setembro 21, 2026

M104, a Galáxia do Sombreiro: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2) de M104 — Galáxia do Sombreiro — objeto ainda não capturado no observatório

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.

Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. UK Schmidt Telescope (UKST) / AAO–ROE. Créditos

A Galáxia do Sombreiro é uma das galáxias mais reconhecíveis do céu. Vista praticamente de perfil, tem um bojo central luminoso, um disco fino e uma faixa de poeira escura que a corta de ponta a ponta, e o conjunto lembra mesmo um chapéu mexicano. Ela fica em Virgem, perto da fronteira com o Corvo, e do Rio de Janeiro passa quase sobre nossas cabeças: é um dos objetos de Messier que mais se beneficiam da nossa latitude. É também uma galáxia com boa história científica: foi a primeira em que se mediu um grande desvio para o vermelho. Este guia reúne os dados, os mapas, os gráficos de altura e a estratégia de observação e de captura, tudo em um só lugar.

Texto em revisão. Este é um dos guias de teste do novo formato de guia de objeto. As fontes estão listadas no final.

Imagem de referência (DSS2) de M104 — Galáxia do Sombreiro — objeto ainda não capturado no observatório
Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. UK Schmidt Telescope (UKST) / AAO–ROE. Imagem de referência: este objeto ainda não foi fotografado no Observatório. Créditos

Ficha técnica e designações

Visão geral: o que é uma galáxia espiral vista de perfil

Uma galáxia espiral é um disco achatado de estrelas, gás e poeira, com um bojo esférico no centro. Se a olhamos de frente, vemos os braços; de lado, vemos uma faixa fina, e a poeira que se concentra no plano do disco aparece como uma linha escura na frente do bojo brilhante. O Sombreiro é o exemplo mais famoso: está inclinado só cerca de 6° em relação a uma vista perfeitamente lateral (Kier; Bakich), e a poeira ao longo do equador da galáxia cria a ilusão do chapéu (Kier). Bakich explica que a faixa de poeira parece passar ao sul do centro justamente por causa dessa pequena inclinação.

O Sombreiro em números. A galáxia tem magnitude V de 8,0 e cerca de 8,5′ de comprimento por 5′ de largura, ou seja, mais ou menos um quarto do tamanho da Lua cheia no eixo maior (SIMBAD; os livros trazem tamanhos um pouco menores, de 7′ a 9′). Kier avisa que, apesar da magnitude, ela é mais difícil de fotografar do que muitas galáxias mais fracas, porque é pequena e pede alta resolução, e porque a falta de cor chama a atenção para os detalhes, e qualquer borrão fica evidente.

Distância. O SIMBAD não traz paralaxe para galáxias, e as medições modernas listadas lá variam muito conforme o método. Este guia usa cerca de 50 milhões de anos-luz (dos livros; o SIMBAD não traz paralaxe), o valor de Kier; o Philip's traz 65 milhões. A essa distância, o diâmetro real é de cerca de 105.000 anos-luz (o Philip's, com 65 milhões, fala em mais de 135.000).

Um marco da cosmologia. Bakich lembra que o Sombreiro foi a primeira galáxia com grande desvio para o vermelho a ser medido: em 1912, Vesto Slipher viu que ela se afastava a cerca de 3,6 milhões de km/h, um dos indícios que levaram à ideia de universo em expansão.

Descoberta e vizinhança. O Philip's atribui a descoberta a Pierre Méchain, em 1781, e diz que ela pertence ao Superaglomerado Virgem-Cabeleira. O Ridpath diz que ela não faz parte do aglomerado de Virgem, a cerca de dois terços da distância dele. Isso a torna um objeto de campo, à parte do enxame de galáxias vizinhas (o aglomerado de Virgem tem milhares de galáxias a cerca de 50 a 60 milhões de anos-luz, segundo Kier e Ridpath).

Estruturas notáveis

  • A faixa de poeira. O traço mais famoso, uma linha escura ao longo do plano do disco. Telescópios de 100 mm já a sugerem perto do centro (Bakich), e a partir de 150 mm (6 polegadas) ela fica clara (Kier).
  • O bojo e o núcleo. Um bojo grande e brilhante, com núcleo mais luminoso. Em binóculos de 37 aumentos, a galáxia parece uma elipse com bojo e núcleo (Tonkin).
  • O disco e o halo. Um halo grande e fraco envolve o bojo. Para ver o disco, é preciso um céu escuro.
  • O contraste da faixa. Cooke descreve a faixa varrendo a galáxia de forma dramática, quase mais escura que o espaço em volta, e diz que o Sombreiro honra o nome e chega perto das imagens de observatório.

Como localizar

O Sombreiro fica a pouco mais de dois campos de binóculo a nor-nordeste de Delta do Corvo (Tonkin). Do Rio, Virgem e o Corvo estão altos, e o roteiro é simples: ache Spica, a estrela mais brilhante de Virgem, e o quadrilátero do Corvo, um pouco a oeste dela; siga de Delta do Corvo para o norte. Ainda no Corvo, Bakich cita o Sombreiro como objeto logo ao norte do quadrilátero. Para conferir o campo, o guia da constelação de Virgem traz o mapa da região e mais objetos do aglomerado.

Carta de localização de M104: as estrelas-guia nomeadas, setas tracejadas com a distância em graus até o alvo, escala em graus e indicação de norte e leste.
Carta de localização (star-hopping), no mesmo estilo das cartas de constelação: norte e leste indicados no canto. Anéis laranja: estrelas-guia; setas tracejadas: o caminho até o alvo, com a distância em graus; anel verde: o alvo (e, com a designação, outros objetos do campo); a barra mostra a escala. As linhas são as oficiais das constelações (d3-celestial), os limites são os da IAU e as estrelas vêm do catálogo HYG.

Lembre que, olhando para o norte no hemisfério sul, o norte fica embaixo e o leste à esquerda. Kier mostra a foto com o leste para cima, o que corresponde a girar a imagem.

Quando e como observar

M104 tem declinação de cerca de −11,6°, e no Rio de Janeiro (latitude −23°) chega a uma altura máxima de cerca de 79° acima do horizonte norte: quase no zênite. É um enorme benefício, porque Kier observa que do hemisfério norte a galáxia fica baixa, o que aumenta a extinção, a refração e a turbulência, e a torna mais difícil de fotografar. Aqui acontece o contrário. A melhor época é de abril a junho: no fim de março ela cruza o meridiano à meia-noite, e no fim de maio, ao anoitecer (por volta das 21 h). Em agosto ela já está baixando no oeste ao fim do crepúsculo.

O primeiro gráfico mostra a altura do objeto ao longo do ano para o local do observatório; o segundo, o caminho da galáxia pelo céu nesta noite (zênite no centro, cores pela altura e linha pontilhada, tracejada ou contínua conforme o crepúsculo), seguido da altura hora a hora.

Altura de Galáxia do Sombreiro ao longo do anoAltura à meia-noite astronômica e altura máxima da noite, a cada 5 dias. Melhor época: de janeiro a maio. O objeto chega a 79° à meia-noite em abril.0°30°60°90°JANFEVMARABRMAIJUNJULAGOSETOUTNOVDEZ1 abr · 79°hoje
Altura ao longo do ano, a cada 5 dias: linha contínua = altura no meio da noite astronômica (Sol abaixo de −18°); tracejada = maior altura durante a noite escura; faixa verde = melhor época; linhas pontilhadas em 30° e 45°. A linha vertical marca hoje. Melhor época para este local: de janeiro a maio (objeto acima de 30° no meio da noite). Ponto mais alto: 79° em 1 de abril.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

2026-10-12 · 19:20 – 04:10

Esta noite no céu

Melhores alvos da noite

Este objeto não passa de 30° de altura nesta noite (máximo: -10°). Não é um bom alvo hoje.

Melhor horário
04:00 · -10° ESE
Horas acima de 45°
0,0 h
Lua
Lua crescente · 6 %
Nota da noite
0 / 100
Posição no céu
0
Brilho
60 mag 8,6
Enquadramento
75 ocupa 19 % do campo

Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).

Caminho do objeto pelo céu nesta noite, do fim do crepúsculo civil ao amanhecer. Centro = zênite, borda = horizonte; visto olhando para cima (leste à esquerda, oeste à direita). Marcadores a cada 30 minutos.
  • Crepúsculo civil (Sol até −12°)
  • Altura abaixo de 20°
  • Hora cheia e meia hora
  • Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
Altura e direção do objeto a cada 30 minutos
Hora Altura Direção Da Lua
19:30 -26° — 32°
20:00 -32° — 32°
20:30 -38° — 33°
21:00 -43° — 33°
21:30 -48° — 33°
22:00 -52° — 33°
22:30 -54° — 34°
23:00 -55° — 34°
23:30 -55° — 34°
00:00 -53° — 34°
00:30 -50° — 35°
01:00 -46° — 35°
01:30 -41° — 35°
02:00 -35° — 35°
02:30 -29° — 36°
03:00 -23° — 36°
03:30 -17° — 36°
04:00 -10° — 37°
Altura de M104 — Galáxia do Sombreiro ao longo da noiteAltura em graus a cada 30 minutos. O ponto mais alto é às 04:00, com -10°. A tabela abaixo traz os mesmos valores.0°30°60°90°202122230001020304abaixo do horizonte04:00 · -10°
Altura em graus ao longo da noite escura (linhas em 30° e 45°). A Lua aparece tracejada.

Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

O que ver

Instrumento O que esperar
A olho nu Fora do alcance.
Binóculo (7×50 a 15×70) Uma elipse com bojo e núcleo mais brilhante com uns 37 aumentos; a faixa de poeira só é suspeitada, com visão indireta e em condições ideais (Tonkin).
Telescópio de 100 mm Núcleo brilhante e halo, com a faixa de poeira perto do centro sugerida (Bakich). Cooke a vê como um dos grandes espetáculos mesmo em subúrbios.
Telescópio de 150 a 200 mm A faixa de poeira é clara e a galáxia mostra o formato de chapéu (Kier).
Telescópio de 250 mm ou mais O disco fino se estende para além do bojo, com a faixa muito nítida; um céu escuro revela a borda do halo. Sob Bortle 7, o brilho do céu esconde a parte externa.

Expectativa honesta: a faixa é o que faz a galáxia. Sem ela, é uma mancha elíptica com núcleo. No Rio, a altura ajuda muito, mas o brilho do céu limita: espere ver o bojo e o núcleo sem esforço, a faixa em telescópios de 150 mm ou mais, e o disco extenso apenas em céu escuro.

Astrofotografia: estratégia de captura

Enquadramento

A galáxia mede cerca de 8,5′ no eixo maior, pequena para o campo de um telescópio curto. Com um telescópio de 1.000 mm de focal e uma câmera como a ASI294MC Pro, o campo é de cerca de 1,1° × 0,75° (calculado a partir do sensor e da focal): a galáxia ocupa cerca de um oitavo da largura do quadro. Para dar destaque, use uma focal de 1.500 a 2.500 mm. Como o Sombreiro é bem alongado, incline o quadro na diagonal em vez de deixar a galáxia paralela às bordas; Kier faz uma recomendação parecida para outros alvos ao evitar alinhar as galáxias com o eixo longo do quadro.

Desafios do alvo

  • Alta resolução. Kier destaca que o Sombreiro pede muito de rastreamento, foco e seeing, porque é pequeno e a faixa de poeira tem detalhe fino.
  • Pouca cor. A galáxia é pálida. A falta de cor chama a atenção para o detalhe espacial, e qualquer borrão fica evidente (Kier).
  • Contraste da faixa. Os detalhes finos, fora a faixa, têm baixo contraste, mais que em outras galáxias de perfil, como a Agulha (Kier). Céu escuro e muitas horas de exposição fazem diferença; em Bortle 7, o brilho de fundo limita o halo, e um filtro de poluição luminosa (broadband) ajuda pouco em galáxias.
  • Estrelas brilhantes no campo. Cuide para que as estrelas de primeiro plano não estourem.

Equipamento e filtros

Kier sugere fotografar a luminância só quando a galáxia está no ponto mais alto (perto do meridiano), para reduzir a refração, mesmo que isso reduza o número de quadros de luminância; nesse caso, os canais de cor devem ser feitos sem binning, para que também ajudem no detalhe. Essa é a nossa vantagem: no Rio de Janeiro, a galáxia passa perto do zênite. Uma câmera monocromática com filtros LRGB é o caminho clássico; uma câmera colorida também dá bom resultado. Os filtros de banda estreita não têm papel aqui.

Exemplo de sessão (ponto de partida)

Tipo de quadro Quantidade Exposição Finalidade
Luminância (ou RGB colorido) 80 a 150 120 a 180 s Bojo, faixa de poeira e disco; o tempo total é o mais importante
Dark 30 igual aos Lights Calibração do ruído térmico
Flat 30 automática Correção de vinheta e poeira
Bias ou dark-flat 50 mais curta possível Calibração do ruído de leitura

Esses números são um ponto de partida, e não vêm dos livros. Como referência, Kier aplicou a luminância a 80% de opacidade para compensar o menor número de quadros de luminância.

Smart telescopes e campo de visão

O Sombreiro cabe com folga no campo de um smart telescope como o Seestar S50 (cerca de 1,3° × 0,7°), mas aparece pequeno. Com muitos quadros empilhados, aparecem o bojo e a faixa de poeira; o campo largo também mostra a vizinhança de Virgem. Escolha o seu modelo no mapa abaixo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.

0°

Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.

Considerações finais

O Sombreiro é um alvo que recompensa quem mora no sul: alto no céu do outono, brilhante o bastante para o telescópio pequeno e com uma faixa de poeira que dá personalidade a qualquer foto. É um bom próximo passo depois das planetárias do verão e um ótimo alvo para quem quer treinar a captura de galáxias. Para seguir pelo céu da primavera do norte, que é o nosso outono, explore o guia de Virgem, com o aglomerado de galáxias e a Cadeia de Markarian.

Referências

  • BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 288 (M104).
  • COOKE, Antony. Visual Astronomy in the Suburbs: A Guide to Spectacular Viewing. London: Springer, 2003. "NGC 4594 (M104), the Sombrero Galaxy", p. 160-161.
  • KIER, Ruben. The 100 Best Targets for Astrophotography. New York: Springer, 2009. "May 17: Sombrero Galaxy", p. 128.
  • MOORE, Patrick (ed.). Astronomy Encyclopedia. London: Philip's. Verbete "Sombrero Galaxy", p. 376.
  • RIDPATH, Ian. Astronomia (Guia Ilustrado Zahar). 4. ed. Rio de Janeiro: Zahar. Verbete sobre Virgem, sem página impressa confirmada.
  • TONKIN, Stephen. Binocular Astronomy. London: Springer, 2007. "Virgo: Galaxy: M104 (NGC 4594, the Sombrero Galaxy)", p. 244.
  • SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, dimensões, velocidade radial e medidas de distância de M 104, em 21 set. 2026.
  • HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.