setembro 21, 2026
IC 2602 (Caldwell 102), as Plêiades do Sul: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.
Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. UK Schmidt Telescope (UKST) / AAO–ROE. Créditos
Se você já mostrou as Plêiades a alguém, sabe o que esperar de um aglomerado aberto a olho nu: um punhado de estrelas azuladas, bem juntas, com aquele aspecto de gotas de orvalho. Mostre agora o céu de Carina e há uma versão austral, com menos pose e mais brilho concentrado, em torno de uma única estrela azulada de magnitude 2,7. É o aglomerado de Theta Carinae, IC 2602, listado como Caldwell 102 e conhecido como as Plêiades do Sul. Do Rio de Janeiro, ele passa alto no céu de outono, quase circumpolar, e vale mais em binóculo do que em telescópio. Este guia reúne os dados, o roteiro para achar, os gráficos de altura e a estratégia de observação e de captura.
Texto em revisão. Este é um dos guias do novo formato de objeto, ainda em rascunho. As fontes estão listadas no final.

Ficha técnica e designações
Visão geral: o que é um aglomerado aberto
Um aglomerado aberto é um grupo de estrelas nascidas juntas, da mesma nuvem de gás, e ainda frouxamente ligadas pela gravidade. Ao contrário dos aglomerados globulares, que reúnem centenas de milhares de estrelas antigas em uma bola apertada, os abertos têm de dezenas a poucos milhares de estrelas, relativamente jovens, espalhadas na região do disco da Galáxia (Kambič). Por isso mesmo são instáveis: as interações com as estrelas vizinhas os vão dispersando, e na maioria dos casos o grupo se desfaz em menos de um bilhão de anos (Kambič). Do ponto de vista do observador, são os alvos mais indulgentes do céu: mesmo os que não se resolvem em estrelas são grandes e brilhantes, e o binóculo dá uma vista panorâmica que nem os melhores telescópios oferecem (Kambič).
IC 2602 em números. A estrela mais brilhante, Theta Carinae, tem magnitude 2,7 e cor azulada (Bakich; Mobberley). As cinco seguintes ficam entre as magnitudes 4,8 e 5,2, e o conjunto todo brilha em torno da magnitude 2, com tamanho aparente que, conforme a fonte e o critério de limite, é de cerca de 174′ no SIMBAD, quase 3°, ou seis Luas cheias lado a lado (livros mais antigos trazem de 50′ a 100′). A paralaxe do SIMBAD (cerca de 6,6 milissegundos de arco) dá cerca de 500 anos-luz, valor que concorda com o Mobberley e é próximo dos 480 da Astronomy Encyclopedia. A essa distância o aglomerado tem cerca de 25 anos-luz de diâmetro e idade de aproximadamente 50 milhões de anos, jovem, como convém a um grupo de estrelas azuis (Mobberley).
Descoberta. Nicolas-Louis de Lacaille o encontrou em 3 de março de 1752, no Cabo, e o comparou às Plêiades, origem do apelido (Bakich). Mobberley registra um detalhe curioso: John Herschel, que varreu o céu do sul poucos anos depois, não o anotou.
Nomes. O objeto também é chamado de aglomerado de Theta Carinae e Caldwell 102, a última entrada de aglomerado aberto na lista Caldwell (Mobberley).
Estruturas notáveis
- Theta Carinae. A estrela central, de magnitude 2,7, é tão brilhante que ganhou letra grega. A cor azulada é sutil, mas dá para notar num binóculo firme (Bakich; Mobberley).
- O "vazio" em duas metades. Em baixo aumento, o aglomerado parece dividido em dois grupos separados por um vão de cerca de 0,3° (Bakich).
- As cinco estrelas seguintes. Entre as magnitudes 4,8 e 5,2, sem formar uma figura marcante; é uma diferença clara em relação às Plêiades, cujo "carrinho de mão" de seis estrelas de magnitude 2,8 a 4,3 é inconfundível (Mobberley).
- Melotte 101. A cerca de 40′ ao sul de Theta Carinae, na borda meridional do aglomerado, há um aglomerado menor, de magnitude 8, com 13′ de diâmetro, formado por umas três dúzias de estrelas de magnitude 12 e duas de 10. Ele está a cerca de 6.800 anos-luz, quatorze vezes mais longe, e parece brilhar "através" do IC 2602. Melhor com cerca de 75 aumentos (Mobberley; Bakich).
Como localizar
O aglomerado fica no canto nordeste de Carina, uma das regiões mais ricas de aglomerados de todo o céu. Comece na estrela PP Carinae, de terceira magnitude: o alvo está cerca de 2¾° ao sul e 1¼° a leste dela (Mobberley). Como ele é grande e tem uma estrela de magnitude 2,7 no centro, basta apontar o binóculo para Theta Carinae, que também serve de guia para o campo da Nebulosa de Eta Carinae, poucos graus ao norte (Tonkin). Nas cartas, Melotte 101 aparece como uma pequena mancha logo abaixo do aglomerado.

Quando e como observar
Em declinação −64°, IC 2602 nunca sobe muito alto no Rio. Culmina a cerca de 49° de altura, ao sul, e no ponto mais baixo desce até o horizonte, tangenciando-o: é quase circumpolar. Isso o torna um alvo de "quase todas as noites" para quem tem horizonte sul limpo. A melhor época é de fevereiro a maio (Mobberley); em março ele culmina em torno da meia-noite e, no fim de abril, no início da noite. No meridiano, o norte fica para cima e o leste, para a esquerda. A altura de cerca de 49° é confortável, mas menos favorável do que a de objetos perto do zênite: com a poluição do Rio, evite o horizonte sul e espere a passagem meridiana.
O primeiro gráfico mostra a altura do objeto ao longo do ano; o segundo, o caminho do aglomerado pelo céu nesta noite, seguido da altura hora a hora.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
2026-10-13 · 19:20 – 04:10
Esta noite no céu
Este objeto não passa de 30° de altura nesta noite (máximo: 26°). Não é um bom alvo hoje.
- Melhor horário
- 04:00 · 26° SSE
- Horas acima de 45°
- 0,0 h
- Lua
- Lua crescente · 12 %
- Nota da noite
- 0 / 100
- Posição no céu
- 0
- Brilho
- 50 (sem magnitude cadastrada)
- Enquadramento
- 88 ocupa 107 % do campo
Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).
- Crepúsculo civil (Sol até −12°)
- Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
- Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
- Altura abaixo de 20°
- Altura abaixo de 30°
- Altura abaixo de 45°
- Hora cheia e meia hora
- Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
| Hora | Altura | Direção | Da Lua |
|---|---|---|---|
| 19:30 | -1° | — | 61° |
| 20:00 | -2° | — | 61° |
| 20:30 | -2° | — | 61° |
| 21:00 | -3° | — | 61° |
| 21:30 | -2° | — | 61° |
| 22:00 | -2° | — | 61° |
| 22:30 | -1° | — | 61° |
| 23:00 | 0° | SSE 168° | 62° |
| 23:30 | 2° | SSE 165° | 62° |
| 00:00 | 4° | SSE 163° | 62° |
| 00:30 | 6° | SSE 160° | 62° |
| 01:00 | 8° | SSE 158° | 62° |
| 01:30 | 11° | SSE 156° | 62° |
| 02:00 | 14° | SSE 155° | 62° |
| 02:30 | 17° | SSE 154° | 62° |
| 03:00 | 20° | SSE 153° | 62° |
| 03:30 | 23° | SSE 152° | 62° |
| 04:00 | 26° | SSE 152° | 62° |
Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
O que ver
| Instrumento | O que esperar |
|---|---|
| A olho nu | Objeto evidente no céu escuro, com Theta Carinae rodeada de uma névoa de estrelas fracas. No Rio, sob céu de Bortle 7, você distingue a estrela central e as cinco seguintes com um pouco de esforço; a névoa se perde (Tonkin). |
| Binóculo (7×50 a 10×50) | O melhor instrumento: mais de vinte estrelas em 10×50 e a moldura de campo aberto realçam o conjunto (Tonkin; Mobberley). |
| Telescópio pequeno (refrator curto) | Precisa de campo de pelo menos 1,5°: com um refrator curto, o quadro é magnífico. Em baixo aumento, o aglomerado parece dois grupos separados (Bakich). |
| Telescópio de 200 mm ou mais | Um erro comum: o campo é estreito demais, e as estrelas se espalham e perdem o efeito de grupo. Use o telescópio para Melotte 101, a cerca de 75 aumentos (Bakich; Mobberley). |
Expectativa honesta: IC 2602 não impressiona por detalhes, e sim pela graça do conjunto. Ele não tem a sofisticação de NGC 3532 (ver guia) nem a densidade de NGC 2516 (ver guia). Em compensação, é o mais fácil dos três em condições ruins, porque depende de poucas estrelas brilhantes.
Astrofotografia: estratégia de captura
Enquadramento
O aglomerado é grande demais para a maioria dos telescópios. Mobberley recomenda uma DSLR com uma lente de 500 mm; com um telescópio de 1.000 mm e uma câmera como a ASI294MC Pro (campo de cerca de 1,1° × 0,75°), você enquadra só o núcleo. Uma lente de 200 a 300 mm em câmera de sensor grande dá o conjunto completo, com Theta Carinae no centro e Melotte 101 na borda.
Desafios do alvo
- Estrelas muito brilhantes. Theta Carinae, de magnitude 2,7, satura rapidamente e cria halos e reflexos; use exposições curtas e um bom controle de brilho.
- Contraste de brilho. O centro é dominado por poucas estrelas brilhantes, e as estrelas fracas do fundo são quase invisíveis em exposições curtas. A estratégia é combinar exposições curtas (estrelas brilhantes) e longas (fundo).
- Céu de fundo. Como o campo é cheio de estrelas, a poluição luminosa é menos crítica do que em nebulosas, mas o gradiente de brilho no horizonte sul ainda exige calibração cuidadosa.
Equipamento e filtros
Uma câmera colorida de um disparo é suficiente. Filtros de banda estreita não fazem sentido para um aglomerado de estrelas; se quiser suprimir a poluição luminosa, um filtro de banda larga de "corte de poluição" ajuda um pouco, mas altera as cores das estrelas azuis. Um filtro Bahtinov é útil para focar uma estrela tão brilhante.
Exemplo de sessão (ponto de partida)
| Tipo de quadro | Quantidade | Exposição | Finalidade |
|---|---|---|---|
| Light curto | 30 | 5 s | Estrelas brilhantes sem saturar |
| Light longo | 40 | 60 s | Estrelas fracas do fundo e Melotte 101 |
| Dark | 20 | igual aos Lights | Calibração do ruído térmico |
| Flat | 30 | automática | Correção de vinheta e poeira |
| Bias ou dark-flat | 50 | mais curta possível | Calibração do ruído de leitura |
Esses números são um ponto de partida, e não vêm dos livros; nenhum dos livros de astrofotografia consultados trata deste objeto.
Smart telescopes e campo de visão
O IC 2602 é maior do que o campo de um smart telescope como o Seestar S50 (cerca de 1,3° × 0,7°), e o quadro só abrange o coração do aglomerado, em torno de Theta Carinae. Vale como estudo de cor de estrelas, mas não para o efeito de conjunto. Escolha o seu modelo no mapa abaixo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.
Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.
Considerações finais
As Plêiades do Sul são um exemplo de que o céu austral não tem só objetos de estrelas fracas e exóticas: ele tem versões mais bonitas do que as do norte. É um alvo fácil para binóculo, tolerante a céu poluído e disponível quase o ano todo. A sugestão é combiná-lo, na mesma noite, com NGC 3532 e a região de Eta Carinae, e, para comparar, com as Plêiades (M45), que ficam em outra região do céu, em Touro. O Cruzeiro do Sul está logo ali, também.
Referências
- BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 158 (IC 2602).
- KAMBIČ, Bojan. Viewing the Constellations with Binoculars: 250+ Wonderful Sky Objects to See and Explore. New York: Springer, 2010. Aglomerados abertos, p. 110-111.
- MOBBERLEY, Martin. The Caldwell Objects and How to Observe Them. New York: Springer, 2009. Caldwell 102, p. 210-211.
- MOORE, Patrick (ed.). Astronomy Encyclopedia. London: Philip's. Verbete Carina (IC 2602 a 480 anos-luz).
- TONKIN, Stephen. Binocular Astronomy. London: Springer, 2007. "50 Deep Sky Objects for 50 mm Binoculars", IC 2602, p. 118.
- SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas e paralaxe de IC 2602, em 21 set. 2026.
- HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.