setembro 21, 2026
Saco de Carvão (Caldwell 99), a nebulosa escura do Cruzeiro do Sul: guia completo de observação a olho nu e fotografia de campo largo

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.
Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. UK Schmidt Telescope (UKST) / AAO–ROE. Créditos
O Saco de Carvão é um objeto que se observa melhor sem telescópio. Ele está ao lado do Cruzeiro do Sul, cobre cerca de 7° × 5° do céu e é, ao mesmo tempo, uma nuvem de poeira e uma ausência de luz: um buraco escuro na Via Láctea, tão evidente que aparece em histórias de navegadores, nas lendas dos povos do sul e, para os que viajam ao sul do equador, em qualquer noite de céu claro. Mobberley resume o objeto em uma frase, ao chamá-lo de "imperdível" em qualquer viagem ao sul. Este guia trata dele como se deve: a olho nu, com binóculo e, no lado da imagem, com câmera de campo largo.
Texto em revisão. Este guia segue o novo formato de artigos de objeto e substitui o guia de astrofotografia e a página de exploração do objeto. As fontes e as dúvidas estão listadas no final.

Ficha técnica e designações
Visão geral: o que é uma nebulosa escura
Uma nebulosa escura é uma nuvem de gás e poeira densa o bastante para bloquear a luz das estrelas que ficam atrás dela. Não é, portanto, um "buraco" no céu, como se pensou no século XIX: o próprio Herschel os chamava de "buracos nos céus", uma ideia que hoje se sabe errada (Data Book). Uma nebulosa escura é o mesmo tipo de objeto que uma nebulosa brilhante, só que sem uma estrela por perto para iluminá-la (Moore; Data Book). Em nuvens assim, frias, de cerca de 10 K, formam-se as moléculas e, com o tempo, as estrelas.
O Saco de Carvão em números. O SIMBAD o registra como nebulosa escura, mas não traz distância nem tamanho. Pelos livros, ele está a cerca de 550 a 600 anos-luz (Coe; Moore; Data Book), com Mobberley falando em duas nuvens superpostas, a 600 e a 800 anos-luz. Ocupa cerca de 7° × 5° no céu (Mobberley), e, nessa distância, uma extensão de 60 a 100 anos-luz. Coe o considera provavelmente a nebulosa escura mais próxima da Terra. Sua extensão passa por três constelações: Cruzeiro do Sul, Centauro e Mosca (Mobberley).
Uma nuvem que não é opaca. O aglomerado NGC 4609, que fica na borda da nuvem e está cerca de oito vezes mais longe, brilha através dela, avermelhado e enfraquecido (Mobberley). Ele tem seu guia próprio.
História. Bakich atribui o primeiro relato europeu a Vicente Yáñez Pinzón, em 1499, e lembra que os povos do sul já a conheciam há milênios. Mourão, por sua vez, situa o relato em 26 de janeiro de 1500, e afirma que o nome "Saco de Carvão" aparece em Pietro Martire d'Anghiera, em 1510. O que se pode dizer com segurança é que o objeto é conhecido dos navegadores desde por volta de 1500.
Estruturas notáveis
- A mancha principal. Um oval escuro, bem definido, ao lado do Cruzeiro (Coe). O centro fica a cerca de 3,5° de Acrux (Mobberley).
- Estrias e faixas. Coe observou com binóculo 8×42 que a nuvem não é uma peça única: tem faixas escuras espessas, com estrelas dentro delas, e ele contou 26 estrelas no campo.
- BZ Crucis. A única estrela visível a olho nu dentro do Saco de Carvão (Bakich).
- A Caixa de Joias. Logo acima da nuvem, o aglomerado NGC 4755 tem cerca de seis estrelas visíveis em um binóculo 8×42 (Coe).
- O Emu Escuro. Coe descreve a "ave" desenhada pela poeira, de tradição aborígene australiana: a cabeça (o olho) é o Saco de Carvão, o bico passa por baixo do Cruzeiro, o pescoço inclui Alfa e Beta Centauri, o corpo se alarga e as patas seguem para Escorpião. Ele fotografou o conjunto com 8 minutos e uma lente de 28 mm.
- A cadeia escura. Uma faixa escura de 15° liga o Saco de Carvão à região de IC 2602 (as Plêiades do Sul), visível a olho nu e mais viva ao binóculo (Coe).
Como localizar
Não há como errar: o Saco de Carvão fica logo a leste de Acrux, ao lado do Cruzeiro do Sul, a cerca de 3,5° do centro (Mobberley). Ele está no lado leste da cruz, que é o lado dos Apontadores (Alfa e Beta Centauri). A maior dificuldade é a do céu: em Bortle 7, o contraste com a Via Láctea de fundo é reduzido, e a nebulosa exige um horizonte sul aberto e uma noite límpida.

Quando e como observar
A região está a cerca de −63° de declinação. Do Rio de Janeiro, o centro passa ao sul a cerca de 50° de altura, e a nebulosa é quase circumpolar: no ponto mais baixo, o centro chega a cerca de 4° abaixo do horizonte (calculado), de modo que ela só some por pouquíssimo tempo. Mobberley indica de março a junho como a melhor época, e é isso que vale para o Rio: no fim de março, o Cruzeiro do Sul cruza o meridiano por volta da meia-noite e, em meados de maio, por volta das 21 h (calculado). Como a nuvem é enorme, o que importa mais que a altura é a escuridão do céu ao redor.
Como a região cruza ao sul do zênite, o norte fica para cima e o leste para a esquerda, como nos mapas comuns.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
2026-10-12 · 19:20 – 04:10
Esta noite no céu
Este objeto não passa de 30° de altura nesta noite (máximo: 12°). Não é um bom alvo hoje.
- Melhor horário
- 04:00 · 12° SSE
- Horas acima de 45°
- 0,0 h
- Lua
- Lua crescente · 6 %
- Nota da noite
- 0 / 100
- Posição no céu
- 0
- Brilho
- 50 (sem magnitude cadastrada)
- Enquadramento
- 0 ocupa 933 % do campo
Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).
- Crepúsculo civil (Sol até −12°)
- Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
- Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
- Altura abaixo de 20°
- Hora cheia e meia hora
- Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
| Hora | Altura | Direção | Da Lua |
|---|---|---|---|
| 19:30 | 7° | SSW 203° | 46° |
| 20:00 | 4° | SSW 201° | 46° |
| 20:30 | 2° | SSW 198° | 46° |
| 21:00 | 0° | — | 46° |
| 21:30 | -2° | — | 46° |
| 22:00 | -3° | — | 46° |
| 22:30 | -4° | — | 46° |
| 23:00 | -4° | — | 46° |
| 23:30 | -4° | — | 46° |
| 00:00 | -4° | — | 46° |
| 00:30 | -3° | — | 46° |
| 01:00 | -2° | — | 46° |
| 01:30 | -1° | — | 46° |
| 02:00 | 1° | SSE 163° | 46° |
| 02:30 | 4° | SSE 160° | 46° |
| 03:00 | 6° | SSE 158° | 46° |
| 03:30 | 9° | SSE 156° | 46° |
| 04:00 | 12° | SSE 154° | 46° |
Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
O que ver
| Instrumento | O que esperar |
|---|---|
| A olho nu | O método ideal. Uma mancha escura oval ao lado do Cruzeiro, evidente em céu escuro (Mobberley; Coe). Coe a considera uma das vistas mais marcantes do céu a olho nu, embora ache a Nebulosa do Cachimbo, em Ofiúco, mais escura e contrastante. Bakich lembra que, com binóculo ou telescópio, o campo reduz o contraste. |
| Binóculo (10×50) | Coe diz que um 10×50 melhora bastante a vista; em um 8×42, ele vê que a nebulosa preenche o campo, com faixas escuras e 26 estrelas dentro. Mobberley recomenda binóculos grandes. |
| Telescópio de 100 a 150 mm | Não é o instrumento certo: o campo é estreito demais para uma nuvem de 7° × 5°, e o contraste se perde. Serve para olhar as estrelas de dentro e para o aglomerado NGC 4609 na borda. |
| Telescópio de 200 a 350 mm | Igual ao anterior: o interesse está nas estrelas avermelhadas do aglomerado e na estrela vermelha "Ruby Crucis" (DY Crucis), uma estrela de carbono a 2′ a oeste de Beta Crucis, uma das mais vermelhas do céu (Coe). |
Expectativa honesta: o Saco de Carvão é um objeto de céu escuro. Em Bortle 7, com a Via Láctea de fundo lavada pela luz das cidades, a nebulosa perde muito do contraste, e os livros não trazem relatos nessa condição. A vista melhora muito em um sítio escuro, sem Lua, com o Cruzeiro alto. Na cidade, a saída é o binóculo e a fotografia, que revelam o que o olho não vê.
Fotografia de campo largo
Enquadramento
O Saco de Carvão é grande demais para um telescópio. A imagem de Mobberley, da Namíbia, foi feita com uma objetiva de 135 mm f/4, 20 minutos de exposição e filme Fuji Provia 400F, com um campo de cerca de 10° de largura, e ele recomenda uma DSLR com objetiva de 100 mm. Com uma câmera de sensor APS-C (cerca de 23,5 × 15,6 mm), uma objetiva de 50 mm dá cerca de 26° × 17°; uma de 100 mm, cerca de 13° × 9°; e uma de 135 mm, cerca de 10° × 6,6° (calculado). Para o Emu Escuro inteiro, Coe usou 28 mm.
Desafios do alvo
- Contraste com a Via Láctea. A nebulosa só é uma nebulosa por causa do fundo estelar: é o campo de estrelas que a "desenha". Exposições longas demais lavam o fundo; um céu escuro é decisivo.
- Rastreamento. Para exposições de mais de alguns segundos, uma montagem portátil (barn door ou star tracker) evita o rastro das estrelas. Isso é conhecimento geral, não vem dos livros.
- Luz do horizonte e da Lua. Com o alvo a cerca de 50° de altura, o gradiente de fundo é menor que em objetos baixos, mas ainda deve ser removido no processamento.
Equipamento e filtros
Câmera DSLR ou mirrorless com objetiva fixa entre 24 mm e 135 mm, tripé ou star tracker, sem filtro (ou com um filtro de poluição luminosa de banda larga, se o céu for urbano, aceitando um deslocamento de cor). Uma dark nebula é um alvo para luz de banda larga: as estrelas de fundo são a informação.
Exemplo de sessão (ponto de partida)
| Tipo de quadro | Quantidade | Exposição | Finalidade |
|---|---|---|---|
| Light (50 a 100 mm, ISO 1600 a 3200, f/2,8 a f/4) | 40 a 80 | 30 a 60 s com star tracker | Campo estelar e faixas escuras; empilhe para reduzir o ruído |
| Dark | 20 | igual aos Lights | Calibração do ruído térmico |
| Flat | 20 | automática | Correção de vinheta, importante em campo largo |
| Bias | 30 | mais curta possível | Ruído de leitura |
Esses números são um ponto de partida e não vêm dos livros; os únicos dados de exposição dos livros são os de Mobberley (20 minutos, filme, 135 mm f/4) e de Coe (8 minutos, 28 mm, no Emu Escuro).
Smart telescopes e campo de visão
Um smart telescope como o Seestar S50 (cerca de 1,3° × 0,7°) não é a ferramenta certa para o Saco de Carvão, que tem 7° × 5°: o campo mostra apenas um pedaço do oval e das estrelas vizinhas, e um mosaico completo exigiria dezenas de quadros. O aparelho é bom para o aglomerado NGC 4609 na borda da nuvem, e para as estrelas do campo. Escolha o modelo no mapa abaixo para ver o tamanho do campo diante da nebulosa.
Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.
Considerações finais
O Saco de Carvão é uma lição de que nem tudo no céu profundo precisa de um telescópio. Ele é visto da varanda, em uma noite escura, e a fotografia com uma lente comum o transforma em imagem. Para continuar, veja o aglomerado NGC 4609, que brilha através dele, a Caixa de Joias, logo acima, e o guia do Cruzeiro do Sul.
Referências
- BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 311 (Saco de Carvão).
- COE, Steven R. Nebulae and How to Observe Them. London: Springer, 2007. "Coal Sack" (Saco de Carvão), p. 91-92.
- MOBBERLEY, Martin. The Caldwell Objects and How to Observe Them. New York: Springer, 2009. Caldwell 98 e 99 (NGC 4609 e Coalsack), p. 204-205.
- MOORE, Patrick; REES, Robin. Patrick Moore's Data Book of Astronomy. Cambridge: Cambridge University Press, 2011. Nebulosas escuras e Cruzeiro do Sul (página impressa a conferir).
- MOURÃO, Ronaldo Rogério de Freitas. Dicionário enciclopédico de astronomia e astronáutica. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987. Verbete "Saco de Carvão" (p. 698).
- SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta à posição e ao tipo de "Coalsack Nebula", em 21 set. 2026.
- HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.