setembro 21, 2026

NGC 2477 (Caldwell 71), o aglomerado da Popa: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2) de NGC 2477 — objeto ainda não capturado no observatório

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.

Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. UK Schmidt Telescope (UKST) / AAO–ROE. Créditos

A primeira reação diante de uma foto de NGC 2477 é uma dúvida legítima: isso é um aglomerado aberto ou um globular? Quem escreve sobre ele, Martin Mobberley, avisa que o aspecto é curioso: não há estrelas brilhantes de destaque, mais de uma centena de estrelas quase idênticas em brilho e uma concentração que cresce suavemente para o centro, como num globular. É o Caldwell 71, em Popa (Puppis), no rastro da Via Láctea do verão austral. Do Rio de Janeiro, ele passa a mais de 70° de altura, e por isso, ao contrário do que ocorre no hemisfério norte, pode ser visto em toda a sua glória. Este guia reúne os dados, o mapa de localização, os gráficos de altura e a estratégia de observação e de captura.

Texto em revisão. Este é um dos guias do novo formato de objeto, ainda em rascunho. As fontes estão listadas no final.

Imagem de referência (DSS2) de NGC 2477 — objeto ainda não capturado no observatório
Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. UK Schmidt Telescope (UKST) / AAO–ROE. Imagem de referência: este objeto ainda não foi fotografado no Observatório. Créditos

Ficha técnica e designações

Visão geral: o que é um aglomerado aberto

Um aglomerado aberto é um grupo de estrelas nascidas juntas, da mesma nuvem de gás, e ainda frouxamente ligadas pela gravidade. Ao contrário dos globulares, que reúnem centenas de milhares de estrelas antigas em uma bola apertada, os abertos têm de dezenas a poucos milhares de estrelas e vivem no disco da Galáxia (Kambič). Com o tempo, as interações com as estrelas vizinhas os dispersam, e na maioria dos casos o grupo se desfaz em menos de um bilhão de anos (Kambič). NGC 2477 é um caso limite: tem cerca de 700 milhões de anos, idade avançada para um aglomerado aberto, e uma forma quase esférica que o aproxima de um globular (Mobberley).

NGC 2477 em números. Magnitude integral de 5,8 (SIMBAD e livros), com tamanho aparente de 18′ no SIMBAD, um pouco menos que o diâmetro da Lua cheia (livros trazem de 20′ a 27′; Mobberley; Bakich; Kambič). A paralaxe do SIMBAD (0,665 milissegundo de arco) dá cerca de 4.900 anos-luz; livros mais antigos trazem 3.700 (Mobberley) e 4.200 (Kambič). Com 18′ a essa distância, o diâmetro real fica em torno de 26 anos-luz (calculado; Mobberley dá 20 e Kambič, 33 para a parte mais densa).

As estrelas. Segundo Mobberley, não há estrelas brilhantes no aglomerado, nem na frente dele; a grande maioria das mais de cem estrelas observáveis tem magnitude de 13 a 14, e há cerca de 2.000 estrelas muito mais fracas, invisíveis mesmo em telescópios grandes. Kambič conta cerca de 120 membros, dos quais os mais brilhantes chegam à magnitude 10; a diferença depende do critério e do instrumento.

Descoberta. Foi descoberto por Nicolas-Louis de Lacaille, na África do Sul, por volta de 1752 (Mobberley). A escolha de Patrick Moore para o catálogo Caldwell, diz Mobberley, foi por ser o mais bonito da região.

Estruturas notáveis

  • A forma esférica. O aglomerado é quase redondo, com adensamento gradual para o centro, o que confunde com um globular (Mobberley).
  • A ausência de estrelas de destaque. Sem estrelas brilhantes de primeiro plano, o efeito é o de um mar de pontos uniformes (Mobberley).
  • A região central. Segundo Kambič, a parte central é um pouco menor que a de M46, mas mais rica e densa.
  • Estrelas de campo. A estrela SAO 198545 (magnitude 4,5) fica ao sul-sudeste (Bakich); Kambič a chama de b Puppis (magnitude 4) e a considera a referência para procurar a nebulosidade fraca em torno do aglomerado.
  • O vizinho NGC 2451. A cerca de 1½° a oes-noroeste (Mobberley), é maior e mais brilhante, com uma estrela de magnitude 3,5 no centro e uma dúzia de estrelas de 5ª a 8ª magnitude, um contraste completo com NGC 2477. Kambič lista NGC 2451 (magnitude 2,8 e cerca de 45′), e Tonkin comenta que ele funciona bem em binóculo 10×50, com uma estrela laranja e vizinhas brancas.

Como localizar

O ponto de partida é Naos (Zeta Puppis), de magnitude 2, a estrela mais brilhante da região. NGC 2477 está cerca de 1½° ao norte e 2¼° a oeste dela (Mobberley), a cerca de 2,6° a oes-noroeste (Bakich); Kambič a descreve como cerca de 3° a noroeste. Ele cabe no mesmo campo de binóculo que Naos, e NGC 2451 fica mais 1½° a oeste-noroeste.

Carta de localização de NGC 2477: as estrelas-guia nomeadas, setas tracejadas com a distância em graus até o alvo, escala em graus e indicação de norte e leste.
Carta de localização (star-hopping), no mesmo estilo das cartas de constelação: norte e leste indicados no canto. Anéis laranja: estrelas-guia; setas tracejadas: o caminho até o alvo, com a distância em graus; anel verde: o alvo (e, com a designação, outros objetos do campo); a barra mostra a escala. As linhas são as oficiais das constelações (d3-celestial), os limites são os da IAU e as estrelas vêm do catálogo HYG.

Quando e como observar

Em declinação −38,5°, NGC 2477 culmina a cerca de 74° de altura no Rio, ao sul, quase a pino, no melhor ponto possível para um aglomerado de brilho médio. Em contraste, Kambič lembra que, no meridiano, o aglomerado só chega a 5,5° acima do horizonte em latitudes médias do hemisfério norte: nós temos uma vista muito melhor. A melhor época vai de dezembro a março (Mobberley), com culminação em torno da meia-noite em meados de janeiro e no início da noite no fim de fevereiro. No meridiano, o norte fica para cima e o leste para a esquerda.

O primeiro gráfico mostra a altura do objeto ao longo do ano; o segundo, o caminho do aglomerado pelo céu nesta noite, seguido da altura hora a hora.

Altura de NGC 2477 ao longo do anoAltura à meia-noite astronômica e altura máxima da noite, a cada 5 dias. Melhor época: de novembro a março. O objeto chega a 74° à meia-noite em janeiro.0°30°60°90°JANFEVMARABRMAIJUNJULAGOSETOUTNOVDEZ16 jan · 74°hoje
Altura ao longo do ano, a cada 5 dias: linha contínua = altura no meio da noite astronômica (Sol abaixo de −18°); tracejada = maior altura durante a noite escura; faixa verde = melhor época; linhas pontilhadas em 30° e 45°. A linha vertical marca hoje. Melhor época para este local: de novembro a março (objeto acima de 30° no meio da noite). Ponto mais alto: 74° em 16 de janeiro.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

2026-10-12 · 19:20 – 04:10

Esta noite no céu

Melhores alvos da noite
Melhor horário
04:00 · 57° SE
Horas acima de 45°
1,2 h
Lua
Lua crescente · 6 %
Nota da noite
71 / 100
Posição no céu
51
Brilho
100 mag 5,8
Enquadramento
100 ocupa 41 % do campo

Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).

Trajetória de NGC 2477 pelo céu nesta noiteCéu visto de baixo, zênite no centro e horizonte na borda. O objeto fica acima do horizonte entre 23:10 e 04:50 durante a noite; o ponto mais alto é às 04:00, com 57°. A tabela ao lado traz os mesmos valores.15°30°45°60°75°NNELSESSOONO00:0001:0002:0003:0004:00
Caminho do objeto pelo céu nesta noite, do fim do crepúsculo civil ao amanhecer. Centro = zênite, borda = horizonte; visto olhando para cima (leste à esquerda, oeste à direita). Marcadores a cada 30 minutos.
  • Crepúsculo civil (Sol até −12°)
  • Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
  • Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
  • Altura abaixo de 20°
  • Altura abaixo de 30°
  • Altura abaixo de 45°
  • Hora cheia e meia hora
  • Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
Altura e direção do objeto a cada 30 minutos
Hora Altura Direção Da Lua
19:30 -26° — 87°
20:00 -24° — 87°
20:30 -21° — 87°
21:00 -18° — 87°
21:30 -14° — 88°
22:00 -10° — 88°
22:30 -5° — 88°
23:00 0° — 88°
23:30 5° SE 130° 88°
00:00 11° SE 128° 88°
00:30 16° SE 126° 88°
01:00 22° SE 124° 89°
01:30 28° ESE 123° 89°
02:00 33° ESE 122° 89°
02:30 39° ESE 122° 89°
03:00 45° ESE 122° 89°
03:30 51° ESE 124° 89°
04:00 57° SE 126° 89°
Altura de NGC 2477 ao longo da noiteAltura em graus a cada 30 minutos. O ponto mais alto é às 04:00, com 57°. A tabela abaixo traz os mesmos valores.0°30°60°90°202122230001020304abaixo do horizonte04:00 · 57°
Altura em graus ao longo da noite escura (linhas em 30° e 45°). A Lua aparece tracejada.

Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

O que ver

Instrumento O que esperar
A olho nu Uma mancha muito tênue em céu escuro; em Bortle 7, não espere ver. O Bakich diz que o aglomerado é visível a olho nu em céu escuro.
Binóculo (7×50 a 15×70) Um brilho esférico e granulado, sem estrelas evidentes: as estrelas individuais são fracas demais (magnitude 13 a 14, segundo o Mobberley) para se separarem em binóculo comum.
Telescópio de 100 mm Mais de 60 estrelas, com o Bakich, e o mínimo recomendado pelo Mobberley é 10 cm.
Telescópio de 200 a 300 mm Uma centena ou mais de estrelas de mesmo brilho. O Bakich sugere a técnica de contagem por setores: conte as estrelas de um quadrante (por exemplo, das 12 às 3 horas) e multiplique por quatro; ele fala em totais de 150 a 200 ou mais.

Expectativa honesta: NGC 2477 é um alvo mais "de telescópio" do que os aglomerados de Carina, porque as estrelas são fracas. Os melhores resultados vêm com 100 mm ou mais, visão indireta e um céu razoavelmente transparente. A contagem por setores é um exercício útil para treinar a observação e comparar a transparência do céu entre noites.

Astrofotografia: estratégia de captura

Enquadramento

Com cerca de 18′, o aglomerado cabe folgadamente em quase qualquer campo. Com um telescópio de 1.000 mm e uma câmera como a ASI294MC Pro (campo de cerca de 1,1° × 0,75°), você enquadra NGC 2477 com espaço em volta. Mobberley o classifica como alvo de imageamento fácil.

Desafios do alvo

  • Estrelas fracas e uniformes. O que importa aqui é a profundidade: o aglomerado só ganha o aspecto de "globular" quando muitas estrelas de magnitude 13 a 14 aparecem. Priorize o tempo total de exposição.
  • Foco e guiagem. Com centenas de estrelas quase iguais, um foco preciso e uma boa guiagem são essenciais.
  • Estrelas de campo. A estrela de magnitude 4,5 ao sul pode criar reflexos; um enquadramento bem posicionado ajuda.

Equipamento e filtros

Uma câmera colorida de um disparo basta. Não há filtro específico para aglomerados; se o céu for muito poluído, uma luminância de banda larga com corte de poluição ajuda, com alteração de cor.

Exemplo de sessão (ponto de partida)

Tipo de quadro Quantidade Exposição Finalidade
Light 60 a 90 60 a 120 s Estrelas fracas e cor
Dark 30 igual aos Lights Calibração do ruído térmico
Flat 30 automática Correção de vinheta e poeira
Bias ou dark-flat 50 mais curta possível Calibração do ruído de leitura

Esses números são um ponto de partida, e não vêm dos livros; nenhum dos livros de astrofotografia consultados trata deste objeto.

Smart telescopes e campo de visão

NGC 2477 cabe com folga no campo de um smart telescope como o Seestar S50 (cerca de 1,3° × 0,7°), e o quadro ainda inclui muitas estrelas de campo. Como as estrelas do aglomerado são fracas e uniformes, o empilhamento de muitas exposições revela mais estrelas e aproxima a imagem do aspecto de globular. Escolha o seu modelo no mapa abaixo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.

0°

Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.

Considerações finais

NGC 2477 é um dos aglomerados mais curiosos do catálogo Caldwell, justamente por não parecer com nada em volta. Ele pede telescópio e paciência, e recompensa quem faz a contagem por setores ou aposta no empilhamento. Para complementar a noite, combine-o com o vizinho NGC 2451, mais brilhante e fácil de ver em binóculo, e, se quiser mudar de tipo, com o Cruzeiro do Sul e os aglomerados de Carina, como NGC 2516, que passam por ali no mesmo período.

Referências

  • BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 67 (NGC 2477).
  • KAMBIČ, Bojan. Viewing the Constellations with Binoculars: 250+ Wonderful Sky Objects to See and Explore. New York: Springer, 2010. Aglomerados abertos, p. 110-111; Popa, NGC 2477 e NGC 2451, p. 403-404.
  • MOBBERLEY, Martin. The Caldwell Objects and How to Observe Them. New York: Springer, 2009. Caldwell 71, p. 150-151.
  • TONKIN, Stephen. Binocular Astronomy. London: Springer, 2007. "50 Deep Sky Objects for 50 mm Binoculars", NGC 2451, p. 141 (página impressa a conferir).
  • SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas e paralaxe de NGC 2477, em 21 set. 2026.
  • HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.