setembro 21, 2026

NGC 4697 (Caldwell 52), a galáxia elíptica de Virgem: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2) de NGC 4697 — objeto ainda não capturado no observatório

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.

Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. UK Schmidt Telescope (UKST) / AAO–ROE. Créditos

Quase todo mundo que se interessa por galáxias conhece as espirais bonitas, com braços, poeira e regiões de formação de estrelas. NGC 4697 é o oposto: uma galáxia grande e brilhante, mas lisa como um ovo de luz, sem braços e sem faixas de poeira que se vejam num olhar rápido. Ela é a Caldwell 52, o primeiro objeto do catálogo Caldwell que já fica no hemisfério celeste sul (Mobberley), e fica na parte oeste da constelação de Virgem, num ponto do céu que o Rio de Janeiro enxerga muito bem no outono. Este guia diz o que ela é, como encontrá-la a partir de Spica, o que dá para ver de um céu de subúrbio e como enquadrá-la numa fotografia.

Texto em revisão. Este é um artigo de teste do novo formato de guia de objeto. Ele substitui o guia de astrofotografia e a página de exploração do objeto. As fontes estão listadas no final.

Imagem de referência (DSS2) de NGC 4697 — objeto ainda não capturado no observatório
Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. UK Schmidt Telescope (UKST) / AAO–ROE. Imagem de referência: este objeto ainda não foi fotografado no Observatório. Créditos

Ficha técnica e designações

Visão geral: o que é uma galáxia elíptica

As galáxias elípticas são grandes reuniões de estrelas velhas, em geral amareladas, com forma de bola ou de bola achatada. Não têm braços nem gás abundante para fazer estrelas novas, e por isso parecem "apagadas" quando comparadas às espirais. A fronteira com as galáxias lenticulares, que já têm um disco mas nenhum braço, é difusa, e é por isso que NGC 4697 aparece nos livros como elíptica ou como lenticular, "dependendo da opinião" (Mobberley; Bakich). Essa dúvida aparece até no SIMBAD, que a lista simplesmente como galáxia.

Ela é grande. Se a distância de cerca de 75 milhões de anos-luz citada por Mobberley estiver correta, o diâmetro é de 150.000 anos-luz, um pouco maior que o da galáxia de Andrômeda e cerca de 50% maior que o da nossa Via Láctea (Mobberley). Como a distância vem dos livros e o SIMBAD não traz paralaxe para galáxias, trate esse valor como uma boa ordem de grandeza. Para efeito de comparação, ao lado de Perseu A (200.000 anos-luz, Caldwell 24) ela "parece mansa" (Mobberley), mas ainda é uma galáxia de respeito. Mobberley registra ainda que astrônomos profissionais concluíram que há um buraco negro de 50 a 100 milhões de massas solares no núcleo.

Bakich a lista entre as galáxias mais brilhantes do céu e destaca justamente a natureza lenticular, com o texto sobre "o elo entre elípticas e espirais". Perto dela fica a espiral NGC 4731, a cerca de 0,8°, que o mesmo autor descreve como deformada em forma de S pela interação com NGC 4697.

Números que importam. Segundo o SIMBAD, o eixo maior aparente é de cerca de 7,6′, com 5,0′ no eixo menor e ângulo de posição de 64°. A magnitude visual dos livros é de cerca de 9,2 (Mobberley; Bakich), e Kambič registra 9,3. Isso é bastante para uma galáxia, mas a luz se espalha por uma área grande, o que baixa o brilho por ponto e faz do objeto um alvo de céu escuro.

Estruturas notáveis

  • O núcleo brilhante. É a parte que se vê primeiro, e que sustenta a imagem de "noz" alongada que Mobberley descreve em telescópios de 20 cm ou mais.
  • O halo suave. O brilho cai gradualmente, sem quebras nem bordas. Com 280 mm, Bakich nota que o brilho cai cerca de três vezes fora do núcleo.
  • O buraco negro central. Não é visível, claro, mas é parte da história: uma galáxia elíptica deste porte costuma ter um buraco negro supermassivo (Mobberley).
  • Galáxias-companheiras de campo. Com telescópio de 400 mm, Bakich sugere procurar a galáxia PGC 170203 (mag. 15,1). Ela é um alvo de caçador de galáxias fracas e não uma "companheira" comprovada.
  • A estrela guia. Uma estrela de magnitude 6,3 (GSC 4955-1287), pouco mais de meio grau a sul-sudoeste, ajuda a confirmar o campo (Mobberley).

Como localizar

O caminho tradicional parte de Spica, a estrela mais brilhante de Virgem. Trace uma linha de Spica para Porrima (Gama de Virgem) e, na metade do caminho, vire para oeste: NGC 4697 fica cerca de 5° a oeste da estrela Teta de Virgem (magnitude 4,4), que se vê a olho nu (Mobberley). Bakich diz o mesmo com outras medidas, cerca de 5,3° a oeste de Teta. Kambič propõe uma alternativa, começando em Psi de Virgem e seguindo por duas estrelas de sétima e sexta magnitude até o local. A galáxia mais brilhante do entorno é a própria NGC 4697; para achar outra de porte, é preciso ir 6° a sul-sudoeste, até a Galáxia do Sombreiro (M 104), ou 12° a noroeste, até M 61 (Mobberley). Para uma visão geral da constelação, veja o guia de Virgem.

Carta de localização de NGC 4697: as estrelas-guia nomeadas, setas tracejadas com a distância em graus até o alvo, escala em graus e indicação de norte e leste.
Carta de localização (star-hopping), no mesmo estilo das cartas de constelação: norte e leste indicados no canto. Anéis laranja: estrelas-guia; setas tracejadas: o caminho até o alvo, com a distância em graus; anel verde: o alvo (e, com a designação, outros objetos do campo); a barra mostra a escala. As linhas são as oficiais das constelações (d3-celestial), os limites são os da IAU e as estrelas vêm do catálogo HYG.

Quando e como observar

Com declinação de cerca de −6°, NGC 4697 culmina a uns 73° de altura no Rio de Janeiro, portanto bem alta, e a luz atravessa pouca atmosfera. A melhor época vai de março a junho, com o objeto alto no início da noite (Mobberley e Bakich falam em março a maio). Do Rio, ela culmina ao norte do zênite, então quem observa com um telescópio comum a vê com o norte "para baixo" e o leste à direita, olhando para o norte.

O primeiro gráfico mostra a altura do objeto ao longo do ano; o segundo, o caminho dele pelo céu nesta noite, seguido da altura hora a hora. Escolha uma noite sem Lua, no fim do outono, com o objeto perto do meridiano.

Altura de NGC 4697 ao longo do anoAltura à meia-noite astronômica e altura máxima da noite, a cada 5 dias. Melhor época: de janeiro a maio. O objeto chega a 73° à meia-noite em abril.0°30°60°90°JANFEVMARABRMAIJUNJULAGOSETOUTNOVDEZ1 abr · 73°hoje
Altura ao longo do ano, a cada 5 dias: linha contínua = altura no meio da noite astronômica (Sol abaixo de −18°); tracejada = maior altura durante a noite escura; faixa verde = melhor época; linhas pontilhadas em 30° e 45°. A linha vertical marca hoje. Melhor época para este local: de janeiro a maio (objeto acima de 30° no meio da noite). Ponto mais alto: 73° em 1 de abril.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

2026-10-12 · 19:20 – 04:10

Esta noite no céu

Melhores alvos da noite

Este objeto não passa de 30° de altura nesta noite (máximo: -15°). Não é um bom alvo hoje.

Melhor horário
04:00 · -15° ESE
Horas acima de 45°
0,0 h
Lua
Lua crescente · 6 %
Nota da noite
0 / 100
Posição no céu
0
Brilho
48 mag 9,4
Enquadramento
63 ocupa 16 % do campo

Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).

Caminho do objeto pelo céu nesta noite, do fim do crepúsculo civil ao amanhecer. Centro = zênite, borda = horizonte; visto olhando para cima (leste à esquerda, oeste à direita). Marcadores a cada 30 minutos.
  • Hora cheia e meia hora
  • Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
Altura e direção do objeto a cada 30 minutos
Hora Altura Direção Da Lua
19:30 -28° — 33°
20:00 -34° — 33°
20:30 -40° — 33°
21:00 -46° — 34°
21:30 -51° — 34°
22:00 -56° — 34°
22:30 -59° — 34°
23:00 -61° — 35°
23:30 -61° — 35°
00:00 -59° — 35°
00:30 -56° — 35°
01:00 -52° — 36°
01:30 -46° — 36°
02:00 -41° — 36°
02:30 -34° — 36°
03:00 -28° — 37°
03:30 -22° — 37°
04:00 -15° — 37°
Altura de NGC 4697 ao longo da noiteAltura em graus a cada 30 minutos. O ponto mais alto é às 04:00, com -15°. A tabela abaixo traz os mesmos valores.0°30°60°90°202122230001020304abaixo do horizonte04:00 · -15°
Altura em graus ao longo da noite escura (linhas em 30° e 45°). A Lua aparece tracejada.

Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

O que ver

Instrumento O que esperar
A olho nu Fora de alcance.
Binóculo (10×50) No limite da visibilidade. Kambič a descreve como uma linha de luz apagada, com cerca de 1′ de comprimento, que só se percebe em noites excelentes, com o alvo alto, olhos bem adaptados e visão desviada. Sacudir de leve o binóculo ajuda a notar o objeto, porque o olho percebe melhor o que se mexe.
Telescópio de 150 a 200 mm Mobberley recomenda 15 cm ou mais. Bakich diz que um telescópio pequeno mostra uma forma oblonga. Espere uma mancha oval de núcleo mais claro, sem detalhe.
Telescópio de 250 a 300 mm Com 280 mm, Bakich descreve mais detalhes e o brilho caindo cerca de três vezes fora do núcleo. Com 20 cm ou mais, a galáxia lembra uma "noz" lenticular alongada (Mobberley). Um filtro de céu profundo "pode ajudar", diz Mobberley, mas o efeito é pequeno em galáxias.

Expectativa honesta: em Bortle 7, como no Rio de Janeiro, NGC 4697 é uma mancha discreta. Os livros a descrevem em céus melhores que o nosso, e a beleza que aparece nas fotografias depende de imagens longas (Mobberley). Vale a pena como alvo de treino para achar galáxias por saltos, e como parada entre as galáxias de Virgem, mas não espere estrutura.

Astrofotografia: estratégia de captura

Enquadramento

Com 7,6′ × 5,0′, a galáxia é bem menor que o campo de uma câmera comum. Numa configuração de 1.000 mm de focal com uma câmera como a ASI294MC Pro (cerca de 1,1° × 0,75°, calculado a partir do sensor e da focal), ela ocupa cerca de um décimo da largura do quadro e deixa espaço para as estrelas de fundo e, à direção de NGC 4731 (a cerca de 0,8°; em um campo de 1,1° de largura ela pode caber com um bom posicionamento). Com focais de 1.500 a 2.000 mm, a galáxia ocupa mais o quadro, mas o tempo total necessário sobe.

Desafios do alvo

  • Brilho superficial baixo. É uma galáxia grande e "lisa". O halo é a parte que faz a imagem, e exige céu escuro e muito tempo de exposição.
  • Poluição luminosa. Sem cores marcantes para destacar, a imagem depende da luminância e do fundo bem tratado. Em Bortle 7, o gradiente do céu vai atrapalhar mais que o ruído.
  • Cor sutil. Uma galáxia elíptica é amarelada e quase toda de população velha; a fotografia dá pouca cor além do dourado do núcleo.

Equipamento e filtros

Mobberley recomenda imagens profundas, sem filtro, para este objeto (nada de banda estreita, que não ajuda numa galáxia). Uma câmera monocromática com luminância longa e cores rápidas rende bem; uma câmera colorida de um disparo também serve, com um filtro anti-poluição leve, se o céu for muito iluminado. Fotografar perto do meridiano, com o alvo a cerca de 70°, é o melhor que o Rio oferece.

Exemplo de sessão (ponto de partida)

Tipo de quadro Quantidade Exposição Finalidade
Light (luminância ou RGB) 80 a 120 180 s Halo e núcleo; o tempo total é o que mais conta
Dark 30 igual aos Lights Calibração do ruído térmico
Flat 30 automática Correção de vinheta e poeira
Bias ou dark-flat 50 mais curta possível Calibração do ruído de leitura

Esses números são um ponto de partida do autor do guia, e não vêm dos livros. Como referência de resultado, a imagem de Daniel Verschatse, publicada por Mobberley, usou um refletor Ritchey-Chrétien de 37 cm f/9 em céu do Chile e 60, 20, 20 e 20 minutos de L, R, G e B.

Smart telescopes e campo de visão

Num smart telescope como o Seestar S50 (campo de cerca de 1,3° × 0,7°), NGC 4697 aparece pequena no meio do quadro, com espaço de sobra em volta. Vale empilhar muitas horas para levantar o halo. Escolha o seu modelo no mapa abaixo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.

0°

Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.

Considerações finais

NGC 4697 não é um alvo de impacto imediato, mas é um belo exemplo de como o catálogo Caldwell recompensa quem gosta de ver o céu além de Messier. Do Rio, com a galáxia alta e uma noite razoável, ela funciona como treino de observação por saltos e como uma imagem de longa exposição em que o halo do "ovo" de estrelas velhas aparece devagar. Combine-a com a M 104, a poucos graus dali, e com a M 49, outra elíptica de Virgem, para comparar formas.

Referências

  • BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 301 (NGC 4697); vizinha nº 309 (NGC 4731).
  • KAMBIČ, Bojan. Viewing the Constellations with Binoculars: 250+ Wonderful Sky Objects to See and Explore. New York: Springer, 2010. Virgem, NGC 4697, p. 492.
  • MOBBERLEY, Martin. The Caldwell Objects and How to Observe Them. New York: Springer, 2009. Caldwell 52, p. 114-115.
  • SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, tipo, dimensões e fotometria de NGC 4697, em 21 set. 2026.
  • HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.