setembro 20, 2026

NGC 5128 (Caldwell 77), Centaurus A: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2) de NGC 5128 — Centaurus A — objeto ainda não capturado no observatório

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.

Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. UK Schmidt Telescope (UKST) / AAO–ROE. Créditos

Poucos objetos do céu profundo parecem tão errados à primeira vista quanto Centaurus A. Uma galáxia elíptica, redonda e luminosa, é atravessada de ponta a ponta por uma faixa de poeira escura, larga como um cinturão. Em qualquer telescópio pequeno, parece um bolo de luz cortado por uma tira de fita preta, e é daí que vêm os apelidos: entre os amadores, "galáxia hambúrguer", com a faixa escura fazendo o papel da carne entre dois pães de luz. Do Rio de Janeiro, ela passa a cerca de 70° de altura, e o binóculo já a mostra sem esforço. Este guia reúne os dados, o passo a passo para achá-la, o que esperar em cada instrumento e uma estratégia de fotografia.

Texto em revisão. Este é um guia de teste do novo formato de objeto, do lote do catálogo Caldwell. As fontes estão listadas no final e as dúvidas, na lista de pendências.

Imagem de referência (DSS2) de NGC 5128 — Centaurus A — objeto ainda não capturado no observatório
Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. UK Schmidt Telescope (UKST) / AAO–ROE. Imagem de referência: este objeto ainda não foi fotografado no Observatório. Créditos

Ficha técnica e designações

Visão geral: o que é uma galáxia elíptica com faixa de poeira

A maior parte das galáxias grandes se divide em duas famílias. As espirais (como a nossa) têm disco, braços e muita formação de estrelas. As elípticas são bolas de estrelas velhas, com quase nenhum gás. Centaurus A não se encaixa direito em nenhuma. Tem as características de uma elíptica gigante, mas também uma faixa de poeira grossa e escura em torno do centro, formando algo parecido com um disco (Kambič). Os astrônomos profissionais interpretam essa mistura como o resultado de uma colisão: a elíptica teria engolido uma galáxia espiral menor, e o Bakich menciona que o processo dura mais de 200 milhões de anos e gera formação intensa de estrelas ao longo da faixa.

Além disso, é uma potência em todas as faixas do espectro. Mobberley conta que a galáxia emite muito em infravermelho e rádio, e também em raios X e raios gama, e que o buraco negro supermassivo do centro pode ter entre 200 milhões e um bilhão de massas solares. A galáxia inteira poderia somar cerca de um trilhão de massas solares, cinco vezes a massa da Via Láctea (Mobberley). O "A" do nome vem de ser a mais forte fonte de rádio da constelação do Centauro, e o Kambič a descreve como a radiogaláxia mais próxima de nós. Tonkin acrescenta que também é uma forte fonte de raios X e que a hipótese de duas galáxias em colisão é a mais aceita.

Centaurus A em números. O brilho total é de magnitude 6,8 na banda V do SIMBAD (os livros trazem de 6,7, em Bakich e Mobberley, a 7,0, em Kambič), o que a torna uma das galáxias mais brilhantes do céu inteiro, a quinta, segundo Kambič. O tamanho depende de quanto do halo se considera: 17′ × 13′ (Mobberley), 18′ × 14′ (Kambič) e 31′ × 23′ (Bakich), isto é, de meia a uma lua cheia. O SIMBAD e o catálogo do site trazem valores próximos de 26′ para o eixo maior.

Distância. As fontes dão de 12 milhões (Mobberley) a 15 milhões de anos-luz (Kambič), e o texto adota "cerca de 12 a 15 milhões" (dos livros; o SIMBAD não traz paralaxe). Com essa distância, o diâmetro real fica entre 60.000 e 70.000 anos-luz (Mobberley; Kambič). É uma das galáxias mais próximas fora do Grupo Local, e Kambič e Bakich a incluem no grupo de M83.

Descoberta. O Bakich atribui a descoberta a James Dunlop, que a registrou de Parramatta, na Nova Gales do Sul, num catálogo de 629 objetos publicado em 1828. Mobberley lembra a única supernova conhecida em Centaurus A: uma de tipo Ia, de magnitude 12, achada em 3 de maio de 1986 por Robert Evans.

Estruturas notáveis

  • A faixa de poeira. A característica principal. Em telescópio pequeno, aparece como uma larga faixa escura que corta a galáxia (Bakich); Mobberley diz que a espessura dela é "extraordinária".
  • A cunha de luz. Com 300 mm ou mais, surge uma cunha luminosa no extremo oeste da faixa, que se alarga em ambas as pontas (Bakich).
  • O núcleo. Em imagens do Hubble, o centro é tão denso de estrelas e poeira que lembra uma "nuvem de tempestade laranja prestes a explodir" (Mobberley).
  • Ômega Centauri por perto. Não faz parte da galáxia, mas fica a apenas 4,5° ao sul, e os dois cabem no mesmo campo de um binóculo (Mobberley; Kambič).

Como localizar

Centaurus A fica logo a leste do centro da constelação do Centauro. O caminho de Mobberley parte da estrela i Centauri: vá cerca de 6¼° para o sul e 1° para leste. A alternativa é encontrar primeiro o gigantesco Ômega Centauri (Caldwell 80), inconfundível, e andar 4,5° para o norte. Kambič sugere partir de Zeta Centauri: coloque a estrela na borda leste do campo do binóculo, Ômega Centauri aparece na borda oeste; empurre Ômega para a borda sul e a galáxia surge na borda norte. Se não conseguir ver Zeta, use Mu Centauri (magnitude entre 2,9 e 3,5), que cabe no mesmo campo que a galáxia. Tonkin sugere varrer dois campos para o norte a partir de Ômega até ficar a oeste da mais austral do par de terceira magnitude Mu e Nu Centauri (Tonkin, p. 173); a galáxia deve aparecer quase no centro do campo.

Carta de localização de NGC 5128: as estrelas-guia nomeadas, setas tracejadas com a distância em graus até o alvo, escala em graus e indicação de norte e leste.
Carta de localização (star-hopping), no mesmo estilo das cartas de constelação: norte e leste indicados no canto. Anéis laranja: estrelas-guia; setas tracejadas: o caminho até o alvo, com a distância em graus; anel verde: o alvo (e, com a designação, outros objetos do campo); a barra mostra a escala. As linhas são as oficiais das constelações (d3-celestial), os limites são os da IAU e as estrelas vêm do catálogo HYG.

Quando e como observar

Com declinação de −43°, Centaurus A culmina a cerca de 70° de altura no Rio de Janeiro, com direção sul. Isso a deixa longe da turbulência do horizonte, e a poeira e a poluição luminosa do Rio pesam menos do que sobre objetos baixos. A melhor época vai de março a junho (Mobberley), com o auge por volta de abril (Bakich), quando ela culmina à noite. Kambič lembra que observadores do hemisfério norte só a alcançam abaixo de cerca de 10° na Espanha e 20° na Flórida, e que ela é uma joia para os do sul. Ao olhar para o sul, o norte celeste fica para cima e o leste para a esquerda.

O primeiro gráfico mostra a altura do objeto ao longo do ano; o segundo, o percurso dele pelo céu nesta noite, seguido da altura hora a hora.

Altura de Centaurus A ao longo do anoAltura à meia-noite astronômica e altura máxima da noite, a cada 5 dias. Melhor época: de janeiro a junho. O objeto chega a 70° à meia-noite em abril.0°30°60°90°JANFEVMARABRMAIJUNJULAGOSETOUTNOVDEZ11 abr · 70°hoje
Altura ao longo do ano, a cada 5 dias: linha contínua = altura no meio da noite astronômica (Sol abaixo de −18°); tracejada = maior altura durante a noite escura; faixa verde = melhor época; linhas pontilhadas em 30° e 45°. A linha vertical marca hoje. Melhor época para este local: de janeiro a junho (objeto acima de 30° no meio da noite). Ponto mais alto: 70° em 11 de abril.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

2026-10-13 · 19:20 – 04:10

Esta noite no céu

Melhores alvos da noite

Este objeto não passa de 30° de altura nesta noite (máximo: 0°). Não é um bom alvo hoje.

Melhor horário
19:20 · 1° SW
Horas acima de 45°
0,0 h
Lua
Lua crescente · 12 %
Nota da noite
0 / 100
Posição no céu
0
Brilho
81 mag 7,2
Enquadramento
100 ocupa 58 % do campo

Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).

Trajetória de NGC 5128 — Centaurus A pelo céu nesta noiteCéu visto de baixo, zênite no centro e horizonte na borda. O objeto fica acima do horizonte entre 18:20 e 04:50 durante a noite; o ponto mais alto é às 19:20, com 1°. A tabela ao lado traz os mesmos valores.15°30°45°60°75°NNELSESSOONO19:00
Caminho do objeto pelo céu nesta noite, do fim do crepúsculo civil ao amanhecer. Centro = zênite, borda = horizonte; visto olhando para cima (leste à esquerda, oeste à direita). Marcadores a cada 30 minutos.
  • Crepúsculo civil (Sol até −12°)
  • Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
  • Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
  • Altura abaixo de 20°
  • Hora cheia e meia hora
  • Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
Altura e direção do objeto a cada 30 minutos
Hora Altura Direção Da Lua
19:30 -1° — 33°
20:00 -6° — 33°
20:30 -10° — 33°
21:00 -13° — 33°
21:30 -17° — 34°
22:00 -19° — 34°
22:30 -22° — 34°
23:00 -23° — 34°
23:30 -24° — 34°
00:00 -24° — 34°
00:30 -23° — 34°
01:00 -22° — 35°
01:30 -20° — 35°
02:00 -17° — 35°
02:30 -14° — 35°
03:00 -11° — 35°
03:30 -7° — 35°
04:00 -2° — 36°
Altura de NGC 5128 — Centaurus A ao longo da noiteAltura em graus a cada 30 minutos. O ponto mais alto é às 19:20, com 1°. A tabela abaixo traz os mesmos valores.0°30°60°90°202122230001020304abaixo do horizonte
Altura em graus ao longo da noite escura (linhas em 30° e 45°). A Lua aparece tracejada.

Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

O que ver

Instrumento O que esperar
A olho nu Sem confirmação nos livros consultados; com magnitude 6,8 e céu muito escuro, é um teste possível, mas não conte com isso em Bortle 7.
Binóculo (7×50 a 15×70) Mancha brilhante e alongada, uma das melhores galáxias para binóculo, que se alonga mais com a visão desviada, quando a faixa escura também aparece (Tonkin). É "claramente visível" (Kambič).
Telescópio de 100 a 150 mm Uma galáxia redonda cortada por uma larga faixa escura (Bakich). Mobberley diz que 10 cm bastam para uma boa vista.
Telescópio de 300 mm ou mais A cunha de luz na ponta oeste da faixa, que se alarga nos dois lados (Bakich). Filtro de nebulosa pode ajudar um pouco (Mobberley).

Expectativa honesta: a beleza que o Hubble mostra fica de fora do ocular. O que você leva do Rio é a silhueta da faixa escura, algo que outras galáxias grandes, mesmo mais brilhantes, não têm. O que mais pesa é o céu escuro na direção sul e uma noite estável.

Astrofotografia: estratégia de captura

Enquadramento

Com cerca de 26′ de tamanho, Centaurus A cabe bem em campos de 1° ou mais. Com um telescópio de 1.000 mm e uma câmera como a ASI294MC Pro, o campo é de cerca de 1,1° × 0,75° (cálculo geométrico): a galáxia ocupa um terço do quadro e deixa espaço para o halo. Uma câmera maior ou uma focal mais curta (500 a 700 mm) mostram o entorno, incluindo o campo estelar rico da Via Láctea. Mobberley a considera "espetacular em preto e branco ou em cores".

Desafios do alvo

  • Contraste da faixa. A poeira precisa de bom sinal na região escura e de um processamento que evite deixar a faixa "chapada" no preto.
  • Núcleo brilhante contra halo tênue. O centro satura fácil, e o halo pede tempo total. Faça exposições curtas e longas para combiná-las (uso comum, mas não vem dos livros).
  • Gradientes em céu Bortle 7. Em Bortle 7, como no Rio de Janeiro, o brilho de fundo nas regiões periféricas do halo se perde; um filtro de poluição luminosa ajuda.

Equipamento e filtros

Não há nos livros uma recomendação específica de filtro. Uma câmera colorida com filtro de poluição luminosa é o ponto de partida; uma monocromática com LRGB dá o melhor resultado na luminância. Mobberley classifica o objeto como excelente em preto e branco ou cores. Como a galáxia culmina a 70° de altura, o Rio oferece a melhor janela do céu para um alvo do sul profundo.

Exemplo de sessão (ponto de partida)

Tipo de quadro Quantidade Exposição Finalidade
Light (LRGB ou colorida) 60 a 100 120 a 180 s Galáxia, faixa e halo
Dark 30 igual aos Lights Calibração do ruído térmico
Flat 30 automática Vinheta e poeira
Bias ou dark-flat 50 mais curta possível Ruído de leitura

Esses números são um ponto de partida, e não vêm dos livros. Como referência de qualidade, a imagem de Daniel Verschatse citada por Mobberley usou 120, 90, 90 e 90 minutos de L, R, G e B com um refletor de 37 cm.

Smart telescopes e campo de visão

Centaurus A cabe com folga no campo de um smart telescope como o Seestar S50 (cerca de 1,3° × 0,7°). Como o brilho é alto, os primeiros minutos de empilhamento já mostram a faixa escura, e algumas horas revelam o halo. Escolha o seu modelo no mapa para ver o retângulo do campo sobre o objeto.

0°

Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.

Considerações finais

Centaurus A é um caso raro de objeto que combina beleza e história científica: a colisão entre duas galáxias, um buraco negro imenso e uma das rádio-fontes mais brilhantes do céu. Para o observador do Rio de Janeiro, é um alvo fácil de achar, em binóculo, ao lado de Ômega Centauri, e é o melhor ponto de partida para uma sessão de galáxias do sul. O próximo passo é ver, na mesma noite, as galáxias do Escultor, como a Galáxia do Escultor (NGC 253).

Referências

  • BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 332 (NGC 5128).
  • KAMBIČ, Bojan. Viewing the Constellations with Binoculars: 250+ Wonderful Sky Objects to See and Explore. New York: Springer, 2010. Centauro, NGC 5128, p. 244-245.
  • MOBBERLEY, Martin. The Caldwell Objects and How to Observe Them. New York: Springer, 2009. Caldwell 77, p. 162-163.
  • RIDPATH, Ian. Astronomia (Guia Ilustrado Zahar). 4. ed. Rio de Janeiro: Zahar. Centaurus A (NGC 5128), p. 198.
  • TONKIN, Stephen. Binocular Astronomy. London: Springer, 2007. "Centaurus: Galaxy: NGC 5128", p. 173.
  • SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas e dimensões, em 21 set. 2026.
  • HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.