do céu; quem olha para o sul, do Rio, vê com folga. A Nebulosa de Carina, NGC 3372 no catálogo NGC e Caldwell 92 na lista de Patrick Moore, ocupa cerca de 2° do céu, quatro vezes o diâmetro da Lua cheia, e é visível a olho nu como o pedaço mais brilhante da Via Láctea austral. No meio dela, uma estrela gigantesca chamada Eta Carinae quase explodiu no século XIX e ainda pode explodir. Steven Coe, autor de um livro só sobre nebulosas, chama a Carina de um dos melhores objetos de céu profundo que se pode observar da Terra e conta que foi uma das razões de ter viajado duas vezes à Austrália. Este guia reúne os números, o mapa, a altura no Rio, o que dá para ver com cada instrumento e a estratégia de captura.
Texto em revisão. Este é um dos guias de teste do novo formato de guia de objeto. As fontes estão listadas no final.

Ficha técnica e designações
Visão geral: o que é uma nebulosa de emissão gigante
Uma nebulosa de emissão é uma nuvem de hidrogênio que brilha porque estrelas jovens e muito quentes por dentro dela emitem luz ultravioleta, que faz o gás emitir luz própria. Nas fotografias, o hidrogênio dá o vermelho e o oxigênio dá o azul-esverdeado. Estrelas nascem dentro dessas nuvens, e por isso elas são berçários estelares. A Nebulosa de Carina está entre os maiores berçários da nossa Galáxia; entre as nebulosas, só ela e a de Órion (M 42) são mais brilhantes que a Nebulosa Ômega (M 17), segundo Coe.
A Carina em números. A luz integrada da nebulosa vai da 3ª à 5ª magnitude conforme o autor: Mobberley dá cerca de 4,8, e o Bakich e o catálogo do site trazem 3,0. A diferença vem de quanto da nebulosa cada um mede, e o brilho é maior perto do centro. O tamanho aparente é de quase 2° em altura e largura (Mobberley). A distância é de cerca de 8.600 anos-luz, pela paralaxe do SIMBAD (livros mais antigos trazem de 7.500 a 10.000). Com esse valor, o tamanho real é de cerca de 300 anos-luz, e a idade das estrelas centrais é de menos de 3 milhões de anos (Mobberley).
Eta Carinae, a estrela. No coração do complexo está uma das estrelas mais massivas conhecidas, com mais de 100 massas do Sol (Mobberley; Kambič), 120 na conta de Mourão. Mobberley estima que a Via Láctea tenha apenas 30 ou 40 estrelas tão grandes entre seus 200 bilhões. É uma variável imprevisível, entre a 4ª e a 7ª magnitude nos últimos anos, e em abril de 1843 chegou à magnitude −0,8, a segunda estrela mais brilhante do céu, atrás só de Sirius, apesar de estar quase mil vezes mais longe (Mobberley; Mourão). Esse tipo de erupção costuma acompanhar a morte de uma estrela em supernova, mas Eta Carinae sobreviveu. Os astrônomos profissionais acham que ela explodirá "em breve" em termos cósmicos: talvez em um milhão de anos, talvez amanhã (Mobberley). Kambič lembra que estrelas assim vivem apenas cerca de um milhão de anos.
O Homúnculo. A erupção de 1843 lançou dois lóbulos de gás que o Hubble fotografou em detalhe: a Nebulosa do Homúnculo, com cerca de 20″ de largura, que cresceu para cerca de 9 meses-luz em 165 anos (Mobberley). Quando se olha para Eta Carinae ao telescópio, o que se vê é a luz filtrada por essa nuvem, e a estrela em si não é resolvida.
Estruturas notáveis
- A "bumerangue". A parte mais brilhante da nebulosa, em forma de triângulo ou de bumerangue, que contém a própria Eta Carinae. Coe contou 28 estrelas nela num refrator de 5″ e 75 numa câmera de vídeo sensível em um SCT de 14″.
- O Buraco da Fechadura. Uma nuvem escura em silhueta contra a nebulosa brilhante, a oeste e ao norte da estrela. Mede cerca de 15′ de comprimento, com os 5′ do sul os mais escuros, e é visível até num telescópio de 5″ (Coe). Perto do centro da nebulosa, o Bakich também cita esse detalhe.
- A fenda que divide a nebulosa. Um entalhe escuro em 1/3 e 2/3, visível até em binóculo 8×42 (Coe); o Bakich a descreve como uma fenda escura em V a menos de 50 aumentos.
- O Homúnculo e o "ovo frito". Em torno da estrela, com boa estabilidade do ar, o Bakich cita uma região amarelada, o "ovo frito", com raios finos de nebulosidade. Coe viu o Homúnculo cerca de três vezes maior que o disco de turbulência, de cor amarelo-alaranjada e, em 12 mm, dois lóbulos e linhas escuras como paralelos num globo.
- Trumpler 16 e Bochum 10. Aglomerados de estrelas dentro do complexo: Trumpler 16, com 24 estrelas num telescópio de 12″ na ponta da bumerangue, e Bochum 10, compacto, a oeste (Coe).
- A nebulosa escura rendada. Em torno da Carina há uma trama de poeira escura visível em binóculo, que sobe e contorna os aglomerados NGC 3532 e NGC 3114 dos dois lados (Coe).
- Os vizinhos. A Carina está cercada por IC 2602 (as Plêiades do Sul), NGC 3114 e NGC 3532, todos excelentes aglomerados. O Caldwell 91 (o Alfinete, NGC 3532) fica a cerca de 2° a nordeste da Carina (Mobberley). O NGC 3324, a cerca de 1,5° a noroeste (calculado das coordenadas), é uma nebulosa que os catálogos por vezes rotulam como aglomerado, e com um filtro UHC se destaca (Coe).
Como localizar
A Carina é o ponto mais fácil da região: a olho nu, no meio da Via Láctea austral, entre a Cruz do Sul e a Vela, uma mancha claramente brilhante. Mobberley sugere duas rotas: sair do Alfinete e andar 2,5° a oés-sudoeste, ou partir da estrela PP Carinae e ir 1¾° ao norte e 1½° a leste. A partir da Falsa Cruz e de Canopus, a segunda estrela mais brilhante do céu, o campo também fica óbvio. Para observação com binóculo, comece com o campo largo, sem ampliação, e depois aproxime.

Quando e como observar
Com declinação de cerca de −60°, a Carina culmina a cerca de 53° de altura no Rio de Janeiro, e a altura é confortável, bem acima do ar carregado do horizonte. Mobberley a classifica como circumpolar abaixo de 31°S; em −23° ela não é, e na passagem inferior a nebulosa fica alguns graus abaixo do horizonte por um tempo curto. A melhor época, segundo Mobberley, é de fevereiro a maio, com a culminação à meia-noite por volta do início de março; em abril e maio ela já passa a maior altura no começo da noite.
Olhando para o sul, o norte fica para baixo e o leste, à esquerda; a orientação em um telescópio depende do instrumento. Como a Carina é grande e está sobre um fundo rico de estrelas, o campo é fácil de reconhecer mesmo com a poluição luminosa; um binóculo já mostra muito.
O primeiro gráfico mostra a altura do objeto ao longo do ano para o local do observatório; o segundo, o caminho da Carina pelo céu nesta noite (zênite no centro, cores pela altura e linha pontilhada, tracejada ou contínua conforme o crepúsculo), seguido da altura hora a hora.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
2026-10-12 · 19:20 – 04:10
Esta noite no céu
Este objeto não passa de 30° de altura nesta noite (máximo: 26°). Não é um bom alvo hoje.
- Melhor horário
- 04:00 · 26° SSE
- Horas acima de 45°
- 0,0 h
- Lua
- Lua crescente · 6 %
- Nota da noite
- 0 / 100
- Posição no céu
- 0
- Brilho
- 100 mag 3,0
- Enquadramento
- 13 ocupa 267 % do campo
Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).
- Crepúsculo civil (Sol até −12°)
- Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
- Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
- Altura abaixo de 20°
- Altura abaixo de 30°
- Altura abaixo de 45°
- Hora cheia e meia hora
- Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
| Hora | Altura | Direção | Da Lua |
|---|---|---|---|
| 19:30 | -5° | — | 57° |
| 20:00 | -6° | — | 57° |
| 20:30 | -7° | — | 57° |
| 21:00 | -7° | — | 57° |
| 21:30 | -7° | — | 57° |
| 22:00 | -7° | — | 57° |
| 22:30 | -6° | — | 57° |
| 23:00 | -4° | — | 57° |
| 23:30 | -3° | — | 58° |
| 00:00 | 0° | — | 58° |
| 00:30 | 2° | SSE 158° | 58° |
| 01:00 | 5° | SSE 155° | 58° |
| 01:30 | 8° | SSE 153° | 58° |
| 02:00 | 11° | SSE 151° | 58° |
| 02:30 | 15° | SSE 150° | 58° |
| 03:00 | 18° | SSE 148° | 58° |
| 03:30 | 22° | SSE 148° | 58° |
| 04:00 | 26° | SSE 147° | 58° |
Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
O que ver
| Instrumento | O que esperar |
|---|---|
| A olho nu | Em céu escuro, fácil: o ponto mais brilhante da Via Láctea austral, com a fenda escura dividindo a nebulosa (Bakich; Coe). Em Bortle 7, contra o brilho do céu, deve ser bem mais discreta (estimativa). |
| Binóculo (7×50 a 15×70) | Em 8×42, Coe viu a nebulosa com cerca de 16 estrelas, a estrela Eta Carinae alaranjada, a fenda escura e a trama de nebulosa escura rendada em volta; o brilho e os detalhes superam os da Nebulosa de Órion. |
| Telescópio de 100 a 150 mm | Em 5″ com 30 mm, sem filtro: nebulosa cobrindo todo o campo, cerca de 100 estrelas e a bumerangue com 28. Com UHC e 40 mm, a nebulosa fica bem enquadrada, com laços de luz e sombra (Coe). Bakich: abaixo de 50 aumentos, a fenda em V. |
| Telescópio de 250 a 350 mm | Em 12″ (Coe): Homúnculo amarelo-alaranjado com dois lóbulos, linhas escuras, Trumpler 16 na ponta da bumerangue. Duplicando a ampliação, a borda fica recortada e aparecem raios finos (Bakich). O Mobberley recomenda o UHC para nebulosa e estrelas. |
Expectativa honesta: o Rio tem céu Bortle 7, e a Carina tem tamanho e brilho que compensam parte da perda, mas as regiões externas e a trama escura pedem céu mais escuro e um binóculo; o filtro UHC ajuda. As cores das fotos (vermelho e azul) não aparecem no olho. Mesmo assim, é um dos alvos do céu do sul que mais valem a pena mesmo na cidade, por causa da altura, do tamanho e do brilho.
Astrofotografia: estratégia de captura
Enquadramento
Com quase 2° de diâmetro, a Carina exige campo largo. Mobberley sugere uma lente de cerca de 500 mm com um filtro H-alfa. Com uma câmera de 19,1 × 13,0 mm, como a ASI294MC Pro, esse campo é de cerca de 2,2° × 1,5°: o complexo cabe inteiro e ainda sobra espaço para o Buraco da Fechadura e para parte da Via Láctea. Para detalhes do centro, com Homúnculo e Trumpler 16, uma focal de 1.000 mm dá um campo de cerca de 1,1° × 0,75°, que já corta a nebulosa e pede mosaico.
Desafios do alvo
- Faixa dinâmica. O centro é muito brilhante e as bordas são fracas; sem HDR, o núcleo estoura. Faça exposições curtas e longas, e combine-as.
- Campo estelar muito denso. A nebulosa está na Via Láctea austral. A redução de estrelas (em pós-processamento) ajuda a mostrar a nebulosidade.
- Cores. O H-alfa vermelho e o OIII azul-esverdeado precisam de balanço cuidadoso; um filtro dual-band ajuda em céu Bortle 7, como o do Rio.
Equipamento e filtros
Câmera colorida com filtro dual-band (H-alfa e OIII), ou câmera mono com H-alfa, OIII e S-II. O Mobberley recomenda uma lente de 500 mm com H-alfa. Como o objeto é brilhante e fica alto no Rio, exposições relativamente curtas já rendem bem.
Exemplo de sessão (ponto de partida)
| Tipo de quadro | Quantidade | Exposição | Finalidade |
|---|---|---|---|
| Light (dual-band ou RGB) | 60 a 100 | 60 a 120 s | Corpo da nebulosa; um conjunto de 20 a 30 quadros de 10 a 20 s para o centro |
| Dark | 30 | igual aos Lights | Calibração do ruído térmico |
| Flat | 30 | automática | Correção de vinheta e poeira |
| Bias ou dark-flat | 50 | mais curta possível | Calibração do ruído de leitura |
Esses números são um ponto de partida, e não vêm dos livros. Como referência, a imagem em mosaico de Geoff Wingham no Mobberley usou quatro painéis de 6 × 300 s com um SCT de 9,25″ a f/5,2 e câmera colorida.
Smart telescopes e campo de visão
Um smart telescope como o Seestar S50 tem um campo de cerca de 1,3° × 0,7°, menor que os 2° da nebulosa, então o quadro mostra só uma parte: o melhor é apontar para o centro, com Eta Carinae e o Buraco da Fechadura, e fazer um mosaico se o aparelho permitir. Escolha o seu modelo no mapa abaixo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.
Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.
Considerações finais
A Nebulosa de Carina é o tipo de objeto que faz um observador do sul entender por que o céu do hemisfério sul é especial: tamanho, brilho, uma estrela extrema no meio e detalhes visíveis em qualquer instrumento. Para quem começa, um binóculo e uma noite de março a maio bastam. Para quem quer ir além, a Carina pede um campo largo, filtro e paciência na fotografia. O próximo passo é a viagem para o norte da Cruz: a Caixa de Joias (NGC 4755), o aglomerado de Lambda Centauri (IC 2944) e, no outro extremo do céu austral, a Nebulosa da Tarântula.
Referências
- BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 164 (NGC 3372).
- COE, Steven R. Nebulae and How to Observe Them. London: Springer, 2007. NGC 3372 e NGC 3324, p. 86-89.
- KAMBIČ, Bojan. Viewing the Constellations with Binoculars: 250+ Wonderful Sky Objects to See and Explore. New York: Springer, 2010. Eta Carinae (legenda da fig. 3.26), p. 94.
- MOBBERLEY, Martin. The Caldwell Objects and How to Observe Them. New York: Springer, 2009. Caldwell 92, p. 192-193.
- MOURÃO, Ronaldo Rogério de Freitas. Dicionário enciclopédico de astronomia e astronáutica. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987. Verbete "Eta Carinae" (p. 288-289).
- SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas e paralaxe de NGC 3372, em 21 set. 2026.
- HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.