setembro 21, 2026
Cruzeiro do Sul: guia da menor constelação e a mais famosa do hemisfério sul

Se existe uma constelação que todo brasileiro já viu desenhada, é o Cruzeiro do Sul. Ela está na Bandeira Nacional, em moedas, em selos, em tatuagens e em canções. Mas poucos sabem que é a menor de todas as 88 constelações oficiais, que já foi considerada parte do Centauro, que serve de bússola para achar o sul e que está cercada de tesouros do céu profundo. Neste guia você vai aprender a encontrá-la, conhecer cada estrela, usá-la para achar o polo sul celeste e descobrir o que vale a pena olhar ao redor com binóculo e telescópio.
Texto em revisão. Este é um artigo de teste, escrito a partir de fontes de referência; as fontes estão listadas no final.
A menor constelação, a mais famosa
O Cruzeiro do Sul (Crux) ocupa apenas 68 graus quadrados do céu, o menor espaço entre as 88 constelações (Mourão, verbete Crux). Mesmo assim é inconfundível: quatro estrelas brilhantes formam uma cruz, e uma quinta, mais fraca, "estraga" a simetria. Vários autores comentam que, com essa quinta estrela, a figura lembra mais uma pipa do que uma cruz.
Os gregos viam essas estrelas como parte das patas do Centauro, e elas aparecem no Almagesto dentro dessa constelação. Foram os pilotos portugueses e espanhóis dos séculos XV e XVI que as redescobriram e passaram a usá-las como guia de navegação. O documento mais antigo com o nome Crux é a carta de Mestre João, na frota de Cabral, ao rei D. Manuel, em 1500, e o nome se universalizou com a Uranometria de Bayer, no início do século XVII (Mourão). A separação formal do Centauro é creditada a Augustin Royer, em 1679 (Moore; Moore e Rees; Vieira).
Quando e onde procurar
O Cruzeiro é uma constelação austral: é visível de todo o Brasil, embora baixo no extremo norte do país, e fica mais alto conforme você desce para o sul. Nas noites de abril e maio ele está no ponto mais alto no início da noite, "em pé", com o eixo maior na vertical (Ridpath; Moore). Ao longo da noite e do ano, ele gira em torno do polo sul celeste: fica deitado, depois de cabeça para baixo, e depois volta.
Uma consequência que poucos conhecem: o Cruzeiro só é circumpolar (nunca se põe) a partir de cerca de 33° de latitude sul, no extremo sul do Rio Grande do Sul. Nas demais regiões ele nasce e se põe, ou pelo menos mergulha por algumas horas abaixo do horizonte. Fizemos as contas com a declinação das estrelas:
| Cidade | Altura máxima da cruz (Acrux a Gacrux) | Se põe? |
|---|---|---|
| Boa Vista (RR) | 24° a 30° | sim, por muitas horas |
| Manaus (AM) | 30° a 36° | sim |
| Recife (PE) | 35° a 41° | sim |
| Brasília (DF) | 43° a 49° | sim |
| Rio de Janeiro (RJ) | 50° a 56° | sim, por poucas horas (Gacrux mergulha cerca de 10° abaixo do horizonte) |
| Porto Alegre (RS) | 57° a 63° | quase nunca: Acrux não se põe e Gacrux mergulha só uns 3° abaixo do horizonte |
| Chuí (RS) | 61° a 67° | nunca: é circumpolar |
Alturas calculadas a partir das coordenadas das estrelas no SIMBAD e da latitude de cada cidade; valores arredondados.

As cinco estrelas da cruz
| Estrela | Posição | Brilho visual (mag.) | Tipo espectral | Distância aproximada |
|---|---|---|---|---|
| Acrux (alfa) | base | 0,77 (conjunto) | B0,5 IV + B1 V (estrela múltipla) | cerca de 320 anos-luz |
| Mimosa ou Becrux (beta) | braço esquerdo | 1,25 (levemente variável) | B1 IV | cerca de 280 anos-luz |
| Gacrux ou Rubídea (gama) | topo | 1,6 | M3,5 III (gigante vermelha) | cerca de 90 anos-luz |
| Imai (delta) | braço direito | 2,75 | B2 IV | 300 a 450 anos-luz |
| Intrometida (épsilon) | entre Acrux e Imai | 3,57 | K3 III (gigante alaranjada) | cerca de 230 anos-luz |
Brilhos, tipos espectrais e paralaxes consultados no SIMBAD (CDS, Estrasburgo). As distâncias vêm de paralaxes do satélite Hipparcos; livros mais antigos trazem valores bem diferentes (por exemplo, de 350 a 425 anos-luz para Mimosa).
Acrux, a estrela da base, é a mais ao sul de todas as estrelas de 1ª magnitude. A olho nu é uma só, mas um telescópio pequeno a separa em duas estrelas azuis de brilhos parecidos, com magnitudes em torno de 1,3 a 1,4 e 1,8 a 1,9 (as fontes variam) e distância de cerca de 4 segundos de arco entre elas.
Gacrux, no topo, é a única estrela laranja-avermelhada entre as principais. As outras três são azuis, e esse contraste de cor é um dos charmes do Cruzeiro em binóculos. Gacrux tem uma companheira de magnitude 6,7 a cerca de 111 segundos de arco, fácil de ver em binóculo, mas que não tem relação física com ela (Moore).
Mimosa é a estrela do braço esquerdo, azul-branca, e o ponto de partida para a Caixa de Joias. Imai é a mais fraca das quatro principais.
A Intrometida. É como os brasileiros chamam Épsilon Crucis, a estrelinha laranja que fica sob o "braço menor" da cruz. Segundo o dicionário de Mourão, o nome é popular e vem do fato de ela quebrar a simetria do desenho. Ele registra que as bandeiras da Austrália e da Nova Zelândia e as Armas da República mostram essa estrela do lado direito, como ela realmente é vista, enquanto a Bandeira Nacional não, o que gerou "veementes polêmicas".
Como achar o Sul com o Cruzeiro
No hemisfério norte, a estrela Polar marca o polo celeste e é fácil de achar. No sul, não existe uma estrela brilhante no polo sul celeste. A estrela mais próxima que dá para ver a olho nu é Sigma Octantis, de magnitude 5,4, a pouco mais de um grau do polo, fraca demais para céus urbanos (Ridpath, sobre a constelação de Oitante). É aí que o Cruzeiro entra como bússola. Existem dois métodos, e você pode usar os dois para se conferir:
- O eixo maior da cruz. Trace uma linha de Gacrux até Acrux e prolongue-a por cerca de 4,5 vezes o comprimento da cruz (que mede uns 6 graus). O ponto onde a linha termina fica bem perto do polo sul celeste. Medimos com as coordenadas reais das estrelas: com 4,5 vezes o erro é de cerca de 2,7°; com 4 ou 5 vezes ele sobe para perto de 4°, por isso 4,5 é a regra mais usada (Vieira). Alguns livros falam em 4 ou em 5 vezes (Mourão; Ridpath), o que mostra que é uma estimativa de olho.
- Os Apontadores. Trace uma linha reta ligando Alfa e Beta do Centauro (os Apontadores) e, a partir do meio dela, uma perpendicular na direção do sul. Onde essa perpendicular cruza o prolongamento do eixo do Cruzeiro fica o polo (Ridpath). Medimos com as coordenadas reais: as duas linhas se cruzam a cerca de 3° do polo, um erro parecido com o do primeiro método, o que é bom o bastante para se orientar.
Na direção do polo sul celeste fica o sul geográfico: desça uma vertical do polo até o horizonte. A altura do polo acima do horizonte é igual à latitude do lugar (cerca de 23° no Rio de Janeiro), o que dá para conferir com um aplicativo. O polo sul também forma um triângulo aproximadamente equilátero com Canopus e Achernar (Ridpath).
Os Apontadores: Alfa e Beta do Centauro
Logo ao lado da cruz, no lado leste (à esquerda, para quem olha para o sul), brilham duas estrelas muito fortes: Alfa e Beta do Centauro. Elas "apontam" para o Cruzeiro e são chamadas de Apontadores (Ridpath; Vieira).
Rigil Kentaurus (Alfa do Centauro) é um sistema triplo a cerca de 4,3 anos-luz de nós, o mais próximo do Sistema Solar. O sistema é formado por duas estrelas de tipo solar (uma quase gêmea do Sol e outra um pouco mais fria e alaranjada), que giram uma em torno da outra em cerca de 80 anos, e por uma terceira, a Próxima Centauri, uma anã vermelha descoberta por Robert Innes em 1916 (Mourão, verbetes Rigil Kentaurus e Próxima). O nome vem do árabe e significa "o pé do centauro". Hadar (Beta do Centauro) é uma gigante azul muito mais distante, a algumas centenas de anos-luz (as fontes citam de 350 a 480).
Os tesouros ao redor
NGC 4755, a Caixa de Joias (Caldwell 94)
A Caixa de Joias é um dos aglomerados abertos mais bonitos do céu e um dos mais jovens que se conhecem: tem entre 7 e 15 milhões de anos, dependendo do estudo, e está a algo entre 5.000 e 7.700 anos-luz (o SIMBAD lista valores por volta de 6.500). A olho nu parece uma estrela de magnitude 4, perto de Mimosa. Em binóculos, um punhado de estrelas se destaca em um campo de cerca de um terço do diâmetro da Lua cheia, e uma estrela avermelhada, uma supergigante, contrasta com as outras, azul-brancas (Ridpath; Mobberley; Tonkin).
Para achá-la, comece em Mimosa e ande cerca de 1 grau para o sudeste (na carta, para baixo e à esquerda). Com um telescópio de 10 cm ou mais aparece a variedade de cores que levou John Herschel a apelidá-la de "Caixa de Joias" (Moore, verbete Jewel Box; Mobberley). O aglomerado foi registrado pela primeira vez por Lacaille em 1751-52 (Moore, verbete Kappa Crucis Cluster). É também um alvo fácil e colorido para câmera DSLR (Mobberley).
Caldwell 99, o Saco de Carvão
O Saco de Carvão é uma nuvem escura de gás e poeira, com cerca de 5 a 7 graus de extensão, que bloqueia a luz da Via Láctea atrás dela. Fica a cerca de 600 anos-luz, mede algo como 60 anos-luz de diâmetro e é provavelmente a nebulosa escura mais próxima de nós (Coe; Moore e Rees; Mobberley). A olho nu, em céu escuro, parece um "buraco" na faixa brilhante da Via Láctea, ao lado do Cruzeiro. Uma curiosidade citada por Moore: ele parece o ponto mais escuro do céu, mas isso é ilusão de contraste com a Via Láctea ao redor. A nuvem também não é totalmente opaca: estrelas de trás aparecem avermelhadas e mais fracas (Mobberley).
Já era citado no início do século XVI. Mourão registra que o italiano Pietro Martire d'Anghiera (1510) usou o nome "saco de carvão" ao atribuir a observação a Vicente Yáñez Pinzón, em 26 de janeiro de 1500. Entre os povos indígenas, "Juaraná" é um dos nomes registrados para essa mancha escura, e, no Rio Negro, o Cruzeiro é "Juaraua", o peixe-boi em fuga eterna de perseguidores que seriam Alfa e Beta do Centauro (Mourão).
NGC 4609, o vizinho de Acrux (Caldwell 98)
Cerca de 2 graus a leste de Acrux (à esquerda, na carta), o aglomerado NGC 4609 tem magnitude 6,9 e cerca de 6 minutos de arco. Ele fica sobre o Saco de Carvão e serve para ver como a nuvem escurece e avermelha as estrelas de trás (Mobberley).
Ômega Centauri (NGC 5139)
Um pouco mais ao norte (no alto da carta), o Ômega Centauri é o maior e mais brilhante aglomerado globular do céu, visível a olho nu como uma mancha maior que a Lua, com cerca de um milhão de estrelas segundo Tonkin. Se você está no sul do Brasil, é um alvo que combina bem com uma noite de Cruzeiro.
Cuidado com a Falsa Cruz
Perto do Cruzeiro existe um desenho parecido, maior e mais fraco: a Falsa Cruz (ou Falso Cruzeiro), formada por Épsilon e Iota da Carena e Delta e Kappa da Vela. Muita gente a confunde com o Cruzeiro verdadeiro. O Cruzeiro verdadeiro é menor, mais brilhante e fica ao lado dos dois Apontadores; a Falsa Cruz é maior e mais fraca (Ridpath).
Uma curiosidade vizinha: no hemisfério norte, a constelação do Cisne é chamada de "Cruz do Norte" (Mourão).
Roteiro de observação
| Instrumento | O que ver |
|---|---|
| A olho nu | A cruz e a Intrometida, a cor laranja de Gacrux, os Apontadores, o Saco de Carvão (em céu escuro) e a Caixa de Joias como uma estrelinha borrada. |
| Binóculo (10×50) | A companheira de Gacrux, a Caixa de Joias resolvida em algumas estrelas, o contorno do Saco de Carvão e o campo de estrelas da Via Láctea ao redor. |
| Telescópio pequeno (70 a 100 mm) | Acrux separada em duas estrelas azuis, as cores da Caixa de Joias e o aglomerado NGC 4609. |
| Câmera DSLR | A Caixa de Joias e o Saco de Carvão com uma lente de cerca de 100 mm; para o Cruzeiro inteiro com a Via Láctea, uma grande angular. |
Dicas de campo:
- Escolha uma noite sem Lua e um horizonte sul livre: o Cruzeiro é baixo em boa parte do país.
- Em abril e maio, ele estará em pé no começo da noite; em outros meses, procure-o deitado ou de cabeça para baixo antes de desistir.
- Para o Saco de Carvão, o céu escuro é essencial: na cidade ele desaparece.
- Use o eixo do Cruzeiro para se orientar e conferir uma bússola: o polo sul celeste indica o sul geográfico.
Referências
- COE, Steven R. Nebulae and How to Observe Them. London: Springer, 2007. "Coal Sack" (Saco de Carvão), p. 91-92.
- MOBBERLEY, Martin. The Caldwell Objects and How to Observe Them. New York: Springer, 2009. Caldwell 94 (NGC 4755), p. 196-197; Caldwell 98 e 99 (NGC 4609 e Coalsack), p. 204-205.
- MOORE, Patrick (ed.). Philip's Astronomy Encyclopedia. London: Philip's, 2002. Verbetes "Coalsack" (p. 88), "Crux" (p. 106), "Jewel Box" (p. 210) e "Kappa Crucis Cluster" (p. 215).
- MOORE, Patrick. The Observer's Year: 366 Nights of the Universe. 2. ed. London: Springer, 2005. Noites de 26 de abril (Cruzeiro do Sul, p. 121-122) e 27 de abril (Caixa de Joias e Saco de Carvão, p. 123); comparação com o Grande Carro, p. 7-8; Apontadores, p. 79-80.
- MOORE, Patrick; REES, Robin. Patrick Moore's Data Book of Astronomy. Cambridge: Cambridge University Press, 2011. Crux, p. 416-417; constelações criadas por Royer, p. 370.
- MOURÃO, Ronaldo Rogério de Freitas. Dicionário enciclopédico de astronomia e astronáutica. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987. Verbetes "Crux" (p. 213-214), "Intrometida" (p. 409), "Juaraua" (p. 422), "Próxima" (p. 653), "Rigil Kentaurus" (p. 687), "Rubídea" (p. 694) e "Saco de Carvão" (p. 698).
- RIDPATH, Ian. Astronomia (Guia Ilustrado Zahar). 4. ed. Rio de Janeiro: Zahar. Cruzeiro do Sul, p. 214; como achar o polo sul, p. 134; Falsa Cruz, p. 212; Oitante e o polo sul, p. 227; Apontadores, p. 198.
- TONKIN, Stephen. Binocular Astronomy. London: Springer, 2007. NGC 4755, p. 125; Ômega Centauri, p. 121.
- VIEIRA, Fernando. Identificação do céu. Cruzeiro do Sul e o polo sul celeste, p. 78-80; alinhamentos do outono, p. 82.
- SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a brilhos, tipos espectrais e paralaxes, em 21 set. 2026.
- HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, usado na carta estelar; limites das constelações da IAU e linhas do d3-celestial.