setembro 20, 2026

M 16, a Nebulosa da Águia e os Pilares da Criação: guia completo de observação e astrofotografia

Carta de localizacao de M16

Poucas imagens da astronomia são tão conhecidas quanto os Pilares da Criação, as colunas de gás e poeira que o Hubble fotografou no coração da Nebulosa da Águia. E poucos objetos exigem tanto ajuste de expectativa: o que se vê no ocular é bem diferente. Mollise resume: a Águia é "fraca e difícil" comparada à vizinha M 17. Mas há muito para ver, a começar por um belo aglomerado de estrelas jovens, e muito para fotografar. A M 16 fica em Serpens Cauda, na fronteira com o Escudo e Sagitário, e do Rio de Janeiro passa a cerca de 80° de altura no inverno. Este guia reúne os dados, o mapa, os gráficos de altura, o que dá para ver com cada instrumento e uma estratégia de captura.

Texto em revisão. Este é um guia de teste do novo formato de objeto. Ele substitui o guia de astrofotografia e a página de exploração do objeto. As fontes estão listadas no final.

Ficha técnica e designações

Visão geral: aglomerado dentro de uma nebulosa

O objeto reúne duas coisas com nomes diferentes. O aglomerado aberto é a NGC 6611, e a nebulosa de emissão que o envolve é a IC 4703 (Bakich; SIMBAD). Elas formam um objeto só: as estrelas nasceram do gás e o iluminam. É uma região HII, uma nuvem de hidrogênio ionizada pela radiação de estrelas jovens e quentes. Kambič conta que as estrelas do aglomerado, na parte noroeste da nebulosa, são gigantes jovens de alta temperatura e enorme luminosidade. O SIMBAD lista, na região da NGC 6611, várias estrelas de tipo O, como a HD 168076 (tipo O4 III).

As duas metades do brilho. Kambič diz que o aglomerado tem mais de mil estrelas, mas em binóculos mostra só cerca de 40, com brilho até a magnitude 8. Allison lista cerca de 60 estrelas, visíveis num telescópio de 4″ (100 mm). Já a nebulosa mede cerca de 30′ × 35′, "um pouco mais que a Lua cheia" (Kambič), mas é muito mais fraca que o aglomerado. O brilho total de 6,0 (Kambič, Mollise, Allison, Bakich) engana: Mollise avisa que a nebulosa é bem mais difícil do que o tamanho (15′) e o brilho superficial (magnitude 12) sugeririam. É a lição geral dos objetos extensos: a magnitude integrada não diz tudo.

Distância e tamanho real. A paralaxe do SIMBAD para M 16 (0,566 milissegundo de arco) coloca o aglomerado a cerca de 5.800 anos-luz (livros mais antigos trazem até 7.000). Nessa distância, a nebulosa de cerca de 35′ tem uns 60 anos-luz de diâmetro, com a parte mais brilhante em torno de 20 anos-luz.

Descoberta e nomes. Moore atribui a descoberta a Loys de Chéseaux, em 1746, junto com a M 17. Além de "Águia" (a silhueta escura e as asas da nebulosa lembram uma ave), o objeto é chamado de "Rainha das Estrelas", nome proposto por Robert Burnham Jr., que achava "Águia" prosaico, já que Vega e Altair já homenageiam a águia (Bakich; Mollise).

Os Pilares da Criação. A imagem do Hubble mostra três colunas de gás e poeira, cada uma com 1 a 3 anos-luz de comprimento, dentro das quais estrelas se formam (Data Book). Perto do topo das colunas, a radiação das estrelas recém-nascidas evapora o gás, e estruturas assim são chamadas de "glóbulos gasosos em evaporação" (EGGs, na sigla inglesa; Data Book). Quando o material de formação se esgota, sobra um aglomerado aberto, como a NGC 6611 (Data Book). Os Pilares são uma pequena parte do interior da nebulosa, um detalhe que só aparece em imagens de alta resolução, longe do que se vê ao ocular.

Estruturas notáveis

  • O aglomerado NGC 6611. É a parte fácil: de uma dúzia de estrelas acima da magnitude 10 num telescópio de 150 mm, mais várias dezenas de fracas (Bakich), até cerca de 60 (Allison).
  • A nebulosa de emissão. Envolve o aglomerado e se estende para o sul, com a região mais densa a sudeste (Bakich; Kambič).
  • A "águia escura". Bakich menciona uma nebulosa escura, o "corpo da águia", bem a sudeste do aglomerado.
  • As "asas". Os prolongamentos da nebulosa que dão o nome de águia; Mollise não os viu com nenhum filtro, mesmo em noite boa e telescópio de 11″.
  • Os Pilares. Só em fotografias de longa exposição e grande focal (ver adiante).

Como localizar

A M 16 fica na divisa entre Serpens Cauda, Escudo e Ofiúco. Bakich a localiza a cerca de 2,6° a oés-noroeste da estrela γ Scuti (Gamma do Escudo), a mesma estrela-guia de Moore. Outra rota é Mollise: se você já encontrou a M 17, a Águia está a pouco mais de 2° de distância, uma ou duas posições de ocular de baixo aumento. Kambič sugere seguir a Via Láctea a partir da Nuvem Estelar de Sagitário (M 24), passando por M 18, M 17 e mais uns 2° para o norte. As coordenadas do SIMBAD colocam a M 16 um pouco ao norte da M 17, e essa é a direção que vale no céu.

Do hemisfério sul, olhando para o norte, a M 16 aparece bem alta, ao norte do zênite: o norte celeste fica para baixo e o leste para a direita. A "águia" das fotos, que é publicada com o norte para cima, aparece invertida no nosso céu.

Carta de localização de M16: as estrelas-guia nomeadas, setas tracejadas com a distância em graus até o alvo, escala em graus e indicação de norte e leste.
Carta de localização (star-hopping), no mesmo estilo das cartas de constelação: norte e leste indicados no canto. Anéis laranja: estrelas-guia; setas tracejadas: o caminho até o alvo, com a distância em graus; anel verde: o alvo (e, com a designação, outros objetos do campo); a barra mostra a escala. As linhas são as oficiais das constelações (d3-celestial), os limites são os da IAU e as estrelas vêm do catálogo HYG.

Quando e como observar

Com declinação de cerca de −14°, a M 16 passa a uns 81° de altura no meridiano do Rio de Janeiro. É uma grande vantagem, pois a nebulosa é fraca e ganha muito com uma atmosfera curta. Mollise lamenta que, no norte, a M 16 fique baixa no horizonte sul e por isso seja ainda mais difícil. Moore dedica a Águia à noite de 15 de julho, e a época boa vai de junho a setembro.

Altura de Nebulosa da Águia ao longo do anoAltura à meia-noite astronômica e altura máxima da noite, a cada 5 dias. Melhor época: de abril a agosto. O objeto chega a 81° à meia-noite em junho.0°30°60°90°JANFEVMARABRMAIJUNJULAGOSETOUTNOVDEZ25 jun · 81°hoje
Altura ao longo do ano, a cada 5 dias: linha contínua = altura no meio da noite astronômica (Sol abaixo de −18°); tracejada = maior altura durante a noite escura; faixa verde = melhor época; linhas pontilhadas em 30° e 45°. A linha vertical marca hoje. Melhor época para este local: de abril a agosto (objeto acima de 30° no meio da noite). Ponto mais alto: 81° em 25 de junho.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

2026-10-12 · 19:20 – 04:10

Esta noite no céu

Melhores alvos da noite
Melhor horário
19:20 · 53° W
Horas acima de 45°
0,7 h
Lua
Lua crescente · 6 %
Nota da noite
49 / 100
Posição no céu
45
Brilho
100 mag 6,0
Enquadramento
13 ocupa 267 % do campo

Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).

Trajetória de M16 — Nebulosa da Águia pelo céu nesta noiteCéu visto de baixo, zênite no centro e horizonte na borda. O objeto fica acima do horizonte entre 18:20 e 23:10 durante a noite; o ponto mais alto é às 19:20, com 53°. A tabela ao lado traz os mesmos valores.15°30°45°60°75°NNELSESSOONO19:0020:0021:0022:0023:00
Caminho do objeto pelo céu nesta noite, do fim do crepúsculo civil ao amanhecer. Centro = zênite, borda = horizonte; visto olhando para cima (leste à esquerda, oeste à direita). Marcadores a cada 30 minutos.
  • Crepúsculo civil (Sol até −12°)
  • Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
  • Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
  • Altura abaixo de 20°
  • Altura abaixo de 30°
  • Altura abaixo de 45°
  • Hora cheia e meia hora
  • Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
Altura e direção do objeto a cada 30 minutos
Hora Altura Direção Da Lua
19:30 50° W 276° 51°
20:00 44° W 273° 50°
20:30 37° W 270° 50°
21:00 30° W 267° 50°
21:30 23° W 264° 50°
22:00 16° W 261° 49°
22:30 9° W 259° 49°
23:00 2° WSW 256° 49°
23:30 -4° — 49°
00:00 -11° — 48°
00:30 -17° — 48°
01:00 -24° — 48°
01:30 -30° — 48°
02:00 -35° — 47°
02:30 -41° — 47°
03:00 -45° — 47°
03:30 -49° — 47°
04:00 -52° — 46°
Altura de M16 — Nebulosa da Águia ao longo da noiteAltura em graus a cada 30 minutos. O ponto mais alto é às 19:20, com 53°. A tabela abaixo traz os mesmos valores.0°30°60°90°202122230001020304abaixo do horizonte
Altura em graus ao longo da noite escura (linhas em 30° e 45°). A Lua aparece tracejada.

Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

O que ver

Instrumento O que esperar
A olho nu Nada. O objeto não é visto sem instrumento.
Binóculo (10×50) Um aglomerado modesto de cerca de 40 estrelas de magnitude 8 ou mais fracas; a nebulosa só é entrevista em noites excelentes, mais densa a sudeste do aglomerado (Kambič). É o "momento da verdade": a beleza das imagens só aparece em fotografias.
Telescópio de 100 a 150 mm O aglomerado é fácil e bonito, com cerca de 60 estrelas (Allison) e o efeito tridimensional descrito por Bakich; a nebulosa é muito difícil.
Telescópio de 200 mm com filtro Com UHC, mostra-se a nebulosa mais claramente; Mollise diz que um 8″ com UHC em céu escuro é necessário para vê-la sem esforço.
Telescópio grande e céu urbano Na cidade, Mollise nunca viu a nebulosa com menos de 10″, e mesmo com um 11″ e todos os filtros vislumbrou só um traço de nebulosidade; Cooke só teve um vislumbre com filtro em noite transparente.

Expectativa honesta: a cor vermelha e a silhueta escura das fotografias não são percebidas visualmente. Em Bortle 7, como no Rio de Janeiro, conte com o aglomerado e, se tiver um filtro UHC ou OIII e uma noite transparente, com um vislumbre da nebulosa. Os Pilares da Criação, esses, ficam para as fotografias.

Astrofotografia: estratégia de captura

Enquadramento

Não há entrada da M 16 no livro do Kier. A nebulosa e o aglomerado ocupam cerca de 35′, e com um telescópio de 1.000 mm e uma câmera como a ASI294MC Pro (campo de cerca de 1,1° × 0,75°, calculado a partir do sensor e da focal) a M 16 cabe folgada. Já os Pilares, que ocupam só uma pequena parte do quadro, pedem uma focal bem maior (a partir de uns 1.500 a 2.000 mm) e recorte, o que exige céu muito estável e guiagem precisa. Um campo largo de 2° a 3°, com focal de 400 a 500 mm, permite incluir a M 17, a M 18 e a M 24 num mesmo quadro.

Desafios do alvo

  • Nebulosa fraca e aglomerado brilhante. Como no visual, o gás é muito mais fraco que as estrelas; é preciso muita exposição total para o gás, sem estourar o aglomerado.
  • Os Pilares são pequenos. Só valem o esforço em focais longas e com bom foco e guiagem. Em focais curtas, prefira mostrar a nebulosa inteira.
  • Campo denso. A região está no plano da Galáxia, e as estrelas competem com o gás. Reduzir as estrelas no processamento ajuda.
  • Céu urbano. Em Bortle 7, um filtro dual-band (H-alfa e OIII) com câmera colorida é quase obrigatório.

Equipamento e filtros

Como em outras nebulosas de emissão, a M 16 se beneficia da banda estreita. O H-alfa registra a maior parte do gás, e o OIII, em câmera monocromática, destaca os topos dos Pilares e permite a paleta SHO, a "cor de Hubble". O objeto passa perto do zênite, e por isso a extinção e a refração são mínimas; faça os quadros perto do meridiano.

Exemplo de sessão (ponto de partida)

Tipo de quadro Quantidade Exposição Finalidade
Light (dual-band) 90 a 120 180 s Gás e Pilares; o mais importante é o tempo total
Light curto (aglomerado) 20 20 a 30 s Preservar as estrelas
Dark 30 igual aos Lights Calibração do ruído térmico
Flat 30 automática Correção de vinheta e poeira
Bias ou dark-flat 50 mais curta possível Calibração do ruído de leitura

Esses números são um ponto de partida, e não vêm dos livros: ajuste-os ao seu sensor, ao seu telescópio e ao céu da noite.

Smart telescopes e campo de visão

A M 16 cabe no campo de um smart telescope como o Seestar S50 (cerca de 1,3° × 0,7°), com o aglomerado, a nebulosa e as estrelas em volta. O filtro dual-band do aparelho ajuda a revelar o gás, mas o brilho é baixo e o empilhamento precisa de muitas horas; os Pilares não se resolvem com essa focal, mas aparecem como um brilho mais denso no centro. Escolha o seu modelo no mapa abaixo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.

0°

Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.

Considerações finais

A Nebulosa da Águia é um bom exemplo de como a expectativa e a realidade se separam em astronomia: a imagem do Hubble é espetacular, mas o observador visual encontra um aglomerado modesto e uma nebulosa que se esconde. Ainda assim, o aglomerado vale a observação, a nebulosa é um desafio honesto para quem tem filtro e céu transparente, e a astrofotografia recompensa quem tem paciência. Do nosso ângulo, alto no céu, a Águia é bem mais fácil que para os observadores do norte. O próximo passo é seguir com a Nebulosa do Ômega (M 17), a poucos graus, ou com a Trífida e a Lagoa. Veja também o guia da constelação de Ofiúco, vizinha da M 16.

Referências

  • ALLISON, Mark. Star Clusters and How to Observe Them. London: Springer, 2006. M 16 (NGC 6611), p. 166.
  • BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 536 (M 16).
  • COOKE, Antony. Visual Astronomy in the Suburbs: A Guide to Spectacular Viewing. London: Springer, 2003. Nebulosas de emissão e filtros (M 16), p. 184.
  • KAMBIČ, Bojan. Viewing the Constellations with Binoculars: 250+ Wonderful Sky Objects to See and Explore. New York: Springer, 2010. Serpente, M 16, p. 449-450.
  • MOLLISE, Rod. The Urban Astronomer's Guide: A Walking Tour of the Cosmos for City Sky Watchers. London: Springer, 2006. "M16", p. 150.
  • MOORE, Patrick. The Observer's Year: 366 Nights of the Universe. 2. ed. London: Springer, 2005. "The Eagle Nebula" (15 de julho), p. 196.
  • MOORE, Patrick; REES, Robin. Patrick Moore's Data Book of Astronomy. Cambridge: Cambridge University Press, 2011. Nebulosas de emissão e os Pilares da Criação (M 16), p. 353.
  • SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, paralaxe e estrelas de M 16 e NGC 6611, em 21 set. 2026.
  • HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.