setembro 21, 2026
Câncer: guia da constelação mais fraca do zodíaco e do Presépio que a salva

Câncer é a constelação que quase ninguém sabe apontar no céu, mesmo entre quem conhece o próprio signo. É o Caranguejo do zodíaco: uma figura tão apagada que é quase só pretexto para um borrão de luz no meio dela. Esse borrão é o Presépio (M 44), um dos aglomerados de estrelas mais bonitos do céu, conhecido desde a Antiguidade e visível a olho nu. E foi olhando para ele que Galileu descobriu que aquela "nuvem" era, na verdade, um monte de estrelas. Neste guia você aprende a achar Câncer entre Gêmeos e Leão, conhece as estrelas do desenho, o Presépio e o vizinho muito mais velho, o M 67, e entende o que o zodíaco tem a ver (e não tem) com a astronomia.
Texto em revisão. Este é um artigo de teste, escrito a partir de fontes de referência; as fontes estão listadas no final.
A mais fraca do zodíaco
Câncer (Cancer, sigla Cnc) fica entre Gêmeos e Leão e é a mais fraca das doze constelações do zodíaco (Ridpath, p. 175; Philip's Astronomy Encyclopedia, verbete Cancer). Ocupa cerca de 506 graus quadrados, entre 6,8° e 33,3° de declinação norte (Mourão, verbete Cancer, p. 143). A mais brilhante, Beta Cancri (Tarf, ou Altarf), tem só magnitude 3,5 (Moore, The Observer's Year, p. 72), e as demais são mais fracas ainda.
O que salva a constelação é o Presépio: em noites limpas, sem Lua e longe das luzes da cidade, ele aparece como uma névoa pálida entre as estrelas (Mourão, p. 143). Moore diz que a constelação é "redimida" pelo Presépio e pelo M 67 (The Observer's Year, p. 72). Do Brasil, dá para ver a constelação de norte a sul do país, porque ela está no céu equatorial: segundo Ridpath, ela é visível de 90° de latitude norte até 57° sul (p. 175).
Como achar Câncer
O segredo é não procurar a figura, e sim os vizinhos. Câncer está espremido entre duas constelações fáceis: Gêmeos, com as estrelas Castor e Pollux, e Leão, com Regulus. Depois, busque o triângulo formado por Procyon (Cão Menor), Pollux e Regulus. O Presépio fica quase no meio desse triângulo, e é reconhecível porque é ladeado por duas estrelas, Delta e Gama Cancri (Moore, The Observer's Year, noite de 5 de março, p. 75). Câncer culmina ao norte do zênite: você a observa voltado para o norte, e a carta abaixo está orientada assim (norte para baixo, leste para a direita).

Passo a passo:
- Espere a constelação estar bem alta (fim de março, no início da noite) e olhe para o norte.
- Ache Pollux e Castor (Gêmeos), depois Regulus (Leão) e Procyon (Cão Menor).
- No meio do triângulo que essas estrelas formam, procure um pequeno "Y" de estrelas fracas. O cruzamento do Y é próximo de Asellus Australis (Delta), e o Presépio aparece logo ao lado, entre Delta e Gama.
- Se você não vê o borrão, use binóculos. Se ele sumiu de vez, pode ser névoa ou céu urbano: Câncer é o primeiro a desaparecer.
Quando observar. O centro da constelação está em cerca de 8h40 de ascensão reta, o que a faz culminar às 21h locais por volta do fim de março. De fevereiro a abril ela está bem alta ao anoitecer; em maio já desce para o poente; e de fim de julho a meados de agosto está no céu do dia, junto com o Sol.
Quanto mais ao norte você está, mais alto ela fica: a altura máxima do Presépio no céu é de 90° menos a diferença entre a latitude e a declinação (cerca de +19,7°). Calculamos para algumas cidades:
| Cidade | Altura máxima do Presépio |
|---|---|
| Boa Vista (RR) | cerca de 73° |
| Manaus (AM) | cerca de 67° |
| Recife (PE) | cerca de 62° |
| Brasília (DF) | cerca de 55° |
| Rio de Janeiro (RJ) | cerca de 47° |
| Porto Alegre (RS) | cerca de 40° |
| Chuí (RS) | cerca de 37° |
Alturas calculadas a partir da declinação do Presépio (SIMBAD) e da latitude de cada cidade; valores arredondados.
As estrelas de Câncer
| Estrela | Posição | Brilho visual (mag.) | Tipo espectral | Distância aproximada |
|---|---|---|---|---|
| Tarf ou Altarf (beta) | ponta sul, mais brilhante | 3,52 | K4 III (gigante alaranjada) | cerca de 320 anos-luz |
| Asellus Australis (delta) | cruzamento do Y, ao sul do Presépio | 3,94 | K0 III (gigante alaranjada) | cerca de 137 anos-luz |
| Iota (iota) | ponta norte | 4,02 | G8 III (gigante amarela) | cerca de 350 anos-luz |
| Acubens (alfa) | ponta leste | 4,25 | A7 (estrela peculiar, com dupla) | cerca de 180 anos-luz |
| Asellus Borealis (gama) | ao norte do Presépio | 4,65 | A1 V | cerca de 175 anos-luz |
| Tegmine (zeta) | ponta oeste | 4,67 (sistema múltiplo) | F8 V + G0 V | cerca de 80 anos-luz |
Brilhos, tipos espectrais e paralaxes consultados no SIMBAD (CDS, Estrasburgo). As distâncias vêm de paralaxes do satélite Hipparcos; livros antigos trazem outros valores (por exemplo, 290 anos-luz para Tarf e 158 para Asellus Borealis em Philip's, ou 218 para Asellus Australis em Mourão).
Os Asellus (os "asnos"). Asellus significa "pequeno asno" em latim: Asellus Borealis (Gama) é o asno do norte e Asellus Australis (Delta) é o do sul (Mourão, verbetes Asellus, p. 62; Philip's, verbete Aselli, p. 30). O Presépio (em latim, Praesepe) é a manjedoura, e os dois asnos comem dela, um de cada lado. Dá para vê-los a olho nu em céu bom: são as duas estrelas de 4ª magnitude que ladeiam o borrão (Vieira, p. 75; Moore, p. 75). Delta é alaranjada e Gama é branca; o contraste é sutil.
Acubens vem do árabe e significa "as garras do caranguejo" (Mourão, verbete Acubens, p. 7). É uma dupla de separação larga, cerca de 11 segundos de arco, mas de difícil observação por causa da diferença de brilho entre as componentes: uma de magnitude 4,3 e a outra de 11 (Mourão). Fica perto do M 67 e serve de ponto de partida para achá-lo.
Iota Cancri é uma dupla fácil: uma gigante amarela de magnitude 4 e uma companheira branco-azulada de magnitude 6,6 a 7, que um binóculo 10×50 já separa (Ridpath, p. 175; Philip's, p. 69). Zeta Cancri é um sistema múltiplo, com um par de magnitudes 5,0 e 6,2 e um período orbital de mais de mil anos (Philip's, verbete Cancer, p. 69; Ridpath, p. 175): vale ver num telescópio pequeno.
O Presépio (M 44), o aglomerado mais lindo que a maioria nunca viu
M 44 — Presépio (ou Colmeia, em inglês Beehive), também catalogado como NGC 2632, é um aglomerado aberto de magnitude 3,1 e uma das joias do céu de outono do hemisfério sul. Em céu escuro é fácil a olho nu, como uma névoa; em céu urbano, é difícil sem binóculo (Ridpath, p. 175). Ocupa mais de um grau de céu (as fontes citam de 1,2° a 1,5°, isto é, entre duas e três Luas cheias), por isso funciona melhor em binóculo ou em telescópio de campo largo. Um telescópio de muito aumento estraga o efeito (Kambič, p. 214; Allison, p. 147). Guia completo: M 44 — Presépio.
O SIMBAD e os livros divergem na distância: os números vão de 525 a 607 anos-luz, com valores intermediários (577 em Kambič). É um dos aglomerados abertos mais próximos, e em condições excelentes dá para contar cerca de 120 estrelas com um binóculo (Kambič, p. 214). Tem mais de mil estrelas ao todo, das quais cerca de 68% são anãs vermelhas, e algumas anãs brancas (Moore e Rees, p. 346). A idade, segundo Philip's, é de cerca de 700 milhões de anos (p. 318); o Data Book diz que é parecida com a das Híades (p. 346). Se o Sol estivesse à distância do Presépio, brilharia com magnitude 11 (Kambič, p. 214).
Galileu e a estrela que era um aglomerado
Aqui está o gancho da constelação: até 1610, o Presépio era tratado como uma estrela, a "Épsilon de Câncer". Galileu apontou o telescópio para ele e o resolveu em mais de 30 estrelas (Mourão, verbete Praesepe, p. 643). Kambič conta que o astrônomo ficou pasmo ao ver a "pequena nuvem" se desfazer em estrelas individuais, e que Hiparco (século II a.C.) já o chamava de "pequena nuvem" e Bayer, por volta de 1600, o registrou como Nubilum (p. 214).
O Presépio como previsão do tempo
Como o borrão só se vê com céu limpo, ele servia de previsão do tempo. Segundo Moore, por volta de 280 a.C. os gregos Arato e Teofrasto escreveram que, se o Presépio parecesse fraco ou invisível num céu aparentemente limpo, a chuva estava a caminho (The Observer's Year, noite de 5 de março, p. 75). Plínio, no século I, descreve marinheiros do Mediterrâneo fazendo o mesmo: nuvens altas chegam antes do mau tempo e apagam o aglomerado (Philip's, verbete Praesepe, p. 318).
O M 67, o aglomerado que não envelhece
M 67 — aglomerado aberto, NGC 2682, fica na parte sul da constelação, a cerca de 1,8° a oeste de Acubens, e cabe no mesmo campo de um binóculo junto com a estrela (Kambič, p. 215; guia completo: M 67). Tem magnitude 6,9 e, em binóculo, é um borrão fraco de uns 15 minutos de arco; um telescópio de 20 cm já revela quase 300 estrelas (Kambič, p. 215). Allison o descreve, em 8 polegadas, como um "2" desgrenhado, com cerca de 45 estrelas resolvidas (p. 148).
A graça está na idade. Ele tem pelo menos 4 bilhões de anos e é um dos aglomerados abertos mais velhos que se conhecem: aglomerados como as Plêiades têm idades incomparavelmente menores (Moore, The Observer's Year, noite de 28 de março, p. 94; Moore e Rees, p. 346). A explicação é a localização: a maioria dos aglomerados abertos se desfaz em poucas centenas de milhões de anos por causa dos encontros com outras estrelas, mas o M 67 está a cerca de 1.500 anos-luz acima do plano da Galáxia, onde há poucas estrelas passando para bagunçá-lo (Kambič, p. 215). Ele está entre 2.700 e 2.900 anos-luz de nós (as fontes variam) e foi descoberto por Köhler entre 1772 e 1779 (Moore e Rees, p. 346). Na mesma constelação, portanto, você tem um aglomerado jovem e um antigo, lado a lado.
NGC 2775 (Caldwell 48), uma galáxia discreta
NGC 2775 — Caldwell 48, no sul de Câncer, é uma galáxia espiral de magnitude perto de 10 e de braços tão apertados que parecem anéis, a cerca de 55 milhões de anos-luz. Visualmente só se vê o núcleo e um halo fraco (telescópio de 15 cm ou mais); nas fotos aparecem os braços (Mobberley, p. 108-109). É um alvo para astrofotografia, e o guia do site traz mais informação: NGC 2775. O M 67 fica a cerca de 5° dela (Mobberley, p. 108).
O caranguejo do mito e da história
Na mitologia grega, o caranguejo aparece na luta de Hércules com a Hidra: enquanto o herói enfrentava o monstro, o caranguejo (enviado por Hera, ou Juno, segundo Mourão e Vieira) mordeu-lhe os pés e acabou esmagado, e Hera o colocou no céu como homenagem (Mourão, verbete Cancer, p. 143; Vieira, p. 23-24; Philip's, p. 69).
Mas a origem da figura é anterior aos gregos e, segundo Mourão, duvidosa: alguns autores a ligam ao movimento do Sol no solstício de verão do hemisfério norte, que lembraria o andar de lado do caranguejo, e os caldeus já a conheciam (p. 143). Vieira acrescenta que o nome viria do fato de o Sol atingir seu afastamento máximo do equador e depois "andar para trás", como um caranguejo (p. 23-24 e 75). Mourão registra que os egípcios a representavam no zodíaco de Dendera como um caranguejo redondo (p. 143).
O zodíaco: o Sol, a eclíptica e o mal-entendido dos signos
A linha tracejada dourada da carta é a eclíptica, o caminho aparente do Sol ao longo do ano contra o fundo das estrelas. Como os planetas e a Lua andam sempre perto dessa linha, as constelações que ela atravessa formam o zodíaco. Câncer é uma delas, e na carta a eclíptica passa bem perto do Presépio: planetas e a Lua visitam o aglomerado de vez em quando (Moore, The Observer's Year, p. 72).
Dentro dos limites oficiais da constelação, definidos pela União Astronômica Internacional (IAU), o Sol está aproximadamente entre 22 de julho e 11 de agosto. São datas aproximadas, que variam um dia conforme o ano. Nessa época a constelação está no céu diurno, e por isso não dá para vê-la à noite.
Signo não é constelação. Mourão dá a definição: um signo é cada uma das 12 seções iguais de 30° do zodíaco, que na Antiguidade coincidiam com as constelações de mesmo nome. Nos cerca de dois mil anos que se passaram, a precessão dos equinócios deslocou os pontos de referência, e os signos ficaram defasados: por exemplo, a constelação de Áries está hoje no signo de Touro (Dicionário, verbete signo, p. 736). O mesmo dicionário registra o quarto signo do zodíaco, Câncer, para "os que nascem entre 21 de junho e 22 de julho" (p. 143). Pelos limites oficiais de hoje, porém, durante quase todo o período desse signo o Sol ainda está na constelação de Gêmeos, e só entra em Câncer por volta de 22 de julho. Signo é um sistema de divisão do ano, herdado da tradição; constelação é uma região do céu. Tratamos aqui o zodíaco como cultura e história do olhar humano para o céu, sem nenhuma previsão.
O nome "Trópico de Câncer" é herança dessa época: o Sol estava em Câncer no solstício de junho, e hoje, por causa da precessão, esse ponto já está em Gêmeos (conhecimento geral, a conferir).
Roteiro de observação
| Instrumento | O que ver |
|---|---|
| A olho nu | O Presépio como névoa, em céu escuro; Asellus Borealis e Australis de cada lado; o Y de estrelas fracas; a cor alaranjada de Tarf e de Asellus Australis. |
| Binóculo (10×50) | O Presépio resolvido em dezenas de estrelas (cerca de 120 em boas condições); a companheira de Iota Cancri; o M 67 no mesmo campo que Acubens. |
| Telescópio pequeno (70 a 100 mm) | Zeta Cancri dupla, o M 67 com dezenas de estrelas, os pares do Presépio (baixe o aumento para ver o aglomerado inteiro). |
| Telescópio médio (15 cm ou mais) | O M 67 quase "granulado" (até uns 300 estrelas com 20 cm) e a galáxia NGC 2775, apenas núcleo e halo. |
| Câmera DSLR | O Presépio com lente de 100 a 200 mm; M 44 e M 67 juntos com uma teleobjetiva; a galáxia com telescópio. |
Dicas de campo:
- Escolha uma noite sem Lua e longe da cidade: Câncer é um dos primeiros a sumir no brilho urbano.
- Comece pelo triângulo Procyon, Pollux e Regulus; depois procure o "Y" no meio dele.
Referências
- ALLISON, Michael. Star Clusters and How to Observe Them. London: Springer, 2006. M 44 e M 67, p. 147-148.
- KAMBIČ, Bojan. Viewing the Constellations with Binoculars. New York: Springer, 2010. M 44 e M 67, p. 214-215.
- MOBBERLEY, Martin. The Caldwell Objects and How to Observe Them. New York: Springer, 2009. Caldwell 48 (NGC 2775), p. 108-109.
- MOORE, Patrick (ed.). Philip's Astronomy Encyclopedia. London: Philip's, 2002. Verbetes "Aselli" (p. 30), "Cancer" (p. 69) e "Praesepe" (p. 318).
- MOORE, Patrick. The Observer's Year: 366 Nights of the Universe. 2. ed. London: Springer, 2005. Noites de 5 de março (Presépio, p. 75) e 28 de março (M 67, p. 94); introdução a Câncer, p. 72.
- MOORE, Patrick; REES, Robin. Patrick Moore's Data Book of Astronomy. Cambridge: Cambridge University Press, 2011. Presépio e M 67, p. 346.
- MOURÃO, Ronaldo Rogério de Freitas. Dicionário enciclopédico de astronomia e astronáutica. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987. Verbetes "Acubens" (p. 7), "Asellus Australis" e "Asellus Borealis" (p. 62), "Cancer" (p. 143), "Colmeia" (p. 182), "Praesepe" (p. 643) e "signo" (p. 736).
- RIDPATH, Ian. Astronomia (Guia Ilustrado Zahar). 4. ed. Rio de Janeiro: Zahar. Caranguejo e o Presépio, p. 175.
- VIEIRA, Fernando. Identificação do céu. Câncer e o Presépio, p. 75; mito do caranguejo, p. 23-24.
- SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a brilhos, tipos espectrais e paralaxes, em 21 set. 2026.
- HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, usado na carta estelar; limites das constelações da IAU e linhas do d3-celestial.