setembro 21, 2026

NGC 6744 (Caldwell 101), a galáxia espiral do Pavão: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2) de NGC 6744 — objeto ainda não capturado no observatório

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.

Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. UK Schmidt Telescope (UKST) / AAO–ROE. Créditos

O NGC 6744 é uma das galáxias mais bonitas do céu e uma das menos conhecidas. É uma espiral barrada, vista quase de frente, gigantesca, no Pavão, e a maioria dos observadores do hemisfério norte nunca ouviu falar dela. Mobberley faz a pergunta certa: quantos observadores do norte sabem que ela existe? Ela nem apelido tem. Mas há um contraste que este guia precisa mostrar de saída: nas fotografias longas, ela é uma das mais deslumbrantes que um amador pode fazer; no ocular, principalmente em Bortle 7, ela é um dos alvos mais difíceis da lista Caldwell. Este guia reúne os dados, os gráficos de altura e a estratégia de observação e de captura.

Texto em revisão. Este é um guia de teste do novo formato de guia de objeto, do lote Caldwell. As fontes estão listadas no final.

Imagem de referência (DSS2) de NGC 6744 — objeto ainda não capturado no observatório
Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. UK Schmidt Telescope (UKST) / AAO–ROE. Imagem de referência: este objeto ainda não foi fotografado no Observatório. Créditos

Ficha técnica e designações

Visão geral: o que é uma galáxia espiral barrada

Uma galáxia espiral é um disco achatado de estrelas, gás e poeira, com braços que saem do centro. Em uma espiral barrada, os braços partem das pontas de uma barra de estrelas que atravessa o núcleo. Ridpath afirma que a nossa Via Láctea é provavelmente parecida com o NGC 6744, o que faz dele um retrato aproximado de como a nossa Galáxia seria vista de fora.

O NGC 6744 em números. A magnitude integrada é de 8,6 (Mobberley e Bakich), e o tamanho aparente, de cerca de 17′ × 11′ segundo o SIMBAD (Mobberley traz 21′ × 13′). Isso quer dizer que a galáxia cobre uma área do céu do tamanho de cerca de um terço da Lua cheia, ou mais. A distância é de 30 a 35 milhões de anos-luz (dos livros; o SIMBAD não traz paralaxe), o que dá um diâmetro real de cerca de 175.000 anos-luz com 35 milhões. Mobberley lembra que o Caldwell 35, ainda maior, está a 300 milhões de anos-luz; o NGC 6744 está cerca de nove vezes mais perto, e por isso é a superespiral mais impressionante que um amador do sul consegue fotografar.

O problema do brilho superficial. Uma magnitude de 8,6 espalhada em uma área tão grande dá um brilho superficial de cerca de 23 magnitudes por segundo de arco ao quadrado (Mobberley), muito baixo. O Bakich compara com a M101, outra galáxia grande e de baixo brilho superficial. Na prática, isso significa que no ocular a galáxia parece um terço a um quarto do tamanho real.

Uma descoberta antiga. O Bakich atribui a descoberta ao astrônomo australiano James Dunlop, entre 1823 e 1827, no seu catálogo de 629 objetos do céu austral, como o nº 262. Dunlop é um astrônomo pouco lembrado hoje.

Uma supernova. Mobberley cita que a galáxia hospedou uma supernova em 2005, descoberta por Martin e Monard.

Estruturas notáveis

  • A barra e o núcleo. A região central é o que se vê primeiro, no ocular e na foto.
  • Os braços espirais. Em fotografias longas, braços intrincados e cheios de aglomerados de estrelas e nebulosas de emissão. Ao telescópio, o Bakich diz que são necessários pelo menos 250 mm para vê-los; Mobberley diz que mesmo em um Dobsonian grande eles são um desafio, mesmo em céu escuro.
  • O halo alongado e "manchado". O Bakich descreve o halo como cerca de 50% mais comprido do que largo, com aglomerados massivos que deixam as bordas com aspecto manchado.

Como localizar

A galáxia está no meio de uma região pobre em estrelas do Pavão. Mobberley recomenda partir de Peacock (alfa Pavonis, magnitude 1,9) e andar 7° ao sul e 9½° a oeste, um percurso longo, e lembra que Peacock é, ainda assim, o melhor ponto de partida. O Bakich sugere uma rota alternativa, que é achar lambda Pavonis (magnitude 4,2) e andar cerca de 2,6° a sudeste. O globular NGC 6752 fica a 4° ao norte da galáxia (Mobberley), e é um bom ponto de referência no caminho; por ser bem mais brilhante, ele serve de guia até o campo.

Carta de localização de NGC 6744: as estrelas-guia nomeadas, setas tracejadas com a distância em graus até o alvo, escala em graus e indicação de norte e leste.
Carta de localização (star-hopping), no mesmo estilo das cartas de constelação: norte e leste indicados no canto. Anéis laranja: estrelas-guia; setas tracejadas: o caminho até o alvo, com a distância em graus; anel verde: o alvo (e, com a designação, outros objetos do campo); a barra mostra a escala. As linhas são as oficiais das constelações (d3-celestial), os limites são os da IAU e as estrelas vêm do catálogo HYG.

Quando e como observar

Com declinação de −63,9°, o NGC 6744 sobe a cerca de 49° de altura no Rio de Janeiro, e na passagem inferior fica perto do horizonte, alguns graus abaixo dele: em latitude −23° ele é quase circumpolar, mas não totalmente (Mobberley diz que é circumpolar abaixo de 27°S). A melhor época vai de junho a outubro (Mobberley; o Bakich indica julho), com a meia-noite por volta do início de julho.

Para uma galáxia de brilho superficial tão baixo, a altura é essencial: espere o objeto passar pelo meridiano, ao sul, e escolha uma noite sem Lua e com a melhor transparência possível. Olhando para o sul, o norte fica para baixo e o leste, à esquerda.

O primeiro gráfico mostra a altura do objeto ao longo do ano para o local do observatório; o segundo, o caminho do NGC 6744 pelo céu nesta noite (zênite no centro, cores pela altura e linha pontilhada, tracejada ou contínua conforme o crepúsculo), seguido da altura hora a hora.

Altura de NGC 6744 ao longo do anoAltura à meia-noite astronômica e altura máxima da noite, a cada 5 dias. Melhor época: de maio a setembro. O objeto chega a 49° à meia-noite em julho.0°30°60°90°JANFEVMARABRMAIJUNJULAGOSETOUTNOVDEZ5 jul · 49°hoje
Altura ao longo do ano, a cada 5 dias: linha contínua = altura no meio da noite astronômica (Sol abaixo de −18°); tracejada = maior altura durante a noite escura; faixa verde = melhor época; linhas pontilhadas em 30° e 45°. A linha vertical marca hoje. Melhor época para este local: de maio a setembro (objeto acima de 30° no meio da noite). Ponto mais alto: 49° em 5 de julho.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

2026-10-13 · 19:20 – 04:10

Esta noite no céu

Melhores alvos da noite
Melhor horário
19:20 · 46° SSW
Horas acima de 45°
0,2 h
Lua
Lua crescente · 12 %
Nota da noite
55 / 100
Posição no céu
41
Brilho
50 mag 9,3
Enquadramento
100 ocupa 35 % do campo

Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).

Trajetória de NGC 6744 pelo céu nesta noiteCéu visto de baixo, zênite no centro e horizonte na borda. O objeto fica acima do horizonte entre 18:20 e 03:30 durante a noite; o ponto mais alto é às 19:20, com 46°. A tabela ao lado traz os mesmos valores.15°30°45°60°75°NNELSESSOONO19:0020:0021:0022:0023:0000:0001:0002:0003:00
Caminho do objeto pelo céu nesta noite, do fim do crepúsculo civil ao amanhecer. Centro = zênite, borda = horizonte; visto olhando para cima (leste à esquerda, oeste à direita). Marcadores a cada 30 minutos.
  • Crepúsculo civil (Sol até −12°)
  • Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
  • Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
  • Altura abaixo de 20°
  • Altura abaixo de 30°
  • Altura abaixo de 45°
  • Hora cheia e meia hora
  • Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
Altura e direção do objeto a cada 30 minutos
Hora Altura Direção Da Lua
19:30 45° SSW 197° 52°
20:00 43° SSW 201° 52°
20:30 40° SSW 204° 51°
21:00 37° SSW 206° 51°
21:30 34° SSW 207° 51°
22:00 31° SSW 208° 51°
22:30 28° SSW 209° 51°
23:00 24° SSW 209° 51°
23:30 21° SSW 208° 50°
00:00 18° SSW 207° 50°
00:30 15° SSW 206° 50°
01:00 12° SSW 205° 50°
01:30 9° SSW 203° 50°
02:00 6° SSW 201° 50°
02:30 4° SSW 199° 50°
03:00 2° SSW 196° 49°
03:30 0° SSW 193° 49°
04:00 -1° — 49°
Altura de NGC 6744 ao longo da noiteAltura em graus a cada 30 minutos. O ponto mais alto é às 19:20, com 46°. A tabela abaixo traz os mesmos valores.0°30°60°90°202122230001020304abaixo do horizonte
Altura em graus ao longo da noite escura (linhas em 30° e 45°). A Lua aparece tracejada.

Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

O que ver

Instrumento O que esperar
A olho nu Não visível.
Binóculo (7×50 a 15×70) Com muito boa vontade e céu escuro, uma mancha fraquíssima; em Bortle 7, praticamente impossível.
Telescópio de 100 a 150 mm Um "nevoeiro" elíptico, segundo o Ridpath, para telescópios pequenos a regulares. Mobberley recomenda 15 cm ou mais e diz que um filtro de céu profundo pode ajudar.
Telescópio de 250 mm ou mais Com 250 mm, e em céu escuro, o Bakich diz que se começa a ver os braços, e em 500 mm ele "impressiona". O halo é cerca de 50% mais longo que largo, com bordas manchadas por aglomerados.

Expectativa honesta: em Bortle 7, este é um dos alvos mais difíceis da lista Caldwell. A galáxia deve aparecer, no máximo, como um núcleo pequeno e uma névoa tênue, e os braços não aparecerão. Mobberley diz que, "infelizmente", o NGC 6744 não é visualmente deslumbrante. Para ver a galáxia de verdade, é preciso um céu escuro, um telescópio grande, ou a fotografia. E aí ela é um espetáculo.

Astrofotografia: estratégia de captura

Enquadramento

Mobberley chama a atenção para o potencial "deslumbrante" do NGC 6744 em LRGB, e reproduz uma foto de Robert Gendler feita com um refletor de 37 cm e f/9. Com um telescópio de 1.000 mm de focal e uma câmera como a ASI294MC Pro, o campo é de cerca de 1,1° × 0,75° (calculado a partir do sensor e da focal): a galáxia, de cerca de 17′, cabe com folga e deixa espaço para as estrelas de campo. Uma focal de 500 a 700 mm dá mais margem para os halos externos.

Desafios do alvo

  • Brilho superficial baixíssimo. O disco é fraco. É preciso muito tempo de exposição total e um céu o mais escuro possível; em Bortle 7, um filtro anti-poluição luminosa ajuda, mas o resultado depende mais das horas de captura.
  • Altura moderada. No máximo cerca de 49° de altura; fotografe perto do meridiano para reduzir a extinção e o brilho do horizonte.
  • Detalhes nos braços. Os aglomerados e as regiões de formação de estrelas dos braços pedem boa resolução e foco, e um bom tratamento para não estourar o núcleo.

Equipamento e filtros

A galáxia é um alvo de luminância: LRGB em câmera monocromática, com bastante tempo de luminância, é o que Mobberley sugere. Em câmera colorida de um disparo, muitas horas de empilhamento dão bons resultados. Um filtro de banda estreita H-alfa pode realçar as nebulosas de emissão dos braços como complemento à luminância, ao custo de mais tempo.

Exemplo de sessão (ponto de partida)

Tipo de quadro Quantidade Exposição Finalidade
Light (luminância ou colorida) 120 a 240 120 a 180 s Disco e braços; o mais importante é o tempo total
Dark 30 igual aos Lights Calibração do ruído térmico
Flat 30 automática Correção de vinheta e poeira
Bias ou dark-flat 50 mais curta possível Calibração do ruído de leitura

Esses números são um ponto de partida, e não vêm dos livros. Como referência, quanto mais horas, melhor o resultado; a imagem de Gendler foi feita de um observatório remoto na Austrália Ocidental, com um refletor de 37 cm.

Smart telescopes e campo de visão

A galáxia cabe com folga no campo de um smart telescope como o Seestar S50 (cerca de 1,3° × 0,7°). O brilho superficial baixo pede muitas horas de empilhamento e, se possível, o filtro para poluição luminosa do próprio aparelho. Escolha o seu modelo no mapa abaixo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.

0°

Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.

Considerações finais

O NGC 6744 é uma lição sobre a diferença entre olhar e fotografar. No ocular, é um alvo para céus escuros e telescópios grandes; na câmera, é uma das grandes galáxias do céu, e ainda assim raramente vista pelo público. É um dos objetos que fazem valer a pena viver no hemisfério sul. Se você quiser começar por algo mais fácil na mesma região, vá primeiro ao NGC 6752, 4° ao norte, e depois tente a galáxia, com a mesma carta de campo.

Referências

  • BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 577 (NGC 6744).
  • MOBBERLEY, Martin. The Caldwell Objects and How to Observe Them. New York: Springer, 2009. Caldwell 101, p. 208-209.
  • MOORE, Patrick; REES, Robin. Patrick Moore's Data Book of Astronomy. Cambridge: Cambridge University Press, 2011. Tabela Caldwell (C 101) e verbete Pavão, p. 462-463.
  • RIDPATH, Ian. Astronomia (Guia Ilustrado Zahar). 4. ed. Rio de Janeiro: Zahar. Verbete Pavão, p. 226 do arquivo (página impressa a conferir).
  • SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, tipo morfológico e dimensões de NGC 6744, em 21 set. 2026.
  • HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.