setembro 21, 2026
Céu de inverno no hemisfério sul: Escorpião no zênite, Via Láctea central e o Cruzeiro do Sul deitado

Em julho, quem olha para cima no Brasil vê o céu mais rico do ano. Escorpião, Sagitário e Ofiúco passam por cima da cabeça, a Via Láctea sobe do horizonte leste e desce até o sudoeste, atravessando tudo, e o Cruzeiro do Sul, que na noite de verão aparece de pé, agora está deitado. Este guia cobre o céu de inverno do hemisfério sul: junho, julho e agosto, das 20h à meia-noite. É o mesmo céu que o hemisfério norte vê no verão (mesmas datas, mesmas horas), só que visto do outro lado da Terra. O guia irmão, Céu de verão no hemisfério norte, mostra o outro ângulo.
O que é o "céu de inverno" no sul
O céu de cada estação é o que aparece à noite quando o Sol está do lado oposto da esfera celeste. Em junho, julho e agosto o Sol atravessa Gêmeos, Câncer e Leão, então essas constelações somem no brilho do dia e o lado oposto do zodíaco, de Sagitário a Libra e Escorpião, domina o começo da noite. Por isso o inverno do sul mostra a parte mais rica da Via Láctea, o centro da Galáxia, na direção de Sagitário (Ridpath, p. 204).
Dois detalhes tornam este céu especial:
- A Via Láctea inteira aparece. No Rio de Janeiro ela sobe do leste, passa perto do zênite e desce até o Cruzeiro do Sul, no sudoeste. O contraste depende do escuro do lugar: em cidades a faixa some, e um sítio ou uma serra a revela.
- As noites são longas. O inverno dá o maior tempo de escuro do ano nas latitudes do Brasil (não afirmamos horários exatos; use um almanaque local).
O mapa do céu

Como ler. Segure o mapa sobre a cabeça, com o lado "N" apontando para o norte de verdade. O centro é o ponto acima de você; a borda é o horizonte. No mapa o leste fica à esquerda porque você olha para cima, não para um mapa de parede. A linha dourada é a eclíptica, o caminho do Sol; ela cruza Libra e Escorpião e sobe para Sagitário, e é por ali que a Lua e os planetas costumam passar.
Como se orientar
Antares é o ponto de partida. A estrela vermelha do Escorpião, de magnitude 0,9, fica quase no zênite às 21h de meados de julho. O SIMBAD indica cerca de 550 anos-luz. Dos dois lados dela há duas estrelas menores, Sigma e Tau; abaixo dela sai a cauda que curva para o leste até o ferrão, feito de Shaula e Lesath. Veja o guia completo em Escorpião.
O Cruzeiro do Sul deitado. No verão a Cruz aparece em pé no céu do sul. Em julho, às 21h, está a sudoeste, com cerca de 34° de altura, e o braço longo aponta para a esquerda e para baixo, na direção do horizonte. Ela ainda é o melhor guia de sul: veja o Cruzeiro do Sul e o Saco de Carvão, a nuvem escura a seu lado. Os dois Apontadores, Alfa e Beta do Centauro, ficam à esquerda da Cruz. Beta do Centauro (magnitude 0,6) está a cerca de 390 anos-luz pelo SIMBAD; Alfa é a estrela mais próxima do Sol, a 4,4 anos-luz.
Onde está o polo sul. O sul não tem uma Polaris. Para achar o polo sul celeste, prolongue o braço maior da Cruz cerca de quatro vezes e meia para o sul, e cruze isso com a perpendicular que sai do meio dos Apontadores: onde as duas linhas se encontram, o eixo do céu aponta. A altura do polo acima do horizonte é igual à latitude, então no Rio ele está a 23°, e em Porto Alegre, a 30°. Ao lado dele fica o Oitante, cuja estrela polar, Sigma, é fraca demais para servir de guia.
Um trio brilhante para o norte. Lá em cima e do lado norte do mapa, três estrelas brilhantes formam um grande triângulo: Vega, na Lira, Altair, na Águia, e Deneb, no Cisne (Deneb fica baixa, junto ao horizonte a nordeste). É o "Triângulo de Verão" do norte, mas no sul ele aparece do lado da Via Láctea, no nordeste. Vega, a 25 anos-luz, é a mais alta, a cerca de 22° de altura às 21h. Altair, a 17 anos-luz, aparece mais baixa, a leste do zênite.
Arcturus e Spica. A noroeste, Arcturus (Boieiro, magnitude -0,05, a 37 anos-luz) é a estrela alaranjada mais brilhante do céu do norte. Ao seu sul, ainda a oeste, Spica (Virgem, magnitude 1,0, a 250 anos-luz) é azul-esbranquiçada. As duas, mais Antares, fazem um triângulo grande que serve de referência para o começo da noite.
As constelações do inverno no sul
As altas: Escorpião, Ofiúco, Libra e vizinhas
Estas ficam entre 60° e 80° de altura às 21h, quase acima da cabeça.
- Escorpião (80°, a sudeste do zênite). O centro da figura passa a menos de 10° do zênite. Além de Antares, tem os aglomerados abertos M 6, M 7 e NGC 6231, o globular M 4 e as nebulosas da cauda, NGC 6334, NGC 6357 e IC 4628 (Moore, The Observer's Year, p. 172-176; Kambič, p. 428-436).
- Ofiúco (70°, a nordeste). O "carregador de serpente" fica entre o Escorpião e Hércules. Tem os globulares M 10, M 12, M 19 e M 62, bons para binóculos. Rasalhague, a estrela alfa (magnitude 2,1, cerca de 49 anos-luz), fica na cabeça.
- Libra (69°, a oeste). Zodíaco discreto, com estrelas de segunda e terceira grandeza formando um quadrilátero torto. No céu escuro, a olho nu, aparece bem a oeste do zênite.
- Lobo, Esquadro e Compasso (64°, 61° e 45°, a sudoeste e sul). Constelações pequenas, sem estrelas brilhantes, mas dentro da faixa da Via Láctea, boas para binóculos.
- Serpente (61°, ao norte). É a única constelação dividida em duas partes, cabeça e cauda, com o Ofiúco no meio.
- Coroa Austral (59°, a sudeste). Um arco de estrelas fracas ao lado de Sagitário, sob o ferrão do Escorpião. O globular NGC 6541 e a nebulosa NGC 6729 ficam ali.
A Via Láctea e Sagitário
- Sagitário (56°, a leste). O "bule" tem o centro da Galáxia perto do bico. É a área mais rica do céu profundo: M 8 (Lagoa), M 20 (Trífida), M 17 (Ômega), M 16 (Águia), M 22, M 24, M 25, M 28 e M 55. Vale uma noite só para Sagitário e Escorpião.
- Escudo (57°, a leste) e Águia (38°, a nordeste). O Escudo tem M 11, o aglomerado Pato Selvagem, um dos mais ricos do céu. Perto do horizonte a nordeste está o M 27, na Raposa.
As do sul: circumpolares e quase
No sul, algumas constelações nunca se põem. A 23° S são circumpolares as que ficam a menos de 23° do polo: Oitante, Camaleão, Mosca, Ave-do-Paraíso, Mesa, Peixe-Voador e Hidra Macho, todas pequenas e sem estrelas brilhantes. Já Centauro, Cruzeiro do Sul, Carena, Vela e Pavão, ainda que não sejam circumpolares por completo, vão baixando com o passar da noite.
- Cruzeiro do Sul (34°, a sudoeste). A menor constelação do céu, e mesmo assim a mais famosa. O aglomerado NGC 4755, a Caixa de Joias, fica ao lado de Beta do Cruzeiro.
- Centauro (42°, a sudoeste). Grande, com NGC 5139, o Ômega do Centauro (o maior globular visível a olho nu), e a galáxia NGC 5128, Centaurus A.
- Pavão (38°, a sul) e Índio (29°, a sudeste). O globular NGC 6752, no Pavão, é o terceiro mais brilhante do céu, e a galáxia NGC 6744, grande e tênue, aparece em céu escuro.
- Altar (55°, ao sul) e Triângulo Austral (47°, ao sul). Ficam perto da Via Láctea, com os aglomerados NGC 6193 e NGC 6025.
- Grou, Tucano e Peixe Austral (a sudeste, a menos de 20°). Fomalhaut, a 25 anos-luz, surge baixa no começo da noite e sobe até a meia-noite. Tucano tem o 47 Tucanae, o segundo globular mais brilhante.
Zodíaco e equatoriais
O zodíaco mostra Libra, Escorpião, Ofiúco (que o Sol atravessa, mas não é signo), Sagitário e Capricórnio, ao passo que Virgem se põe a oeste. As constelações perto do equador celeste são as que os dois hemisférios enxergam: Ofiúco, Serpente, Águia, Escudo, Virgem e Libra, entre outras. Do sul elas ficam ao norte do zênite ou perto dele; do norte, ao sul do zênite, e por isso mudam menos de hemisfério para hemisfério do que as circumpolares (Ofiúco, por exemplo, está a 70° no sul e a 42° no norte, e continua bem visível nos dois).
Lá no alto do norte: Hércules, Lira, Boieiro
- Hércules (39°, ao norte). Quase invisível a olho nu em cidade, mas o M 13, "o maior globular do céu do norte", aparece no binóculo em céu escuro.
- Lira e Cisne. Vega e Altair, junto com Deneb, ficam a nordeste; Lira está a 22° de altura, no mapa.
- Boieiro, Coroa Boreal e Cabeleira de Berenice. No noroeste, Arcturus lidera o grupo. A Coroa Boreal, a 33° de altura, é um pequeno semicírculo de estrelas.
- Cães de Caça (10°). M 3 e M 51 ficam muito baixos e só rendem em observação de horizonte limpo, com noite escura.
O que o hemisfério norte vê diferente
Essas noites de julho são as noites de verão do norte. O mesmo céu, o mesmo horário, e o que muda é o ponto de vista. A 40° N, o centro do mapa (o zênite) fica em outro lugar: as constelações do norte é que sobem, e as do sul quase desaparecem.
| Constelação | Altura às 21h no sul (23° S) | Altura às 21h no norte (40° N) |
|---|---|---|
| Escorpião | 80° (quase no zênite) | 18° (baixo, a sul) |
| Sagitário | 56° | 13° (rente ao horizonte) |
| Ofiúco | 70° | 42° |
| Libra | 69° | 31° |
| Hércules | 39° | 74° (quase no zênite) |
| Lira | 22° | 63° |
| Coroa Boreal | 33° | 78° |
| Cruzeiro do Sul | 34° | abaixo do horizonte |
| Ursa Maior | abaixo ou rente ao horizonte | 36° (circumpolar) |
Alturas do centro da constelação às 21h de 15 de julho, calculadas pelo projeto; constelações grandes vão além do ponto central.
Duas mudanças chamam atenção:
- Simetria invertida. Quem vive no norte tem Hércules, Lira e Coroa Boreal no alto e vê o Escorpião de perfil, sobre o horizonte sul. Você, no sul, tem o inverso: Escorpião no zênite e Hércules mais baixo, ao norte. E o Cruzeiro do Sul, a essa latitude norte, nunca sobe acima do horizonte.
- Figuras de cabeça para baixo. Ao trocar de hemisfério, você passa a olhar de "cabeça para baixo": Órion, que aparece em pé no norte, fica invertido no sul (o que só interessa no verão, pois em julho ele está no céu do dia). O Escorpião, por sua vez, é visto de baixo, com a cauda para a esquerda no mapa (leste), enquanto no norte a cauda desce para a direita.
Consulte Céu de verão no hemisfério norte para ver o mesmo céu com Polaris e o Triângulo de Verão no alto.
Dicas de observação
- Cidade (Bortle 7 no Rio). A olho nu você vê Antares, Spica, Arcturus, Vega e Altair, o Cruzeiro, os Apontadores e as principais estrelas do Escorpião. A Via Láctea some. O binóculo mostra M 7 e M 6, que resistem à poluição luminosa por serem aglomerados abertos brilhantes.
- Céu escuro. Escolha noites sem Lua, entre maio e agosto. Sagitário e Escorpião ficam bem altos entre 20h e 23h; depois disso começam a descer para o oeste.
- Melhor horário. Comece às 20h com o Escorpião já alto. Às 22h, Sagitário domina; à meia-noite, a Via Láctea inclina a oeste.
- Frio e umidade. As madrugadas de inverno são secas, o que costuma dar céu mais transparente que no verão. Leve agasalho: você vai ficar parado.
- Fotografia. Com um tripé e uma câmera com lente grande angular (14 a 24 mm, 15 a 25 s de exposição), o Escorpião com a Via Láctea dá uma bela foto até em céu de Bortle 5.
- Planetas. Eles passam pelas constelações do zodíaco ao longo do ano; consulte um almanaque ou aplicativo para saber quais estão visíveis na noite escolhida.
Considerações finais
O céu de inverno do sul é o maior espetáculo do ano para quem observa do Brasil: o Escorpião e Sagitário passam por cima da sua cabeça e a Via Láctea central atravessa o céu. É o oposto do que acontece no norte, que enxerga esse mesmo trecho do céu rente ao horizonte. Comece por Antares, ande até o Cruzeiro do Sul e depois siga a faixa da Via Láctea até Sagitário; em uma noite você cobre um dos melhores trechos do céu profundo. Para ver como esse céu se parece do outro lado do mundo, leia o guia irmão: Céu de verão no hemisfério norte.
Referências
- KAMBIČ, Bojan. Viewing the Constellations with Binoculars. New York: Springer, 2010. Escorpião, p. 428-436.
- MOORE, Patrick. The Observer's Year: 366 Nights of the Universe. 2. ed. London: Springer, 2005. Escorpião e vizinhas, p. 172-176.
- RIDPATH, Ian. Astronomia (Guia Ilustrado Zahar). 4. ed. Rio de Janeiro: Zahar. Escorpião e Sagitário, p. 204.
- SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a magnitudes, tipos espectrais e paralaxes, em 21 set. 2026.
- HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, usado no mapa do céu; linhas de constelação do d3-celestial e limites da IAU.