setembro 21, 2026

M 35, o aglomerado de Gêmeos: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2) de M35 — objeto ainda não capturado no observatório

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.

Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Créditos

Em Gêmeos, ao lado dos pés de Castor, mora um dos aglomerados abertos mais bonitos do céu de verão: o M 35. É um ajuntamento de centenas de estrelas azuis e brancas, tão amplo quanto a Lua cheia, que em céu escuro aparece como uma mancha de luz a olho nu e em binóculo se desfaz em pontinhos. Ao lado dele, menor e mais fraco, há um segundo aglomerado, NGC 2158, muito mais velho e distante, que só um telescópio revela. Do Rio de Janeiro, ele fica ao norte, a uns 40° de altura, no céu do fim da primavera e do verão. Este guia reúne os dados, o roteiro para achá-lo, o que esperar de cada instrumento e como fotografar os dois aglomerados juntos.

Texto em revisão. Este é um dos guias do novo formato de objeto, ainda em rascunho. As fontes estão listadas no final.

Imagem de referência (DSS2) de M35 — objeto ainda não capturado no observatório
Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Imagem de referência: este objeto ainda não foi fotografado no Observatório. Créditos

Ficha técnica e designações

Visão geral: uma família jovem a 2.900 anos-luz

Um aglomerado aberto é um grupo de estrelas nascidas juntas, da mesma nuvem de gás, e ainda frouxamente ligadas pela gravidade. No caso do M 35, as estrelas mais brilhantes são azuis, o que denuncia a juventude: Kier fala em cerca de 100 milhões de anos, e Kambič em no máximo 110 milhões, "uma idade média" para um aglomerado desse tipo. Monks ressalta que quase todas as estrelas visíveis são quentes e azuis e que só uma gigante vermelha é membro confirmado. Kier lembra que há estrelas amarelas também, mas as azuis dominam o olhar porque brilham muito mais.

M 35 em números. O SIMBAD classifica o objeto como aglomerado aberto (NGC 2168), com paralaxe de 1,13 milissegundo de arco, o que corresponde a cerca de 2.900 anos-luz. Os livros ficam na mesma faixa: 2.800 (Kier, Monks, Borgia), 2.973 (Allison) e 2.700 (Kambič). O diâmetro aparente no SIMBAD é de 38′, que a essa distância significa uns 32 anos-luz; os livros, olhando só a parte mais densa, dão 25′ a 28′ e de 22 a 30 anos-luz. A magnitude integrada é 5,1 (Bakich, Kier, Allison).

Quantas estrelas. Allison diz que o aglomerado tem mais de 200 estrelas. Bakich fala em duas dúzias mais brilhantes que a 9ª magnitude, com um trecho central de uns 10′ em forma de saxofone. Kambič conta mais de 1.000 estrelas, com 90 mais brilhantes que a magnitude 11, e faz uma comparação: na vizinhança do Sol, num volume do mesmo tamanho, há só 11 estrelas.

História. Bakich atribui a primeira observação a Jean-Philippe de Chéseaux, em 1745 ou 1746, e também a John Bevis, antes de 1750; Charles Messier o incluiu no catálogo em 30 de agosto de 1764. Patrick Moore lembra que Messier caçava cometas e anotava esses objetos como "coisas a evitar", e que hoje ninguém se lembra dos cometas dele, mas todos usam os números do catálogo.

O vizinho NGC 2158. Logo a sudoeste fica um aglomerado bem menor, de uns 5′, a cerca de 17.800 anos-luz (livros mais antigos trazem 16.000), seis vezes mais longe que o M 35 (Parker). Sua idade é da ordem de 1 bilhão de anos (Kier), por isso as estrelas são amarelas e alaranjadas, e não azuis. É um bom exemplo de como a cor conta a idade de um aglomerado.

Estruturas notáveis

  • O saxofone central. A concentração central, de uns 10′, forma um desenho que Bakich compara a um saxofone.
  • Cadeias de estrelas. Com 4″ de abertura, Allison vê várias cadeias fracas que se ligam entre si, num conjunto de estrutura bem frouxa.
  • NGC 2158. Uma bolinha nebulosa em baixo aumento, que Cooke descreve como um aglomerado pequeno em forma de ponta de flecha, desafiador mas interessante. Com 350 mm a 500× dá para contar 30 estrelas; com 500 mm, cerca de 60 (Bakich).
  • IC 2157. Borgia cita um terceiro aglomerado, mais a oeste (cerca de 50′), tão pequeno e fraco quanto NGC 2158, mas pobre em estrelas; com um campo de 1,5° e abertura suficiente, dá para ver os três.

Como localizar

O M 35 fica cerca de 2° a noroeste de Eta Geminorum (Kambič; Allison; Bakich), uma estrela de magnitude 3,3 que forma com Mu Geminorum o "pé" da constelação (Moore). Eta e o aglomerado cabem no mesmo campo de um binóculo (Kambič). A carta abaixo mostra o caminho a partir das estrelas de Gêmeos.

Veja mais sobre a constelação no guia de Gêmeos.

Carta de localização de M35: as estrelas-guia nomeadas, setas tracejadas com a distância em graus até o alvo, escala em graus e indicação de norte e leste.
Carta de localização (star-hopping), no mesmo estilo das cartas de constelação: norte e leste indicados no canto. Anéis laranja: estrelas-guia; setas tracejadas: o caminho até o alvo, com a distância em graus; anel verde: o alvo (e, com a designação, outros objetos do campo); a barra mostra a escala. As linhas são as oficiais das constelações (d3-celestial), os limites são os da IAU e as estrelas vêm do catálogo HYG.

Quando e como observar

Com declinação de +24°, o M 35 é um aglomerado mais ao norte do que a maioria dos alvos de verão: no Rio, ele culmina ao norte a cerca de 43° de altura, o que é bom, mas menos que os aglomerados de Puppis, que passam quase sobre a cabeça. Pelas coordenadas, ele fica acima de 30° por cerca de cinco horas em torno da culminação. A melhor época vai de novembro a março; a culminação acontece perto da meia-noite no fim de dezembro e no início da noite no fim de fevereiro. Como o objeto se põe cedo depois disso, abril já é tarde. Lembre que, olhando para o norte, o norte celeste fica para baixo.

Moore diz que Gêmeos continua bem posicionada nas noites de fevereiro mesmo em países como a Austrália e a África do Sul, onde nunca sobe muito: uma boa notícia para nós, que temos o aglomerado a uns 43°.

O primeiro gráfico mostra a altura do objeto ao longo do ano; o segundo, a noite de hoje.

Altura de M35 ao longo do anoAltura à meia-noite astronômica e altura máxima da noite, a cada 5 dias. Melhor época: de novembro a janeiro. O objeto chega a 43° à meia-noite em dezembro.0°30°60°90°JANFEVMARABRMAIJUNJULAGOSETOUTNOVDEZ22 dez · 43°hoje
Altura ao longo do ano, a cada 5 dias: linha contínua = altura no meio da noite astronômica (Sol abaixo de −18°); tracejada = maior altura durante a noite escura; faixa verde = melhor época; linhas pontilhadas em 30° e 45°. A linha vertical marca hoje. Melhor época para este local: de novembro a janeiro (objeto acima de 30° no meio da noite). Ponto mais alto: 43° em 22 de dezembro.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

2026-10-12 · 19:20 – 04:10

Esta noite no céu

Melhores alvos da noite
Melhor horário
04:00 · 42° N
Horas acima de 45°
0,0 h
Lua
Lua crescente · 6 %
Nota da noite
63 / 100
Posição no céu
39
Brilho
100 mag 5,1
Enquadramento
100 ocupa 53 % do campo

Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).

Trajetória de M35 pelo céu nesta noiteCéu visto de baixo, zênite no centro e horizonte na borda. O objeto fica acima do horizonte entre 23:30 e 04:50 durante a noite; o ponto mais alto é às 04:00, com 42°. A tabela ao lado traz os mesmos valores.15°30°45°60°75°NNELSESSOONO00:0001:0002:0003:0004:00
Caminho do objeto pelo céu nesta noite, do fim do crepúsculo civil ao amanhecer. Centro = zênite, borda = horizonte; visto olhando para cima (leste à esquerda, oeste à direita). Marcadores a cada 30 minutos.
  • Crepúsculo civil (Sol até −12°)
  • Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
  • Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
  • Altura abaixo de 20°
  • Altura abaixo de 30°
  • Altura abaixo de 45°
  • Hora cheia e meia hora
  • Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
Altura e direção do objeto a cada 30 minutos
Hora Altura Direção Da Lua
19:30 -51° — 134°
20:00 -44° — 134°
20:30 -37° — 134°
21:00 -30° — 135°
21:30 -24° — 135°
22:00 -17° — 135°
22:30 -11° — 135°
23:00 -4° — 136°
23:30 2° ENE 63° 136°
00:00 8° ENE 59° 136°
00:30 14° NE 56° 136°
01:00 19° NE 52° 137°
01:30 25° NE 47° 137°
02:00 29° NE 41° 137°
02:30 34° NE 35° 137°
03:00 37° NNE 28° 138°
03:30 40° NNE 20° 138°
04:00 42° N 11° 138°
Altura de M35 ao longo da noiteAltura em graus a cada 30 minutos. O ponto mais alto é às 04:00, com 42°. A tabela abaixo traz os mesmos valores.0°30°60°90°202122230001020304abaixo do horizonte04:00 · 42°
Altura em graus ao longo da noite escura (linhas em 30° e 45°). A Lua aparece tracejada.

Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

O que ver

Instrumento O que esperar
A olho nu Em céu escuro e limpo, uma mancha fraca (Kambič; Bakich; Moore). Sob céu Bortle 7 do Rio, não conte com isso.
Binóculo Uma mancha grande e clara, do tamanho da Lua cheia (Ridpath), com algumas estrelas mais brilhantes vistas com visão desviada (Kambič). Ele cabe no mesmo campo que Eta Geminorum.
Telescópio de 75 a 150 mm O melhor equilíbrio, segundo Monks: em telescópios maiores, as estrelas fracas aparecem demais e o conjunto perde o charme. Com 4″ o aglomerado "começa a brilhar" e, com 8″ a 133×, Allison contou cerca de 40 estrelas, e cita que o objeto real tem mais de 200.
Telescópio de 200 mm ou mais Aumentos de 266× valorizam o centro (Allison). Aqui aparece NGC 2158, e o campo ganha uma segunda camada de estrelas mais fracas.
Filtros Não há nebulosidade para realçar. Monks observa que o M 35 tolera bem a poluição luminosa: estrelas fracas somem, mas o conjunto continua bonito.

Expectativa honesta. No Rio, o M 35 é um alvo de binóculo e de telescópio pequeno. Ele é muito rico em estrelas e, por ser azulado, tem uma cor que os aglomerados amarelos, como M 67, não têm. Use um ocular de campo largo e comece pelo menor aumento possível, aumentando depois só para ver NGC 2158.

Astrofotografia: estratégia de captura

Enquadramento

Kier sugere um campo de cerca de 40′ para o M 35 sozinho e um campo de 70′ × 50′ para incluir NGC 2158. Com um telescópio de 1.000 mm e uma câmera como a ASI294MC Pro (campo de cerca de 1,1° × 0,75°, calculado a partir do sensor), os dois cabem se o quadro estiver alinhado com o lado maior no sentido leste-oeste, mas a margem é pequena. Se o conjunto ficar apertado, uma focal de 600 a 800 mm dá folga confortável. Parker mostra o mesmo campo com um Hyperstar, que fotografa os dois aglomerados num único quadro.

Desafios do alvo

  • Estrelas brilhantes e blooming. Kier recomenda exposições curtas para não criar espigões de blooming nas estrelas mais brilhantes.
  • Cor dos canais. Alinhe cuidadosamente os canais de cor, para não gerar halos assimétricos coloridos ao redor das estrelas (Kier).
  • NGC 2158. É bem mais fraca que o M 35 e pede mais tempo total: Parker recomenda subs de cerca de 180 s e perto de 3 horas de exposição total com um refrator f/4,5 (Sky 90) para um bom resultado.

Equipamento e filtros

Kier sugere RGB ou câmera colorida de um disparo, sem camada de luminância: para aglomerados brilhantes ela só acrescenta complexidade. Em refratores com correção de cor imperfeita, refoque a cada troca de filtro. Ele também sugere evitar altitudes abaixo de 30° com câmera colorida, por causa do borrão da refração atmosférica; no Rio, o M 35 fica acima de 30° por cerca de cinco horas em torno do meridiano, o que ajuda. Como as luzes da cidade pouco atrapalham um aglomerado e o gradiente do fundo é fácil de subtrair (Kier), Bortle 7 não é um problema sério para este alvo.

Exemplo de sessão (ponto de partida)

Tipo de quadro Quantidade Exposição Finalidade
Light 60 a 90 30 a 60 s Cor das estrelas sem saturar as mais brilhantes
Dark 30 igual aos Lights Calibração do ruído térmico
Flat 30 automática Correção de vinheta e poeira
Bias ou dark-flat 50 mais curta possível Calibração do ruído de leitura

Esses números são um ponto de partida, e não vêm dos livros (o único dado de exposição dos livros é o de Parker: 70 quadros de 45 s num Hyperstar, e cerca de 3 horas para NGC 2158 em f/4,5). Ajuste ao seu sensor, ao seu telescópio e ao céu da noite.

Smart telescopes e campo de visão

O M 35 ocupa cerca de 0,6° a 0,65° e cabe no campo de um smart telescope como o Seestar S50 (cerca de 1,3° × 0,7°), embora com pouca folga no lado menor; NGC 2158 cabe ao lado dependendo da orientação do quadro. Como o aglomerado é brilhante e a cor das estrelas é o atrativo, poucos minutos de empilhamento já rendem uma boa imagem. Abra o mapa e escolha o seu modelo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.

0°

Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.

Considerações finais

O M 35 é um daqueles alvos que recompensam quem observa com calma: ele parece uma mancha fraca até que o olhar se acostuma e os pontinhos aparecem, um a um. Junto com NGC 2158, ele mostra em um só campo dois aglomerados de idades muito diferentes, um azul e outro amarelado. É um bom começo para quem está aprendendo a ler a cor das estrelas. Se quiser continuar pelo inverno, veja o Presépio (M 44), a Nebulosa Esquimó em Gêmeos e o aglomerado NGC 2244, da Roseta.

Referências

  • ALLISON, Mark. Star Clusters and How to Observe Them. London: Springer, 2006. M 35, p. 135-136.
  • BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 980 (M 35 e NGC 2158).
  • BORGIA, Michael P. Human Vision and the Night Sky: How to Improve Your Observing Skills. New York: Springer, 2007. M 35, NGC 2158 e IC 2157, p. 242.
  • COOKE, Antony. Visual Astronomy in the Suburbs: A Guide to Spectacular Viewing. London: Springer, 2004. Catálogo de segunda visão (NGC 2168 e NGC 2158), p. 200.
  • KAMBIČ, Bojan. Viewing the Constellations with Binoculars: 250+ Wonderful Sky Objects to See and Explore. New York: Springer, 2010. Gêmeos e M 35, p. 298-299.
  • KIER, Ruben. The 100 Best Targets for Astrophotography. New York: Springer, 2009. "Open Clusters M35 and NGC 2158" (6 de fevereiro), p. 45-46; regras para aglomerados abertos, p. 39.
  • MONKS, Neale. Go-To Telescopes Under Suburban Skies. New York: Springer, 2011. NGC 2168 (M 35) e NGC 2158, p. 21-22.
  • MOORE, Patrick. The Observer's Year: 366 Nights of the Universe. 2. ed. London: Springer, 2005. "Messier's Catalogue – and M35" (10 de fevereiro), p. 51.
  • PARKER, Greg. Making Beautiful Deep-Sky Images: Astrophotography with Affordable Equipment and Software. New York: Springer, 2007. M 35 e NGC 2158 com Hyperstar, p. 114.
  • RIDPATH, Ian. Astronomia (Guia Ilustrado Zahar). 4. ed. Rio de Janeiro: Zahar. Gêmeos, p. 174.
  • SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, paralaxes e dimensões de NGC 2168 (M 35) e NGC 2158, em 21 set. 2026.
  • HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.