setembro 21, 2026

Céu de verão no hemisfério norte: Polaris, o Triângulo de Verão e a Via Láctea de junho a agosto

Mapa do céu inteiro de 15 de julho, 21h locais, a 40° N: Polaris a 40° acima do horizonte norte, a Ursa Maior baixa a noroeste, Vega perto do zênite, o Triângulo de Verão com Deneb no Cisne a nordeste e Altair na Águia a sudeste, Arcturus a oeste e Antares rasteira ao sul

Se você já acompanhou o céu de julho do Brasil e agora quer entender o que um observador em Madri, Nova York ou Pequim vê nessa mesma noite, este guia é para você. Mudamos de latitude, e quase tudo vira do avesso: o que para nós é inverno e madrugada fria com o Escorpião no alto, para eles é verão, noite curta e morna com o Triângulo de Verão quase sobre a cabeça. O que não muda é o relógio das estrelas: às 21h de 15 de julho, o céu está no mesmo ponto nos dois hemisférios. Só a moldura é outra.

Texto em revisão. Este é um artigo de teste, escrito a partir de fontes de referência; as fontes estão listadas no final.

O que é o céu de verão do norte

Chamamos de céu de verão o que se vê nas noites de junho, julho e agosto. Nessa época, o lado noturno da Terra olha para a região da Via Láctea que vai do Cisne ao Escorpião, passando pela Águia e por Sagitário, e, do outro lado, para a Ursa Maior perto do polo. O Sol, no meio do verão, fica na direção de Gêmeos e Câncer, do lado oposto do céu ao Escorpião e ao Cisne, que reinam à noite.

Duas coisas fazem esse céu diferente do nosso. A primeira é que, a 40° de latitude norte, o polo norte celeste está a 40° acima do horizonte, e as estrelas próximas dele nunca se põem: giram em torno de Polaris a noite inteira, o ano inteiro. A segunda é que o Escorpião e Sagitário, tão espetaculares no Brasil, aparecem baixos, rente ao horizonte sul. Em compensação, o Triângulo de Verão, que aqui sobe pelo nordeste depois das 22h, lá fica no alto durante quase toda a noite.

Atenção: as noites são curtas. Em julho, a 40° N, o Sol se põe por volta das 20h30 (horário de verão) e o céu só escurece de verdade depois das 22h30 ou 23h. Às 21h, o horário da nossa carta, ainda é crepúsculo; as estrelas mais brilhantes já aparecem, as fracas ainda não.

A carta e como lê-la

Mapa do céu inteiro de 15 de julho, 21h locais, a 40° N: Polaris a 40° acima do horizonte norte, a Ursa Maior baixa a noroeste, Vega perto do zênite, o Triângulo de Verão com Deneb no Cisne a nordeste e Altair na Águia a sudeste, Arcturus a oeste e Antares rasteira ao sul
15 de julho, 21h locais, latitude 40° N (Nova York, Madri). Visto olhando para cima: norte em cima, leste à esquerda. O centro do mapa é o zênite, o ponto sobre a cabeça; a borda é o horizonte. Repare em Polaris a 40° do horizonte norte, em Vega quase no centro, no Triângulo de Verão, na Via Láctea descendo do Cisne até Sagitário e nas figuras do Escorpião e de Sagitário encostadas na borda sul.

Leia a carta como se estivesse deitado de costas, com a cabeça para o norte, olhando para cima. O centro do mapa é o ponto sobre a sua cabeça (o zênite) e a borda é o horizonte. Polaris está no alto da carta, a 40° do horizonte norte. A linha dourada é a eclíptica, o caminho aparente do Sol, que passa baixo no sul e mostra por onde os planetas costumam andar, e a linha azulada é o equador celeste.

Como se orientar

Ursa Maior e Polaris. A Grande Concha, as sete estrelas mais brilhantes da Ursa Maior, forma um dos padrões mais conhecidos do céu. Do Brasil só a vemos baixa, no norte, entre março e maio; no hemisfério norte ela está sempre presente. Em meados de julho, às 21h, está a noroeste, a cerca de 36° do horizonte (pelo centro da constelação). A regra clássica: as duas estrelas da borda oposta ao cabo, Dubhe (alfa) e Merak (beta), apontam para Polaris, a estrela do polo, cinco vezes a distância entre elas (Ridpath, p. 158). Dubhe, segundo o SIMBAD, tem magnitude 1,79 e fica a cerca de 123 anos-luz.

Polaris está a menos de um grau do polo norte celeste, e é por isso que praticamente não se move no céu (Ridpath, p. 152). Não é das estrelas mais brilhantes: a magnitude é 2,0, e ela destaca-se mais pela solidão do que pelo brilho. É uma supergigante amarelo-esbranquiçada a cerca de 430 anos-luz (SIMBAD). A altura de Polaris acima do horizonte é igual à latitude do observador, e a 40° N ela fica sempre nos 40°: quem sabe achar Polaris sabe onde está o norte e a sua latitude. Ela integra a Ursa Menor, uma concha menor com o cabo curvado ao contrário, onde Kochab e Pherkad são as Guardiãs do Polo (Ridpath, p. 152). Cerca de 4.500 anos atrás, quando as pirâmides foram erguidas, a estrela do polo era Thuban, no Dragão (magnitude 3,7, cerca de 260 anos-luz), e daqui a milênios será Vega, por causa da precessão dos equinócios (Vieira, p. 94).

Do outro lado da concha. Siga o arco que o cabo da Ursa Maior desenha e você chega a Arcturus, a laranja brilhante do Boieiro (magnitude -0,05, cerca de 37 anos-luz); continue "pela espiga" e chega a Spica, na Virgem (magnitude 0,97, cerca de 250 anos-luz).

O Triângulo de Verão. É o grande roteiro da estação. Vega (Lira, magnitude 0,03), Deneb (Cisne, 1,25) e Altair (Águia, 0,76) formam um triângulo enorme que domina o alto do céu. O nome é informal e não oficial; Moore o chama de "Triângulo de Verão" (Observer's Year, p. 215-216), e o Vieira, no Brasil, de "Triângulo do Norte" (p. 93). A 40° N, Vega passa quase no zênite nas noites de julho e agosto.

A Via Láctea

A Via Láctea de verão é a razão para procurar um céu escuro. Ela sobe do sul, cruza a Águia e o Escudo, atravessa o Cisne e desce por Cefeu e Cassiopeia. Perto de Deneb, uma nuvem de poeira parte a faixa em duas, a Fenda do Cisne (Ridpath, p. 165), e a nebulosa América do Norte (NGC 7000) desenha um continente com um "Golfo do México" escuro (Vieira, p. 98; Moore, Observer's Year, p. 238). A parte mais brilhante, em Sagitário e no Escorpião, fica baixa e some na neblina do horizonte.

As constelações do alto

Circumpolares: sempre visíveis

Estas nunca se põem a 40° N. Às 21h de 15 de julho, o cálculo dá:

Constelação Altura do centro Direção
Dragão 60° norte
Ursa Menor 50° norte
Cefeu 37° norte
Ursa Maior 36° noroeste
Girafa 20° norte
Cassiopeia 20° norte

Altura do centro da constelação às 21h de 15 de julho, calculada por nós para 40° N; constelações grandes se estendem além. Todas são circumpolares a essa latitude.

Ursa Maior. Dá um roteiro de objetos para telescópio: Mizar e Alcor, o par de olho nu que os árabes usavam como teste de vista (Moore, Observer's Year, p. 23-24; Ridpath, p. 159); as galáxias M81 e M82, separadas por cerca de um diâmetro da Lua cheia (Ridpath, p. 159); a Galáxia do Redemoinho, M 51, nos Cães de Caça, pertinho da ponta do cabo, a oeste.

Dragão, Cassiopeia, Cefeu e Girafa. O Dragão serpenteia entre as duas Ursas e guarda Thuban, a antiga estrela polar. Cassiopeia, o "W", está baixa ao norte em julho e sobe ao longo do outono.

Constelações de verão, altas

Constelação Altura do centro Direção
Coroa Boreal 78° sudoeste
Hércules 74° sudeste
Boieiro 65° oeste
Lira 63° leste
Serpente 54° sul
Cães de Caça 51° oeste
Cisne 46° nordeste
Flecha 46° leste
Ofiúco 42° sul
Raposa 42° leste
Águia 35° sudeste

Hércules é uma constelação grande e sem grande brilho, mas com um tesouro no meio: M 13, o aglomerado globular mais brilhante do céu do norte, visível como um borrão a olho nu em céu escuro, com cerca de 22.500 anos-luz (Moore, Observer's Year, p. 201-202). Fica no "Keystone", o quadrilátero central da figura. A Alfa, Rasalgethi, é uma supergigante vermelha variável com uma companheira que parece verde por contraste (p. 203).

Lira é pequena e reluzente. Vega é a quinta estrela mais brilhante do céu (Ridpath, p. 163) e está a apenas cerca de 25 anos-luz (SIMBAD). Vega tem um disco de poeira que sugere material planetário (Moore, p. 218). Ao lado de Vega, Epsilon Lyrae é a "dupla dupla": duas estrelas que um binóculo separa, cada uma delas dupla num telescópio (Ridpath, p. 163; Moore, p. 221). E entre Beta e Gama está a Nebulosa do Anel, M 57, uma nebulosa planetária a cerca de 1.400 anos-luz (Moore, p. 220), com aparência de anel de fumaça.

Cisne é a Cruz do Norte, com Deneb na cauda e Albireo no bico. Deneb é uma supergigante branca, das estrelas mais luminosas que conhecemos, e, mesmo assim, aparece só como uma estrela de 1ª magnitude, porque está a mais de mil anos-luz (Vieira, p. 97; Kambič, p. 278; Moore, p. 237). Albireo, no pé da cruz, é uma bela dupla dourada e azul, que um telescópio pequeno separa (Kambič, p. 279; Ridpath, p. 165). Ali ficam também os aglomerados M 39 e M 29, a nebulosa do Véu (NGC 6992) e Cygnus X-1, um candidato a buraco negro (Ridpath, p. 165; Kambič, p. 290).

Águia tem Altair, magnitude 0,76, a apenas cerca de 17 anos-luz e girando tão rápido (6,5 horas) que é visivelmente achatada (Vieira, p. 98). Tem uma estrela mais fraca de cada lado, Tarazed e Alshain (Ridpath, p. 183). Perto dela, o Escudo guarda o Pato Selvagem, M 11, aglomerado aberto de forma de leque (Ridpath, p. 182), e a Flecha, Delfim e Raposa são constelações minúsculas com bons alvos: a Nebulosa Dumbbell, M 27, na Raposa, a cerca de 975 anos-luz (Moore, p. 256-260).

Boieiro e Coroa Boreal. Arcturus brilha alaranjada a oeste; a Coroa Boreal, semicírculo delicado ao lado do Boieiro, fica muito alta às 21h (Ridpath, p. 179).

Serpente e Ofiúco. Passam ao sul, altos. Ali ficam as globulares M 5, M 10, M 12, M 19 e M 62 e, na cauda da Serpente, a Nebulosa da Águia, M 16 (Ridpath, p. 180-181). Leia mais sobre o Ofiúco no guia da constelação.

O zodíaco de verão: baixo no sul

O que para nós é altíssimo, no norte é rasteiro: o Escorpião tem centro a 18° de altura, ao sul; Sagitário, a 13°, a sudeste; Libra, a 31°, e Virgem, a 28°, ambas a sudoeste.

Escorpião mostra Antares, alaranjada, mas nunca sobe muito; o ferrão (Shaula, Sargas) fica quase no horizonte, e em cidades com poluição luminosa não se vê. Os aglomerados M 4 (ao lado de Antares), M 6 e M 7 e o NGC 6231 vão pedir um horizonte sul livre.

Sagitário é o "bule" que aponta para o centro da Galáxia. A partir de 40° N, o bule faz uma aparição rasteira: nas noites de julho e agosto, vale a pena conhecer a Nebulosa da Lagoa, M 8, a Trífida, a Nuvem Estelar M 24 e o globular M 22 (com muito mais dificuldade do que no Brasil), além da Ômega, M 17, no limite com o Escudo.

Libra e Virgem ficam a sudoeste, descendo, e já se despedem; Leão já se põe no oeste (9° às 21h) e o Corvo (8°) quase não aparece.

O que o hemisfério sul vê diferente

Na mesma noite, mesma hora, o céu do Rio de Janeiro (23° S) é este:

Constelação Rio de Janeiro (23° S) Nova York ou Madri (40° N)
Escorpião 80°, a sudeste 18°, ao sul
Sagitário 56°, a leste 13°, a sudeste
Hércules 39°, ao norte 74°, a sudeste
Lira 22°, a nordeste 63°, a leste
Águia 38°, a nordeste 35°, a sudeste
Cisne abaixo do horizonte às 21h 46°, a nordeste
Ursa Maior abaixo do horizonte 36°, a noroeste
Cruzeiro do Sul 34°, a sudoeste abaixo do horizonte

Alturas do centro de cada constelação às 21h de 15 de julho. Fonte: cálculo do projeto para as duas latitudes.

No Brasil, o Escorpião sobe quase ao zênite e o Cruzeiro do Sul gira em torno do polo. No norte é o contrário: Ursa Maior e Cassiopeia acompanham todas as noites, o Cruzeiro do Sul nunca aparece, e Cisne e Lira dominam. As figuras também mudam de posição: quem olha para o sul no hemisfério norte tem o leste à esquerda; no Brasil, olhando para o norte, o leste fica à direita. É por isso que constelações como Órion, Leão e Escorpião parecem "de cabeça para baixo" quando trocamos de hemisfério.

Para o leitor brasileiro há uma boa notícia: as constelações equatoriais são as mesmas e aparecem igualmente. Ofiúco, Serpente, Águia, Escudo, Libra, Virgem, Boieiro e Coroa Boreal ficam perto do equador celeste (a linha azulada na carta) e são visíveis dos dois lados. A diferença é a altura: a 40° N as equatoriais do sul (Escorpião, Sagitário) ficam baixas, e as do norte (Hércules, Lira) ficam no alto; no Rio, é o contrário. O Escorpião e o Sagitário já têm guia próprio. E o equivalente do céu de verão do norte, com o Escorpião no alto, você encontra em Céu de inverno no hemisfério sul.

Dicas de observação

  • Horário. O céu só escurece de verdade depois das 22h30. Para a Via Láctea, o melhor é entre 23h e 2h, com Cisne e Águia altos.
  • Cidade. Sobram o Triângulo de Verão, Polaris, a Ursa Maior, Arcturus e a Coroa Boreal. Para a Via Láctea, é preciso ir a um céu escuro, longe das luzes.
  • Binóculo. Um 10×50 mostra M 13, M 57 como pontinho difuso, Albireo colorida, o Pato Selvagem e a Fenda do Cisne (Kambič, p. 272-286).
  • Telescópio pequeno. M 57 e M 27 aparecem com poucos aumentos; Epsilon Lyrae e Albireo pedem 60 a 75 mm.
  • Planetas e meteoros. Os planetas dependem do ano; consulte um aplicativo. Agosto traz as Perseidas.

Considerações finais

É o céu do Triângulo de Verão, de Polaris parada no alto e de uma Via Láctea que passa quase sobre a cabeça: generoso para o binóculo e, por ser o mesmo céu do nosso junho a agosto, fácil de comparar. Para ver a mesma noite com o Escorpião no alto e o Cruzeiro do Sul, leia o Céu de inverno no hemisfério sul.

Referências

  • KAMBIČ, Bojan. Viewing the Constellations with Binoculars: 250+ Wonderful Sky Objects to See and Explore. New York: Springer, 2010. Cisne, p. 272-286; Lira, p. 335-339.
  • MOORE, Patrick. The Observer's Year: 366 Nights of the Universe. 2. ed. London: Springer, 2005. Cruzeiro do Sul e Grande Carro, p. 21-27; Hércules, p. 199-204; Lira, p. 215-221; Cisne, p. 236-238; pequenas constelações do verão, p. 256-260.
  • RIDPATH, Ian. Astronomia (Guia Ilustrado Zahar). 4. ed. Rio de Janeiro: Zahar. Ursa Menor, p. 152; Ursa Maior, p. 158-159; Lira, p. 163; Cisne, p. 164-165; Coroa Boreal, p. 179; Serpente e Ofiúco, p. 180-181; Escudo, Flecha e Águia, p. 182-183.
  • VIEIRA, Fernando. Identificação do céu. Triângulo de verão, Cisne, Águia e Lira, p. 93-100; polo celeste e estrelas polares, p. 94-95.
  • SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a magnitudes, tipos espectrais e paralaxes, em 21 set. 2026.
  • HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, usado no mapa do céu; limites das constelações da IAU e linhas do d3-celestial.