setembro 21, 2026

M 62, o globular irregular de Ofiúco: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2) de M62 — objeto ainda não capturado no observatório

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.

Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. UK Schmidt Telescope (UKST) / AAO–ROE. Créditos

Na maior parte dos globulares, a regra é uma bola de luz simétrica, cada vez mais brilhante do centro para a borda. M 62 quebra a regra: o lado sudeste é achatado, uma espécie de leque de estrelas se abre no noroeste, e o ponto mais brilhante não está no meio. Ele fica no extremo sul de Ofiúco, junto à divisa com o Escorpião, e do Rio de Janeiro passa a cerca de 83° de altura, quase no zênite, uma posição que o observador do hemisfério norte não tem (Monks conta que, no sul da Inglaterra, ele mal chega a 8° de altura). Este guia mostra como achá-lo, o que dá para ver e como fotografá-lo.

Texto em revisão. Este é um guia no novo formato de objeto, que reúne dados, mapas, gráficos de altura e estratégia de captura em um só lugar. As fontes estão listadas no final e as divergências entre elas, nas pendências do cabeçalho.

Imagem de referência (DSS2) de M62 — objeto ainda não capturado no observatório
Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. UK Schmidt Telescope (UKST) / AAO–ROE. Imagem de referência: este objeto ainda não foi fotografado no Observatório. Créditos

Ficha técnica e designações

Visão geral: o que é um aglomerado globular

Um aglomerado globular é uma esfera de centenas de milhares de estrelas muito antigas, ligadas pela gravidade e em órbita ao redor da Galáxia. Para medir o quanto as estrelas se concentram no centro, os astrônomos usam a escala de Shapley-Sawyer, de I (núcleo muito denso) a XII (quase sem núcleo). M 62 é classe IV, bastante concentrado (Allison, p. 158; Mollise, p. 143; Monks, p. 122), e por isso se destaca sem dificuldade no fundo do céu. O desafio é outro: as estrelas do aglomerado são fracas, e resolver algumas exige paciência.

Monks o chama de um dos globulares mais peculiares do catálogo de Messier, justamente por não ser esférico. Como a região mais concentrada fica deslocada para um lado, a explicação provável, segundo ele, é a maré gravitacional do centro da Galáxia: todos os globulares que orbitam a Via Láctea sofrem alguma deformação, e M 62 estaria perto o bastante do núcleo, a cerca de 6.100 anos-luz, para sofrer muito mais (Monks, p. 121). É a explicação dos livros, e não uma certeza.

M 62 em números

Distância. A paralaxe do SIMBAD, de 0,185 milissegundo de arco, dá cerca de 17.600 anos-luz (livros mais antigos trazem cerca de 22.500).

Tamanho. O SIMBAD traz 14,1′ (Bakich concorda), quase metade do diâmetro da Lua cheia; Allison traz 15′. Em binóculo, Kambič vê só cerca de 6′, e Cooke, em vídeo com intensificador, 6′. A 17.600 anos-luz, 14,1′ correspondem a cerca de 72 anos-luz (calculado); os livros, com 22.500, chegam a cerca de 100.

Brilho. Os livros trazem magnitude 6,5 (Allison, Kambič, Mollise) ou 6,7 (Bakich); o SIMBAD não traz magnitude V para este objeto, então esses valores são dos livros.

Movimento. O SIMBAD registra velocidade radial de −74,5 km/s: o aglomerado se aproxima do Sol.

Perto do centro. A cerca de 6.100 anos-luz do núcleo da Galáxia (Monks, p. 121), M 62 é um dos globulares mais internos da lista de Messier.

Estruturas notáveis

  • Forma irregular. O aglomerado não é esférico: o lado sudeste é plano, e um leque de estrelas aparece no lado noroeste (Bakich, objeto 457).
  • Núcleo deslocado. Em telescópio de 8 polegadas, mostra-se um núcleo brilhante e a assimetria; em telescópios maiores, um aspecto "mosqueado", com cadeias de estrelas (Allison, p. 158).
  • Brilho concentrado fora do centro. Cooke, com câmera de vídeo intensificada, descreve numerosos pontos finos de 14ª e 15ª magnitudes, concentrados numa área pequena, com um "clarão" fora do centro (Cooke, p. 174).
  • Estrelas fracas. Como a maioria dos membros está na 14ª e 15ª magnitudes, a resolução exige abertura e paciência (Cooke; Mollise).

Como localizar

O guia é Tau Scorpii: M 62 fica cerca de 6° a lés-sudeste dela (Allison, p. 158; Bakich fala em 5,8°). Ao sul, junto ao Escorpião, ele forma um triângulo quase isósceles com Épsilon e Tau Scorpii (Mollise, p. 143). Vindo de Ofiúco, ele fica 3,8° ao sul de M 19, e os dois cabem no mesmo campo de um binóculo (Kambič, p. 358; separação conferida com as coordenadas). Ao ficar tão perto da divisa, M 62 pertence formalmente a Ofiúco (Bakich; Allison), mas Mollise o considera parte do Escorpião, "mais do que de Ofiúco" (Mollise, p. 143). Veja também os guias da constelação de Escorpião e de Ofiúco.

Carta de localização de M62: as estrelas-guia nomeadas, setas tracejadas com a distância em graus até o alvo, escala em graus e indicação de norte e leste.
Carta de localização (star-hopping), no mesmo estilo das cartas de constelação: norte e leste indicados no canto. Anéis laranja: estrelas-guia; setas tracejadas: o caminho até o alvo, com a distância em graus; anel verde: o alvo (e, com a designação, outros objetos do campo); a barra mostra a escala. As linhas são as oficiais das constelações (d3-celestial), os limites são os da IAU e as estrelas vêm do catálogo HYG.

Quando e como observar

Com declinação de −30,1°, M 62 alcança cerca de 83° de altura no Rio, pouco ao sul do zênite. Cruza o meridiano à meia-noite por volta de meados de maio e, às 21h, no fim de julho (cálculo a partir da AR). O melhor período vai de maio a setembro. Para quem observa do hemisfério norte, o aglomerado é baixo e difícil (Kambič afirma que ele exige "excelentes condições e céu escuro até o horizonte"); aqui a altura é o maior aliado, e o brilho da cidade perto do horizonte deixa de contar. Como o objeto passa ao sul do zênite, você olha para o sul: o norte fica para baixo no campo, ao contrário das imagens de astrofoto, em que se costuma pôr o norte para cima.

O gráfico abaixo mostra a altura do objeto ao longo do ano para o local do observatório, e o seguinte, a noite de hoje. Use o primeiro para escolher a época e o segundo, a hora.

Altura de M62 ao longo do anoAltura à meia-noite astronômica e altura máxima da noite, a cada 5 dias. Melhor época: de abril a agosto. O objeto chega a 83° à meia-noite em junho.0°30°60°90°JANFEVMARABRMAIJUNJULAGOSETOUTNOVDEZ5 jun · 83°hoje
Altura ao longo do ano, a cada 5 dias: linha contínua = altura no meio da noite astronômica (Sol abaixo de −18°); tracejada = maior altura durante a noite escura; faixa verde = melhor época; linhas pontilhadas em 30° e 45°. A linha vertical marca hoje. Melhor época para este local: de abril a agosto (objeto acima de 30° no meio da noite). Ponto mais alto: 83° em 5 de junho.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

2026-10-12 · 19:20 – 04:10

Esta noite no céu

Melhores alvos da noite
Melhor horário
19:20 · 39° WSW
Horas acima de 45°
0,0 h
Lua
Lua crescente · 6 %
Nota da noite
47 / 100
Posição no céu
28
Brilho
79 mag 7,4
Enquadramento
69 ocupa 17 % do campo

Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).

Trajetória de M62 pelo céu nesta noiteCéu visto de baixo, zênite no centro e horizonte na borda. O objeto fica acima do horizonte entre 18:20 e 22:20 durante a noite; o ponto mais alto é às 19:20, com 39°. A tabela ao lado traz os mesmos valores.15°30°45°60°75°NNELSESSOONO19:0020:0021:0022:00
Caminho do objeto pelo céu nesta noite, do fim do crepúsculo civil ao amanhecer. Centro = zênite, borda = horizonte; visto olhando para cima (leste à esquerda, oeste à direita). Marcadores a cada 30 minutos.
  • Crepúsculo civil (Sol até −12°)
  • Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
  • Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
  • Altura abaixo de 20°
  • Altura abaixo de 30°
  • Altura abaixo de 45°
  • Hora cheia e meia hora
  • Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
Altura e direção do objeto a cada 30 minutos
Hora Altura Direção Da Lua
19:30 36° WSW 249° 31°
20:00 30° WSW 247° 31°
20:30 24° WSW 246° 31°
21:00 17° WSW 244° 30°
21:30 11° WSW 242° 30°
22:00 5° WSW 239° 30°
22:30 -1° — 30°
23:00 -6° — 29°
23:30 -12° — 29°
00:00 -17° — 29°
00:30 -22° — 29°
01:00 -26° — 28°
01:30 -30° — 28°
02:00 -33° — 28°
02:30 -35° — 28°
03:00 -37° — 27°
03:30 -37° — 27°
04:00 -36° — 27°
Altura de M62 ao longo da noiteAltura em graus a cada 30 minutos. O ponto mais alto é às 19:20, com 39°. A tabela abaixo traz os mesmos valores.0°30°60°90°202122230001020304abaixo do horizonte
Altura em graus ao longo da noite escura (linhas em 30° e 45°). A Lua aparece tracejada.

Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

O que ver

Instrumento O que esperar
A olho nu Não é visível.
Binóculo (10×50) Uma mancha fraca de uns 6′ (Kambič, p. 358); sob Bortle 7, difícil, mas a altura ajuda.
Telescópio de 100 a 150 mm Visível mas sem resolução (Allison, p. 158). Mollise, com 6 polegadas f/8, gastou mais de uma hora: a 180x, a visão desviada pega algumas estrelas de vez em quando; ele precisou de um capuz escuro e de bater de leve no tubo para as estrelas aparecerem (Mollise, p. 143).
Telescópio de 200 mm Com 200 mm a 200x, borda irregular, lado sudeste plano, núcleo brilhante e concentrado (Bakich). Com 8 polegadas, o núcleo e a forma assimétrica (Allison, p. 158).
Telescópio grande Mosqueado, com cadeias e séries de estrelas (Allison). Cooke o considera "tão impressionante quanto muitos globulares maiores" (Cooke, p. 174).

Uma nota de bom senso. Mollise trata M 62 como um alvo prático para telescópios pequenos e céus claros, mas a resolução das estrelas exige abertura ou paciência. Sob Bortle 7, com 100 a 150 mm, o que se vê é uma mancha redonda com núcleo brilhante; a forma irregular aparece com 200 mm ou mais.

Astrofotografia: estratégia de captura

Enquadramento

M 62 mede cerca de 14,1′ (SIMBAD). Com um telescópio de 1.000 mm e uma câmera como a ASI294MC Pro, o campo é de cerca de 1,1° × 0,75° (calculado a partir do sensor e da focal): o aglomerado ocupa uns 21% da largura, e sobra espaço para o campo estelar. Para destacar a forma irregular, uma focal maior (de 1.500 a 2.000 mm) ajuda, se o seeing permitir. M 62 e M 19 (a cerca de 3,8°) cabem juntos em um campo de 5° (calculado), por exemplo com uma lente de 135 a 200 mm em câmera APS-C.

Desafios do alvo

  • Campo estelar denso. Perto do bojo da Galáxia, o fundo é muito rico em estrelas; a redução de estrelas ajuda.
  • Núcleo brilhante. O "clarão" fora do centro satura com exposições longas; use quadros curtos para o miolo e combine com HDR.
  • Forma assimétrica. Evite que o processamento deixe o aglomerado redondo e mais brilhante do lado errado: o leque de estrelas do noroeste é o traço mais fotogênico.

Equipamento e filtros

Nenhum livro consultado trata a astrofotografia de M 62. Como em outros globulares, Kier afirma que se pode usar LRGB, RGB ou câmera colorida de tiro único (Kier, p. 167, sobre M 12); no processamento, deconvolução e nitidez agressiva (Kier, p. 167). Filtros de banda estreita não ajudam em um objeto sem gás.

Exemplo de sessão (ponto de partida)

Tipo de quadro Quantidade Exposição Finalidade
Light curto (núcleo) 30 10 a 20 s Preservar o miolo brilhante
Light longo (halo) 60 60 s Estrelas fracas e leque do noroeste
Dark 30 igual aos Lights Calibração do ruído térmico
Flat 30 automática Correção de vinheta e poeira
Bias ou dark-flat 50 mais curta possível Calibração do ruído de leitura

Esses números são um ponto de partida, e não vêm dos livros: ajuste-os ao seu sensor, ao seu telescópio e ao céu da noite.

Smart telescopes e campo de visão

Com um smart telescope como o Seestar S50 (campo de cerca de 1,3° × 0,7°), M 62 ocupa um terço da altura do quadro e a assimetria aparece nos primeiros minutos de empilhamento. Abra o mapa abaixo e escolha o seu modelo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.

0°

Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.

Considerações finais

M 62 é o globular da lista de Messier para quem gosta de exceções: irregular, deslocado para o lado, perto do centro da Galáxia e muito bem posicionado no céu do Rio. Combine-o com M 19, a poucos graus dali, e compare a forma dos dois com a de M 10 e M 12. Para um globular mais brilhante nessa região do céu, veja M 4 e M 22.

Referências

  • ALLISON, Mark. Star Clusters and How to Observe Them. London: Springer, 2006. (Astronomers' Observing Guides). M 62, p. 158.
  • BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 457 (M 62).
  • COOKE, Antony. Visual Astronomy in the Suburbs: A Guide to Spectacular Viewing. London: Springer (Patrick Moore's Practical Astronomy Series). NGC 6266 (M 62), p. 174.
  • KAMBIČ, Bojan. Viewing the Constellations with Binoculars: 250+ Wonderful Sky Objects to See and Explore. New York: Springer, 2010. M 19 e M 62, p. 358.
  • KIER, Ruben. The 100 Best Targets for Astrophotography. New York: Springer, 2009. "Globular Cluster M12", p. 167.
  • MOLLISE, Rod. The Urban Astronomer's Guide: A Walking Tour of the Cosmos for City Sky Watchers. London: Springer (Patrick Moore's Practical Astronomy Series). M 62, p. 143.
  • MONKS, Neale. Go-To Telescopes Under Suburban Skies. New York: Springer (Patrick Moore's Practical Astronomy Series), 2010. NGC 6266 (M 62), p. 121-122.
  • SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, tipo, paralaxe, dimensões e velocidade radial de M 62, em 21 set. 2026.
  • HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.