setembro 21, 2026

M 24, a Pequena Nuvem Estelar de Sagitário: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2) de M24 — Small Sgr Star Cloud — objeto ainda não capturado no observatório

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.

Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. UK Schmidt Telescope (UKST) / AAO–ROE. Créditos

Entre todos os objetos do catálogo de Messier, M 24 é o que mais parece não pertencer a ele. Não há aglomerado, nebulosa nem galáxia: o que existe é um trecho da própria Via Láctea que, por um capricho de poeira e perspectiva, brilha mais e tem mais estrelas do que o entorno. Fica em Sagitário, perto do coração da Galáxia, e do Rio de Janeiro passa quase sobre a cabeça em junho e julho. Sob um céu escuro é um espetáculo a olho nu. Sob o céu urbano, vira um desafio de contraste. Este guia mostra o que ele é, como achar, o que esperar e como fotografar.

Texto em revisão. Artigo do novo formato de guia de objeto, com dados, mapas e gráficos de altura reunidos aqui. As fontes estão listadas no final; os livros trazem pouco sobre este objeto, e o texto marca o que vem de conhecimento geral.

Imagem de referência (DSS2) de M24 — Small Sgr Star Cloud — objeto ainda não capturado no observatório
Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. UK Schmidt Telescope (UKST) / AAO–ROE. Imagem de referência: este objeto ainda não foi fotografado no Observatório. Créditos

Ficha técnica e designações

Visão geral: uma nuvem de estrelas que não é um aglomerado

O que é. O SIMBAD trata M 24 como um asterismo de cerca de 2° × 1°, isto é, um padrão aparente e não um objeto ligado por gravidade. Os livros concordam na essência: Moore diz que se trata só de uma nuvem estelar da Via Láctea, sem lugar lógico na lista de Messier (The Observer's Year, p. 200-201), e o Data Book anota "não é um aglomerado" (p. 341). Bakich confessa estranhar que Messier a tenha catalogado (nº 533).

Por que ela brilha. Olhando para Sagitário, vemos o disco da Galáxia pela borda, na direção do centro, com estrelas empilhadas ao longo de milhares de anos-luz. Monks explica que enxergamos o Braço de Sagitário-Carina "aos pedaços", e não como uma faixa contínua, porque nuvens de poeira se interpõem entre nós e o braço (p. 127). Uma leitura natural, que é interpretação deste guia, é que M 24 corresponde a um trecho em que a poeira é mais rala, o que deixa ver mais estrelas de fundo.

Distância e tamanho. Kambič dá cerca de 10.000 anos-luz e um tamanho real de quase 350 anos-luz (p. 421). O SIMBAD não tem paralaxe para o asterismo, mas a tem para o aglomerado NGC 6603, embutido nele: cerca de 10.100 anos-luz, o que sustenta o valor de Kambič. Monks sugere 12.000 anos-luz para o mesmo aglomerado (p. 127).

Brilho e conteúdo. A magnitude total é 4,6 (Bakich; Kambič; Data Book). Kambič conta duas estrelas de magnitude 6, quatro de 7, cinco de 8, uma dúzia de 9 e incontáveis mais fracas (p. 420). O SIMBAD dá o tamanho de 120′ × 60′; outras fontes trazem valores menores (95′ × 35′ em Bakich, cerca de 90′ no Data Book, 1° × 2,5° em Machholz), porque as bordas se misturam ao fundo e cada autor traça o limite num lugar.

O nome. É a "Pequena" Nuvem Estelar de Sagitário, para distingui-la da Grande Nuvem Estelar de Sagitário, a parte mais brilhante da Via Láctea ao norte de γ Sgr (Alnasl); Philip's chama de Pequena a outra parte brilhante, situada ao norte de outra estrela do bule (verbete Sagittarius, p. 351). O padre Secchi a chamava "Delle Caustiche", pelas estrelas dispostas em raios, arcos e espirais (Bakich).

Um Messier estranho. Machholz reúne M 24 entre as entradas "estranhas" do catálogo, ao lado de M 40, M 47, M 48 e M 73, e lembra que o brilho superficial baixo a torna um dos Messier mais difíceis (p. 15-16). Borgia, na ordem sugerida para a Maratona Messier, a chama de "algo realmente difícil" (p. 268). Isso vale para quem observa de cidade e sem instrumento adequado.

Estruturas notáveis

  • NGC 6603. O aglomerado aberto que costuma ser confundido com o próprio M 24: uma pequena mancha mais brilhante na ponta noroeste (Tonkin, p. 143; Bakich). O SIMBAD lhe dá 6′ e magnitude visual 11,1. Monks descreve um aglomerado de pelo menos 30 estrelas, uns 14 anos-luz de diâmetro e cerca de 100 milhões de anos (p. 127).
  • Barnard 92 e Barnard 93. Duas nebulosas escuras contrastantes, pouco mais de meio grau acima do centro da nuvem (Kambič, p. 421). Bakich descreve B 92 com forma de impressão digital. Em binóculos aparecem muito menos que em fotografias (Kambič).
  • As estrelas de primeiro plano. SAO 161294, de magnitude 7,4, aparece perto da nuvem (Bakich).
  • A textura. Uma grande nuvem granulada com uma orientação nordeste-sudoeste (Kambič, p. 420), que se resolve em estrelas em binóculo e se dissolve em brilho difuso a olho nu.

Como localizar

Na constelação de Sagitário, o bule aponta o caminho. Há três referências. Tonkin diz que M 24 fica um pouco além do meio do caminho entre γ Sgr e μ Sgr (p. 143); Kambič e Bakich a colocam cerca de 3° ao norte de μ Sgr. Kambič nota que, em céu escuro, nem é preciso μ Sgr como guia, pois a nuvem se vê a olho nu (p. 420). Para ir daí a outros alvos, o aglomerado aberto M 25 fica cerca de 3,5° a leste de M 24 (Kambič, p. 421), M 18 a cerca de 2° ao norte e M 17, a Nebulosa Ômega, a uns 3° ao norte. Veja os guias de M 17, de M 8 e da constelação de Sagitário.

Carta de localização de M24: as estrelas-guia nomeadas, setas tracejadas com a distância em graus até o alvo, escala em graus e indicação de norte e leste.
Carta de localização (star-hopping), no mesmo estilo das cartas de constelação: norte e leste indicados no canto. Anéis laranja: estrelas-guia; setas tracejadas: o caminho até o alvo, com a distância em graus; anel verde: o alvo (e, com a designação, outros objetos do campo); a barra mostra a escala. As linhas são as oficiais das constelações (d3-celestial), os limites são os da IAU e as estrelas vêm do catálogo HYG.

Quando e como observar

M 24 está em AR 18h17m e Dec −18,5°. Pela AR, cruza o meridiano à meia-noite no fim de junho, e a melhor época vai de maio a setembro; no início da noite, ela passa pelo alto no final de agosto. No Rio de Janeiro (latitude −23°), passa cerca de 4° ao norte do zênite, a uns 85° de altura: quase sobre a cabeça, com a menor extinção atmosférica possível. Isso é o oposto do observador britânico de Tonkin, para quem Sagitário mal sobe.

Vale a regra geral dos objetos difusos: o ideal é esperar a passagem pelo meridiano e a Lua fora do céu. O gráfico abaixo mostra a altura ao longo do ano, e o seguinte, a noite de hoje.

Altura de Small Sgr Star Cloud ao longo do anoAltura à meia-noite astronômica e altura máxima da noite, a cada 5 dias. Melhor época: de abril a agosto. O objeto chega a 86° à meia-noite em junho.0°30°60°90°JANFEVMARABRMAIJUNJULAGOSETOUTNOVDEZ25 jun · 86°hoje
Altura ao longo do ano, a cada 5 dias: linha contínua = altura no meio da noite astronômica (Sol abaixo de −18°); tracejada = maior altura durante a noite escura; faixa verde = melhor época; linhas pontilhadas em 30° e 45°. A linha vertical marca hoje. Melhor época para este local: de abril a agosto (objeto acima de 30° no meio da noite). Ponto mais alto: 86° em 25 de junho.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

2026-10-12 · 19:20 – 04:10

Esta noite no céu

Melhores alvos da noite
Melhor horário
19:20 · 54° W
Horas acima de 45°
0,7 h
Lua
Lua crescente · 6 %
Nota da noite
50 / 100
Posição no céu
45
Brilho
100 mag 4,5
Enquadramento
13 ocupa 267 % do campo

Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).

Trajetória de M24 — Small Sgr Star Cloud pelo céu nesta noiteCéu visto de baixo, zênite no centro e horizonte na borda. O objeto fica acima do horizonte entre 18:20 e 23:10 durante a noite; o ponto mais alto é às 19:20, com 54°. A tabela ao lado traz os mesmos valores.15°30°45°60°75°NNELSESSOONO19:0020:0021:0022:0023:00
Caminho do objeto pelo céu nesta noite, do fim do crepúsculo civil ao amanhecer. Centro = zênite, borda = horizonte; visto olhando para cima (leste à esquerda, oeste à direita). Marcadores a cada 30 minutos.
  • Crepúsculo civil (Sol até −12°)
  • Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
  • Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
  • Altura abaixo de 20°
  • Altura abaixo de 30°
  • Altura abaixo de 45°
  • Hora cheia e meia hora
  • Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
Altura e direção do objeto a cada 30 minutos
Hora Altura Direção Da Lua
19:30 51° W 269° 49°
20:00 44° W 266° 49°
20:30 38° W 264° 48°
21:00 31° W 261° 48°
21:30 24° W 259° 48°
22:00 17° WSW 257° 48°
22:30 10° WSW 254° 47°
23:00 4° WSW 252° 47°
23:30 -3° — 47°
00:00 -9° — 47°
00:30 -15° — 46°
01:00 -21° — 46°
01:30 -27° — 46°
02:00 -32° — 46°
02:30 -37° — 45°
03:00 -41° — 45°
03:30 -45° — 45°
04:00 -47° — 45°
Altura de M24 — Small Sgr Star Cloud ao longo da noiteAltura em graus a cada 30 minutos. O ponto mais alto é às 19:20, com 54°. A tabela abaixo traz os mesmos valores.0°30°60°90°202122230001020304abaixo do horizonte
Altura em graus ao longo da noite escura (linhas em 30° e 45°). A Lua aparece tracejada.

Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

O que ver

Instrumento O que esperar
A olho nu Em céu escuro, uma mancha brilhante de Via Láctea, com tamanho de várias Luas (Bakich; Kambič). Sob Bortle 7, o contraste com o fundo cai muito e a nuvem pode passar despercebida. Machholz e Borgia a incluem entre os alvos difíceis.
Binóculo (10×50 ou 15×70) O melhor instrumento: um grande campo mostra a nuvem como um mar de estrelas, com NGC 6603 como mancha mais brilhante ao nordeste. Bakich sugere um binóculo 15x como primeira olhada.
Telescópio de 100 a 200 mm O campo é pequeno demais para a nuvem toda; use o menor aumento para percorrer NGC 6603 e as estrelas de fundo.
Filtros Não há filtro útil: não é uma nebulosa de emissão. Um filtro de banda estreita só escurece o campo.

Um teste honesto: os livros que descrevem M 24 vêm de observadores do norte, que a veem baixa, ou de céus muito escuros. Do Rio, a altura é a nossa vantagem, mas o fundo claro é o nosso problema. Se a nuvem estiver difícil, tente numa noite sem Lua e com o objeto no meridiano, e compare com uma foto de longa exposição.

Astrofotografia: estratégia de captura

Enquadramento

Como o objeto mede uns 2° × 1° (SIMBAD), o campo decide tudo. Com um telescópio de 1.000 mm de focal e uma câmera como a ASI294MC Pro (campo de cerca de 1,1° × 0,75°, calculado a partir do sensor e da focal), só cabe um pedaço da nuvem, e o alvo natural passa a ser NGC 6603 com as nebulosas escuras B 92 e B 93. Para a nuvem inteira, use uma focal de 200 a 400 mm (campo de 5,5° a 2,7°), ou faça um mosaico de dois ou três painéis. Uma objetiva de 135 a 200 mm em câmera de sensor grande também cabe bem, e inclui M 25, M 17 e M 18.

Desafios do alvo

  • Densidade estelar. Milhares de estrelas de fundo tornam o cálculo do fundo difícil e as estrelas brilhantes saturam. Trate as estrelas depois da calibração e evite exposições longas demais.
  • Contraste baixo. O que se vê é a diferença entre a nuvem e o entorno. Um céu Bortle 7 reduz essa diferença. O ideal é um local mais escuro, sem luzes na direção norte.
  • Cor. A maioria das estrelas é branca-amarelada, com algumas azuis e laranjas. Um bom balanço de branco e a saturação moderada valorizam o campo.

Equipamento e filtros

Câmera colorida de tiro único basta. Filtro de banda estreita não ajuda em uma nuvem de estrelas, e um filtro anti-poluição de banda larga pode reduzir um pouco o brilho urbano, à custa de alterar a cor das estrelas. Um bom foco (máscara de Bahtinov) é essencial num campo tão povoado.

Exemplo de sessão (ponto de partida)

Tipo de quadro Quantidade Exposição Finalidade
Light 90 a 150 30 a 60 s Estrelas sem saturar; muitas exposições para reduzir o ruído do céu urbano
Dark 30 igual aos Lights Calibração do ruído térmico
Flat 30 automática Correção de vinheta e poeira
Bias ou dark-flat 50 mais curta possível Calibração do ruído de leitura

Esses números são um ponto de partida, e não vêm dos livros: ajuste-os ao seu sensor, ao seu telescópio e ao céu da noite.

Smart telescopes e campo de visão

Um smart telescope como o Seestar S50, de campo próximo de 1,3° × 0,7°, cobre a região de NGC 6603 e das nebulosas escuras, mas não a nuvem inteira; para ela, faça um mosaico. O resultado é um campo estelar denso, e não uma nebulosa colorida. Abra o mapa abaixo e escolha o seu modelo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.

0°

Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.

Considerações finais

M 24 é um lembrete de que o céu profundo não se resume a objetos com contorno. Ela é um pedaço de Galáxia, e sua graça é o contraste e a riqueza de estrelas em um único campo de binóculo. Os livros dizem pouco sobre como vê-la de uma cidade; a experiência de cada observador, com noite escura e objeto alto, é que diz. Depois dela, siga para M 25, 3,5° a leste, e para a Nebulosa da Lagoa.

Referências

  • BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 533 (M 24 / NGC 6603).
  • BORGIA, Michael P. Human Vision and the Night Sky: How to Improve Your Observing Skills. New York: Springer, 2006. Ordem sugerida para Sagitário na Maratona Messier, p. 268.
  • KAMBIČ, Bojan. Viewing the Constellations with Binoculars: 250+ Wonderful Sky Objects to See and Explore. New York: Springer, 2010. Sagitário, M 24, p. 420-421.
  • MACHHOLZ, Don. The Observing Guide to the Messier Marathon: A Handbook and Atlas. Springer. Objetos estranhos do catálogo, p. 15-16 (editora e ano a conferir).
  • MONKS, Neale. Go-To Telescopes Under Suburban Skies. New York: Springer, 2010. NGC 6603 e o Braço de Sagitário-Carina, p. 127.
  • MOORE, Patrick (ed.). Philip's Astronomy Encyclopedia. London: Philip's, 2002. Verbete "Sagittarius", p. 351.
  • MOORE, Patrick. The Observer's Year: 366 Nights of the Universe. 2. ed. London: Springer, 2005. 23 de julho, "The Missing Messier Objects", p. 200-201.
  • MOORE, Patrick; REES, Robin. Patrick Moore's Data Book of Astronomy. Cambridge: Cambridge University Press, 2011. Tabela dos objetos de Messier, p. 341.
  • TONKIN, Stephen. Binocular Astronomy. London: Springer, 2007. Lagoa, Trífida e a Nuvem Estelar de Sagitário, p. 142-143.
  • SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a M 24 e NGC 6603, em 21 set. 2026.
  • HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.