setembro 21, 2026

M 19, o globular achatado de Ofiúco: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2) de M19 — objeto ainda não capturado no observatório

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.

Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. UK Schmidt Telescope (UKST) / AAO–ROE. Créditos

Se existe um globular que foge da regra da "bola redonda", é M 19. Em vez de um círculo, ele aparece como uma oval, e os livros o descrevem como um dos aglomerados mais achatados conhecidos. Fica em Ofiúco, junto ao Escorpião, e do Rio de Janeiro passa a cerca de 87° de altura, quase no zênite, um privilégio que o observador do hemisfério norte não tem (Monks conta que, no sul da Inglaterra, M 19 chega só a uns 12° de altura). Este guia mostra como achá-lo, o que dá para ver, por que ele é oval e como fotografá-lo. Os livros trazem pouco sobre ele, e o texto é honesto sobre isso.

Texto em revisão. Este é um guia no novo formato de objeto, que reúne dados, mapas, gráficos de altura e estratégia de captura em um só lugar. As fontes estão listadas no final e as divergências entre elas, nas pendências do cabeçalho.

Imagem de referência (DSS2) de M19 — objeto ainda não capturado no observatório
Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. UK Schmidt Telescope (UKST) / AAO–ROE. Imagem de referência: este objeto ainda não foi fotografado no Observatório. Créditos

Ficha técnica e designações

Visão geral: o que é um aglomerado globular

Um aglomerado globular é uma esfera de centenas de milhares de estrelas velhas, ligadas pela gravidade e em órbita ao redor da Galáxia. Quase todos têm formato redondo ou levemente elíptico; M 19 é a exceção que aparece nos livros como "muito elíptico" (Monks, p. 122) e "um dos globulares mais achatados que conhecemos" (Kambič, p. 358). Para medir o quanto as estrelas se concentram no centro, os astrônomos usam a escala de Shapley-Sawyer, de I (núcleo muito denso) a XII (quase sem núcleo); M 19 é classe VIII, na faixa frouxa (Monks, p. 122). Isso sugere uma resolução fácil em telescópio, mas, na prática, o próprio Monks diz que não é o caso: são necessários 150 mm ou mais, sob bom céu, e mais ainda sob céus suburbanos (Monks, p. 122).

M 19 em números

Distância. A paralaxe do SIMBAD, de 0,142 milissegundo de arco, dá cerca de 23.000 anos-luz (livros mais antigos trazem cerca de 28.000). A direção do centro galáctico é rica em poeira, o que dificulta a medida.

Tamanho. O SIMBAD traz 9,6′ (em binóculo, a parte visível é menor, cerca de 6′, segundo Kambič). A 23.000 anos-luz, 9,6′ correspondem a cerca de 64 anos-luz (calculado).

Brilho. O SIMBAD lista magnitude V de 5,57 (livros mais antigos trazem 6,7 a 7). Como o brilho se espalha numa pequena área, na prática o aglomerado parece mais fraco do que o número sugere.

Perto do centro da Galáxia. M 19 está entre os globulares mais próximos do núcleo galáctico: 5.200 anos-luz, segundo Monks (p. 122), e 3.000, segundo Kambič (p. 358). O SIMBAD registra velocidade radial de +145 km/s (o aglomerado se afasta).

Por que é oval? Monks e Kambič atribuem o achatamento à forte atração gravitacional do centro da Galáxia, que deformaria o aglomerado (Monks, p. 122; Kambič, p. 358). Bakich apresenta outra visão: a elipticidade parecia real, mas hoje se sabe que é, em grande parte, efeito da absorção pela poeira interestelar nas bordas leste e oeste (Bakich, objeto 458). Os livros divergem, e este guia não decide entre eles.

Estruturas notáveis

  • Forma oval. Visível em qualquer telescópio (Bakich), mas não em binóculo (Kambič, p. 358).
  • Estrelas resolvidas. Com 200 mm a 250x, menos de 20 estrelas; com 350 mm, cerca de 50 estrelas de brilho parecido (Bakich).
  • Estrela próxima. A GSC 6819:282 (magnitude 11,2) fica a 1′ a noroeste do centro (Bakich).

Como localizar

M 19 fica a cerca de 4,5° a oés-sudoeste de Teta Ophiuchi (Bakich), por isso a estrela Teta e o grupo de estrelas em torno dela são o guia natural (Kambič, p. 358): se você posicionar Teta na borda leste do campo do binóculo, M 19 aparece na borda oeste. Ele está apenas 3,8° ao norte de M 62, que cabe no mesmo campo de um binóculo (Kambič, p. 358; a separação foi conferida com as coordenadas). Mais ao norte, a cerca de 25° dali, ficam M 10 e M 12.

Carta de localização de M19: as estrelas-guia nomeadas, setas tracejadas com a distância em graus até o alvo, escala em graus e indicação de norte e leste.
Carta de localização (star-hopping), no mesmo estilo das cartas de constelação: norte e leste indicados no canto. Anéis laranja: estrelas-guia; setas tracejadas: o caminho até o alvo, com a distância em graus; anel verde: o alvo (e, com a designação, outros objetos do campo); a barra mostra a escala. As linhas são as oficiais das constelações (d3-celestial), os limites são os da IAU e as estrelas vêm do catálogo HYG.

Quando e como observar

Com declinação de −26,3°, M 19 alcança cerca de 87° de altura no Rio, pouco ao sul do zênite. Cruza o meridiano à meia-noite por volta de meados de maio e, às 21h, no fim de julho (cálculo a partir da AR). O melhor período vai de maio a setembro. Como o objeto passa perto do zênite, o horizonte deixa de ser problema: a extinção é mínima. Como ele passa ao sul do zênite, ao observá-lo você olha para o sul: o norte fica para baixo no campo, ao contrário das imagens de astrofoto, em que se costuma pôr o norte para cima.

O gráfico abaixo mostra a altura do objeto ao longo do ano para o local do observatório, e o seguinte, a noite de hoje. Use o primeiro para escolher a época e o segundo, a hora.

Altura de M19 ao longo do anoAltura à meia-noite astronômica e altura máxima da noite, a cada 5 dias. Melhor época: de abril a agosto. O objeto chega a 86° à meia-noite em junho.0°30°60°90°JANFEVMARABRMAIJUNJULAGOSETOUTNOVDEZ5 jun · 86°hoje
Altura ao longo do ano, a cada 5 dias: linha contínua = altura no meio da noite astronômica (Sol abaixo de −18°); tracejada = maior altura durante a noite escura; faixa verde = melhor época; linhas pontilhadas em 30° e 45°. A linha vertical marca hoje. Melhor época para este local: de abril a agosto (objeto acima de 30° no meio da noite). Ponto mais alto: 86° em 5 de junho.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

2026-10-13 · 19:20 – 04:10

Esta noite no céu

Melhores alvos da noite
Melhor horário
19:20 · 37° WSW
Horas acima de 45°
0,0 h
Lua
Lua crescente · 12 %
Nota da noite
50 / 100
Posição no céu
27
Brilho
100 mag 5,6
Enquadramento
67 ocupa 17 % do campo

Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).

Trajetória de M19 pelo céu nesta noiteCéu visto de baixo, zênite no centro e horizonte na borda. O objeto fica acima do horizonte entre 18:20 e 22:10 durante a noite; o ponto mais alto é às 19:20, com 37°. A tabela ao lado traz os mesmos valores.15°30°45°60°75°NNELSESSOONO19:0020:0021:0022:00
Caminho do objeto pelo céu nesta noite, do fim do crepúsculo civil ao amanhecer. Centro = zênite, borda = horizonte; visto olhando para cima (leste à esquerda, oeste à direita). Marcadores a cada 30 minutos.
  • Crepúsculo civil (Sol até −12°)
  • Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
  • Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
  • Altura abaixo de 20°
  • Altura abaixo de 30°
  • Altura abaixo de 45°
  • Hora cheia e meia hora
  • Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
Altura e direção do objeto a cada 30 minutos
Hora Altura Direção Da Lua
19:30 35° WSW 253° 19°
20:00 29° WSW 252° 19°
20:30 22° WSW 250° 18°
21:00 16° WSW 248° 18°
21:30 9° WSW 245° 18°
22:00 3° WSW 243° 17°
22:30 -3° — 17°
23:00 -9° — 17°
23:30 -15° — 17°
00:00 -20° — 16°
00:30 -25° — 16°
01:00 -29° — 16°
01:30 -33° — 16°
02:00 -37° — 15°
02:30 -39° — 15°
03:00 -40° — 15°
03:30 -41° — 15°
04:00 -40° — 14°
Altura de M19 ao longo da noiteAltura em graus a cada 30 minutos. O ponto mais alto é às 19:20, com 37°. A tabela abaixo traz os mesmos valores.0°30°60°90°202122230001020304abaixo do horizonte
Altura em graus ao longo da noite escura (linhas em 30° e 45°). A Lua aparece tracejada.

Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

O que ver

Instrumento O que esperar
A olho nu Não é visível.
Binóculo (10×50) Uma mancha fraca, de poucos minutos de arco, visível só com excelentes condições (Kambič, p. 358). Sob Bortle 7 a cidade atrapalha, mas a altura ajuda.
Telescópio de 100 a 150 mm Forma oval, textura granulada (Monks, p. 122; Bakich). A resolução em 150 mm exige céu bom (Monks).
Telescópio de 200 mm Com 250x, menos de 20 estrelas resolvidas (Bakich).
Telescópio de 350 mm Cerca de 50 estrelas de brilho parecido (Bakich).

Uma observação honesta. Sob Bortle 7, com um telescópio pequeno, M 19 é uma oval cinzenta e discreta. Ele merece o esforço mais pela forma inusitada e pela posição do que pela quantidade de estrelas.

Astrofotografia: estratégia de captura

Enquadramento

M 19 é pequeno, cerca de 9,6′ (SIMBAD). Com um telescópio de 1.000 mm e uma câmera como a ASI294MC Pro, o campo é de cerca de 1,1° × 0,75° (calculado a partir do sensor e da focal), e o aglomerado ocupa uns 15% da largura: dá para reenquadrar com uma focal maior (de 1.500 a 2.000 mm) se o seeing permitir. M 19 e M 62 (a cerca de 3,8°) cabem juntos em um campo de 5° (calculado), por exemplo com uma lente de 135 a 200 mm em uma câmera APS-C.

Desafios do alvo

  • Campo muito estrelado. Ofiúco, junto do centro galáctico, tem fundo denso de estrelas, e M 19 se mistura a elas; a redução de estrelas ajuda.
  • Poeira. Por causa da poeira interestelar, o aglomerado mostra bordas mais escuras nos lados leste e oeste (Bakich): cuide para não "achatar" o contraste no processamento.
  • Núcleo. Núcleo brilhante contra periferia fraca: exposições curtas e longas em HDR.

Equipamento e filtros

Nenhum livro consultado trata a astrofotografia de M 19. Como em outros globulares, Kier afirma que se pode usar LRGB, RGB ou câmera colorida de tiro único (Kier, p. 167, sobre M 12), e o processamento inclui deconvolução e nitidez agressiva. Filtros de banda estreita não ajudam em um objeto sem gás.

Exemplo de sessão (ponto de partida)

Tipo de quadro Quantidade Exposição Finalidade
Light 90 30 a 60 s Estrelas do halo sem saturar o núcleo
Dark 30 igual aos Lights Calibração do ruído térmico
Flat 30 automática Correção de vinheta e poeira
Bias ou dark-flat 50 mais curta possível Calibração do ruído de leitura

Esses números são um ponto de partida, e não vêm dos livros: ajuste-os ao seu sensor, ao seu telescópio e ao céu da noite.

Smart telescopes e campo de visão

Com um smart telescope como o Seestar S50 (campo de cerca de 1,3° × 0,7°), M 19 fica pequeno no quadro, mas bem centrado, e a forma oval aparece com poucos minutos de empilhamento. Abra o mapa abaixo e escolha o seu modelo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.

0°

Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.

Considerações finais

M 19 mostra que nem todo globular é uma bola perfeita. Ele é discreto, mas tem uma personalidade própria: perto do centro da Galáxia, achatado (pela maré, pela poeira, ou pelos dois) e alto no céu do Rio. Combine-o com M 62, quase no mesmo campo, para uma noite de globulares fora do padrão, e visite M 10 e M 12 para comparar. Veja também o guia da constelação de Ofiúco.

Referências

  • BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 458 (M 19).
  • COOKE, Antony. Visual Astronomy in the Suburbs: A Guide to Spectacular Viewing. London: Springer (Patrick Moore's Practical Astronomy Series). Lista de globulares, p. 206.
  • KAMBIČ, Bojan. Viewing the Constellations with Binoculars: 250+ Wonderful Sky Objects to See and Explore. New York: Springer, 2010. M 19 e M 62, p. 358.
  • KIER, Ruben. The 100 Best Targets for Astrophotography. New York: Springer, 2009. "Globular Cluster M12", p. 167.
  • MONKS, Neale. Go-To Telescopes Under Suburban Skies. New York: Springer (Patrick Moore's Practical Astronomy Series), 2010. NGC 6273 (M 19), p. 122.
  • SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, tipo, paralaxe, dimensões, magnitude V e velocidade radial de M 19, em 21 set. 2026.
  • HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.