setembro 21, 2026
M 22, o globular de Sagitário: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.
Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. UK Schmidt Telescope (UKST) / AAO–ROE. Créditos
Se você já viu M 13, o famoso globular de Hércules, vai entender por que muitos observadores do hemisfério sul torcem o nariz para ele: M 22 é maior, mais brilhante e, do Brasil, muito mais alto. Kambič diz que, se M 22 estivesse mais alto no céu dos observadores do norte, ele ofuscaria por completo M 13 (p. 417). Aqui, nas noites de inverno, ele passa praticamente sobre nossas cabeças, perto do "bule" de Sagitário, na direção do centro da Galáxia. Este guia mostra como achá-lo, quando observar, o que ele revela em cada instrumento e como fotografá-lo.
Texto em revisão. Este é um guia no novo formato de objeto, que reúne dados, mapas, gráficos de altura e estratégia de captura em um só lugar. As fontes estão listadas no final e as divergências entre elas, nas pendências do cabeçalho.

Ficha técnica e designações
Visão geral: um dos maiores globulares do céu
Um aglomerado globular é uma esfera de centenas de milhares de estrelas muito antigas, presas por gravidade e em órbita ao redor do centro da Galáxia. M 22 é um dos maiores, mais próximos e mais fáceis de resolver em estrelas.
Brilho e ranking. Magnitude 5,1, em todos os livros. Kambič, Allison e Bakich o colocam em terceiro lugar entre os globulares mais brilhantes do céu, atrás apenas de Ômega Centauri e 47 Tucanae, dois objetos que os observadores do norte não veem; em quarto lugar vem M 13 (Kambič, p. 417). Monks chega à mesma conclusão de outro modo: para ele, os melhores globulares são Ômega Centauri e 47 Tucanae, seguidos de M 22 e M 13 (p. 130). Bakich acrescenta que M 22 já é visível a olho nu como uma estrela difusa, sob bom céu.
Distância e tamanho. As distâncias variam: 9.600 anos-luz (Moore, p. 201), 10.000 (Monks; Kier) e 10.400 (Kambič, p. 420; Allison, p. 167). Pela paralaxe do SIMBAD, a distância é de cerca de 10.700 anos-luz, valor adotado neste guia. O tamanho aparente no SIMBAD é de 24′ (livros mais antigos trazem 32′); é a diferença entre contar ou não as estrelas fracas do halo, que ficam misturadas às do fundo da Via Láctea. Kambič nota que é difícil definir o diâmetro real de M 22, porque as estrelas rareiam pouco a pouco até a borda e o campo é cheio de estrelas de fundo; o miolo denso mede cerca de 50 anos-luz, e o aglomerado tem ao menos meio milhão de estrelas, das quais os astrônomos contam 75 mil nas chapas fotográficas (p. 420). Monks dá cerca de 100 anos-luz de diâmetro total e classe VII na escala de Shapley-Sawyer, ou seja, de concentração moderada (p. 130).
O mais fácil de resolver. Moore afirma que M 22 é provavelmente o globular mais fácil de resolver em estrelas, mesmo perto do centro, por ser tão próximo (p. 201). Allison confirma: estrelas a partir da magnitude 11, e uma luneta de 4″ já resolve parte do aglomerado, que aparece levemente oval (p. 168). Mollise chega a preferir M 22 a M 13 e afirma que uma luneta de 3″ resolve algumas estrelas mesmo em céu poluído (p. 147-148).
Perto da eclíptica. M 22 fica a menos de 1° da eclíptica, e por isso a Lua e os planetas passam por perto de tempos em tempos, uma cena que Kambič recomenda observar (p. 420). Fique atento a essas conjunções.
História. Bakich e Moore contam que M 22 foi o primeiro aglomerado globular descoberto: relatado em 1665 pelo astrônomo alemão Abraham Ihle (Moore, p. 201; Bakich, nº 549). Bakich lembra que, segundo o Almirante Smyth, Hevelius já o teria notado antes; e que Herschel usava a condensação central para argumentar que as estrelas se atraem por gravidade. Halley o descreveu como "pequeno e luminoso" (Moore, p. 201). Monks acrescenta que ele contém uma nebulosa planetária (p. 130).
Estruturas notáveis
- O núcleo de "cometa". Tonkin observa que, a 37x em binóculos, M 22 mostra um núcleo muito mais brilhante que o resto, como a cabeça de um cometa, e diz que é isso que mostra por que Messier fez seu catálogo para que os objetos não fossem confundidos com cometas (p. 220).
- O formato oval. Em telescópios pequenos, o aglomerado parece levemente alongado (Allison, p. 168).
- Faixas escuras. Em telescópios maiores, Allison relata faixas de poeira que cortam o miolo (p. 168).
- Contagem por cunhas. Bakich sugere um jogo: divida o aglomerado em oito cunhas, conte as estrelas de uma e multiplique por 8. Um telescópio de 100 mm mostra várias dezenas, e um de 250 mm, centenas.
- O campo rico. M 22 fica em uma das regiões mais ricas da Via Láctea, o que torna o achado mais difícil que a observação: Moore diz que o único problema é identificá-lo no meio de tantas estrelas (p. 201).
- O vizinho M 28. Do outro lado de Kaus Borealis fica M 28, globular de magnitude 6,8 que abriga um pulsar de milissegundo (Kambič, p. 422). Vale a visita.
Como localizar
Procure o "bule" de Sagitário. A estrela λ Sgr, Kaus Borealis, marca o pico da "tampa" do bule. De lá, ande cerca de 2° para nordeste (Kambič; Allison; Bakich) e você chega a M 22, com um triângulo com Phi Sgr como confirmação (Mollise, p. 147). Um binóculo mostra as duas no mesmo campo (Kambič, p. 417). Comece pelo guia da constelação de Sagitário, onde o bule é apresentado.

Quando e como observar
M 22 está em AR 18h36m e Dec −23,9°. Cruza o meridiano à meia-noite no início de julho, e a melhor época vai de maio a setembro: em maio, ele nasce no início da madrugada; em setembro, o vemos no início da noite. No Rio de Janeiro (latitude −23°), o aglomerado passa a cerca de 89° de altura, praticamente exatamente no zênite. Isso é uma vantagem enorme: quanto mais alto, menos atmosfera, mais contraste e imagens mais nítidas. Os observadores do norte, como lembra Kambič, o veem baixo, e ele sugere as manhãs frescas e secas de abril e maio como melhores para o hemisfério dele (p. 417); no Brasil, o inverno seco cumpre o mesmo papel.
O gráfico abaixo mostra a altura do objeto ao longo do ano para o local do observatório, e o seguinte, a noite de hoje. Use o primeiro para escolher a época e o segundo, a hora.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
2026-10-13 · 19:20 – 04:10
Esta noite no céu
- Melhor horário
- 19:20 · 58° W
- Horas acima de 45°
- 1,0 h
- Lua
- Lua crescente · 12 %
- Nota da noite
- 70 / 100
- Posição no céu
- 50
- Brilho
- 97 mag 6,2
- Enquadramento
- 100 ocupa 28 % do campo
Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).
- Crepúsculo civil (Sol até −12°)
- Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
- Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
- Altura abaixo de 20°
- Altura abaixo de 30°
- Altura abaixo de 45°
- Hora cheia e meia hora
- Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
| Hora | Altura | Direção | Da Lua |
|---|---|---|---|
| 19:30 | 56° | W 261° | 40° |
| 20:00 | 49° | W 259° | 40° |
| 20:30 | 42° | WSW 258° | 40° |
| 21:00 | 36° | WSW 256° | 39° |
| 21:30 | 29° | WSW 254° | 39° |
| 22:00 | 22° | WSW 252° | 39° |
| 22:30 | 16° | WSW 250° | 39° |
| 23:00 | 9° | WSW 248° | 38° |
| 23:30 | 3° | WSW 245° | 38° |
| 00:00 | -3° | — | 38° |
| 00:30 | -10° | — | 38° |
| 01:00 | -15° | — | 37° |
| 01:30 | -21° | — | 37° |
| 02:00 | -26° | — | 37° |
| 02:30 | -31° | — | 37° |
| 03:00 | -35° | — | 36° |
| 03:30 | -38° | — | 36° |
| 04:00 | -41° | — | 36° |
Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
Orientação. Como ele passa praticamente no zênite, a orientação depende do lado em que você observa: ao olhar para o norte, o leste fica à direita; para o sul, à esquerda. Um banco reclinável ajuda a evitar torcicolo.
O que ver
| Instrumento | O que esperar |
|---|---|
| A olho nu | Uma estrela difusa em céu escuro; Bakich o considera um objeto fácil a olho nu. Em Bortle 7, é mais difícil, mas pode ser notado com visão desviada. |
| Binóculo (10×50 a 15×70) | Uma mancha brilhante com cerca de 10′ e um núcleo bem mais claro, com "cara de cometa" (Kambič, p. 417; Tonkin, p. 220). Estrelas individuais ainda não. |
| Telescópio de 75 a 100 mm | Com 3″ a 4″ e aumento alto, algumas estrelas se resolvem, mesmo em céu poluído (Mollise, p. 147-148; Allison, p. 168). Bakich fala em várias dezenas com 100 mm. |
| Telescópio de 200 mm ou mais | Centenas de estrelas, com o miolo resolvido e faixas escuras em telescópios grandes (Bakich; Allison). Aumentos de 150x a 200x são bem-vindos. |
| Filtros | Não ajudam. Globulares emitem luz de estrelas, não de gás. |
Astrofotografia: estratégia de captura
Enquadramento
M 22 mede cerca de 24′, o que cabe em quase qualquer sensor. Kier recomenda para globulares um campo de 30′ a 50′, porque ele reduz as exigências de seeing e de guiagem, ou um campo mais apertado, de 20′ e menos de 1″ por pixel, para resolver o núcleo (p. 150 e 159). Com um telescópio de 1.000 mm e uma câmera como a ASI294MC Pro, o campo é de cerca de 1,1° × 0,75° (calculado do sensor), e o globular ocupa cerca de 40% do quadro. Uma focal de 400 a 600 mm dá espaço para o campo estelar em volta e é uma boa escolha para iniciantes. Para incluir também M 28, que fica do outro lado de Kaus Borealis, é preciso um campo de alguns graus.
Desafios do alvo
- Núcleo brilhante. Kier recomenda reduzir as exposições para não queimar o núcleo e usar curvas e níveis, em vez do "digital development" (p. 159).
- Deconvolução com cautela. Ele adverte que a deconvolução pode gerar um padrão de mosaico no núcleo e sugere adiar a nitidez (p. 159 e 187).
- Alinhamento dos canais. O alinhamento preciso dos canais de cor é essencial; a luminância sintética evita ruído de cor (Kier, p. 150 e 164).
- Cores. Kier sugere realçar a cor apenas nas estrelas mais brilhantes, por meio de seleção (p. 187).
- Campo estelar denso. Na direção do centro da Galáxia, o fundo tem tantas estrelas que separar o aglomerado exige boa calibração e um fundo bem ajustado.
Equipamento e filtros
Filtros de banda estreita não têm papel aqui, e um filtro de poluição só ajuda um pouco em céu urbano. Uma câmera colorida com bloqueio de infravermelho funciona bem; com câmera monocromática, o método LRGB com luminância sintética dá resultados limpos. Foco muito preciso (máscara de Bahtinov), guiagem estável e uma boa noite de seeing pesam mais que o filtro. Sob Bortle 7, prefira noites sem Lua: o brilho do núcleo aguenta bem, mas as estrelas fracas do halo se perdem no fundo do céu.
Exemplo de sessão (ponto de partida)
| Tipo de quadro | Quantidade | Exposição | Finalidade |
|---|---|---|---|
| Light curto | 40 | 15 a 30 s | Preservar o núcleo |
| Light longo | 60 | 90 a 120 s | Estrelas fracas do halo |
| Dark | 30 | igual aos Lights | Calibração do ruído térmico |
| Flat | 30 | automática | Correção de vinheta e poeira |
| Bias ou dark-flat | 50 | mais curta possível | Calibração do ruído de leitura |
Esses números são um ponto de partida, e não vêm dos livros: ajuste-os ao seu sensor, ao seu telescópio e ao céu da noite.
Smart telescopes e campo de visão
M 22 é um dos melhores alvos para smart telescopes no inverno: brilhante, alto e do tamanho certo. O campo de um Seestar S50 (cerca de 1,3° × 0,7°) o mostra inteiro, com boa parte do halo e um núcleo denso e bem resolvido. Como o objeto é composto de estrelas, o modo de banda estreita não ajuda: use o modo comum, ou o filtro anti-poluição se o aparelho tiver. Exposições curtas preservam o núcleo. Abra o mapa abaixo e escolha o seu modelo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.
Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.
Considerações finais
M 22 é o globular de quem mora no Sul: mais brilhante que M 13, mais fácil de resolver e no seu ponto mais alto durante todo o inverno. Ele serve tanto ao iniciante, que o vê como uma bola de neblina em binóculos, quanto ao astrofotógrafo, que recebe um alvo generoso e fácil de compor. O próximo passo natural é comparar M 22 com o frouxo M 4 e o denso M 80, em Escorpião, ou ampliar o passeio até a Nebulosa da Lagoa, do outro lado do bule.
Referências
- ALLISON, Mark. Star Clusters and How to Observe Them. London: Springer, 2006. M 22, p. 167-168.
- BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 549 (M 22).
- KAMBIČ, Bojan. Viewing the Constellations with Binoculars: 250+ Wonderful Sky Objects to See and Explore. New York: Springer, 2010. Sagitário, M 22 e M 28, p. 417-422.
- KIER, Ruben. The 100 Best Targets for Astrophotography. New York: Springer, 2009. Considerações sobre globulares e M 22, p. 150, 159, 164 e 187.
- MOLLISE, Rod. The Urban Astronomer's Guide: A Walking Tour of the Cosmos for City Sky Watchers. London: Springer, 2006. M 22, p. 147-148.
- MONKS, Neale. Go-To Telescopes Under Suburban Skies. New York: Springer, 2010. Globulares de Sagitário, M 22, p. 130.
- MOORE, Patrick. The Observer's Year: 366 Nights of the Universe. 2. ed. London: Springer, 2005. "Messier 22" (22 de julho), p. 201.
- TONKIN, Stephen. Binocular Astronomy. London: Springer, 2007. M 22, p. 220.
- SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, tamanho e paralaxe de M 22, em 21 set. 2026.
- HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.