setembro 21, 2026
NGC 4755 (Caldwell 94), a Caixa de Joias: guia completo de observação e astrofotografia

Entre todos os aglomerados abertos do céu, poucos merecem tanto o nome que têm. A Caixa de Joias, NGC 4755 ou Caldwell 94, tem cerca de 10′ de diâmetro, ao lado de uma das quatro estrelas da Cruz do Sul, e reúne estrelas azuis, brancas e alaranjadas que lembram pedras coloridas dentro de um estojo. John Herschel a descreveu como um estojo de pedras preciosas de cores variadas, e é dele o nome que ficou (Moore e Rees; Mobberley). Mobberley a trata como um objeto fácil e bonito, que serve tanto para iniciantes quanto para quem já conhece o céu do sul. Este guia reúne os números, o mapa, a altura no Rio de Janeiro, o que ver com cada instrumento e a estratégia de captura.
Texto em revisão. Este é um dos guias de teste do novo formato de guia de objeto. As fontes estão listadas no final.
Ficha técnica e designações
Visão geral: o que é um aglomerado aberto jovem
Um aglomerado aberto é um grupo de estrelas que nasceram juntas da mesma nuvem de gás e ainda se mantêm próximas. Os mais jovens ainda têm estrelas azuis, quentes e muito brilhantes, que se apagam depressa. A Caixa de Joias é um desses: muito jovem para um aglomerado da Galáxia, segundo o Data Book, com cerca de 100 estrelas, quase todas quentes e azuis, em volta da supergigante laranja Kappa Crucis, que dá o contraste de cor.
A Caixa de Joias em números. O aglomerado tem magnitude integrada de 4,2 (Mobberley; Bakich) e cerca de 10′ de tamanho aparente (SIMBAD, 10,3′). A paralaxe do SIMBAD (0,462 milissegundos de arco) dá cerca de 7.100 anos-luz (livros mais antigos trazem 5.000); o tamanho real é de cerca de 21 anos-luz, calculado com o diâmetro de 10,3′. A idade também varia: cerca de 15 milhões de anos (Mobberley) contra no máximo cerca de 7 milhões (Moore e Rees). A divergência é comum: idade e distância de aglomerados são difíceis de fixar, e o texto usa faixas.
Descoberta e nome. Bakich atribui a descoberta a Nicolas Louis de Lacaille, na África do Sul, em 1751-1752. Durante os quatro anos que passou no Cabo da Boa Esperança, John Herschel o estudou com um refletor de 18″ f/13 na sua residência de Feldhausen e o registrou como HJ 3435. Em suas notas, com pequenas adaptações do inglês da época: a estrela central é extremamente vermelha, o aglomerado é vívido e belo, de 50 a 100 estrelas, algumas esverdeadas, outras azuladas (Mobberley).
Cores. Em apenas 10′ há oito ou nove estrelas de sexta a oitava magnitude de cores diversas e muitas mais fracas coloridas (Mobberley). O contraste vem, em boa parte, de Kappa Crucis, a supergigante laranja no meio do aglomerado (Moore e Rees).
Estruturas notáveis
- O grupo brilhante. Oito ou nove estrelas de magnitudes 6 a 8, em cores diferentes (Mobberley).
- A supergigante laranja. Kappa Crucis, a estrela de cor mais marcante do aglomerado, contrastando com as estrelas azuis (Moore e Rees).
- As estrelas periféricas. A olho nu, em céu escuro, com boa visão, dá para sentir duas outras estrelas que se curvam a oeste e sudoeste: DS Crucis (5,7) e outra de magnitude 6,7 a meio grau do aglomerado (Mobberley).
- O fundo estrelado. Em 150 mm, a 50 vezes, Bakich vê cerca de doze estrelas coloridas, vinte brancas e um fundo de cerca de 200 membros.
- O Saco de Carvão. A poucos graus, a nebulosa escura do Saco de Carvão (Caldwell 99) e o aglomerado NGC 4609 (Caldwell 98) são vizinhos (Mobberley).
Como localizar
A Caixa de Joias é uma das mais fáceis do céu: fica a ¾° ao sul e ¾° a leste de Becrux (beta Crucis), a estrela mais a leste da Cruz do Sul, de magnitude 1,3 (Mobberley). A olho nu, o aglomerado se passa por uma estrela de 4ª magnitude ao lado de Becrux (Mobberley). Para orientar-se, veja o guia da constelação da Cruz do Sul: a Caixa fica ao lado da Cruz, e o Mobberley lembra que a constelação lembra mais uma adaga ou uma pipa do que uma cruz.

Quando e como observar
Com declinação de cerca de −60°, a Caixa de Joias culmina a cerca de 52° de altura no Rio de Janeiro. Mobberley a dá como circumpolar abaixo de 30°S; em −23° ela não é: na passagem inferior fica alguns graus abaixo do horizonte por um período curto. A melhor época, segundo Mobberley, é de março a junho, com a culminação à meia-noite por volta do início de abril.
Olhando para o sul, o norte fica para baixo e o leste, à esquerda; a Cruz do Sul aparece em pé quando passa pelo meridiano, e a orientação no ocular depende do instrumento.
O primeiro gráfico mostra a altura do objeto ao longo do ano para o local do observatório; o segundo, o caminho da Caixa de Joias pelo céu nesta noite (zênite no centro, cores pela altura e linha pontilhada, tracejada ou contínua conforme o crepúsculo), seguido da altura hora a hora.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
2026-10-12 · 19:20 – 04:10
Esta noite no céu
Este objeto não passa de 30° de altura nesta noite (máximo: 11°). Não é um bom alvo hoje.
- Melhor horário
- 04:00 · 11° SSE
- Horas acima de 45°
- 0,0 h
- Lua
- Lua crescente · 6 %
- Nota da noite
- 0 / 100
- Posição no céu
- 0
- Brilho
- 50 (sem magnitude cadastrada)
- Enquadramento
- 69 ocupa 17 % do campo
Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).
- Crepúsculo civil (Sol até −12°)
- Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
- Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
- Altura abaixo de 20°
- Hora cheia e meia hora
- Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
| Hora | Altura | Direção | Da Lua |
|---|---|---|---|
| 19:30 | 6° | SSW 205° | 44° |
| 20:00 | 3° | SSW 202° | 44° |
| 20:30 | 0° | SSW 200° | 44° |
| 21:00 | -2° | — | 44° |
| 21:30 | -4° | — | 44° |
| 22:00 | -5° | — | 44° |
| 22:30 | -6° | — | 44° |
| 23:00 | -7° | — | 44° |
| 23:30 | -7° | — | 44° |
| 00:00 | -6° | — | 44° |
| 00:30 | -5° | — | 44° |
| 01:00 | -4° | — | 44° |
| 01:30 | -3° | — | 44° |
| 02:00 | -1° | — | 44° |
| 02:30 | 2° | SSE 159° | 44° |
| 03:00 | 4° | SSE 156° | 44° |
| 03:30 | 7° | SSE 154° | 44° |
| 04:00 | 11° | SSE 152° | 44° |
Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
O que ver
| Instrumento | O que esperar |
|---|---|
| A olho nu | Uma "estrela" de 4ª magnitude ao lado de Becrux; em céu muito escuro e com boa visão, duas outras estrelas curvando-se para oeste e sudoeste (Mobberley). Em Bortle 7, ainda deve aparecer, pela magnitude 4,2 (estimativa). |
| Binóculo (7×50 a 15×70) | Vista "esplêndida" (Moore e Rees): um punhado de estrelas brilhantes em cores diferentes, com a laranja Kappa Crucis, sobre um fundo mais tênue. |
| Telescópio de 100 a 150 mm | Mobberley pede 10 cm ou mais, sem filtro. Em 150 mm a 50 vezes: cerca de doze estrelas coloridas, vinte brancas e um fundo de cerca de 200 membros (Bakich). |
| Telescópio de 200 a 350 mm | Mais estrelas do fundo e mais nuances de cor, sem mudar o caráter do objeto. Sem filtro. Com aumentos modestos, o aglomerado continua a se destacar do campo. |
Expectativa honesta: a Caixa de Joias é um dos poucos objetos de céu profundo que aguentam bem a poluição do Rio: é compacta, brilhante, alta e colorida, e não pede filtro. As cores são sutis; olhos diferentes veem tons diferentes, e as descrições de Herschel de verdes e vermelhos ficam mais fáceis com telescópio e ampliação moderada.
Astrofotografia: estratégia de captura
Enquadramento
Com 10′ de diâmetro, a Caixa de Joias pede um campo moderado. Com um telescópio de 1.000 mm e uma câmera como a ASI294MC Pro (sensor de 19,1 × 13,0 mm), o campo é de cerca de 1,1° × 0,75° (calculado): o aglomerado fica pequeno no centro, mas bem acompanhado do campo estelar e do início do Saco de Carvão. Com 2.000 mm, o campo é de cerca de 33′ × 22′ e o aglomerado preenche melhor o quadro.
Desafios do alvo
- Estrelas brilhantes e coloridas. É preciso evitar estrelas estouradas; exposições curtas preservam as cores.
- Balanço de cor. O objetivo é mostrar o azul e o laranja sem saturar demais.
- Poluição luminosa. Como o aglomerado é brilhante e o fundo é rico em estrelas, ela pesa menos que em nebulosas.
Equipamento e filtros
Mobberley diz simplesmente: "easy object – great in color", um objeto fácil e ótimo em cores. Uma câmera colorida de um disparo ou um conjunto RGB bastam, sem filtro de banda estreita, porque o alvo é estelar. Um filtro de bloqueio de infravermelho e ultravioleta ajuda a evitar halos em estrelas brilhantes.
Exemplo de sessão (ponto de partida)
| Tipo de quadro | Quantidade | Exposição | Finalidade |
|---|---|---|---|
| Light (RGB ou câmera colorida) | 40 a 60 | 30 a 60 s | Estrelas com cor e campo de fundo |
| Dark | 30 | igual aos Lights | Calibração do ruído térmico |
| Flat | 30 | automática | Correção de vinheta e poeira |
| Bias ou dark-flat | 50 | mais curta possível | Calibração do ruído de leitura |
Esses números são um ponto de partida, e não vêm dos livros. Como referência, a imagem de Geoff Wingham no Mobberley é uma composição de mais de 150 minutos de exposições com um SCT de 9,25″ a f/5,2 e câmera colorida.
Smart telescopes e campo de visão
A Caixa de Joias cabe com folga no campo de um smart telescope como o Seestar S50 (cerca de 1,3° × 0,7°); com 10′, ela ocupa uma parte pequena do quadro, mas as cores das estrelas aparecem bem. Escolha o seu modelo no mapa abaixo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.
Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.
Considerações finais
A Caixa de Joias é a porta de entrada para os objetos do céu do sul: nada de filtro, nada de céu perfeito, só uma noite de março a junho e um binóculo. Depois dela, o passo natural é a Nebulosa de Carina e, mais ao sul de Centauro, o aglomerado de Lambda Centauri, IC 2944, que aparece no mesmo mapa do Mobberley.
Referências
- BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 313 (NGC 4755).
- MOBBERLEY, Martin. The Caldwell Objects and How to Observe Them. New York: Springer, 2009. Caldwell 94, p. 196-197.
- MOORE, Patrick; REES, Robin. Patrick Moore's Data Book of Astronomy. Cambridge: Cambridge University Press, 2011. The Jewel Box (NGC 4755, C 94), p. 347.
- SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, paralaxe e dimensões de NGC 4755, em 21 set. 2026.
- HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.