setembro 21, 2026
M27, a Nebulosa Dumbbell (Haltere): guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.
Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Créditos
Poucas planetárias são tão generosas quanto a Dumbbell. Ela é brilhante, grande para o padrão do gênero, fácil de achar e reage bem a quase tudo o que se coloca na frente dela: ampliação, filtro, céu escuro ou céu urbano. Em Vulpécula, a pequena Raposa, perto do Cisne e da flecha de Sagitta, a nebulosa mostra em telescópios médios o formato de miolo de maçã que deu origem ao nome, e em fotografias ganha o verde do oxigênio e o vermelho do hidrogênio. Do Rio de Janeiro ela não sobe muito, mas sobe o bastante: no inverno, tem altura suficiente para uma boa noite de observação. Este guia reúne os dados, os mapas, os gráficos de altura e a estratégia de observação e de captura, tudo em um só lugar.
Texto em revisão. Este é um dos guias de teste do novo formato de guia de objeto. As fontes estão listadas no final.

Ficha técnica e designações
Visão geral: o que é uma nebulosa planetária
Apesar do nome, uma nebulosa planetária não tem nada de planeta. A expressão vem de William Herschel, por causa do disco esverdeado que esses objetos mostravam ao telescópio (Mollise). Trata-se do envoltório de gás lançado por uma estrela de massa parecida com a do Sol no final da vida: a estrela incha até virar gigante vermelha, expele as camadas externas e deixa para trás o núcleo, uma anã branca muito quente. A radiação ultravioleta dessa anã excita o gás, que passa a brilhar (Mollise; Kambič). O Sol deverá ter um destino semelhante, daqui a bilhões de anos.
A forma que vemos depende de como o envoltório está orientado em relação a nós, seja ele um toro, seja uma caixa (Mollise). Mollise sugere que a Dumbbell é uma espécie de retrato de como a Nebulosa do Anel (M57) pareceria se fosse vista de lado, e não de frente. É um bom jeito de pensar nas duas juntas, e por isso elas aparecem lado a lado neste site (veja o guia da Nebulosa do Anel).
A Dumbbell em números. A nebulosa tem magnitude visual de cerca de 7,3 a 7,4 e ocupa no céu cerca de 6,7′ (SIMBAD; livros mais antigos trazem até 8′). É a planetária mais brilhante da lista de Messier, e uma das mais brilhantes de todo o céu (Coe; Philip's). A estrela central é uma anã branca azulada de magnitude 13,5, com temperatura de superfície em torno de 85.000 K, uma das estrelas mais quentes que se conhecem; por ser pequena, tem luminosidade de cerca de metade da do Sol (Kambič; Mollise).
Distância e idade. A paralaxe registrada no SIMBAD (2,57 milissegundos de arco) dá cerca de 1.270 anos-luz, valor que este guia adota e que concorda com os livros mais recentes: 1.200 (Mollise) e 1.250 (Kambič; Philip's). Mourão, de uma geração anterior, traz 300 parsecs, ou cerca de 980 anos-luz. A essa distância, o tamanho aparente corresponde a algo como 2,5 anos-luz de diâmetro. O gás se expande a cerca de 30 km/s; extrapolando essa velocidade para trás, Kambič estima a idade em cerca de 48.000 anos.
Nome. "Dumbbell" significa halteres, o aparelho de ginástica. Mollise atribui o apelido a John Herschel, que via na nebulosa um formato de barra com dois pesos; o Philip's o atribui a Lord Rosse, que teria visto o aspecto de ampulheta no refletor de 72 polegadas. Outros nomes registrados são Miolo de Maçã, Diablo e Tiro Duplo (Bakich). Mourão traz a entrada com o nome "Halteres" e lembra que no Brasil já se usou "Bolha de Sabão".
Estruturas notáveis
- Os dois lóbulos. É o formato clássico, o "miolo de maçã": duas regiões mais brilhantes, uma de cada lado da estrela central, ligadas por uma barra diagonal de nebulosidade mais forte (Mollise). Aparece com clareza a partir de telescópios de 150 a 200 mm.
- O halo externo. Uma nebulosidade mais fraca envolve os lóbulos e arredonda a forma. Com visão indireta ela aparece em telescópios pequenos (Coe); com filtro, ganha contraste.
- A textura mosqueada. Em telescópios grandes, o brilho não é uniforme: há manchas claras e escuras por toda a face da nebulosa (Coe).
- As estrelas de campo. Muitas estrelas fracas se espalham sobre a nebulosa. Coe conta duas com um refrator de 100 mm, sete com um telescópio de 280 mm e doze com um Maksutov de 300 mm.
- A estrela central. De magnitude 13,5, é bem mais acessível que a da Nebulosa do Anel. Mollise recomenda alta ampliação para escurecer o fundo nebuloso e uma carta com a estrela marcada, já que ela se confunde com o campo cheio de estrelas.
Como localizar
A Raposa é uma constelação discreta: a estrela mais brilhante, Alfa da Raposa, tem só magnitude 4,4. Mas ela está entre gigantes, o Cisne e a Águia, e ao lado da pequena Sagitta, que serve de ponte. O caminho mais usado parte de Gama de Sagitta (magnitude 3,5), a ponta da seta: desenhe uma linha até a estrela 13 da Raposa, a cerca de 4°45′; M27 fica a 3°13′ ao longo dessa linha, um pouco para nordeste dela (Mollise). A estrela 14 da Raposa, de magnitude 5,7 e a apenas 23′ a noroeste da nebulosa, é um guia quase infalível. Kambič descreve o mesmo caminho de forma mais simples: Gama de Sagitta fica a cerca de 3° ao sul e entra no mesmo campo de um binóculo.

Na região há muitas estrelas visíveis mesmo com pouco aumento, porque a Via Láctea passa por ali (Mollise). Quem tiver o Cabide (Collinder 399), o famoso asterismo em forma de cabide, pode usá-lo como referência: ele está no mesmo campo largo, e do hemisfério sul aparece de cabeça para baixo (Kambič).
Quando e como observar
M27 tem declinação de cerca de +23°. No Rio de Janeiro (latitude −23°), isso significa uma altura máxima de aproximadamente 44° acima do horizonte norte, quando o objeto cruza o meridiano. Não é uma altura espetacular, mas basta para uma observação boa, sobretudo em noites de ar estável. A melhor época vai de junho a setembro: no fim de julho ela cruza o meridiano por volta da meia-noite, e no fim de agosto já o faz ao anoitecer (por volta das 21 h). Olhando para o norte, o norte fica embaixo e o leste à esquerda, ao contrário do que mostram muitos livros do hemisfério norte.
O primeiro gráfico mostra a altura do objeto ao longo do ano para o local do observatório; o segundo, o caminho da nebulosa pelo céu nesta noite (zênite no centro, cores pela altura e linha pontilhada, tracejada ou contínua conforme o crepúsculo), seguido da altura hora a hora.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
2026-10-13 · 19:20 – 04:10
Esta noite no céu
- Melhor horário
- 19:20 · 42° NNW
- Horas acima de 45°
- 0,0 h
- Lua
- Lua crescente · 12 %
- Nota da noite
- 51 / 100
- Posição no céu
- 39
- Brilho
- 78 mag 7,4
- Enquadramento
- 60 ocupa 15 % do campo
Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).
- Crepúsculo civil (Sol até −12°)
- Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
- Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
- Altura abaixo de 20°
- Altura abaixo de 30°
- Altura abaixo de 45°
- Hora cheia e meia hora
- Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
| Hora | Altura | Direção | Da Lua |
|---|---|---|---|
| 19:30 | 42° | NNW 339° | 79° |
| 20:00 | 39° | NNW 331° | 79° |
| 20:30 | 35° | NW 324° | 79° |
| 21:00 | 31° | NW 318° | 78° |
| 21:30 | 26° | NW 312° | 78° |
| 22:00 | 20° | NW 307° | 78° |
| 22:30 | 15° | WNW 303° | 78° |
| 23:00 | 9° | WNW 299° | 78° |
| 23:30 | 3° | WNW 296° | 77° |
| 00:00 | -4° | — | 77° |
| 00:30 | -10° | — | 77° |
| 01:00 | -17° | — | 77° |
| 01:30 | -23° | — | 77° |
| 02:00 | -30° | — | 77° |
| 02:30 | -37° | — | 76° |
| 03:00 | -44° | — | 76° |
| 03:30 | -51° | — | 76° |
| 04:00 | -57° | — | 76° |
Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
O que ver
| Instrumento | O que esperar |
|---|---|
| A olho nu | Fora do alcance, pelo menos sem ajuda. Em céu muito bom, pode aparecer como uma estrela difusa, mas é um limite. |
| Binóculo (7×50 a 15×70) | Uma mancha fraca de cerca de 6′, sem o formato de haltere; o tamanho varia bastante conforme as condições, e com céu excelente podem aparecer irregularidades no brilho (Kambič). Gama de Sagitta entra no mesmo campo. |
| Telescópio de 100 mm | Uma mancha pequena e bem brilhante em forma de caixa em baixa ampliação; com 8,8 mm de ocular, o miolo de maçã é imediato e aparecem duas estrelas (Coe). Sob céu urbano, a forma de haltere às vezes é elusiva e a nebulosa parece um oval cinza (Mollise). |
| Telescópio de 150 a 200 mm | O haltere é claro, com a barra diagonal mais brilhante e várias manchas no centro em maiores ampliações; use cerca de 100 vezes (Mollise). O OIII ajuda muito (Mollise; Coe). |
| Telescópio de 280 a 300 mm | Sete estrelas sobre a nebulosa, um leve tom verde e o halo externo visível; filtros UHC e OIII realçam o halo, mas "arredondam" o formato, preenchendo o meio (Coe). Com 300 mm f/15 e 180 vezes: verde claro, doze estrelas, textura mosqueada (Coe). |
| Telescópio de 300 mm ou mais, com OIII | O halo aparece mais e o haltere perde parte da forma, virando algo como uma bola de futebol americano (Mollise). Tire o filtro para ver a estrela central e as outras estrelas. |
Expectativa honesta: a cor, sobretudo a vermelha, só aparece em fotografias; ao telescópio, no máximo um verde-claro fraco (Kambič; Coe). Kambič propõe um experimento útil: centralize M27 no binóculo, entre num lugar iluminado, espere, volte e observe por meia hora. Você passa de "nada" a "muitos detalhes", o que prova o quanto a visão noturna importa.
Astrofotografia: estratégia de captura
Enquadramento
A nebulosa tem cerca de 6,7′ de diâmetro. Com um telescópio de 1.000 mm de focal e uma câmera como a ASI294MC Pro, o campo é de cerca de 1,1° × 0,75° (calculado a partir do sensor e da focal): a nebulosa ocupa uma parte pequena do quadro, e sobra espaço para mostrar as estrelas ao redor, numa região da Via Láctea. Se quiser a nebulosa maior, use uma focal de 1.500 a 2.000 mm. Mollise a fotografou com um SCT de 200 mm e uma câmera CCD e comenta que a nebulosa aparece bem em fotos feitas sob o pior céu urbano.
Desafios do alvo
- Céu urbano. M27 é brilhante o bastante para funcionar em Bortle 7, o que a torna uma ótima primeira nebulosa para quem mora em cidade. Um filtro dual-band (H-alfa e OIII) reduz o brilho de fundo e destaca a nebulosa.
- Campo estelar denso. A nebulosa fica na Via Láctea, com muitas estrelas ao redor. Mantenha a redução de estrelas moderada, para não perder o efeito de "nebulosa flutuando num campo".
- Dois mundos de cor. O verde-azulado do OIII domina os lóbulos; o vermelho do H-alfa aparece mais no halo externo (Kambič). O tratamento deve preservar os dois sem estourar o centro.
- Altura moderada. Com 44° no máximo, faça as capturas perto do meridiano, para minimizar a refração e a extinção.
Equipamento e filtros
Uma câmera colorida de um disparo, com filtro dual-band, funciona bem, e uma câmera monocromática com filtros de banda estreita (SHO ou HOO) dá cores falsas marcantes. A nebulosa é brilhante, então exposições curtas já mostram o formato.
Exemplo de sessão (ponto de partida)
| Tipo de quadro | Quantidade | Exposição | Finalidade |
|---|---|---|---|
| Light (dual-band ou RGB) | 60 a 100 | 120 a 180 s | Corpo da nebulosa e halo; mais tempo total revela o halo externo |
| Dark | 30 | igual aos Lights | Calibração do ruído térmico |
| Flat | 30 | automática | Correção de vinheta e poeira |
| Bias ou dark-flat | 50 | mais curta possível | Calibração do ruído de leitura |
Esses números são um ponto de partida, e não vêm dos livros.
Smart telescopes e campo de visão
M27 cabe com folga no campo de um smart telescope como o Seestar S50 (cerca de 1,3° × 0,7°), mas ocupa só uma pequena parte do quadro. Com o filtro dual-band do próprio aparelho, algumas dezenas de minutos de empilhamento já mostram os dois lóbulos, e o aparelho é uma forma simples de experimentar a fotografia sob o céu urbano. Escolha o seu modelo no mapa abaixo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.
Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.
Considerações finais
A Dumbbell é o tipo de objeto que serve tanto para quem está começando quanto para quem quer refinar a técnica: é fácil de achar, brilhante o suficiente para o céu urbano e rica em detalhes para quem aumenta a abertura ou tenta fotografar. Depois dela, o próximo passo natural é a Nebulosa do Anel (M57), menor e mais difícil de ver com detalhe, e a Nebulosa da Hélice (NGC 7293), que do Rio de Janeiro passa quase pelo zênite.
Referências
- BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 613 (M27).
- COE, Steven R. Nebulae and How to Observe Them. London: Springer, 2007. M27, p. 120-121.
- KAMBIČ, Bojan. Viewing the Constellations with Binoculars: 250+ Wonderful Sky Objects to See and Explore. New York: Springer, 2010. Sagitta e Vulpécula, M27, p. 496-497.
- MOLLISE, Rod. The Urban Astronomer's Guide: A Walking Tour of the Cosmos for City Sky Watchers. London: Springer, 2006. "M27", p. 163-165.
- MOORE, Patrick (ed.). Astronomy Encyclopedia. London: Philip's. Verbete "Dumbbell Nebula", p. 119.
- MOURÃO, Ronaldo Rogério de Freitas. Dicionário enciclopédico de astronomia e astronáutica. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987. Verbete "Halteres", p. 357.
- SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, paralaxe e dimensões de M 27, em 21 set. 2026.
- HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.