setembro 21, 2026

M 50, o aglomerado do Unicórnio: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2) de M50 — objeto ainda não capturado no observatório

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.

Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. UK Schmidt Telescope (UKST) / AAO–ROE. Créditos

Entre Sirius e Procyon, no meio da Via Láctea do verão austral, há um aglomerado que passa despercebido por quase todo mundo: o M 50. Ele fica em Monoceros, o Unicórnio, uma constelação apagada, e por isso é um dos Messier menos falados. Mas é um aglomerado compacto e bonito, que em céu escuro chega ao limite da visão a olho nu e em binóculo aparece como uma nuvem de estrelas fracas. Bakich o chama de Aglomerado Coração, pelo formato do seu núcleo. Do Rio de Janeiro, ele passa a uns 75° de altura, ao norte do zênite, entre dezembro e março. Este guia reúne os dados, o roteiro para achá-lo, o que esperar de cada instrumento e as dicas para fotografar um alvo que mora em um campo estelar muito denso.

Texto em revisão. Este é um dos guias do novo formato de objeto, ainda em rascunho. As fontes estão listadas no final.

Imagem de referência (DSS2) de M50 — objeto ainda não capturado no observatório
Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. UK Schmidt Telescope (UKST) / AAO–ROE. Imagem de referência: este objeto ainda não foi fotografado no Observatório. Créditos

Ficha técnica e designações

Visão geral: um aglomerado compacto num campo lotado

O M 50 (NGC 2323) é um aglomerado aberto: um grupo de estrelas nascidas juntas da mesma nuvem de gás, ainda ligadas frouxamente e destinadas a se dispersar com o tempo. Este está em uma região muito rica da Via Láctea, o que torna difícil dizer onde termina o aglomerado e começam as estrelas de fundo (Allison; Monks).

M 50 em números. O SIMBAD dá paralaxe de 1,00 milissegundo de arco, o que equivale a cerca de 3.300 anos-luz, na mesma faixa dos livros (3.000 em Monks, 3.200 em Kambič e 3.260 em Allison). O diâmetro aparente no SIMBAD é de cerca de 32′, mas os livros medem só o núcleo compacto, com 14′ a 16′ (Kambič; Bakich; Monks; Allison), o que Ridpath resume como cerca de metade do tamanho da Lua cheia. A 3.300 anos-luz, o núcleo tem de 18 a 20 anos-luz de diâmetro real (Kambič; Monks); o valor do SIMBAD, com a periferia fraca, chega a uns 30. A magnitude integrada é 5,9 (Bakich, Kambič, Allison).

Quantas estrelas. Kambič diz que o aglomerado tem pouco menos de 200 estrelas, e as mais brilhantes só chegam à magnitude 8. Allison fala em cerca de 100 estrelas entre as magnitudes 9 e 14. Monks conta pelo menos 109, incluindo uma gigante vermelha (SAO 134103) e algumas amarelas, e estima a idade em cerca de 100 milhões de anos, o que faz dele um aglomerado jovem.

O nome e o formato. Bakich explica que o apelido de Coração vem do núcleo oval mais duas trilhas de estrelas que saem dele. Nem todos veem o desenho: Monks conta que essa forma de coração nunca foi óbvia para ele. Allison, com um refletor de 8″ e 48×, viu um desenho de cruz com uma seta, formado pelas estrelas mais brilhantes. Bakich lembra que Smyth descreveu o aglomerado como rico, com estrelas das magnitudes 8 a 16.

História. Moore e Rees creditam a primeira anotação a Cassini, por volta de 1711, na tabela de descobertas de objetos de céu profundo.

Estruturas notáveis

  • O núcleo oval e as trilhas de estrelas. Bakich as descreve como cadeias curvas de estrelas de magnitude 8 a 10, que dão ao aglomerado o aspecto de coração.
  • A cruz e a seta. Um desenho visto por Allison em baixo aumento, formado pelas estrelas mais brilhantes.
  • O fundo enevoado. Em binóculo, as estrelas fracas se fundem numa névoa delicada (Kambič).
  • Vizinhos. Kambič lista os pequenos NGC 2343 (magnitude 6,7, pouco mais de 7′, a cerca de 3.400 anos-luz) e NGC 2353 (magnitude 7,1, cerca de 20′, a cerca de 3.650 anos-luz), ambos ao sul, e diz que só se veem em noites excelentes. Bakich cita NGC 2316, uma pequena nebulosa em forma de cometa a noroeste do M 50, com brilho uniforme num 250 mm a 200× e realçada por um filtro nebular.

Como localizar

Não há um ponto de partida único. Moore o coloca aproximadamente entre Sirius e Procyon, e Allison, cerca de 9° de Sirius. Pelas coordenadas do SIMBAD, o M 50 fica mesmo mais ou menos no caminho de Sirius a Procyon, um pouco mais perto de Sirius; do lado de lá dele fica Alfa Monocerotis (magnitude 3,9), e no mesmo campo de binóculo há o aglomerado NGC 2506, o Caldwell 54 (Moore; Mobberley). Tonkin traz a referência mais precisa: o M 50 fica cerca de 4° a nor-nordeste de Theta Canis Majoris, de magnitude 4. Kambič usa a mesma estrela de partida em seu mapa.

Mobberley lembra que o sul de Monoceros, o nordeste do Cão Maior e Popa estão cheios de aglomerados abertos, e que os mais conhecidos, M 48 e M 50, são quase duas magnitudes mais brilhantes e bem maiores que NGC 2506.

Carta de localização de M50: as estrelas-guia nomeadas, setas tracejadas com a distância em graus até o alvo, escala em graus e indicação de norte e leste.
Carta de localização (star-hopping), no mesmo estilo das cartas de constelação: norte e leste indicados no canto. Anéis laranja: estrelas-guia; setas tracejadas: o caminho até o alvo, com a distância em graus; anel verde: o alvo (e, com a designação, outros objetos do campo); a barra mostra a escala. As linhas são as oficiais das constelações (d3-celestial), os limites são os da IAU e as estrelas vêm do catálogo HYG.

Quando e como observar

Com declinação de −8,4°, o M 50 culmina no Rio a cerca de 75° de altura, ao norte do zênite. Isso dá uma vista limpa, longe da neblina do horizonte, algo que os observadores do hemisfério norte não têm. A melhor época vai de dezembro a abril; a culminação acontece perto da meia-noite no início de janeiro e no início da noite no início de março. Como o aglomerado está no meio de um campo estelar rico, uma noite transparente ajuda mais que a altura.

O primeiro gráfico mostra a altura do objeto ao longo do ano; o segundo, a noite de hoje.

Altura de M50 ao longo do anoAltura à meia-noite astronômica e altura máxima da noite, a cada 5 dias. Melhor época: de novembro a março. O objeto chega a 75° à meia-noite em janeiro.0°30°60°90°JANFEVMARABRMAIJUNJULAGOSETOUTNOVDEZ6 jan · 75°hoje
Altura ao longo do ano, a cada 5 dias: linha contínua = altura no meio da noite astronômica (Sol abaixo de −18°); tracejada = maior altura durante a noite escura; faixa verde = melhor época; linhas pontilhadas em 30° e 45°. A linha vertical marca hoje. Melhor época para este local: de novembro a março (objeto acima de 30° no meio da noite). Ponto mais alto: 75° em 6 de janeiro.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

2026-10-13 · 19:20 – 04:10

Esta noite no céu

Melhores alvos da noite
Melhor horário
04:00 · 65° ENE
Horas acima de 45°
1,7 h
Lua
Lua crescente · 12 %
Nota da noite
77 / 100
Posição no céu
61
Brilho
100 mag 5,9
Enquadramento
100 ocupa 31 % do campo

Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).

Trajetória de M50 pelo céu nesta noiteCéu visto de baixo, zênite no centro e horizonte na borda. O objeto fica acima do horizonte entre 23:20 e 04:50 durante a noite; o ponto mais alto é às 04:00, com 65°. A tabela ao lado traz os mesmos valores.15°30°45°60°75°NNELSESSOONO00:0001:0002:0003:0004:00
Caminho do objeto pelo céu nesta noite, do fim do crepúsculo civil ao amanhecer. Centro = zênite, borda = horizonte; visto olhando para cima (leste à esquerda, oeste à direita). Marcadores a cada 30 minutos.
  • Crepúsculo civil (Sol até −12°)
  • Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
  • Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
  • Altura abaixo de 20°
  • Altura abaixo de 30°
  • Altura abaixo de 45°
  • Hora cheia e meia hora
  • Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
Altura e direção do objeto a cada 30 minutos
Hora Altura Direção Da Lua
19:30 -47° — 121°
20:00 -41° — 121°
20:30 -35° — 121°
21:00 -29° — 121°
21:30 -23° — 121°
22:00 -16° — 121°
22:30 -10° — 122°
23:00 -3° — 122°
23:30 4° E 97° 122°
00:00 11° E 95° 122°
00:30 18° E 92° 122°
01:00 25° E 89° 123°
01:30 32° E 86° 123°
02:00 39° E 82° 123°
02:30 46° ENE 78° 123°
03:00 52° ENE 73° 123°
03:30 59° ENE 67° 124°
04:00 65° ENE 58° 124°
Altura de M50 ao longo da noiteAltura em graus a cada 30 minutos. O ponto mais alto é às 04:00, com 65°. A tabela abaixo traz os mesmos valores.0°30°60°90°202122230001020304abaixo do horizonte04:00 · 65°
Altura em graus ao longo da noite escura (linhas em 30° e 45°). A Lua aparece tracejada.

Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

O que ver

Instrumento O que esperar
A olho nu No limite da visibilidade em céu escuro (Bakich; Kambič). Sob Bortle 7, não conte com isso.
Binóculo Tonkin: um 10×50 resolve poucas estrelas sobre o brilho de fundo das cerca de cem que compõem o aglomerado. Kambič: cerca de 30 estrelas em condições excelentes e cerca de 60 numa noite perfeita, com o restante fundido numa névoa. Ridpath: o binóculo o mostra, mas só um telescópio separa as estrelas.
Telescópio de 100 mm Um grupo compacto e granulado; Bakich conta cerca de 50 estrelas em 12′ com 100×. Allison, com 8″ a 48×, separa a cruz de estrelas brilhantes.
Telescópio de 200 mm ou mais Mais estrelas, mas também mais campo de fundo: Monks lembra que o aglomerado é compacto e fica difícil de destacar contra a Via Láctea.
Filtros Nenhum. Não há nebulosidade no aglomerado.

Expectativa honesta. O M 50 não é o Messier mais espetacular do céu de verão: sua graça está na cor e na densidade, e ele depende de uma noite transparente para ser distinguido do campo. É um bom complemento a M 41, M 46 e M 47, mais que um alvo principal.

Astrofotografia: estratégia de captura

Os livros de astrofotografia consultados não tratam do M 50. As recomendações abaixo seguem as regras que Kier dá para aglomerados abertos brilhantes (p. 39 e 45) e cálculos de campo.

Enquadramento

O núcleo do M 50 mede de 14′ a 16′, mas a periferia, no SIMBAD, chega a 32′. Como o aglomerado está numa área muito rica da Via Láctea, um campo de 1° ou mais mostra melhor o contexto e permite separá-lo do fundo, o que Kier recomenda. Com um telescópio de 1.000 mm e uma câmera como a ASI294MC Pro (campo de cerca de 1,1° × 0,75°, calculado a partir do sensor), o aglomerado ocupa uma boa parte do quadro; com 500 mm (campo de 2,2° × 1,5°) ele ganha contexto. Kambič mostra uma imagem de 4,5° × 4,5° com NGC 2343 e NGC 2353 no mesmo campo, um enquadramento possível com uma lente de cerca de 250 mm e esse mesmo sensor (cálculo próprio).

Desafios do alvo

  • Fundo muito denso. É o principal desafio: as estrelas de fundo competem com o aglomerado. Exposições curtas e boa resolução ajudam a evitar que tudo vire uma massa de pontos.
  • Estrelas brilhantes e blooming. Kier recomenda exposições curtas em aglomerados, para não criar espigões.
  • Alinhamento dos canais. Alinhe bem os canais de cor, para não gerar halos assimétricos (Kier).

Equipamento e filtros

Kier sugere RGB ou câmera colorida de um disparo, sem camada de luminância, e refoco a cada troca de filtro em refratores com cor imperfeita. Aglomerados são bons alvos sob céu poluído, porque o gradiente do fundo é fácil de subtrair. Não é preciso filtro de banda estreita.

Exemplo de sessão (ponto de partida)

Tipo de quadro Quantidade Exposição Finalidade
Light 60 a 90 30 a 60 s Cor das estrelas sem saturar as mais brilhantes
Dark 30 igual aos Lights Calibração do ruído térmico
Flat 30 automática Correção de vinheta e poeira
Bias ou dark-flat 50 mais curta possível Calibração do ruído de leitura

Esses números são um ponto de partida, e não vêm dos livros: ajuste-os ao seu sensor, ao seu telescópio e ao céu da noite.

Smart telescopes e campo de visão

O M 50 cabe com folga no campo de um smart telescope como o Seestar S50 (cerca de 1,3° × 0,7°), mesmo se considerarmos os 32′ do SIMBAD. Como o campo de fundo é muito rico em estrelas, o empilhamento de mais tempo ajuda a mostrar a nuvem fraca que cerca o núcleo. Abra o mapa e escolha o seu modelo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.

0°

Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.

Considerações finais

O M 50 é um aglomerado modesto e agradável, daqueles que revelam a sua graça aos poucos. É um bom alvo para uma noite de verão dedicada à Via Láctea de Monoceros, junto com a Nebulosa da Roseta e o Cone e a Árvore de Natal, que ficam na mesma constelação. Se preferir um aglomerado mais fácil, volte ao M 41, ao M 46 e ao M 47.

Referências

  • ALLISON, Mark. Star Clusters and How to Observe Them. London: Springer, 2006. M 50, p. 139.
  • BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objetos nº 15 (M 50) e 14 (NGC 2316).
  • KAMBIČ, Bojan. Viewing the Constellations with Binoculars: 250+ Wonderful Sky Objects to See and Explore. New York: Springer, 2010. Monoceros, M 50 e vizinhos, p. 346-350.
  • KIER, Ruben. The 100 Best Targets for Astrophotography. New York: Springer, 2009. Regras para aglomerados abertos, p. 39 e 45.
  • MOBBERLEY, Martin. The Caldwell Objects and How to Observe Them. New York: Springer, 2009. Caldwell 54 (NGC 2506), p. 118.
  • MONKS, Neale. Go-To Telescopes Under Suburban Skies. New York: Springer, 2011. NGC 2323 (M 50), p. 34-35.
  • MOORE, Patrick. The Observer's Year: 366 Nights of the Universe. 2. ed. London: Springer, 2005. Monoceros e M 50 (27 de março), p. 93.
  • MOORE, Patrick; REES, Robin. Patrick Moore's Data Book of Astronomy. Cambridge: Cambridge University Press, 2011. Tabela de descobertas de objetos de céu profundo, p. 339.
  • RIDPATH, Ian. Astronomia (Guia Ilustrado Zahar). 4. ed. Rio de Janeiro: Zahar. Unicórnio, p. 193.
  • TONKIN, Stephen. Binocular Astronomy. London: Springer, 2007. M 50, p. 131.
  • SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, paralaxe e dimensões de M 50 (NGC 2323), em 21 set. 2026.
  • HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.