setembro 21, 2026

M 67, o aglomerado antigo de Câncer: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2) de M67 — objeto ainda não capturado no observatório

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.

Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Créditos

Ao lado do Presépio, o aglomerado mais famoso de Câncer, há um vizinho discreto que passa despercebido por quase todo mundo: M 67. Ele não tem o apelo do Presépio a olho nu nem a cor das Plêiades, mas guarda um título raro. Ele é um dos aglomerados abertos mais antigos que se conhece, com mais de 3 bilhões de anos, quando a maioria dos seus parentes se desfaz em algumas centenas de milhões. Por isso as estrelas de M 67 têm um tom amarelado, muito diferente do azul-branco dos aglomerados jovens. Este guia mostra como achá-lo, o que esperar em cada instrumento, quando ele está bem alto, e como fotografá-lo mesmo de uma cidade.

Texto em revisão. Este é um guia no novo formato, que reúne dados, mapas, gráficos de altura e estratégia de captura. As fontes estão listadas no final; onde os livros divergem do SIMBAD, o texto usa o SIMBAD e a divergência é registrada nas pendências.

Imagem de referência (DSS2) de M67 — objeto ainda não capturado no observatório
Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Imagem de referência: este objeto ainda não foi fotografado no Observatório. Créditos

Ficha técnica e designações

Visão geral: um aglomerado que sobreviveu

Um aglomerado aberto é um grupo de estrelas nascidas da mesma nuvem de gás, ainda frouxamente ligadas pela gravidade. A ligação é fraca. Encontros com outras estrelas, com nuvens de gás e com o próprio disco da Galáxia vão arrancando membros aos poucos, e a maioria dos aglomerados abertos se dispersa em poucas centenas de milhões de anos (Kier, p. 74). Por isso os aglomerados que vemos costumam ser jovens e dominados por estrelas quentes, azuis e brancas, que queimam rápido e morrem cedo.

M 67 é a exceção. Os livros dão idades de mais de 3 bilhões (Kier) e de mais de 4 bilhões de anos (Kambič; Moore e Rees), uma boa fração da idade do Sol. A explicação mais citada é a posição: o aglomerado está bem acima do plano da Galáxia, a quase 1.500 anos-luz dele (Kambič, p. 215), onde há menos estrelas e nuvens para perturbá-lo (Moore e Rees, p. 339 e 346; Kier). Kier faz a ressalva de que o motivo da sobrevivência não está totalmente esclarecido.

Cor e idade. Uma foto de M 67 mostra sobretudo estrelas brancas e amarelas, ao contrário dos jovens azulados (Kier). É um bom exemplo do que a cor diz sobre a idade de um grupo de estrelas: as azuis, mais massivas, já se apagaram, e restaram as de vida longa.

Distância e tamanho. A paralaxe listada no SIMBAD (cerca de 1,13 milissegundo de arco) corresponde a uns 2.900 anos-luz, e é esse o valor adotado aqui. Os livros trazem 2.700 anos-luz (Kier; Moore e Rees) e o Allison dá 2.960. Com o tamanho aparente do SIMBAD, cerca de 25′, o aglomerado tem algumas dezenas de anos-luz de extensão. Kambič nota que algumas estrelas se afastam do centro até uns 22 anos-luz.

Quantas estrelas? Cada autor conta de um jeito. Kier fala em cerca de 500 estrelas; Allison, em 200 a 500; Kambič, em mais de 3.000 na região toda, das quais só 50 são de magnitude 11 ou mais brilhantes. Não há contradição: a resposta depende de onde se traça a borda e de até que brilho se conta.

Vizinho do Presépio. M 44 e M 67 ficam a uns 8° de distância no céu, mas são objetos muito diferentes. M 44 é jovem e próximo; M 67, velho e distante. Veja o guia do Presépio e o da constelação de Câncer.

Estruturas notáveis

  • Um núcleo cheio de estrelinhas. A impressão geral de Allison é de um aglomerado "lotado" de estrelas pequenas, que vão aparecendo em maior número quanto mais se olha. Com um 8″ a 133 aumentos ele contou cerca de 45 e achou que o conjunto lembra um número 2 desalinhado (Allison, p. 148).
  • Estrelas de primeiro plano no norte. Kier chama a atenção para duas estrelas de magnitude 7,8 na parte norte do aglomerado, que causam "blooming" nas fotografias.
  • Uma dúzia de estrelas acima de magnitude 11. Segundo Bakich, só isso aparece com facilidade; 100 mm resolvem cerca de 24 estrelas e 150 mm chegam a uns 50.
  • Tom amarelado. É o traço que distingue M 67 dos aglomerados jovens e o que se procura ao processar uma imagem.

Como localizar

M 67 fica a cerca de 1,7 a 1,8° a oeste de Alfa Cancri (Acubens), a estrela mais brilhante da região (magnitude 4,3), de modo que estrela e aglomerado cabem no mesmo campo de um binóculo (Kambič, p. 215; Bakich). Um caminho fácil: comece no Presépio, no meio do "Y" invertido de Câncer, e siga para o sul e o leste até Acubens, depois recue 2° para oeste. O Allison descreve o pulo como 2° ao sul de Alfa Cancri; as coordenadas do SIMBAD mostram que o certo é mesmo a oeste.

Do Brasil, olhe para o norte. Com a cabeça voltada para o norte, o leste fica à direita e o oeste à esquerda. O aglomerado passa a cerca de 55° de altura no meridiano.

Carta de localização de M67: as estrelas-guia nomeadas, setas tracejadas com a distância em graus até o alvo, escala em graus e indicação de norte e leste.
Carta de localização (star-hopping), no mesmo estilo das cartas de constelação: norte e leste indicados no canto. Anéis laranja: estrelas-guia; setas tracejadas: o caminho até o alvo, com a distância em graus; anel verde: o alvo (e, com a designação, outros objetos do campo); a barra mostra a escala. As linhas são as oficiais das constelações (d3-celestial), os limites são os da IAU e as estrelas vêm do catálogo HYG.

Quando e como observar

M 67 tem declinação de cerca de +12°, no norte celeste. Do Rio, ele culmina a uns 55° de altura, num ponto agradável, que dispensa a luta com o horizonte. A melhor época vai de janeiro a maio: ele cruza o meridiano por volta das 22 h em meados de março e mais cedo a cada semana que passa. Kambič lista a região de Câncer como culminando às 2 h em janeiro, à meia-noite em fevereiro e às 22 h em março. Use o gráfico anual para escolher a época e o da noite de hoje para escolher a hora.

Como é um alvo brilhante e compacto, M 67 tolera bem a poluição luminosa. Ele é um dos aglomerados que mais se beneficiam de uma sessão sob céu de cidade: as estrelas são pontuais e não dependem de um fundo escuro para aparecer. Kier lembra que os aglomerados são bons alvos sob céu poluído, porque o gradiente é fácil de subtrair.

Altura de M67 ao longo do anoAltura à meia-noite astronômica e altura máxima da noite, a cada 5 dias. Melhor época: de dezembro a março. O objeto chega a 55° à meia-noite em janeiro.0°30°60°90°JANFEVMARABRMAIJUNJULAGOSETOUTNOVDEZ31 jan · 55°hoje
Altura ao longo do ano, a cada 5 dias: linha contínua = altura no meio da noite astronômica (Sol abaixo de −18°); tracejada = maior altura durante a noite escura; faixa verde = melhor época; linhas pontilhadas em 30° e 45°. A linha vertical marca hoje. Melhor época para este local: de dezembro a março (objeto acima de 30° no meio da noite). Ponto mais alto: 55° em 31 de janeiro.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

2026-10-12 · 19:20 – 04:10

Esta noite no céu

Melhores alvos da noite
Melhor horário
04:00 · 30° ENE
Horas acima de 45°
0,0 h
Lua
Lua crescente · 6 %
Nota da noite
51 / 100
Posição no céu
24
Brilho
86 mag 6,9
Enquadramento
100 ocupa 73 % do campo

Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).

Trajetória de M67 pelo céu nesta noiteCéu visto de baixo, zênite no centro e horizonte na borda. O objeto fica acima do horizonte entre 01:40 e 04:50 durante a noite; o ponto mais alto é às 04:00, com 30°. A tabela ao lado traz os mesmos valores.15°30°45°60°75°NNELSESSOONO02:0003:0004:00
Caminho do objeto pelo céu nesta noite, do fim do crepúsculo civil ao amanhecer. Centro = zênite, borda = horizonte; visto olhando para cima (leste à esquerda, oeste à direita). Marcadores a cada 30 minutos.
  • Crepúsculo civil (Sol até −12°)
  • Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
  • Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
  • Altura abaixo de 20°
  • Altura abaixo de 30°
  • Altura abaixo de 45°
  • Hora cheia e meia hora
  • Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
Altura e direção do objeto a cada 30 minutos
Hora Altura Direção Da Lua
19:30 -79° — 94°
20:00 -75° — 94°
20:30 -70° — 94°
21:00 -64° — 94°
21:30 -57° — 95°
22:00 -50° — 95°
22:30 -43° — 95°
23:00 -36° — 95°
23:30 -29° — 96°
00:00 -23° — 96°
00:30 -16° — 96°
01:00 -9° — 96°
01:30 -2° — 97°
02:00 5° ENE 75° 97°
02:30 11° ENE 72° 97°
03:00 18° ENE 68° 97°
03:30 24° ENE 64° 98°
04:00 30° ENE 60° 98°
Altura de M67 ao longo da noiteAltura em graus a cada 30 minutos. O ponto mais alto é às 04:00, com 30°. A tabela abaixo traz os mesmos valores.0°30°60°90°202122230001020304abaixo do horizonte04:00 · 30°
Altura em graus ao longo da noite escura (linhas em 30° e 45°). A Lua aparece tracejada.

Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

O que ver

Instrumento O que esperar
A olho nu Não é um alvo a olho nu no Rio. Bakich lista a magnitude 6,9 e nota que ele é fácil em binóculo.
Binóculo (10×50) Uma pequena mancha de luz de uns 15′, com uma estrela ou outra se destacando. Com visão desviada e noite muito boa, dá para separar umas 10 estrelas do brilho de fundo (Kambič, p. 215).
Telescópio de 100 mm Cerca de 24 estrelas em dois terços do diâmetro da Lua cheia (Bakich).
Telescópio de 150 a 200 mm Cerca de 50 estrelas com 150 mm (Bakich); com 8″ a 133 aumentos, cerca de 45 (Allison). Em telescópios maiores o aglomerado "explode" em estrelas fracas (Kambič o considera esplêndido em telescópios amadores maiores).
Filtros Não ajudam: é um aglomerado de estrelas, sem gás.

Uma expectativa realista: M 67 é bonito, mas modesto. Ele não impressiona como o Presépio ou as Plêiades. O prazer está em ver uma nuvem de pontos fracos e, ao lado, saber que essas estrelas estão entre as mais velhas que o hobby alcança.

Astrofotografia: estratégia de captura

Enquadramento

Com cerca de 25′ (SIMBAD; Kier dá 30′), M 67 cabe com folga num campo de 1°. Kier recomenda enquadrar de modo que a concentração de estrelas se destaque do fundo estelar; o campo dele é "quase o mínimo" para que M 67 se defina como aglomerado. Com um telescópio de 1.000 mm e uma câmera ASI294MC Pro (campo calculado de 1,1° × 0,75°), o aglomerado ocupa uma boa parte do quadro; com 600 mm, o campo passa de 1,8° e mostra também o entorno rico em estrelas de fundo. Para incluir o Presépio (a uns 8° de M 67) seria preciso um campo muito grande, então são duas fotos.

Desafios do alvo

  • Blooming das estrelas do norte. Duas estrelas de magnitude 7,8 estouram fácil (Kier); use exposições curtas o bastante e trate as estrelas brilhantes cedo.
  • Contraste sutil com o fundo. O aglomerado precisa se separar do campo de estrelas da Via Láctea. Um enquadramento apertado ajuda.
  • Cor. A idade do aglomerado está na cor amarelada; preserve-a no balanço de cores em vez de "esfriá-la".
  • Halos das estrelas. Kier recomenda alinhar bem os canais RGB para evitar halos assimétricos e suavizar halos com um desfoque gaussiano menor que 1 pixel.

Equipamento e filtros

Kier trata os aglomerados abertos com RGB comum ou câmera colorida, e diz que a camada de luminância clara costuma atrapalhar, não ajudar. Em refratores com correção cromática imperfeita, é bom refocar a cada filtro. Perto do horizonte, a refração atmosférica borra câmeras coloridas; M 67 passa a 55° de altura no Rio, um ângulo confortável, mas prefira as horas próximas ao meridiano. Filtros de banda estreita não têm serventia aqui; um filtro anti-poluição de banda larga só é útil se o céu estiver com muito brilho de fundo.

Exemplo de sessão (ponto de partida)

Tipo de quadro Quantidade Exposição Finalidade
Light 60 a 90 30 a 60 s Estrelas sem estouro das duas brilhantes do norte
Dark 30 igual aos Lights Calibração do ruído térmico
Flat 30 automática Correção de vinheta e poeira
Bias ou dark-flat 50 mais curta possível Calibração do ruído de leitura

Esses números são um ponto de partida, e não vêm dos livros: ajuste-os ao seu sensor, ao seu telescópio e ao céu da noite.

Smart telescopes e campo de visão

Um smart telescope como o Seestar S50 (campo de cerca de 1,3° × 0,7°) enquadra M 67 inteiro e ainda mostra as estrelas ao redor. É um alvo que rende bem em poucos minutos de empilhamento e que suporta bem o céu urbano. Abra o mapa abaixo e escolha o seu modelo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.

0°

Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.

Considerações finais

M 67 é um aglomerado para quem gosta de ver a idade nas cores. Ele fica alto para nós, é fácil de achar a partir de Acubens e responde bem até ao céu da cidade. O próximo passo natural é compará-lo, na mesma noite, com o Presépio, jovem e brilhante, e depois com o aglomerado NGC 2477, na Popa, outro alvo de aglomerado aberto do verão austral. Para conhecer a constelação, leia o guia de Câncer.

Referências

  • ALLISON, Mark. Star Clusters and How to Observe Them. London: Springer, 2006. M 67, p. 148.
  • BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 98 (M 67).
  • KAMBIČ, Bojan. Viewing the Constellations with Binoculars: 250+ Wonderful Sky Objects to See and Explore. New York: Springer, 2010. Câncer e M 67, p. 215-216.
  • KIER, Ruben. The 100 Best Targets for Astrophotography. New York: Springer, 2009. "Ancient Open Cluster M67" (20 de março), p. 74-75.
  • MOORE, Patrick; REES, Robin. Patrick Moore's Data Book of Astronomy. Cambridge: Cambridge University Press, 2011. Aglomerados abertos, p. 339 e 346.
  • SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, paralaxe, tamanho e tabela de distâncias de NGC 2682 (M 67), em 21 set. 2026.
  • HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.