setembro 21, 2026
M 93, o aglomerado da Popa: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.
Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. UK Schmidt Telescope (UKST) / AAO–ROE. Créditos
Há aglomerados que exigem persistência, atmosfera limpa e uma boa carta. M 93 não é um deles. Na direção da Popa, no meio de uma Via Láctea repleta de estrelas, ele passa quase exatamente sobre a cabeça de quem observa do Rio de Janeiro, a uns 89° de altura, no verão austral. É um aglomerado compacto e brilhante, que lembra uma ponta de flecha, e um dos raros Messier em que o observador do sul leva vantagem clara sobre o do norte. Este guia reúne o que se sabe sobre ele, como localizá-lo, o que aparece em cada instrumento e como fotografá-lo.
Texto em revisão. Este é um guia no novo formato. M 93 é um objeto pouco coberto pelos livros: o texto usa o que há (em especial Mollise e Kambič), o SIMBAD para os dados e diz claramente o que vem de conhecimento geral. As divergências estão nas pendências.

Ficha técnica e designações
Visão geral: um aglomerado jovem na Via Láctea da Popa
M 93 é um aglomerado aberto, um grupo de estrelas nascidas juntas da mesma nuvem de gás. A Popa faz parte da antiga constelação de Argo, que foi dividida em Carina, Popa e Vela, e fica mergulhada numa região densa da Via Láctea, um campo rico em aglomerados (Kambič, p. 401-402). M 93 é um dos três Messier da Popa, ao lado de M 46 e M 47.
Idade e tipo. Mollise o descreve como um aglomerado "jovem", de uns 100 milhões de anos, muito novo comparado com qualquer aglomerado globular (Mollise, p. 219-220). Ele lembra a classificação de Trumpler I,3,r: um aglomerado de concentração forte (I), com grande variação de brilho entre as estrelas (3) e rico (r). Mollise faz uma comparação curiosa: o aspecto compacto do núcleo lembra um globular frouxo como M 71, mas não há dúvida sobre a natureza de M 93.
Distância e tamanho. A paralaxe listada no SIMBAD (cerca de 0,96 milissegundo de arco) dá uns 3.400 anos-luz, o mesmo valor que Kambič apresenta. O SIMBAD dá 24′ de diâmetro aparente, o que, a essa distância, corresponde a cerca de 24 anos-luz (calculado). O SIMBAD não traz magnitude V; os livros dão cerca de 6,2 (Kambič, Bakich).
Quantas estrelas. Kambič conta pouco mais de 25 membros com magnitudes entre 8 e 11. Mollise vai além e diz que um telescópio de 4 polegadas mostra até 50 estrelas "fáceis" em alta ampliação (p. 220), o que sugere que ele conta também as estrelas mais fracas em torno do núcleo.
História. M 93 é uma descoberta do próprio Charles Messier, observada e catalogada em março de 1781 (Mollise, p. 220).
Estruturas notáveis
- O núcleo compacto. É, para Mollise, o traço mais atraente: um miolo pequeno, denso, com formato triangular, feito de muitas estrelinhas (p. 220).
- A ponta de flecha. Bakich descreve uma "ponta de flecha" de cerca de 30 estrelas que aponta para o sudoeste; Mollise fala de um centro em forma de ponta de flecha, cercado de estrelas de brilho médio a fraco.
- O entorno. Como o aglomerado está numa faixa muito povoada da Via Láctea, a região em volta está cheia de estrelas de fundo, o que dá riqueza à imagem, mas exige cuidado para não confundir o que é o aglomerado e o que é o campo.
- Vizinhos. Ao sul-sudeste, Kambič cita mais dois aglomerados abertos bem mais fracos, NGC 2467 (envolvido em nebulosidade tênue, visível só em foto) e NGC 2527, que passam despercebidos em binóculo (p. 402).
Como localizar
Use a estrela Xi Puppis, de magnitude 3,3. M 93 fica cerca de 1,5° a noroeste dela, no mesmo campo de um binóculo (Kambič, p. 401; Bakich; Machholz, p. 113). Mollise dá "sudoeste" no texto original; as coordenadas do SIMBAD mostram que o certo é noroeste. Se Xi Puppis não estiver visível da sua cidade, Mollise sugere usar as patas do Cão Maior: M 93 forma um triângulo quase retângulo com Eta e Delta do Cão Maior (Mollise, p. 220).
Do Rio, olhe para o alto. M 93 passa praticamente no zênite, então a orientação com os pontos cardeais é pouco útil; use o campo de estrelas.

Quando e como observar
Com declinação de −23,9°, M 93 tem quase a mesma latitude do Rio, e por isso culmina a uns 89° de altura. Isso é uma vantagem enorme: quanto mais alto o objeto, menos atmosfera a luz atravessa, e melhor a imagem. Mollise, em latitude norte, nota que o aglomerado está "lá embaixo, no ar grosso, ao sul", e mesmo assim o considera notável; para nós, ele é o oposto (p. 220).
A melhor época vai de dezembro a abril. Ele cruza o meridiano por volta das 21 h no fim de fevereiro; em janeiro, passa mais cedo, e em abril, ainda cedo à noite. Bakich indica janeiro. Como o objeto está quase no zênite, é bom escolher noites com boa estabilidade e usar um binóculo apoiado (a posição zenital é incômoda para o pescoço; use uma cadeira reclinável).
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
2026-10-12 · 19:20 – 04:10
Esta noite no céu
- Melhor horário
- 04:00 · 60° E
- Horas acima de 45°
- 1,2 h
- Lua
- Lua crescente · 6 %
- Nota da noite
- 71 / 100
- Posição no céu
- 52
- Brilho
- 97 mag 6,2
- Enquadramento
- 100 ocupa 33 % do campo
Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).
- Crepúsculo civil (Sol até −12°)
- Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
- Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
- Altura abaixo de 20°
- Altura abaixo de 30°
- Altura abaixo de 45°
- Hora cheia e meia hora
- Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
| Hora | Altura | Direção | Da Lua |
|---|---|---|---|
| 19:30 | -40° | — | 95° |
| 20:00 | -36° | — | 95° |
| 20:30 | -33° | — | 95° |
| 21:00 | -28° | — | 95° |
| 21:30 | -23° | — | 96° |
| 22:00 | -18° | — | 96° |
| 22:30 | -12° | — | 96° |
| 23:00 | -6° | — | 96° |
| 23:30 | 0° | ESE 116° | 96° |
| 00:00 | 7° | ESE 113° | 97° |
| 00:30 | 13° | ESE 111° | 97° |
| 01:00 | 20° | ESE 109° | 97° |
| 01:30 | 26° | ESE 106° | 97° |
| 02:00 | 33° | ESE 105° | 97° |
| 02:30 | 40° | ESE 103° | 97° |
| 03:00 | 46° | E 101° | 98° |
| 03:30 | 53° | E 100° | 98° |
| 04:00 | 60° | E 99° | 98° |
Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
O que ver
| Instrumento | O que esperar |
|---|---|
| A olho nu | Bakich diz que talvez seja visível em céu escuro; Kambič cita observadores que o veem a olho nu em condições perfeitas e comenta que "pode ser possível". Na cidade, não conte com isso. |
| Binóculo | Uma mancha de luz clara e brilhante, com algumas estrelas mais brilhantes se destacando (Kambič, p. 401). |
| Telescópio de 100 mm | Cerca de 30 estrelas formando uma ponta de flecha (Bakich, a 100 aumentos). |
| Telescópio de 100 a 200 mm | Bakich soma cerca de 24 estrelas a mais com 200 mm. Mollise: até 50 estrelas fáceis num 4″ e o núcleo triangular a 48 aumentos. |
| Filtros | Não ajudam: é um aglomerado de estrelas, sem gás. |
Expectativa realista. É um aglomerado pequeno, mais fácil de ver do que de descrever. Mollise o considera mais bonito que M 46 e M 47, e por isso ele vale uma parada.
Astrofotografia: estratégia de captura
Os livros consultados não trazem uma seção fotográfica sobre M 93. As indicações abaixo vêm das regras gerais de Kier para aglomerados abertos e de conhecimento geral, e são um ponto de partida.
Enquadramento
Com uns 24′, M 93 cabe folgado num campo de 1°. Com um telescópio de 1.000 mm e uma câmera ASI294MC Pro (campo calculado de 1,1° × 0,75°), ele preenche cerca de um terço do quadro; com 600 mm, o campo passa de 1,8° e mostra o entorno estelar rico da Via Láctea. Para incluir Xi Puppis e os aglomerados fracos ao sul-sudeste (NGC 2467), é preciso um campo de uns 4°, ou um mosaico.
Desafios do alvo
- Campo muito povoado. Milhares de estrelas de fundo competem com o aglomerado. Um enquadramento um pouco mais apertado ajuda a mostrá-lo como grupo.
- Cor. Aglomerados jovens tendem ao azul-branco. Cuide do balanço de cores para não deixar o fundo esverdeado.
- Halos e blooming. Kier recomenda exposições curtas para evitar blooming em aglomerados, alinhar bem os canais RGB e suavizar halos com um desfoque menor que 1 pixel.
Equipamento e filtros
Kier recomenda RGB comum ou câmera colorida para aglomerados, e nota que a camada de luminância clara é contraproducente nesse tipo de alvo. Filtros de banda estreita não têm serventia. Como M 93 passa perto do zênite, a refração atmosférica, que atrapalha câmeras coloridas com objetos baixos (Kier), não é problema aqui: é um ótimo alvo para quem está começando.
Exemplo de sessão (ponto de partida)
| Tipo de quadro | Quantidade | Exposição | Finalidade |
|---|---|---|---|
| Light | 60 a 90 | 30 a 60 s | Estrelas sem estouro; núcleo compacto preservado |
| Dark | 30 | igual aos Lights | Calibração do ruído térmico |
| Flat | 30 | automática | Correção de vinheta e poeira |
| Bias ou dark-flat | 50 | mais curta possível | Calibração do ruído de leitura |
Esses números são um ponto de partida, e não vêm dos livros: ajuste-os ao seu sensor, ao seu telescópio e ao céu da noite.
Smart telescopes e campo de visão
Um smart telescope como o Seestar S50 (campo de cerca de 1,3° × 0,7°) enquadra M 93 inteiro com espaço em volta. Ele também é um bom alvo para uma sessão curta, com poucos minutos de empilhamento. Abra o mapa abaixo e escolha o seu modelo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.
Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.
Considerações finais
M 93 é um aglomerado modesto em tamanho e generoso em facilidade: fica quase no zênite do Brasil, é fácil de achar a partir de Xi Puppis e mostra uma forma de flecha característica. É um ótimo alvo para binóculos e para telescópios pequenos, e um bom ponto de partida para explorar a Popa. Para continuar, veja o aglomerado NGC 2477, que muitos consideram o mais bonito da constelação, e o guia de Órion para localizar o verão austral.
Referências
- BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 61 (M 93).
- KAMBIČ, Bojan. Viewing the Constellations with Binoculars: 250+ Wonderful Sky Objects to See and Explore. New York: Springer, 2010. Popa e M 93, p. 401-402.
- KIER, Ruben. The 100 Best Targets for Astrophotography. New York: Springer, 2009. Regras gerais para aglomerados abertos, p. 74.
- MACHHOLZ, Don. The Observing Guide to the Messier Marathon: A Handbook and Atlas. Springer (Astronomers' Observing Guides). Tabela de objetos, p. 113.
- MOLLISE, Rod. The Urban Astronomer's Guide: A Walking Tour of the Cosmos for City Sky Watchers. London: Springer, 2006. M 93, p. 219-220.
- SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, tamanho, paralaxe e distâncias de NGC 2447 (M 93), em 21 set. 2026.
- HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.