setembro 21, 2026
M 87, a galáxia elíptica gigante e radiogaláxia de Virgem: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.
Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Créditos
Poucos objetos do céu reúnem tanta história científica quanto M 87. Ao ocular, é uma bola redonda e discreta de luz, no meio do Aglomerado de Virgem. Mas essa bola é uma das galáxias mais maciças que conhecemos, com um jato de matéria que sai do núcleo, dezenas de milhares de aglomerados globulares e um buraco negro supermaciço no centro. Do Rio de Janeiro, ela passa a mais de 50° de altura no outono. Este guia mostra como achá-la, o que esperar ao telescópio e como fotografá-la.
Texto em revisão. Este guia segue o novo formato de guia de objeto. As fontes estão listadas no final.

Ficha técnica e designações
Visão geral: um gigante com um núcleo ativo
M 87 (NGC 4486) é uma galáxia elíptica gigante. Os livros a classificam como E0 ou E1 (Moore; Kambič). O SIMBAD a lista como galáxia de núcleo ativo, com magnitude visual de cerca de 8,6 e dimensões de 6,3′ × 5,7′ (Bakich dá 7,1′). Ela é conhecida por vários nomes: Virgo A, porque foi a primeira fonte de rádio descoberta em Virgem; 3C 274 no catálogo de rádio de Cambridge, que o SIMBAD também registra; e Arma Fumegante, apelido de Bakich que remete ao jato, comparado ao cano de uma arma recém-disparada.
Distância e tamanho. O SIMBAD não traz distância nem paralaxe. Os livros dão 50 milhões (Moore), 55 (Monks) e 60 milhões de anos-luz (Kambič), e o texto usa "de 50 a 60 milhões". O diâmetro visível é de cerca de 120.000 anos-luz (Moore, Monks, Kambič), pouco maior que o da Via Láctea, que Monks dá como cerca de 100.000. Bakich diz que o diâmetro pode chegar a meio milhão de anos-luz, e Monks fala de extensões tênues que se estendem por mais de 500.000 anos-luz. A diferença vem do que se conta como galáxia: o halo tênue e as extensões só aparecem em exposições muito profundas.
Massa. Moore estima pelo menos 300 bilhões de massas solares. Bakich diz mais de 3 trilhões. A diferença é grande e vem do método. O texto usa a faixa, sem escolher um valor.
Aglomerados globulares. Moore fala em pelo menos 800; Kambič, em mais de 10.000, segundo dados modernos; Monks, em cerca de 12.000, contra menos de 200 da Via Láctea. Bakich diz dezenas de milhares. Estimativas antigas eram muito menores.
O jato e o buraco negro. Kambič descreve dois traços que só as fotos de longa exposição revelam: os globulares e um jato estreito de elétrons rápidos, com cerca de 4.000 anos-luz de comprimento e 400 de largura, que também emite raios X. Moore e Monks citam mais de 5.000 anos-luz, e a Philip's, 8.000; a diferença vem de onde se mede o jato e de qual comprimento de onda. Moore observa que as estrelas perto do centro giram em velocidades enormes, o que indica um buraco negro gigantesco, e que M 87 é uma fonte de rádio poderosa. Monks e Moore (Data Book) acrescentam emissão em raios X e raios gama. Philip's explica que jatos assim ligam o centro a lóbulos de rádio e são alimentados por um buraco negro central.
Imagem do buraco negro. Uma imagem do horizonte do buraco negro central de M 87, obtida pelo Event Horizon Telescope e divulgada em 2019, é conhecimento geral, não vem dos livros consultados.
Lugar no aglomerado. Moore chama M 87 de a mais maciça do Aglomerado de Virgem; Monks explica que ela é o centro de um dos três subaglomerados, ao lado dos liderados por M 49 e M 86.
História. A descoberta é atribuída a Messier em 1781, conhecimento geral.
Estruturas notáveis
- O núcleo brilhante. Em telescópios de até 500 mm, M 87 parece redonda, com um núcleo brilhante que ocupa cerca de um terço do tamanho (Bakich).
- O jato. Exige 750 mm ou mais, sob céu excelente (Bakich). Em fotografias, aparece como um traço fino saindo do núcleo.
- Companheiras. NGC 4478 (mag. 11,4) e NGC 4476 (mag. 12,0), a oés-sudoeste, a cerca de 8,5′ e 12,5′ (Bakich).
- Halo de globulares e galáxias satélites. Só em imagens profundas.
Como localizar
M 87 fica na parte norte do Aglomerado de Virgem. Kambič sugere partir de Rô Virginis (ρ Vir) e das estrelas 27, 33 e 34 Virginis, e procurar um grupo de estrelas de magnitudes 8 e 9; logo abaixo da estrela de magnitude 8, uma mancha uniforme e maior é M 87. Pelas coordenadas do SIMBAD, M 87 fica a cerca de 3,5° a oés-noroeste de Rô. A partir de M 86, Machholz indica 0,6° ao sul e 1,1° a leste, para chegar a M 87; Kambič vê M 84 e M 86 cerca de um grau e meio a oeste. M 49 fica a 4,4° ao sul de M 87 (calculado).
Orientação vista do Rio. Você olha para o norte, a cerca de 36° do zênite. O norte celeste fica para baixo e o leste para a direita. As cartas do hemisfério norte aparecem giradas de 180°: M 84 e M 86 ficam à esquerda de M 87 (a oeste), M 49 fica acima (ao sul).

Quando e como observar
Com declinação de +12°, M 87 passa a cerca de 54° de altura no Rio (calculado). Com ascensão reta de 12h31, ela cruza o meridiano à meia-noite por volta do fim de março e às 21h em meados de maio, data que coincide com a entrada de Moore, de 14 de maio. A janela vai de março a junho, com pico entre abril e maio. Os gráficos abaixo mostram o ano e a noite de hoje.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
2026-10-13 · 19:20 – 04:10
Esta noite no céu
Este objeto não passa de 30° de altura nesta noite (máximo: -17°). Não é um bom alvo hoje.
- Melhor horário
- 04:00 · -17° E
- Horas acima de 45°
- 0,0 h
- Lua
- Lua crescente · 12 %
- Nota da noite
- 0 / 100
- Posição no céu
- 0
- Brilho
- 54 mag 9,0
- Enquadramento
- 63 ocupa 16 % do campo
Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).
- Hora cheia e meia hora
- Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
| Hora | Altura | Direção | Da Lua |
|---|---|---|---|
| 19:30 | -40° | — | 59° |
| 20:00 | -47° | — | 59° |
| 20:30 | -54° | — | 60° |
| 21:00 | -61° | — | 60° |
| 21:30 | -67° | — | 60° |
| 22:00 | -73° | — | 60° |
| 22:30 | -78° | — | 61° |
| 23:00 | -79° | — | 61° |
| 23:30 | -76° | — | 61° |
| 00:00 | -71° | — | 61° |
| 00:30 | -65° | — | 62° |
| 01:00 | -58° | — | 62° |
| 01:30 | -52° | — | 62° |
| 02:00 | -45° | — | 62° |
| 02:30 | -38° | — | 63° |
| 03:00 | -31° | — | 63° |
| 03:30 | -24° | — | 63° |
| 04:00 | -17° | — | 63° |
Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
O que ver
| Instrumento | O que esperar |
|---|---|
| A olho nu | Nada. |
| Binóculo (7×50 a 10×50) | Uma mancha clara e uniforme, "meio decepcionante", mas emocionante pela luz de 60 milhões de anos (Kambič). M 84 e M 86, com visão desviada, em condições excelentes. |
| Telescópio de 100 a 200 mm | Uma galáxia brilhante e quase circular, fácil de ver mesmo sob a maioria dos céus suburbanos (Monks; com SCT de 200 mm e ocular de 20 mm). Moore avisa que é difícil de identificar visualmente porque fica em uma região cheia de galáxias. |
| Telescópio de 300 a 500 mm | Bola redonda com núcleo brilhante de cerca de um terço do tamanho (Bakich). |
| Telescópio de 750 mm ou mais | O jato, em céu excelente (Bakich). |
| Filtros | Nenhum ajuda. |
Uma expectativa realista. Ao ocular, M 87 é uma bola de luz uniforme. O jato, o halo de globulares e o buraco negro estão fora do alcance do olho e do telescópio amador comum.
Astrofotografia: estratégia de captura
Enquadramento
M 87 mede uns 7′. Kier, no guia da Cadeia de Markarian (p. 122), centra M 86 e diz que um campo de 2° pode se estender para incluir M 87, a sudeste, e NGC 4459, a nordeste. Com uma ASI294MC Pro, um campo de 2° corresponde a cerca de 550 mm de focal (calculado); com 1.000 mm, o campo de 1,1° × 0,75° enquadra só M 87 e algumas vizinhas, e permite ver o jato num processamento cuidadoso.
Desafios do alvo
- Núcleo brilhante contra halo fraco. Combine exposições curtas e longas para não saturar o centro.
- Jato fraco. Exige muita exposição e céu bom; sob Bortle 7 o jato é difícil, com resolução angular limitada pelo seeing.
- Gradientes. O céu de fundo afoga o halo; corrija com cuidado.
- Estrelas de fundo. Kier avisa para alinhar bem as estrelas, para evitar estrelas ovais e halos de cor assimétricos.
Equipamento e filtros
Câmera colorida de tiro único ou LRGB. Filtros de banda estreita não têm papel em elípticas. Um filtro de poluição luminosa de banda larga pode ajudar no Rio.
Exemplo de sessão (ponto de partida)
| Tipo de quadro | Quantidade | Exposição | Finalidade |
|---|---|---|---|
| Light curto (núcleo) | 30 | 30 s | Preservar o núcleo |
| Light longo (halo) | 120 a 180 | 120 s | Halo e galáxias vizinhas |
| Dark | 30 | igual aos Lights | Ruído térmico |
| Flat | 30 | automática | Vinheta e poeira |
| Bias ou dark-flat | 50 | mais curta possível | Ruído de leitura |
Esses números são um ponto de partida, e não vêm dos livros: ajuste-os ao seu equipamento e ao céu.
Smart telescopes e campo de visão
Um Seestar S50 (campo de cerca de 1,3° × 0,7°) enquadra M 87 e deixa espaço para algumas galáxias vizinhas, mas M 84 e M 86, a cerca de 1° a 1,5°, exigem mosaico ou rotação (calculado). Abra o mapa abaixo, escolha o modelo e veja o retângulo do campo.
Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.
Considerações finais
M 87 é um daqueles objetos em que o que se vê é bem menos do que o que se sabe. Sob o céu do Rio, ela é uma bola tênue de luz, mas uma bola que abriga um buraco negro supermaciço, um jato e um dos maiores enxames de globulares conhecidos. Continue com M 49, o guia de Virgem e a Galáxia do Sombreiro.
Referências
- BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 267 (M 87).
- KAMBIČ, Bojan. Viewing the Constellations with Binoculars: 250+ Wonderful Sky Objects to See and Explore. New York: Springer, 2010. Virgem, M 87, p. 489-490.
- KIER, Ruben. The 100 Best Targets for Astrophotography. New York: Springer, 2009. "May 13: Markarian's Chain", p. 122.
- MACHHOLZ, Don. The Observing Guide to the Messier Marathon: A Handbook and Atlas. New York: Springer. Atlas de busca, M 87 (salto a partir de M 86); página a conferir.
- MONKS, Neale. Go-To Telescopes Under Suburban Skies. London: Springer, 2010. NGC 4486 (M 87), p. 79-80.
- MOORE, Patrick; REES, Robin. Patrick Moore's Data Book of Astronomy. Cambridge: Cambridge University Press, 2011. Radiogaláxias, p. 362.
- MOORE, Patrick (ed.). Philip's Astronomy Encyclopedia. London: Philip's, 2002. Verbetes sobre radiogaláxias e jatos (p. 210) e "Virgo".
- MOORE, Patrick. The Observer's Year: 366 Nights of the Universe. 2. ed. London: Springer, 2005. Noite de 14 de maio ("M87: a Giant Radio Galaxy"), p. 142.
- RIDPATH, Ian. Astronomia (Guia Ilustrado Zahar). 4. ed. Rio de Janeiro: Zahar. Verbete Virgem.
- SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, tipo, dimensões, brilho e designações de M 87, em 21 set. 2026.
- HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.