setembro 21, 2026

M 46, o aglomerado da Popa e a planetária NGC 2438: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2) de M46 — objeto ainda não capturado no observatório

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.

Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. UK Schmidt Telescope (UKST) / AAO–ROE. Créditos

Se existe um aglomerado que engana o observador, é o M 46. Em Popa (Puppis), ele parece um simples aglomerado aberto, denso e granulado, mas na sua borda norte esconde uma pequena nebulosa planetária, a NGC 2438, que na verdade está muito mais perto de nós e só calhou de ficar na mesma direção. Junto com o vizinho M 47, forma um dos pares de aglomerados mais interessantes do céu. Do hemisfério norte, os dois ficam baixos e são muitas vezes ignorados; do Rio de Janeiro, passam a quase 82° de altura, praticamente sobre a cabeça, no verão e no outono. Este guia reúne os dados, o roteiro para achá-lo, o que esperar dos instrumentos e como fotografar o aglomerado e sua planetária de bônus.

Texto em revisão. Este é um dos guias do novo formato de objeto, ainda em rascunho. As fontes estão listadas no final.

Imagem de referência (DSS2) de M46 — objeto ainda não capturado no observatório
Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. UK Schmidt Telescope (UKST) / AAO–ROE. Imagem de referência: este objeto ainda não foi fotografado no Observatório. Créditos

Ficha técnica e designações

Visão geral: um aglomerado velho e uma planetária de intrusa

O M 46 (NGC 2437) é um aglomerado aberto, ou seja, um grupo de estrelas nascidas juntas, ainda ligadas frouxamente pela gravidade. Comparado ao vizinho M 47, ele é mais velho, mais distante e mais denso: Kier o descreve como um conjunto de 400 estrelas fracas com uma idade de 300 milhões de anos e algumas estrelas amarelas; Monks dá cerca de 100 milhões de anos para o M 46 e uns 78 milhões para o M 47. Os dois autores divergem nos números, mas concordam que o M 46 é o mais maduro do par.

M 46 em números. O SIMBAD indica paralaxe de 0,60 milissegundo de arco, o que corresponde a cerca de 5.400 anos-luz, o mesmo valor de Kambič e Kier (Mollise usa 5.000, Parker 5.300 e Monks 5.500). O diâmetro aparente no SIMBAD é de 25′, um pouco menor que a Lua cheia e equivalente a uns 40 anos-luz; os livros dão de 20′ a 27′ e cerca de 30 anos-luz. A magnitude integrada é 6,1 (dos livros: Bakich, Kambič, Kier; o SIMBAD não traz magnitude V). Ridpath compara o tamanho do M 46 e do M 47 ao da Lua cheia e descreve o M 46 como o mais rico e mais distante do par.

Quantas estrelas. Mollise fala em pelo menos 150 estrelas entre as magnitudes 10 e 13. Kambič diz que os astrônomos reconheceram cerca de 100 membros, 70 deles mais brilhantes que a magnitude 11, e observa que algumas estrelas de magnitude 9 que se destacam em binóculo não pertencem ao aglomerado. Bakich fala em algumas centenas de estrelas e o considera um dos cem melhores objetos do céu.

História. Charles Messier o descobriu em 1771, segundo Bakich.

A planetária NGC 2438. Bakich e Kier descrevem uma nebulosa planetária de cerca de 1′ na borda norte do aglomerado, a uns 7′ do centro (Bakich; Mollise). Ela não é membro do M 46: Kambič a coloca a 3.300 anos-luz, Coe a 2.500 contra mais de 4.000 do aglomerado, e o SIMBAD, pela paralaxe (1,38 milissegundo de arco), a cerca de 2.400 anos-luz, menos da metade da distância do aglomerado. Coe diz que a semelhança de posição é uma ilusão de perspectiva, já que vemos o Universo em duas dimensões. Até a estrela de 11ª magnitude que se vê no meio da nebulosa é uma coincidência de posição (Coe): a estrela que realmente a ilumina tem magnitude 17,7 e é invisível em telescópios de amador (Bakich; Monks).

Estruturas notáveis

  • A borda norte com a planetária. NGC 2438 está a cerca de 7′ ao norte do centro, com magnitude 11 e cerca de 1′ de diâmetro (Bakich; Mollise).
  • A faixa escura. Bakich descreve uma faixa escura separando uma concentração de estrelas ao sul.
  • Vizinhos no campo. NGC 2423, fraco e solto, fica no mesmo campo largo (Kambič, Kier), assim como o pequeno NGC 2425 (Kier). Partindo do M 46 e passando pela estrela 9 Puppis, de magnitude 5, Kambič chega ao aglomerado NGC 2539.
  • A dupla 2 Puppis. Um par de estrelas brancas, de magnitudes 6,1 e 6,8, 0,9° a leste do M 46 (Bakich), que fecha o roteiro.

Como localizar

O ponto de partida mais conhecido é Sirius: o M 46 fica 13°45′ a leste dela (Mollise). Uma alternativa é Alfa Monocerotis (magnitude 3,9), da qual o M 46 e o M 47 ficam uns 5° ao sul. Tonkin conta que, na falta de Alfa Mon, basta varrer dois campos e meio de 5° a leste de Sirius e mais meio campo ao norte. Kambič lembra que, se você posicionar Alfa Mon no limite norte do campo do binóculo, os dois aglomerados aparecem no limite sul.

O M 47 fica 1°18′ a oeste do M 46 (Mollise). Cuidado com a confusão: Mollise admite que já tentou achar a planetária olhando o aglomerado errado. O M 46 é o do leste, o mais denso; o M 47 é o do oeste.

Carta de localização de M46: as estrelas-guia nomeadas, setas tracejadas com a distância em graus até o alvo, escala em graus e indicação de norte e leste.
Carta de localização (star-hopping), no mesmo estilo das cartas de constelação: norte e leste indicados no canto. Anéis laranja: estrelas-guia; setas tracejadas: o caminho até o alvo, com a distância em graus; anel verde: o alvo (e, com a designação, outros objetos do campo); a barra mostra a escala. As linhas são as oficiais das constelações (d3-celestial), os limites são os da IAU e as estrelas vêm do catálogo HYG.

Quando e como observar

Com declinação de −14,8°, o M 46 culmina no Rio a uns 82° de altura, ao norte do zênite. É um dos alvos que mais se beneficiam da nossa latitude: Kier e Parker lembram que, no hemisfério norte, o aglomerado passa raspando as árvores da linha do horizonte, algumas horas por noite no auge do inverno. A melhor época vai de janeiro a abril; a culminação ocorre perto da meia-noite em meados de janeiro e no início da noite em meados de março. Como o aglomerado está tão alto, a refração é mínima e o brilho de fundo do horizonte não o atrapalha.

O primeiro gráfico mostra a altura do objeto ao longo do ano; o segundo, a noite de hoje.

Altura de M46 ao longo do anoAltura à meia-noite astronômica e altura máxima da noite, a cada 5 dias. Melhor época: de novembro a março. O objeto chega a 82° à meia-noite em janeiro.0°30°60°90°JANFEVMARABRMAIJUNJULAGOSETOUTNOVDEZ11 jan · 82°hoje
Altura ao longo do ano, a cada 5 dias: linha contínua = altura no meio da noite astronômica (Sol abaixo de −18°); tracejada = maior altura durante a noite escura; faixa verde = melhor época; linhas pontilhadas em 30° e 45°. A linha vertical marca hoje. Melhor época para este local: de novembro a março (objeto acima de 30° no meio da noite). Ponto mais alto: 82° em 11 de janeiro.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

2026-10-13 · 19:20 – 04:10

Esta noite no céu

Melhores alvos da noite
Melhor horário
04:00 · 60° E
Horas acima de 45°
1,2 h
Lua
Lua crescente · 12 %
Nota da noite
71 / 100
Posição no céu
53
Brilho
98 mag 6,1
Enquadramento
100 ocupa 47 % do campo

Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).

Trajetória de M46 pelo céu nesta noiteCéu visto de baixo, zênite no centro e horizonte na borda. O objeto fica acima do horizonte entre 23:40 e 04:50 durante a noite; o ponto mais alto é às 04:00, com 60°. A tabela ao lado traz os mesmos valores.15°30°45°60°75°NNELSESSOONO00:0001:0002:0003:0004:00
Caminho do objeto pelo céu nesta noite, do fim do crepúsculo civil ao amanhecer. Centro = zênite, borda = horizonte; visto olhando para cima (leste à esquerda, oeste à direita). Marcadores a cada 30 minutos.
  • Crepúsculo civil (Sol até −12°)
  • Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
  • Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
  • Altura abaixo de 20°
  • Altura abaixo de 30°
  • Altura abaixo de 45°
  • Hora cheia e meia hora
  • Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
Altura e direção do objeto a cada 30 minutos
Hora Altura Direção Da Lua
19:30 -47° — 109°
20:00 -43° — 109°
20:30 -38° — 109°
21:00 -33° — 110°
21:30 -27° — 110°
22:00 -21° — 110°
22:30 -15° — 110°
23:00 -9° — 110°
23:30 -2° — 111°
00:00 5° ESE 104° 111°
00:30 11° ESE 102° 111°
01:00 18° E 99° 111°
01:30 25° E 96° 111°
02:00 32° E 94° 111°
02:30 39° E 91° 112°
03:00 46° E 88° 112°
03:30 53° E 85° 112°
04:00 60° E 80° 112°
Altura de M46 ao longo da noiteAltura em graus a cada 30 minutos. O ponto mais alto é às 04:00, com 60°. A tabela abaixo traz os mesmos valores.0°30°60°90°202122230001020304abaixo do horizonte04:00 · 60°
Altura em graus ao longo da noite escura (linhas em 30° e 45°). A Lua aparece tracejada.

Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

O que ver

Instrumento O que esperar
A olho nu Não é um alvo de olho nu; o vizinho M 47 é o que se vê.
Binóculo Uma mancha redonda e clara, com algumas estrelas de magnitude 9 que não são membros (Kambič). Em um 10×50, talvez nenhuma estrela se resolva, ao contrário do M 47 (Tonkin).
Telescópio de 100 mm Bakich: 100 mm ou mais bastam; a 4,25″ Mollise contou pelo menos 30 estrelas mesmo numa noite ruim. Em telescópios pequenos, Monks diz que o aglomerado parece mais uma mancha enevoada, e é difícil de ver sob céu poluído.
Telescópio de 200 mm Bakich: uma centena de estrelas num círculo de pouco menos de 0,5°. Monks: a planetária exige ao menos 200 mm e um filtro de banda estreita ou OIII ajuda muito.
Telescópio grande Mollise, com um C11 e um filtro OIII, viu uma nebulosa cinza-esverdeada com o aspecto de um "M 57 em miniatura", com o centro escuro. Coe, com 10″ a 8,8 mm, descreve a nebulosa como brilhante, grande e alongada (1,2′ × 1′), verde-clara; com 25″ a 300× ele vê três estrelas dentro dela e uma estrutura em duas camadas.
Filtros O OIII é a ferramenta para NGC 2438: com ele, a nebulosa "se destaca como um semáforo esverdeado" entre as estrelas amareladas (Mollise). Perto de 150× já é possível notar que ela não é estelar.

Expectativa honesta. Sob céu Bortle 7 do Rio, o M 46 é um alvo de telescópio pequeno a médio, e a planetária pede pelo menos 200 mm, um filtro OIII e uma noite razoável. Mollise conta que, numa noite de neblina, só conseguiu vê-la depois que Popa subiu um pouco mais: por aqui, a altura ajuda.

Astrofotografia: estratégia de captura

Enquadramento

Kier alerta que aglomerados abertos ficam sem graça quando o campo é pequeno demais para separá-los do fundo. Ele sugere um campo largo, que enquadre o M 46, o M 47 e NGC 2423, mas com a ressalva de que, se o campo for grande demais, a planetária se torna insignificante. Com um telescópio de 500 mm e uma câmera como a ASI294MC Pro (campo de cerca de 2,2° × 1,5°, calculado a partir do sensor), o par M 46 e M 47, separado por 1,3°, cabe com folga. Para destacar a planetária, uma focal de 1.000 mm (campo de 1,1° × 0,75°) enquadra só o M 46 e NGC 2438. Parker mostra um único quadro de Hyperstar com o aglomerado (cerca de um terço de grau) e a planetária.

Desafios do alvo

  • Um campo denso da Via Láctea. O M 46 está sobre o rastro da Via Láctea, e o fundo é rico em estrelas.
  • A planetária pequena. Com apenas 1′, a NGC 2438 exige uma focal mais longa para aparecer com destaque; num campo largo, ela se perde.
  • Estrelas brilhantes e blooming. Use exposições curtas e alinhe bem os canais de cor (Kier).

Equipamento e filtros

Kier recomenda RGB ou câmera colorida de um disparo, sem camada de luminância, e refoco a cada troca de filtro em refratores com cor imperfeita. Ele também menciona que aglomerados são bons alvos sob céu poluído. Como a planetária emite no OIII, um filtro de banda estreita ou dual-band pode realçá-la com câmera colorida (conhecimento geral, com o OIII confirmado como filtro visual por Mollise e Monks).

Exemplo de sessão (ponto de partida)

Tipo de quadro Quantidade Exposição Finalidade
Light 60 a 90 30 a 90 s Cor das estrelas e a planetária
Dark 30 igual aos Lights Calibração do ruído térmico
Flat 30 automática Correção de vinheta e poeira
Bias ou dark-flat 50 mais curta possível Calibração do ruído de leitura

Esses números são um ponto de partida, e não vêm dos livros: o único dado dos livros é o de Parker, com 31 quadros de 60 s num Hyperstar. Ajuste ao seu sensor, ao seu telescópio e ao céu da noite.

Smart telescopes e campo de visão

O M 46 mede cerca de 0,4° e cabe com folga no campo de um smart telescope como o Seestar S50 (cerca de 1,3° × 0,7°); a planetária aparece como um pequeno ponto verde-azulado na borda norte, e o filtro dual-band do aparelho ajuda a destacá-la. Para incluir o M 47 é preciso um mosaico de dois painéis. Abra o mapa e escolha o seu modelo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.

0°

Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.

Considerações finais

O M 46 mostra como o céu é tridimensional, mesmo que a gente o veja plano: um aglomerado a 5.400 anos-luz e uma planetária a 2.400 na mesma direção. É um alvo que gratifica tanto quem começa com um binóculo, no par com o M 47, quanto quem já tem um telescópio e um filtro OIII. Continue pelo M 47, pelo NGC 2477, o aglomerado da Popa ou por outro aglomerado do verão, o M 41.

Referências

  • BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objetos nº 52 (M 46), 53 (NGC 2438) e 63 (2 Puppis).
  • COE, Steven R. Nebulae and How to Observe Them. London: Springer, 2007. NGC 2438, p. 78-79.
  • KAMBIČ, Bojan. Viewing the Constellations with Binoculars: 250+ Wonderful Sky Objects to See and Explore. New York: Springer, 2010. Popa, M 46 e M 47, p. 398-399.
  • KIER, Ruben. The 100 Best Targets for Astrophotography. New York: Springer, 2009. "Open Clusters M46 and M47" (1º de março), p. 68-69; regras para aglomerados, p. 39.
  • MOLLISE, Rod. The Urban Astronomer's Guide: A Walking Tour of the Cosmos for City Sky Watchers. London: Springer, 2006. M 46 e NGC 2438, p. 216-218; M 47, p. 219.
  • MONKS, Neale. Go-To Telescopes Under Suburban Skies. New York: Springer, 2011. NGC 2422 (M 47), NGC 2437 (M 46) e NGC 2438, p. 24-26.
  • PARKER, Greg. Making Beautiful Deep-Sky Images: Astrophotography with Affordable Equipment and Software. New York: Springer, 2007. M 46 com Hyperstar, p. 117.
  • RIDPATH, Ian. Astronomia (Guia Ilustrado Zahar). 4. ed. Rio de Janeiro: Zahar. Popa, p. 211.
  • TONKIN, Stephen. Binocular Astronomy. London: Springer, 2007. M 46 e M 47, p. 140.
  • SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, paralaxes e dimensões de M 46 (NGC 2437) e NGC 2438, em 21 set. 2026.
  • HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.