setembro 21, 2026

NGC 2516 (Caldwell 96), o aglomerado da Carena: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2) de NGC 2516 — objeto ainda não capturado no observatório

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.

Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. UK Schmidt Telescope (UKST) / AAO–ROE. Créditos

Todo observador do hemisfério norte conhece a Colmeia, o aglomerado M44 de Câncer, e aprende a procurá-lo a olho nu como uma névoa entre as estrelas de inverno. Nós, do sul, temos uma versão própria, e muita gente a chama de Colmeia do Sul: NGC 2516, em Carina, listado como Caldwell 96. É um dos aglomerados abertos mais brilhantes do céu, compacto, dominado por uma dúzia de estrelas de 5ª a 8ª magnitude e visível a olho nu. O interesse é ainda maior porque ele fica quase sozinho: em torno dele há muito pouco, o que o torna fácil de reconhecer e difícil de confundir. Este guia reúne os dados, o mapa de localização, os gráficos de altura e a estratégia de observação e de captura.

Texto em revisão. Este é um dos guias do novo formato de objeto, ainda em rascunho. As fontes estão listadas no final.

Imagem de referência (DSS2) de NGC 2516 — objeto ainda não capturado no observatório
Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. UK Schmidt Telescope (UKST) / AAO–ROE. Imagem de referência: este objeto ainda não foi fotografado no Observatório. Créditos

Ficha técnica e designações

Visão geral: o que é um aglomerado aberto

Um aglomerado aberto é um grupo de estrelas nascidas juntas, da mesma nuvem de gás, e ainda frouxamente ligadas pela gravidade. Ao contrário dos globulares, que reúnem centenas de milhares de estrelas antigas em uma bola apertada, os abertos têm de dezenas a poucos milhares de estrelas, geralmente jovens, e vivem no disco da Galáxia (Kambič). Não duram muito: as interações gravitacionais com as estrelas vizinhas os dispersam, e na maioria dos casos o grupo se desfaz em menos de um bilhão de anos (Kambič). NGC 2516, com cerca de 110 milhões de anos, é um adulto jovem entre eles (Mobberley).

NGC 2516 em números. Magnitude integral de 3,8, com tamanho aparente de cerca de 60′ no SIMBAD, o dobro do diâmetro da Lua cheia (Mobberley e Bakich, que traçam o limite mais para dentro, trazem 25′ e 30′). A paralaxe do SIMBAD (cerca de 2,4 milissegundos de arco) dá cerca de 1.350 anos-luz, o que faz do conjunto uma esfera de cerca de 24 anos-luz de diâmetro (Mobberley traz 1.300 anos-luz e 9 anos-luz). A estrela mais brilhante dentro do círculo é V374 Carinae, no canto sudeste, de magnitude nominal 5,8 (Mobberley); no limite nordeste está V460 Carinae, variável de magnitude nominal 5,2, e logo além da borda noroeste há uma estrela de 5,7. Mais quinze estrelas do aglomerado, mais brilhantes que a magnitude 10, são suspeitas de variabilidade (Mobberley).

Duas faixas de brilho. As estrelas dividem-se em uma classe alta, que vai da mais brilhante (SAO 250055, de magnitude 5,8, segundo o Bakich) até a magnitude 8, e um fundo de estrelas muito mais fracas. Mobberley comenta que o brilho de 3,8 impressiona, mas resulta de uma dúzia de estrelas de 5ª a 8ª magnitude. Se o aglomerado fosse formado por cem estrelas de magnitude 8,8, ele se pareceria mais com o Pincushion, NGC 3532. Na avaliação dele, é um aglomerado bonito e compacto, mas não um deslumbrante.

Um vizinho ausente. Uma característica do local é a solidão. Segundo Mobberley, a região oeste e central de Carina é pobre em aglomerados abertos; os onze bons estão apinhados no canto nordeste da constelação, e NGC 2516 é praticamente o único objeto notável do céu ali perto.

Estruturas notáveis

  • O núcleo denso. Uma concentração compacta de estrelas de 5ª a 8ª magnitude, mais densa que a de M44 em área (Mobberley).
  • As duas faixas de brilho. Com um telescópio de 150 mm são visíveis cerca de 75 estrelas, mas as brilhantes ofuscam as fracas, a menos que se use um aumento maior do que 250 vezes (Bakich).
  • As estrelas variáveis. V374 Carinae e V460 Carinae são as mais brilhantes do aglomerado, e ao menos uma delas é variável (Mobberley).
  • O isolamento. O campo em volta é relativamente pobre, o que ajuda a distinguir o aglomerado dos demais (Mobberley).

Como localizar

O ponto de partida é Avior (Épsilon Carinae), a estrela laranja de magnitude 2,2 que faz parte da Falsa Cruz. NGC 2516 está cerca de 1¼° ao sul e 3° a oeste dela (Mobberley); o Bakich resume: cerca de 3,3° a oes-sudoeste de Avior. Como o aglomerado tem cerca de 60′ e um brilho de magnitude 3,8, você pode encontrá-lo a olho nu como uma mancha, e o binóculo confirma. A Falsa Cruz, formada por Épsilon e Iota Carinae e Kappa e Delta Velorum, é maior e mais fraca do que a verdadeira (Moore, The Observer's Year), e ajuda a orientar a busca.

Carta de localização de NGC 2516: as estrelas-guia nomeadas, setas tracejadas com a distância em graus até o alvo, escala em graus e indicação de norte e leste.
Carta de localização (star-hopping), no mesmo estilo das cartas de constelação: norte e leste indicados no canto. Anéis laranja: estrelas-guia; setas tracejadas: o caminho até o alvo, com a distância em graus; anel verde: o alvo (e, com a designação, outros objetos do campo); a barra mostra a escala. As linhas são as oficiais das constelações (d3-celestial), os limites são os da IAU e as estrelas vêm do catálogo HYG.

Quando e como observar

Em declinação −61°, NGC 2516 culmina a cerca de 52° de altura no Rio, ao sul, e no ponto mais baixo desce cerca de 6° abaixo do horizonte, de modo que não é circumpolar do Rio, embora fique muito tempo visível. A melhor época vai de dezembro a março (Mobberley), com culminação em torno da meia-noite em meados de janeiro e no início da noite no começo de março. No meridiano, o norte fica para cima e o leste para a esquerda.

Como o aglomerado é grande, o campo largo é obrigatório: um binóculo ou um telescópio com pelo menos 1° de campo. A poluição do Rio pesa pouco: um aglomerado de magnitude 3,8 com estrelas de 5ª magnitude aguenta bem um céu de Bortle 7, e o melhor conselho é apenas esperar que ele esteja alto.

O primeiro gráfico mostra a altura do objeto ao longo do ano; o segundo, o caminho do aglomerado pelo céu nesta noite, seguido da altura hora a hora.

Altura de NGC 2516 ao longo do anoAltura à meia-noite astronômica e altura máxima da noite, a cada 5 dias. Melhor época: de novembro a março. O objeto chega a 52° à meia-noite em janeiro.0°30°60°90°JANFEVMARABRMAIJUNJULAGOSETOUTNOVDEZ16 jan · 52°hoje
Altura ao longo do ano, a cada 5 dias: linha contínua = altura no meio da noite astronômica (Sol abaixo de −18°); tracejada = maior altura durante a noite escura; faixa verde = melhor época; linhas pontilhadas em 30° e 45°. A linha vertical marca hoje. Melhor época para este local: de novembro a março (objeto acima de 30° no meio da noite). Ponto mais alto: 52° em 16 de janeiro.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

2026-10-13 · 19:20 – 04:10

Esta noite no céu

Melhores alvos da noite
Melhor horário
04:00 · 45° SSE
Horas acima de 45°
0,2 h
Lua
Lua crescente · 12 %
Nota da noite
64 / 100
Posição no céu
40
Brilho
100 mag 3,8
Enquadramento
100 ocupa 54 % do campo

Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).

Trajetória de NGC 2516 pelo céu nesta noiteCéu visto de baixo, zênite no centro e horizonte na borda. O objeto fica acima do horizonte entre 21:10 e 04:50 durante a noite; o ponto mais alto é às 04:00, com 45°. A tabela ao lado traz os mesmos valores.15°30°45°60°75°NNELSESSOONO22:0023:0000:0001:0002:0003:0004:00
Caminho do objeto pelo céu nesta noite, do fim do crepúsculo civil ao amanhecer. Centro = zênite, borda = horizonte; visto olhando para cima (leste à esquerda, oeste à direita). Marcadores a cada 30 minutos.
  • Crepúsculo civil (Sol até −12°)
  • Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
  • Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
  • Altura abaixo de 20°
  • Altura abaixo de 30°
  • Altura abaixo de 45°
  • Hora cheia e meia hora
  • Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
Altura e direção do objeto a cada 30 minutos
Hora Altura Direção Da Lua
19:30 -5° — 80°
20:00 -4° — 80°
20:30 -2° — 80°
21:00 0° — 80°
21:30 2° SSE 159° 80°
22:00 5° SSE 157° 80°
22:30 8° SSE 154° 80°
23:00 11° SSE 152° 80°
23:30 14° SSE 151° 80°
00:00 17° SSE 149° 80°
00:30 21° SSE 149° 81°
01:00 25° SSE 148° 81°
01:30 28° SSE 148° 81°
02:00 32° SSE 149° 81°
02:30 36° SSE 150° 81°
03:00 39° SSE 151° 81°
03:30 42° SSE 154° 81°
04:00 45° SSE 157° 81°
Altura de NGC 2516 ao longo da noiteAltura em graus a cada 30 minutos. O ponto mais alto é às 04:00, com 45°. A tabela abaixo traz os mesmos valores.0°30°60°90°202122230001020304abaixo do horizonte04:00 · 45°
Altura em graus ao longo da noite escura (linhas em 30° e 45°). A Lua aparece tracejada.

Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

O que ver

Instrumento O que esperar
A olho nu Uma mancha estrelada evidente, com estrelas individuais em céu escuro. No Rio, sob Bortle 7, ainda aparece como uma névoa compacta (Bakich).
Binóculo (7×50 a 15×70) Ótima vista com binóculos grandes: dezenas de estrelas, com a dúzia mais brilhante dominando o quadro e uma multidão fraca ao fundo (Mobberley).
Telescópio de 100 a 150 mm Cerca de 75 estrelas com esforço; as brilhantes ofuscam as fracas, a menos que se ultrapasse 250 aumentos (Bakich). O campo largo mostra o conjunto melhor.
Telescópio de 200 mm ou mais O aglomerado transborda o campo em quase qualquer aumento; use para separar as estrelas do centro e tentar reconhecer as variáveis.

Expectativa honesta: NGC 2516 é uma joia acessível, mas o Mobberley é sincero: para ele, o aglomerado é bonito, não deslumbrante. Ele vale pela facilidade e pela densidade, e não por uma figura marcante. Compare, na mesma noite, com M44 (o Presépio), em Câncer, e com o vizinho NGC 3532.

Astrofotografia: estratégia de captura

Enquadramento

Com cerca de 60′, o aglomerado pede um campo de pelo menos 1,5°. Com um telescópio de 1.000 mm de focal e uma câmera como a ASI294MC Pro (campo de cerca de 1,1° × 0,75°), ele ocupa quase todo o quadro e passa da borda no lado menor: use uma focal de 400 a 600 mm para enquadrá-lo com espaço em volta. Mobberley classifica o objeto como alvo fácil.

Desafios do alvo

  • Contraste de brilho. Uma dúzia de estrelas brilhantes e um fundo de estrelas fracas; controlar a saturação das primeiras sem perder as segundas é o principal desafio.
  • Céu de fundo. Como o campo é cheio de estrelas, a poluição luminosa afeta menos do que nas nebulosas, mas o gradiente perto do horizonte sul continua exigindo calibração.
  • Cor das estrelas. O aglomerado é rico em estrelas azuladas e algumas alaranjadas; mantenha o balanço de cores neutro para preservar essa variedade.

Equipamento e filtros

Uma câmera colorida de um disparo basta; não há filtro especial para um aglomerado de estrelas. Se o céu for muito poluído, um filtro de banda larga pode ajudar, com o custo de deslocar as cores. Para melhor controle das estrelas brilhantes, combine exposições curtas e longas.

Exemplo de sessão (ponto de partida)

Tipo de quadro Quantidade Exposição Finalidade
Light curto 30 10 s Estrelas brilhantes sem saturar
Light longo 40 60 s Fundo de estrelas fracas
Dark 20 igual aos Lights Calibração do ruído térmico
Flat 30 automática Correção de vinheta e poeira
Bias ou dark-flat 50 mais curta possível Calibração do ruído de leitura

Esses números são um ponto de partida, e não vêm dos livros; nenhum dos livros de astrofotografia consultados trata deste objeto.

Smart telescopes e campo de visão

NGC 2516 cabe com folga no campo de um smart telescope como o Seestar S50 (cerca de 1,3° × 0,7°), e o quadro ainda inclui as estrelas de campo. É um alvo gratificante para esses aparelhos, porque o aglomerado é brilhante e responde bem a poucos minutos de empilhamento. Escolha o seu modelo no mapa abaixo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.

0°

Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.

Considerações finais

NGC 2516 é uma joia de fácil acesso: brilhante, bem posicionado no verão e nenhuma dificuldade de localização. Ele vale como alvo de primeira noite para quem começa a explorar o céu do sul, e como termo de comparação para os aglomerados vizinhos. A combinação mais natural é com IC 2602 e NGC 3532, que formam o trio de aglomerados abertos de Carina.

Referências

  • BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 71 (NGC 2516).
  • KAMBIČ, Bojan. Viewing the Constellations with Binoculars: 250+ Wonderful Sky Objects to See and Explore. New York: Springer, 2010. Aglomerados abertos, p. 110-111.
  • MOBBERLEY, Martin. The Caldwell Objects and How to Observe Them. New York: Springer, 2009. Caldwell 96, p. 200-201.
  • MOORE, Patrick. The Observer's Year: 366 Nights of the Universe. London: Springer. Carina, Vela e Popa (Falsa Cruz), 26 de dezembro. Página impressa a conferir.
  • SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas e paralaxe de NGC 2516, em 21 set. 2026.
  • HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.