setembro 21, 2026

NGC 5139 (Caldwell 80), Ômega Centauri: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2) de NGC 5139 — Ômega Centauri — objeto ainda não capturado no observatório

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.

Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. UK Schmidt Telescope (UKST) / AAO–ROE. Créditos

Ômega Centauri é o objeto que mais convence um observador de que o hemisfério sul tem um céu melhor. A olho nu, ela é uma "estrela" gorda e borrada, diferente de qualquer outra; num binóculo, uma bola de luz maior que a Lua cheia; num telescópio, um enxame de milhares de estrelas que vão de uma borda a outra do campo. Mobberley a chama de o melhor globular do céu, e a maioria dos observadores concorda, mesmo dando a 47 Tucanae uma boa disputa. Para quem mora no Rio de Janeiro, ela é um alvo de outono, alto no céu e de fácil localização. Este guia reúne os dados, as cartas, os gráficos de altura e a estratégia de observação e de captura.

Texto em revisão. Este é um guia de teste do novo formato de objeto, no lote de globulares do catálogo Caldwell. As fontes estão listadas no final.

Imagem de referência (DSS2) de NGC 5139 — Ômega Centauri — objeto ainda não capturado no observatório
Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. UK Schmidt Telescope (UKST) / AAO–ROE. Imagem de referência: este objeto ainda não foi fotografado no Observatório. Créditos

Ficha técnica e designações

Visão geral: o que é um aglomerado globular

Um globular é uma esfera de estrelas muito antigas, presas umas às outras pela gravidade, que orbita a Galáxia em uma região ampla chamada halo. Moore e Rees contam cerca de 160 desses aglomerados na Via Láctea, em geral com 10.000 a mais de um milhão de estrelas e um diâmetro médio de 65 anos-luz. Eles são pobres em elementos pesados, o que revela sua idade. Ômega Centauri foge da regra por todos os lados: é o maior e mais brilhante deles.

Ômega Centauri em números. A luz total fica perto da magnitude 4 (os livros vão de 3,5 a 3,7), e o diâmetro aparente é de cerca de 36′ segundo o SIMBAD (livros que contam o halo tênue trazem até 55′). A distância é de cerca de 16.900 anos-luz, pela paralaxe do SIMBAD (livros trazem de 16.000 a 18.250), o que dá um diâmetro real de cerca de 180 anos-luz no corpo principal, o maior entre os globulares da Via Láctea, e perto de 270 com o halo (Mobberley; Allison). Mobberley fala em pelo menos 3 milhões de estrelas, quantidade "comparável a algumas anãs pequenas", e uma idade de cerca de 12 bilhões de anos. Moore e Rees estimam uma massa de pelo menos 5 milhões de Sóis.

Talvez não seja um globular comum. A hipótese mais aceita é que Ômega Centauri seria o resto do núcleo de uma pequena galáxia devorada pela Via Láctea. Moore e Rees registram essa possibilidade, além de indícios de um buraco negro, e Kambič a menciona também. Allison observa que o aglomerado tem duas populações de estrelas, uma delas com muito mais hélio, o que não é comum em globulares. Por isso, tudo isto está em constante revisão; trate como estado atual da pesquisa, e não como fato fechado.

O nome e a história. Ptolomeu já a registrou, mas como uma estrela; a natureza de aglomerado foi reconhecida por Halley (Mobberley; Moore e Rees). O "Ômega" do nome, segundo Bakich, não tem relação com o formato: Bayer, em sua Uranometria de 1603, a listou como estrela e lhe atribuiu a letra grega ômega ao interpretar uma lista antiga. Ela gira depressa, e por isso é levemente achatada, segundo o mesmo autor.

Ômega contra 47 Tucanae. Mobberley coloca as duas lado a lado: o brilho é quase o mesmo, mas Ômega é um pouco maior e tem mais estrelas, em um núcleo menos concentrado. A vizinha, 47 Tucanae, parece uma esfera mais nítida, mais tridimensional. Para quem observa do hemisfério norte, Ômega leva vantagem: fica em declinação −47°, contra −72° de 47 Tucanae, e por isso pode ser vista rente ao horizonte de latitudes de até 42° N, enquanto 47 Tucanae exige estar abaixo de 18° N (Mobberley).

Estruturas notáveis

  • A imensidão. O aglomerado ocupa cerca de um grau de céu, quase o dobro da Lua cheia, segundo Mobberley. Do Rio, o efeito é maior num binóculo, em que o campo inteiro é dominado por ele.
  • A granulação de estrelas. Em qualquer abertura decente, aparecem inúmeras estrelas de magnitudes 12 a 14 (Mobberley). Com 200 mm, Bakich fala em cerca de mil estrelas visíveis, distribuídas quase uniformemente com aumentos altos.
  • As gigantes vermelhas. Com 400 mm ou mais e alto aumento, é possível ver estrelas supergigantes vermelhas entre as demais (Bakich).
  • O achatamento. Por causa da rotação rápida, o contorno é um pouco oval, e não perfeitamente circular (Bakich).
  • A companhia. A 4,5° ao norte fica a galáxia Centaurus A (NGC 5128), de magnitude cerca de 7, com sua faixa de poeira. Mobberley acha inconcebível ver uma sem a outra, e Kambič propõe um roteiro em binóculo: com Zeta Centauri na borda leste do campo e Ômega na oeste, mova o aglomerado para o sul e a galáxia aparece ao norte (Kambič).

Como localizar

Ômega Centauri fica no coração de Centauro, cerca de 5° a oeste da estrela Zeta Centauri (Mobberley; Kambič). Quem sabe achar a constelação a acha sem dificuldade: com Alfa e Beta Centauri e a Cruz do Sul como referência, o aglomerado é uma "estrela" difusa e clara, a oeste de Zeta (à direita dela, para quem olha para o sul). O binóculo confirma na hora, porque nada mais parece com ele. Kambič ainda sugere um caminho alternativo, partindo de Mu Centauri.

Carta de localização de NGC 5139: as estrelas-guia nomeadas, setas tracejadas com a distância em graus até o alvo, escala em graus e indicação de norte e leste.
Carta de localização (star-hopping), no mesmo estilo das cartas de constelação: norte e leste indicados no canto. Anéis laranja: estrelas-guia; setas tracejadas: o caminho até o alvo, com a distância em graus; anel verde: o alvo (e, com a designação, outros objetos do campo); a barra mostra a escala. As linhas são as oficiais das constelações (d3-celestial), os limites são os da IAU e as estrelas vêm do catálogo HYG.

Quando e como observar

Com declinação de cerca de −47°, Ômega Centauri cruza o meridiano do Rio a cerca de 65° de altura, um ângulo muito favorável, sem problemas de extinção. Ela não é circumpolar para nós: nasce e se põe. Mobberley indica de março a junho como os melhores meses, o que bate com o cálculo: por volta do início de abril ela passa pelo meridiano à meia-noite, e no começo de junho, às 21h, portanto, o outono é a melhor época para vê-la na primeira metade da noite (o gráfico abaixo mostra a janela exata para o seu local).

Em um céu de Bortle 7, como o do Rio, os globulares sofrem menos que as nebulosas, porque a luz vem de estrelas, e um objeto tão grande e brilhante resiste bem. A olho nu, ela ainda aparece como uma estrela difusa, mais fácil se você a localizar antes com binóculo. Mobberley não vê vantagem em filtros (a luz vem das estrelas, e nenhum filtro de nebulosa ajuda).

Orientação: com o objeto no meridiano, olhando para o sul, o norte fica para cima e o leste à esquerda.

Altura de Ômega Centauri ao longo do anoAltura à meia-noite astronômica e altura máxima da noite, a cada 5 dias. Melhor época: de janeiro a junho. O objeto chega a 65° à meia-noite em abril.0°30°60°90°JANFEVMARABRMAIJUNJULAGOSETOUTNOVDEZ11 abr · 65°hoje
Altura ao longo do ano, a cada 5 dias: linha contínua = altura no meio da noite astronômica (Sol abaixo de −18°); tracejada = maior altura durante a noite escura; faixa verde = melhor época; linhas pontilhadas em 30° e 45°. A linha vertical marca hoje. Melhor época para este local: de janeiro a junho (objeto acima de 30° no meio da noite). Ponto mais alto: 65° em 11 de abril.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

2026-10-13 · 19:20 – 04:10

Esta noite no céu

Melhores alvos da noite

Este objeto não passa de 30° de altura nesta noite (máximo: 3°). Não é um bom alvo hoje.

Melhor horário
19:20 · 3° SW
Horas acima de 45°
0,0 h
Lua
Lua crescente · 12 %
Nota da noite
0 / 100
Posição no céu
0
Brilho
100 mag 5,3
Enquadramento
100 ocupa 60 % do campo

Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).

Trajetória de NGC 5139 — Ômega Centauri pelo céu nesta noiteCéu visto de baixo, zênite no centro e horizonte na borda. O objeto fica acima do horizonte entre 18:20 e 04:50 durante a noite; o ponto mais alto é às 19:20, com 3°. A tabela ao lado traz os mesmos valores.15°30°45°60°75°NNELSESSOONO19:0004:00
Caminho do objeto pelo céu nesta noite, do fim do crepúsculo civil ao amanhecer. Centro = zênite, borda = horizonte; visto olhando para cima (leste à esquerda, oeste à direita). Marcadores a cada 30 minutos.
  • Crepúsculo civil (Sol até −12°)
  • Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
  • Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
  • Altura abaixo de 20°
  • Hora cheia e meia hora
  • Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
Altura e direção do objeto a cada 30 minutos
Hora Altura Direção Da Lua
19:30 2° SW 218° 35°
20:00 -3° — 35°
20:30 -6° — 35°
21:00 -10° — 35°
21:30 -13° — 35°
22:00 -15° — 35°
22:30 -17° — 35°
23:00 -19° — 36°
23:30 -19° — 36°
00:00 -20° — 36°
00:30 -19° — 36°
01:00 -18° — 36°
01:30 -16° — 36°
02:00 -14° — 36°
02:30 -11° — 36°
03:00 -8° — 37°
03:30 -4° — 37°
04:00 0° SE 143° 37°
Altura de NGC 5139 — Ômega Centauri ao longo da noiteAltura em graus a cada 30 minutos. O ponto mais alto é às 19:20, com 3°. A tabela abaixo traz os mesmos valores.0°30°60°90°202122230001020304abaixo do horizonte
Altura em graus ao longo da noite escura (linhas em 30° e 45°). A Lua aparece tracejada.

Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

O que ver

Instrumento O que esperar
A olho nu Uma "estrela" grande e difusa, visível mesmo de Bortle 7 quando o objeto está alto e a noite é limpa (Mobberley; Bakich; Allison).
Binóculo (7×50 a 15×70) Um disco maior que a Lua cheia, felpudo, com o centro mais claro que as bordas; as estrelas mais brilhantes já podem aparecer nas bordas em binóculos maiores (Kambič; Allison).
Telescópio de 100 a 150 mm Boa resolução das estrelas de 13ª e 14ª magnitude em toda a periferia; o núcleo continua granulado (Mobberley; Allison fala em resolução parcial com 75 a 100 mm).
Telescópio de 200 mm ou mais Cerca de mil estrelas distribuídas quase uniformemente com aumento alto (Bakich). Com 400 mm ou mais, podem-se distinguir supergigantes vermelhas (Bakich).

Expectativa honesta: a fama de "o melhor globular" se justifica pelo tamanho, pela riqueza de estrelas e pela facilidade de localização, mas ele não se parece com uma fotografia de longa exposição. Mesmo assim, é um dos objetos que mais recompensam quem tem um telescópio no Brasil.

Astrofotografia: estratégia de captura

Enquadramento

O aglomerado tem cerca de 36′ de diâmetro (mais com o halo tênue). Um campo de 1,1° × 0,75° (como o de uma ASI294MC Pro com telescópio de 1.000 mm, calculado a partir do sensor e da focal) o enquadra com folga; em focais mais longas, prefira um mosaico. Um campo maior, de 3° a 5°, permite incluir Centaurus A e Ômega na mesma foto, aproveitando a proximidade dos dois. Mobberley cita um mosaico de duas imagens, com 4 horas de dados, feito por Robert Gendler com um telescópio de 37 cm.

Desafios do alvo

  • Núcleo estourado. O centro é muito mais brilhante que a periferia, e exposições longas saturam as estrelas centrais; combine exposições curtas e longas.
  • Foco e guiagem. Em um globular, o resultado depende de estrelas pequenas e redondas; um foco ligeiramente desregulado transforma o "enxame de joias" em uma mancha.
  • Altura e horário. Fotografe perto do meridiano, quando ela está mais alta, para reduzir a turbulência.

Equipamento e filtros

Mobberley classifica o objeto como "impressionante em mono ou em cor", sem vantagem de filtros. Uma câmera colorida de um disparo já basta; um filtro anti-poluição de banda larga pode ajudar em Bortle 7. Não há nebulosidade para realçar com banda estreita.

Exemplo de sessão (ponto de partida)

Tipo de quadro Quantidade Exposição Finalidade
Light (RGB ou câmera colorida) 60 a 120 30 a 60 s Periferia e estrelas fracas
Light curtos (para o núcleo) 30 3 a 10 s Núcleo sem estourar
Dark 30 igual aos Lights Calibração do ruído térmico
Flat 30 automática Correção de vinheta e poeira
Bias ou dark-flat 50 mais curta possível Calibração do ruído de leitura

Esses números são um ponto de partida, e não vêm dos livros.

Smart telescopes e campo de visão

Um smart telescope como o Seestar S50 (campo de cerca de 1,3° × 0,7°) enquadra bem o aglomerado: com 36′ de diâmetro no SIMBAD, cabe na altura do quadro (cerca de 42′), mas o halo mais externo, que os livros incluem nos 55′, pode passar dos limites. Como o alvo é brilhante, poucas dezenas de minutos de empilhamento já rendem uma boa imagem. Escolha o seu modelo no mapa abaixo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.

0°

Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.

Considerações finais

Ômega Centauri é o "objeto obrigatório" do céu de outono do sul: alto, brilhante, fácil de achar e recompensador em qualquer instrumento, do binóculo ao telescópio grande. Quem quiser aprofundar o assunto pode compará-lo a 47 Tucanae, o outro gigante, e ao globular mais próximo de nós NGC 6397, ou seguir para NGC 3201 e NGC 6541, globulares menores do mesmo catálogo. Para uma noite completa, junte-o à galáxia Centaurus A, a 4,5° ao norte.

Referências

  • ALLISON, M. Star Clusters and How to Observe Them. London: Springer, 2006. NGC 5139, p. 152-153; globulares recordistas, p. 29-36.
  • BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 333 (NGC 5139).
  • KAMBIČ, Bojan. Viewing the Constellations with Binoculars: 250+ Wonderful Sky Objects to See and Explore. New York: Springer, 2010. Centauro, Ômega Centauri e Centaurus A, p. 244-245.
  • MOBBERLEY, Martin. The Caldwell Objects and How to Observe Them. New York: Springer, 2009. Caldwell 80, p. 168-169; Caldwell 106, p. 218.
  • MOORE, Patrick; REES, Robin. Patrick Moore's Data Book of Astronomy. Cambridge: Cambridge University Press, 2011. Aglomerados globulares, p. 348-349.
  • SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, paralaxe e dimensões de NGC 5139, em 21 set. 2026.
  • HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.