setembro 21, 2026
M 3, o globular dos Cães de Caça: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.
Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Créditos
M 3 é o globular que os observadores do hemisfério norte têm como um dos três ou quatro melhores do seu céu. Do Rio de Janeiro, a história é diferente: ele fica a +28° de declinação, isto é, bem ao norte do equador celeste, e nunca passa de cerca de 39° de altura. Isso não o torna impossível: é um alvo perfeitamente acessível em binóculo e telescópio, mas você o observa através de uma camada maior de atmosfera, perto do brilho urbano do horizonte, e a imagem perde parte do brilho e da nitidez que ele teria no norte. Para muita gente, é a melhor razão para conhecer os globulares brilhantes do outono e do começo do inverno austral. Este guia reúne os dados, o caminho para achar M 3, o melhor momento, o que dá para ver, como tratar a baixa altura e como fotografá-lo.
Texto em revisão. Este é um artigo de teste do novo formato de guia de objeto. Dados, mapas, gráficos de altura e estratégia de captura estão todos aqui. As fontes estão listadas no final.

Ficha técnica e designações
Visão geral: meio milhão de estrelas a cerca de 29.700 anos-luz
O que é. M 3 é um aglomerado globular, uma esfera de estrelas muito antigas ligadas pela gravidade, que orbita a Galáxia no halo. Kier descreve o de M 3 como um dos mais ricos: cerca de 500.000 estrelas, com metade delas dentro de um raio de apenas 11 anos-luz do centro. Para comparação, no mesmo volume em torno do Sol há uma dúzia de estrelas (Kier, "Globular Cluster M3", p. 150).
Distância e tamanho. A paralaxe listada no SIMBAD (0,11 milissegundo de arco) dá cerca de 29.700 anos-luz (Kier e Allison trazem 33.000 e 32.000). O SIMBAD indica 16,2′ de diâmetro, e os livros trazem de 16′ a 18′. Nessa distância, isso é um pouco mais de 140 anos-luz.
Brilho. A magnitude visual do SIMBAD é 6,39, e os livros trazem 5,9 (Kier), 6,2 (Allison, Bakich) e "cerca de 6" (Ridpath, Philip's). É o limite da visão a olho nu: Philip's fala de um objeto "no limite do olho nu" (Philip's, "Canes Venatici", p. 69), e Bakich propõe enxergá-lo sem instrumentos em céu muito escuro como desafio, dizendo que é difícil, mas há relatos. Em Bortle 7, isso está fora de questão; o binóculo é o primeiro instrumento.
Estrelas variáveis. M 3 é notável por ter um número incomumente alto de estrelas variáveis, que serviram para calcular a distância do aglomerado (Kier, p. 150). Variáveis desse tipo são "velas padrão" que ligam o brilho observado à distância real.
Movimento. O SIMBAD lista uma velocidade radial de cerca de −147 km/s, ou seja, M 3 se aproxima do Sol.
História. Segundo o Philip's, o globular M 3 foi a primeira descoberta feita apenas por Charles Messier, em 1764, e foi ela que o levou a iniciar a busca sistemática de objetos difusos (verbete "Messier, Charles", p. 256). Para Smyth, em 1844, era um "globular brilhante de mais de mil estrelas" que lembrava uma medusa (citado por Bakich).
Estruturas notáveis
- Núcleo largo e brilhante. Bakich diz que o centro ocupa cerca de metade da largura visível, e Tonkin, que em 37 aumentos se nota um brilho crescente até o núcleo (Tonkin, p. 168).
- O halo granulado. Em 8″ (200 mm) e 133 aumentos, Allison vê o aglomerado "mosqueado", com o começo da resolução em estrelas (Allison, p. 153).
- A estrela amarelada a sudoeste. Tonkin cita uma estrela de 6ª magnitude ligeiramente ao sudoeste, amarelada, boa para confirmar a identificação em binóculo (p. 168).
Como localizar
M 3 fica em Cães de Caça, na divisa com o Boieiro e com Cabeleira de Berenice. O caminho mais usado liga Arcturo, a estrela brilhante e alaranjada do Boieiro, a Cor Caroli (α Canum Venaticorum, a estrela principal dos Cães). M 3 fica mais ou menos no meio dessa linha de cerca de 25° (Bakich; Ridpath; Allison). Tonkin sugere uma segunda rota: imaginar o cruzamento entre a linha de Cor Caroli a Arcturo e a de β Com a ρ Boo; se M 3 não estiver no campo, ela fica um pouco mais perto de Arcturo. Ou, a partir de β Com, dois campos e meio para leste (Tonkin, p. 168).
Do Rio, olhando para o norte, o leste fica à direita: Arcturo aparece mais alta e à direita, e Cor Caroli, à esquerda e bem mais baixa, perto do horizonte (a declinação dela, +38°, a deixa a uns 29° de altura no máximo). M 3 fica no meio dessa linha inclinada. Se você usa um mapa com o norte em cima, vire-o de cabeça para baixo para casá-lo com o céu.

Quando e como observar
A declinação de +28° dá a M 3 uma culminação de cerca de 39° de altura no Rio (90° − |−23° − 28°|, cálculo simples), e o objeto fica acima do horizonte por pouco mais de 10 horas por dia. Ele está bem posicionado no fim da tarde entre abril e junho, e a oposição ao Sol acontece em meados de abril, quando cruza o meridiano à meia-noite. Kier o posiciona no início de junho (do Norte, ao anoitecer); do Rio, junho já o coloca no oeste-noroeste no início da noite.
A altura tem consequências: menos altura significa mais atmosfera. A extinção reduz o brilho da estrela e da periferia, o seeing costuma piorar, e a imagem fica mais desfocada. Como o brilho urbano pesa mais perto do horizonte, procure um local com boa vista para o norte e observe quando M 3 estiver o mais alto possível, isto é, no meridiano.
O primeiro gráfico mostra a altura ao longo do ano; o segundo, a noite de hoje.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
2026-10-13 · 19:20 – 04:10
Esta noite no céu
Este objeto não passa de 30° de altura nesta noite (máximo: -26°). Não é um bom alvo hoje.
- Melhor horário
- 19:20 · -26° WNW
- Horas acima de 45°
- 0,0 h
- Lua
- Lua crescente · 12 %
- Nota da noite
- 0 / 100
- Posição no céu
- 0
- Brilho
- 94 mag 6,4
- Enquadramento
- 100 ocupa 36 % do campo
Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).
- Hora cheia e meia hora
- Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
| Hora | Altura | Direção | Da Lua |
|---|---|---|---|
| 19:30 | -28° | — | 60° |
| 20:00 | -35° | — | 60° |
| 20:30 | -41° | — | 61° |
| 21:00 | -48° | — | 61° |
| 21:30 | -55° | — | 61° |
| 22:00 | -61° | — | 61° |
| 22:30 | -68° | — | 61° |
| 23:00 | -74° | — | 61° |
| 23:30 | -80° | — | 62° |
| 00:00 | -85° | — | 62° |
| 00:30 | -82° | — | 62° |
| 01:00 | -77° | — | 62° |
| 01:30 | -70° | — | 62° |
| 02:00 | -64° | — | 62° |
| 02:30 | -57° | — | 63° |
| 03:00 | -50° | — | 63° |
| 03:30 | -44° | — | 63° |
| 04:00 | -37° | — | 63° |
Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
O que ver
| Instrumento | O que esperar |
|---|---|
| A olho nu | No limite, só em céu excelente (Bakich, Philip's). Em Bortle 7, não. |
| Binóculo (10×50) | Um globo brilhante e óbvio, com brilho crescendo até o núcleo (Tonkin). Ridpath fala de "bola de luz" entre Arcturo e Cor Caroli. |
| Telescópio de 100 mm | Bakich diz que já é ótimo com esse tamanho, com centro largo e brilhante; Ridpath diz que 100 mm resolve estrelas. Comece com cerca de 100 aumentos. |
| Telescópio de 200 mm | Mosqueado, com muitas estrelas se resolvendo a 133 aumentos (Allison). |
| Telescópio maior (250 mm ou mais) | Centenas de estrelas, e cadeias curvas e faixas escuras no halo; a perda de brilho do baixo horizonte é parcialmente compensada pela abertura. |
Um lembrete de honestidade: os livros de referência aqui são do hemisfério norte. Eles descrevem M 3 alta, perto do zênite. No Rio, com 39° de altura, calcule perder algo em resolução: o que Allison vê com 200 mm em um céu norte de altitude, você provavelmente verá com 250 mm ou mais (estimativa, não vem dos livros).
Astrofotografia: estratégia de captura
Enquadramento
Para Kier, numa noite estável dá para fotografar M 3 com um campo de cerca de 20′ e resolução abaixo de 1″ por pixel, para capturar o núcleo com detalhe; numa noite menos boa, um campo de 40′ a 50′ ainda rende uma imagem atraente. Com um telescópio de 1.000 mm e uma ASI294MC Pro, o campo é de cerca de 1,1° × 0,75° (calculado), com 0,95″/pixel: o aglomerado cabe folgadamente e fica com um bom campo de estrelas em volta, sem exigir seeing excepcional.
Desafios do alvo
- Altura de cerca de 39°. A refração atmosférica espalha as cores. Kier recomenda, em objetos baixos, produzir uma luminância sintética a partir dos canais R, G e B, em vez de uma luminância com filtro claro, e refocar a cada troca de filtro (Kier, p. 150).
- Núcleo brilhante. Diminua a exposição para não saturar o centro; combine séries curtas e longas.
- Céu urbano perto do horizonte. O fundo é mais claro em baixa altura; use subtração de gradiente e não force o histograma.
- Guiagem e seeing. Um campo mais largo reduz as exigências de guiagem e foco (Kier, M 5, p. 159).
Equipamento e filtros
M 3 é brilhante o bastante para o método RGB de rotina ou câmera colorida de tiro único (Kier). Não há razão para banda estreita: a luz é de estrelas. Aplique nitidez só na luminância (real ou sintética) para não criar ruído de cor.
Exemplo de sessão (ponto de partida)
| Tipo de quadro | Quantidade | Exposição | Finalidade |
|---|---|---|---|
| Light curto (núcleo) | 40 | 10 a 20 s | Preservar o centro |
| Light longo (halo) | 60 | 60 a 90 s | Estrelas fracas do halo |
| Dark | 30 | igual aos Lights | Calibração térmica |
| Flat | 30 | automática | Vinheta e poeira |
| Bias ou dark-flat | 50 | mais curta possível | Ruído de leitura |
Esses números são um ponto de partida e não vêm dos livros: ajuste-os ao seu sensor, ao telescópio e ao céu.
Smart telescopes e campo de visão
Com um Seestar S50 (campo de cerca de 1,3° × 0,7°), M 3 fica como uma bola brilhante no meio do quadro. O aparelho acompanha o objeto por mais de uma hora sem dificuldade, e o empilhamento reduz o efeito do seeing. Antes de começar, verifique se o horizonte norte está livre: com 39° de altura máxima, um prédio ou morro pode cortar a sessão. Abra o mapa abaixo e escolha o modelo para ver o campo sobre o aglomerado.
Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.
Considerações finais
M 3 é um globular de primeira linha que, no Rio, pede um pouco mais de cuidado: horizonte norte livre, observação no meridiano e expectativas ajustadas para o brilho perdido. Vale a pena, sobretudo como primeiro passo antes de conhecer os globulares que o hemisfério sul faz brilhar, como M 4, M 22 e Ômega Centauri. Para outro globular do outono e do inverno, alto no céu, veja M 5; para o comparativo com o grande globular do norte, M 13.
Referências
- ALLISON, Mark. Star Clusters and How to Observe Them. London: Springer (Astronomers' Observing Guides), 2006. Globulares de Coma Berenices, Virgem e Hidra, p. 149-153 (M 3, p. 153).
- BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 342 (M 3).
- KIER, Ruben. The 100 Best Targets for Astrophotography. New York: Springer, 2009. "Globular Cluster M3" (1º de junho), p. 150; M 5, p. 159.
- MOORE, Patrick (ed.). Philip's Astronomy Encyclopedia. London: Philip's, 2002. Verbetes "Canes Venatici" (p. 69) e "Messier, Charles" (p. 256).
- RIDPATH, Ian. Astronomia (Guia Ilustrado Zahar). 4. ed. Rio de Janeiro: Zahar. Cães de Caça, p. 160.
- TONKIN, Stephen. Binocular Astronomy. London: Springer, 2007. M 3, p. 168.
- SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, tipo, paralaxe, tamanho, magnitude V e velocidade radial de M 3, em 21 set. 2026.
- HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.