setembro 21, 2026
M 44, o Presépio: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.
Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Créditos
O Presépio é o aglomerado que quase ninguém procura e quase todos já viram. Em Câncer, a mais discreta das constelações do zodíaco, ele aparece como uma mancha nebulosa a olho nu num céu escuro, e como um punhado de estrelas azuladas em binóculo. Os gregos o conheciam a olho nu, e Aratus e Teofrasto, por volta de 280 a.C., previam chuva se ele estivesse apagado (Moore). Em 1610, Galileu o apontou com a luneta e mostrou que a "névoa" era um grupo de mais de 40 estrelas (Bakich). Este guia reúne os dados, os mapas, a altura no céu e a estratégia de observação e de captura em um só lugar.
Texto em revisão. Este é um guia no novo formato de objeto, que substitui o guia de astrofotografia e a página de exploração. As fontes estão listadas no final.

Ficha técnica e designações
Visão geral: o que é um aglomerado aberto
Um aglomerado aberto é um grupo de estrelas nascidas juntas, ainda frouxamente ligadas. Com o tempo, a gravidade da Galáxia as espalha. O Presépio é um dos mais próximos e um dos mais ricos: os aglomerados que sobrevivem por muito tempo são poucos, e M 44 tem idade parecida com a das Híades, de Touro (Moore e Rees).
M 44 em números. O aglomerado tem magnitude 3,1 e cobre cerca de 2° de céu (118′ no SIMBAD; livros mais antigos trazem de 70′ a 95′), quase o quádruplo do diâmetro da Lua cheia (Bakich; Allison; Moore). A distância é de cerca de 600 anos-luz: a paralaxe do SIMBAD dá 607, e os livros trazem de 525 a 561 (Moore; Allison). O Data Book fala em mais de mil estrelas, com cerca de 68% de anãs vermelhas, um núcleo de uns 22 anos-luz e um diâmetro total de uns 80 (Moore e Rees); Bakich lista mais de 350 membros, com cerca de 80 mais brilhantes que a magnitude 10.
Nomes. "Praesepe" é "manjedoura" em latim, e daí Presépio (Bakich). Na tradição, Gama e Delta de Câncer, as duas estrelas que ladeiam o aglomerado, são os burros que comem na manjedoura (Ridpath); os chineses o chamavam de "exalação de cadáveres empilhados" (Moore). Também é chamado de Colmeia, o que descreve bem o aspecto ao binóculo.
A estrela mais brilhante. A mais luminosa do aglomerado é Épsilon Cancri, de magnitude 6,3 (Bakich).
Estruturas notáveis
- O conjunto todo. Em binóculo, um triângulo aberto de estrelas azuladas e brancas em uma "colmeia" (Bakich).
- Duplas. Allison diz que o aglomerado é cheio de estrelas duplas, e em telescópios pequenos é um prazer explorar pares e trios.
- Delta e Gama (os "Asellus"). As duas estrelas de 3,9 e 4,7 que ladeiam o aglomerado, Asellus Australis e Boreus (Moore).
- Zeta Cancri. Uma dupla de cerca de 6″, com período de mais de 1.000 anos, e Iota Cancri, uma gigante amarela de magnitude 4 com uma companheira azul-esbranquiçada de magnitude 7, que cabe em 10×50 (Moore; Ridpath).
- M 67. O outro aglomerado de Câncer, menor, mais denso e bem mais velho, a uns 2° ao sul de Alfa Cancri (Allison).
M 44 e M 67: um aglomerado jovem e um velho
Câncer guarda dois aglomerados abertos muito diferentes, e vale observá-los na mesma noite. M 44 é grande, espalhado e brilhante; M 67 (NGC 2682) é pequeno, denso e discreto, de magnitude 6,9, com cerca de 25′, a uns 2.960 anos-luz, e reúne de 200 a 500 estrelas (Allison). O Data Book o descreve como o aglomerado aberto mais antigo conhecido entre os famosos, com cerca de 4 bilhões de anos, e explica que ele sobreviveu tanto tempo por estar bem acima do plano da Galáxia, onde as perturbações são menores (Moore e Rees). Ao telescópio, M 67 tem o aspecto de um "2" desgrenhado (Allison). O contraste é uma aula rápida de evolução de aglomerados: quanto mais tempo passa, mais estrelas se perdem e menos sobra. Comece por M 44 em binóculo e depois, com um telescópio pequeno, passe a M 67 para ver a diferença de densidade.
Dicas práticas de observação
- Fique longe da Lua. Como o Presépio é fraco a olho nu, a Lua cheia o apaga; procure-o em noites de Lua nova ou minguante.
- Use um suporte. Acima de 15 aumentos, o binóculo precisa de apoio para não tremer (Moore); um tripé ou uma cadeira reclinável ajuda muito.
- Olhe primeiro a olho nu. Anote se você vê a mancha e compare com o que o binóculo revela. É um bom teste de céu para Bortle 7.
- Procure as cores. As estrelas do aglomerado são azuladas e amareladas, mas a diferença é sutil; olhe com calma e sem pressa.
- Explore Câncer. A vermelha X Cancri, de brilho variável entre 5,6 e 7,5 em cerca de 195 dias, é um bom complemento para binóculos (Moore).
Como localizar
Câncer não tem estrelas brilhantes e o Presépio fica exatamente entre Pólux (Gêmeos) e Régulo (Leão). Do Rio, olhando para o norte, Régulo fica à direita e Pólux à esquerda; o aglomerado aparece no meio do caminho, como uma mancha, entre Gama e Delta Cancri (Moore; Allison). Se estiver difícil, comece pelo binóculo: uma estrela nebulosa se transforma em dezenas.

Quando e como observar
O Presépio está a +19,6° de declinação. No Rio de Janeiro (latitude −23°), culmina a cerca de 47° de altura, ao norte, que é uma altura folgada. A melhor época vai de fevereiro a maio: por volta de meados de março ele cruza o meridiano por volta das 21 horas, alto no céu ao anoitecer. Moore recomenda março e abril (para o norte). Olhando para o norte, o leste fica à direita e o norte celeste, para baixo, ao contrário dos mapas do hemisfério norte.
O primeiro gráfico mostra a altura do objeto ao longo do ano; o segundo, o caminho do Presépio pelo céu nesta noite (zênite no centro, cores pela altura), seguido da altura hora a hora.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
2026-10-13 · 19:20 – 04:10
Esta noite no céu
Este objeto não passa de 30° de altura nesta noite (máximo: 28°). Não é um bom alvo hoje.
- Melhor horário
- 04:00 · 28° NE
- Horas acima de 45°
- 0,0 h
- Lua
- Lua crescente · 12 %
- Nota da noite
- 0 / 100
- Posição no céu
- 0
- Brilho
- 100 mag 3,1
- Enquadramento
- 16 ocupa 241 % do campo
Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).
- Crepúsculo civil (Sol até −12°)
- Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
- Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
- Altura abaixo de 20°
- Altura abaixo de 30°
- Altura abaixo de 45°
- Hora cheia e meia hora
- Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
| Hora | Altura | Direção | Da Lua |
|---|---|---|---|
| 19:30 | -83° | — | 111° |
| 20:00 | -77° | — | 111° |
| 20:30 | -70° | — | 112° |
| 21:00 | -63° | — | 112° |
| 21:30 | -56° | — | 112° |
| 22:00 | -49° | — | 112° |
| 22:30 | -42° | — | 113° |
| 23:00 | -35° | — | 113° |
| 23:30 | -29° | — | 113° |
| 00:00 | -22° | — | 113° |
| 00:30 | -15° | — | 114° |
| 01:00 | -8° | — | 114° |
| 01:30 | -2° | — | 114° |
| 02:00 | 5° | ENE 67° | 114° |
| 02:30 | 11° | ENE 63° | 115° |
| 03:00 | 17° | ENE 59° | 115° |
| 03:30 | 23° | NE 55° | 115° |
| 04:00 | 28° | NE 50° | 115° |
Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
O que ver
| Instrumento | O que esperar |
|---|---|
| A olho nu | Uma mancha nebulosa no céu escuro; em cidade, é improvável enxergá-la sem binóculo (Ridpath). Em Bortle 7, vale procurar em noite sem Lua. |
| Binóculo (7×50 a 15×70) | O melhor instrumento: uma colmeia de dezenas de estrelas azuladas, que ocupa cerca de três diâmetros lunares (Bakich; Moore). Acima de 15 aumentos, use suporte (Moore). |
| Telescópio de 100 a 150 mm | Só cabe uma parte do aglomerado por vez; com baixo aumento, revela duplas e pares coloridos (Allison). |
| Telescópio de 200 mm ou mais | Pouco ganho: o campo é pequeno demais para o aglomerado. Use para separar as duplas e comparar com M 67. |
Expectativa honesta: o Presépio é um dos casos em que o binóculo vence o telescópio. Se você quiser sentir o que Galileu sentiu, olhe primeiro a olho nu e depois pelo binóculo: a "névoa" se desfaz em estrelas.
Astrofotografia: estratégia de captura
Enquadramento
M 44 mede cerca de 2°: com um telescópio de 1.000 mm e uma câmera como a ASI294MC Pro (campo de cerca de 1,1° × 0,75°, calculado a partir do sensor e da focal), o aglomerado não cabe inteiro. Uma lente de 200 a 300 mm ou um refrator curto de 350 a 500 mm é mais adequado.
Desafios do alvo
- Sem nebulosidade. O interesse está nas estrelas: cores, contagem e duplas, então o tempo total não precisa ser longo.
- Estrelas de brilhos muito diferentes. Evite halos com exposições curtas por quadro e boa calibração.
- Poluição luminosa. Como não há gás para realçar, o céu de fundo é o inimigo; um filtro de poluição luminosa ajuda em Bortle 7.
Equipamento e filtros
Uma câmera colorida (DSLR, mirrorless ou CMOS) com lente ou refrator curto basta. Para que as cores das estrelas apareçam, mantenha o histograma sem saturar e faça o foco com atenção.
Exemplo de sessão (ponto de partida)
| Tipo de quadro | Quantidade | Exposição | Finalidade |
|---|---|---|---|
| Light (RGB ou colorida) | 40 a 60 | 30 a 60 s | Estrelas e cores |
| Dark | 30 | igual aos Lights | Calibração do ruído térmico |
| Flat | 30 | automática | Correção de vinheta e poeira |
| Bias ou dark-flat | 50 | mais curta possível | Calibração do ruído de leitura |
Esses números são um ponto de partida, e não vêm dos livros.
Smart telescopes e campo de visão
Com um smart telescope como o Seestar S50 (cerca de 1,3° × 0,7°), o núcleo do aglomerado cabe no quadro, mas as bordas ficam de fora; dá um bom resultado em poucos minutos, e as estrelas azuis do centro aparecem bem. Um mosaico inclui o conjunto. Escolha o seu modelo no mapa abaixo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.
Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.
Considerações finais
O Presépio é o melhor exemplo de aglomerado grande demais para o telescópio e perfeito para o binóculo: basta ter Pólux e Régulo no céu e um binóculo à mão. É um alvo agradável para o outono, quando as Plêiades já estão baixas, e fica bem perto de M 67, para uma comparação entre um aglomerado jovem e um velho. Para contexto sobre a constelação, veja o guia de Câncer; para comparar com outro aglomerado famoso, veja as Plêiades (M 45).
Referências
- ALLISON, Mark. Star Clusters and How to Observe Them. London: Springer, 2006. M 44, M 67 e M 48, p. 146-148.
- BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 90 (M 44).
- MOORE, Patrick. The Observer's Year: 366 Nights of the Universe. 2. ed. London: Springer, 2005. Câncer e o Presépio, p. 86-91 (a conferir).
- MOORE, Patrick; REES, Robin. Patrick Moore's Data Book of Astronomy. Cambridge: Cambridge University Press, 2011. Aglomerados abertos, p. 342-347.
- RIDPATH, Ian. Astronomia (Guia Ilustrado Zahar). 4. ed. Rio de Janeiro: Zahar. Seção "Câncer, o Caranguejo" (página impressa a conferir).
- SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a NGC 2632 (M 44), em 21 set. 2026.
- HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.