setembro 21, 2026

M 28 (NGC 6626), o globular do pulsar em Sagitário: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2) de M28 — objeto ainda não capturado no observatório

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.

Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. UK Schmidt Telescope (UKST) / AAO–ROE. Créditos

M 28 é o globular que fica na sombra de M 22, o vizinho gigante. Isso é injusto. Ele é menor e menos brilhante, mas é fácil de achar, um alvo bonito para telescópios médios e um objeto com história científica: dentro dele, em 1987, foi achado um pulsar de milissegundo, uma estrela de nêutrons que gira dezenas de vezes por segundo. Fica em Sagitário, a cerca de um grau de Kaus Borealis, e do Rio de Janeiro passa quase no zênite no início do inverno.

Texto em revisão. Artigo do novo formato de guia de objeto, com dados, mapas e gráficos de altura reunidos aqui. Os livros trazem pouco sobre este globular; o texto marca o que vem de conhecimento geral.

Imagem de referência (DSS2) de M28 — objeto ainda não capturado no observatório
Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. UK Schmidt Telescope (UKST) / AAO–ROE. Imagem de referência: este objeto ainda não foi fotografado no Observatório. Créditos

Ficha técnica e designações

Visão geral: um globular compacto a cerca de 16.000 anos-luz

Um aglomerado globular é uma esfera de centenas de milhares de estrelas muito antigas, presas por gravidade e em órbita ao redor do centro da Galáxia. M 28 é um dos menores entre os globulares brilhantes de Sagitário.

Distância e tamanho. A paralaxe do SIMBAD (0,200 mas) coloca M 28 a cerca de 16.300 anos-luz. Com 11,2′ de diâmetro aparente, isso dá um diâmetro real de cerca de 50 anos-luz (livros mais antigos trazem 18.300 anos-luz e cerca de 60; Kambič, p. 422; Monks, p. 129). O diâmetro aparente é de 11,2′, no SIMBAD e em Bakich; Monks dá cerca de 11′.

Brilho e concentração. Magnitude 6,8 (Bakich, nº 540; Kambič, p. 422). Monks o classifica como Classe IV na escala de Shapley-Sawyer, ou seja, bastante concentrado, e avisa que mesmo com um telescópio grande é difícil resolvê-lo por completo (p. 129). Ele o considera menos impressionante que M 22, mas "um objeto muito bom" para telescópios médios e grandes.

O pulsar. O que torna M 28 interessante para os astrônomos, embora não para o observador amador (Kambič), é um pulsar de milissegundo descoberto em 1987: uma estrela de nêutrons que gira uma vez a cada 11 milissegundos, ou cerca de 90 voltas por segundo (Kambič, p. 422). Kambič o descreve como o segundo pulsar de milissegundo achado num globular, no mesmo ano do de M 4, e relata mais sete descobertos depois em M 28. Monks o chama de o primeiro (p. 129); os dois livros divergem, e a contagem de Kambič é de 2010. Monks explica a curiosidade: como os globulares são muito antigos, imaginava-se que seus pulsares teriam se apagado há bilhões de anos. A hipótese é que, no aglomerado, uma estrela de nêutrons com companheira próxima ganhe matéria e volte a girar rápido, o que estenderia sua vida.

Como aparece nas listas. Borgia o recomenda como o primeiro dos sete globulares de Sagitário na sequência da Maratona Messier (p. 268). Na tabela de Cooke, é "brilhante e denso".

Estruturas notáveis

  • O núcleo. Denso: a 250× ou mais, Bakich diz que o núcleo dá um efeito tridimensional.
  • Cadeias de estrelas. Bakich descreve uma cadeia brilhante de estrelas ao norte do aglomerado e outra mais fraca ao nor-noroeste. Servem de referência para conferir a identificação.
  • O halo. Com 200 mm a 150×, aparecem várias dezenas de estrelas; com 350 mm, mais de 150 (Bakich). É o exercício sugerido no gancho do próprio Bakich: contar estrelas em M 28.
  • A companhia de M 22. Kambič lembra que M 28 fica "do outro lado" de Kaus Borealis em relação a M 22, e é possível ver os dois no mesmo campo de binóculo.

Como localizar

Comece em λ Sgr, Kaus Borealis, no alto da "tampa" do bule. Bakich coloca M 28 a 1° a noroeste de λ Sgr. Kambič confirma: fica do lado oposto em relação a M 22 (p. 422). Em binóculos, é uma mancha pequena e uniforme, de poucos minutos de arco; em noites ruins pode se fundir ao céu e sumir. Veja também o guia de M 22, o de M 8 e o da constelação de Sagitário.

Carta de localização de M28: as estrelas-guia nomeadas, setas tracejadas com a distância em graus até o alvo, escala em graus e indicação de norte e leste.
Carta de localização (star-hopping), no mesmo estilo das cartas de constelação: norte e leste indicados no canto. Anéis laranja: estrelas-guia; setas tracejadas: o caminho até o alvo, com a distância em graus; anel verde: o alvo (e, com a designação, outros objetos do campo); a barra mostra a escala. As linhas são as oficiais das constelações (d3-celestial), os limites são os da IAU e as estrelas vêm do catálogo HYG.

Quando e como observar

M 28 está em AR 18h24m e Dec −24,9°. Pela AR, cruza o meridiano à meia-noite no fim de junho, e a melhor época vai de maio a setembro; no início da noite, passa pelo alto no fim de agosto. No Rio de Janeiro (latitude −23°), passa uns 2° ao sul do zênite, a cerca de 88° de altura. Monks nota que, no sul da Inglaterra, ele não passa de 15° de altura (p. 129); o nosso quadro é o oposto.

O gráfico anual mostra a época; o da noite, a hora.

Altura de M28 ao longo do anoAltura à meia-noite astronômica e altura máxima da noite, a cada 5 dias. Melhor época: de abril a setembro. O objeto chega a 87° à meia-noite em junho.0°30°60°90°JANFEVMARABRMAIJUNJULAGOSETOUTNOVDEZ25 jun · 87°hoje
Altura ao longo do ano, a cada 5 dias: linha contínua = altura no meio da noite astronômica (Sol abaixo de −18°); tracejada = maior altura durante a noite escura; faixa verde = melhor época; linhas pontilhadas em 30° e 45°. A linha vertical marca hoje. Melhor época para este local: de abril a setembro (objeto acima de 30° no meio da noite). Ponto mais alto: 87° em 25 de junho.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

2026-10-13 · 19:20 – 04:10

Esta noite no céu

Melhores alvos da noite
Melhor horário
19:20 · 56° W
Horas acima de 45°
0,8 h
Lua
Lua crescente · 12 %
Nota da noite
55 / 100
Posição no céu
47
Brilho
86 mag 6,9
Enquadramento
45 ocupa 11 % do campo

Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).

Trajetória de M28 pelo céu nesta noiteCéu visto de baixo, zênite no centro e horizonte na borda. O objeto fica acima do horizonte entre 18:20 e 23:30 durante a noite; o ponto mais alto é às 19:20, com 56°. A tabela ao lado traz os mesmos valores.15°30°45°60°75°NNELSESSOONO19:0020:0021:0022:0023:00
Caminho do objeto pelo céu nesta noite, do fim do crepúsculo civil ao amanhecer. Centro = zênite, borda = horizonte; visto olhando para cima (leste à esquerda, oeste à direita). Marcadores a cada 30 minutos.
  • Crepúsculo civil (Sol até −12°)
  • Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
  • Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
  • Altura abaixo de 20°
  • Altura abaixo de 30°
  • Altura abaixo de 45°
  • Hora cheia e meia hora
  • Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
Altura e direção do objeto a cada 30 minutos
Hora Altura Direção Da Lua
19:30 53° WSW 259° 37°
20:00 47° WSW 257° 37°
20:30 40° WSW 256° 37°
21:00 33° WSW 254° 37°
21:30 26° WSW 253° 36°
22:00 20° WSW 251° 36°
22:30 13° WSW 248° 36°
23:00 7° WSW 246° 35°
23:30 1° WSW 243° 35°
00:00 -5° — 35°
00:30 -11° — 35°
01:00 -17° — 34°
01:30 -22° — 34°
02:00 -27° — 34°
02:30 -32° — 34°
03:00 -36° — 33°
03:30 -39° — 33°
04:00 -41° — 33°
Altura de M28 ao longo da noiteAltura em graus a cada 30 minutos. O ponto mais alto é às 19:20, com 56°. A tabela abaixo traz os mesmos valores.0°30°60°90°202122230001020304abaixo do horizonte
Altura em graus ao longo da noite escura (linhas em 30° e 45°). A Lua aparece tracejada.

Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

O que ver

Instrumento O que esperar
A olho nu Não é visível.
Binóculo Uma pequena mancha uniforme (Kambič). Em céu ruim, desaparece. Sob Bortle 7, espere um borrão no limite.
Telescópio de 100 a 200 mm Com 200 mm a 150×, várias dezenas de estrelas no halo e o núcleo condensado (Bakich). Precisa de aumentos altos; o aglomerado é pequeno (Monks).
Telescópio grande Com 350 mm, mais de 150 estrelas; com 250× ou mais, o núcleo parece em três dimensões (Bakich). Mesmo assim, não se resolve por inteiro (Monks).
Filtros Nenhum: globular não emite em linhas estreitas.

Como vive na Via Láctea, M 28 divide o campo com muitas estrelas de fundo, o que atrapalha a leitura das bordas.

Astrofotografia: estratégia de captura

Enquadramento

Com 11′, M 28 é pequeno. Num telescópio de 1.000 mm de focal e uma câmera como a ASI294MC Pro (campo de cerca de 1,1° × 0,75°, calculado a partir do sensor e da focal), ocupa um quarto do lado curto do quadro: dá para enquadrar com folga, com o campo de estrelas em volta. Uma focal maior (1.500 a 2.000 mm) preenche melhor o quadro. Para um retrato do "bule", uma objetiva de 200 a 300 mm mostra M 28 e M 22 no mesmo campo.

Desafios do alvo

  • Núcleo saturado. O centro é denso e brilhante; use exposições curtas e uma pilha em HDR.
  • Estrelas de fundo. O campo é rico, e a luz do globular se mistura ao fundo.
  • Foco. Em objeto pequeno e de estrelas puntuais, o foco define a imagem.

Equipamento e filtros

Câmera colorida de tiro único basta. Nenhum filtro de banda estreita ajuda em globular; um filtro anti-poluição de banda larga pode reduzir um pouco o brilho urbano. A cor das estrelas (gigantes amarelas e laranjas) é o principal interesse.

Exemplo de sessão (ponto de partida)

Tipo de quadro Quantidade Exposição Finalidade
Light curto (núcleo) 40 10 a 20 s Preservar o núcleo do globular
Light longo (halo) 60 60 a 90 s Estrelas do halo e do campo
Dark 30 igual aos Lights Calibração do ruído térmico
Flat 30 automática Correção de vinheta e poeira
Bias ou dark-flat 50 mais curta possível Calibração do ruído de leitura

Esses números são um ponto de partida, e não vêm dos livros: ajuste-os ao seu sensor, ao seu telescópio e ao céu da noite.

Smart telescopes e campo de visão

Num smart telescope como o Seestar S50 (campo de cerca de 1,3° × 0,7°), M 28 aparece pequeno, no centro do quadro, com muitas estrelas de fundo. Serve para um registro do aglomerado e das cadeias de estrelas. Abra o mapa abaixo e escolha o seu modelo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.

0°

Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.

Considerações finais

M 28 é um objeto de duas faces: para o observador, um globular pequeno e apreciável; para o astrônomo, um laboratório de estrelas de nêutrons. Combine-o com M 22 numa mesma noite: a diferença de tamanho e brilho mostra bem como os globulares variam. Depois, siga para os outros globulares do bule, como M 22.

Referências

  • BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 540 (M 28).
  • BORGIA, Michael P. Human Vision and the Night Sky: How to Improve Your Observing Skills. New York: Springer, 2006. Ordem sugerida para Sagitário na Maratona Messier, p. 268.
  • COOKE, Antony. Visual Astronomy in the Suburbs: A Guide to Spectacular Viewing. Springer (ano e edição a conferir). Lista de aglomerados globulares, verbete NGC 6626 (M 28).
  • KAMBIČ, Bojan. Viewing the Constellations with Binoculars: 250+ Wonderful Sky Objects to See and Explore. New York: Springer, 2010. Sagitário, M 28, p. 422.
  • MONKS, Neale. Go-To Telescopes Under Suburban Skies. New York: Springer, 2010. NGC 6626 (M 28), p. 129.
  • SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a M 28, em 21 set. 2026.
  • HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.