setembro 21, 2026
NGC 6357, a Nebulosa Guerra e Paz (Lagosta): guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.
Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. UK Schmidt Telescope (UKST) / AAO–ROE. Créditos
Poucos objetos do céu sul mostram tanto contraste entre o que o olho vê e o que a câmera registra quanto a Nebulosa Guerra e Paz. Ao olhar pela ocular, do Rio de Janeiro, o que se percebe é um leve reforço de brilho ao redor de um aglomerado de estrelas, no fundo denso da Via Láctea, perto do ferrão do Escorpião. Numa fotografia de algumas horas, o mesmo lugar vira uma paisagem de bolhas, cavernas e filamentos vermelhos, com um enxame de estrelas azuis brilhando no meio. NGC 6357 é uma das regiões de formação estelar mais ativas ao alcance do hemisfério sul, e vale o esforço de conhecê-la melhor. O guia da constelação de Escorpião já conta a história do apelido e da descoberta; aqui vamos ao que interessa para quem vai apontar um instrumento para ela.
Texto em revisão. Este é um artigo de teste do novo formato de guia de objeto. Ele substitui o guia de astrofotografia e a página de exploração do objeto: dados, mapas, gráficos de altura e estratégia de captura estão todos aqui. As fontes estão listadas no final.

Ficha técnica e designações
| Designação principal | NGC 6357 |
|---|---|
| Outras designações | NGC NGC 6357 RCW RCW 131 |
| Tipo de objeto | Nebulosa de emissão (região H II) |
| Constelação | Scorpius |
| Coordenadas (J2000) | RA 17h 24m 44s | Dec −34° 12′ 05″ |
| Distância da Terra | ~5.800 anos-luz |
| Magnitude aparente | — |
| Tamanho aparente | 3,9′ |
| Melhor época (BR) | Junho, Julho, Agosto |
Visão geral: uma cidade de estrelas massivas a quase 6.000 anos-luz
NGC 6357 é uma região HII: uma nuvem de hidrogênio ionizado pela radiação ultravioleta de estrelas jovens e muito quentes. Ela fica na direção do braço espiral de Sagitário e Carina, do lado do Escorpião voltado para o centro da Galáxia. As paralaxes do SIMBAD colocam a nebulosa e o aglomerado central, Pismis 24, a cerca de 5.750 a 5.800 anos-luz, e é esse valor que este guia adota. Os livros consultados não trazem distância para o objeto.
O tamanho aparente depende de como se mede. A tabela do apêndice de Coe dá 50′ × 40′; Bakich fala em 25′ e diz que o objeto é maior que a Lua cheia; o SIMBAD registra apenas 6,2′, o tamanho do aglomerado central. Nas fotografias de longa exposição, o gás ocupa cerca de um grau de céu. A essa distância, isso equivale a mais de cem anos-luz de extensão, o que faz da nebulosa uma região do porte das maiores da nossa vizinhança galáctica.
O motor da nebulosa. O aglomerado Pismis 24, com estrelas de magnitude 9 a 10 vistas daqui, contém algumas das estrelas mais massivas que se conhecem na Galáxia. Elas são tão luminosas que seus ventos estelares e sua radiação empurram o gás em volta, escavando cavidades. É isso que dá às imagens o aspecto de "bolhas" e "cavernas" avermelhadas, com bordas iluminadas e pilares mais densos apontando para o centro. Trata-se de conhecimento geral sobre regiões HII, não vem dos livros; é a explicação que a astrofísica dá para a forma que a câmera revela.
Guerra, Paz e Lagosta. Segundo Bakich, o apelido "Guerra e Paz" nasceu de imagens de infravermelho médio: a parte brilhante lembrava uma pomba, e os filamentos do leste lembravam um crânio. O nome "Lagosta" é outra leitura da mesma forma, e a catalogação do site guarda ambos. Não há um único nome "oficial"; use o que preferir e tenha ambos em mente ao procurar imagens.
Vizinha de NGC 6334. A Nebulosa Pata de Gato, outra grande região de formação estelar, fica a cerca de 2,1° a sudoeste (calculado a partir das coordenadas do SIMBAD). As duas cabem num mesmo campo de 3° a 4°, o que cria uma oportunidade de mosaico ou de foto grande-angular.
Estruturas notáveis
- O aglomerado Pismis 24. O núcleo da nebulosa, com estrelas azuis muito quentes. Bakich cita que o telescópio espacial Hubble resolveu ali uma dupla de estrelas cuja massa combinada passa de cem massas solares.
- A região mais brilhante, a oeste do centro. É onde o gás é mais denso e onde o olho, com filtro, tem mais chance de perceber a nebulosa (Bakich).
- A fila de quatro estrelas de magnitude 7. Ao sul do centro, quatro estrelas alinhadas ajudam a se orientar no campo; a mais ao norte, SAO 208790 (magnitude 7,1), fica bem sobre o centro da nebulosa (Bakich).
- Bolhas e filamentos. Nas fotos, o gás desenha arcos concêntricos em torno do aglomerado, com cores diferentes conforme a emissão: vermelho de hidrogênio, azul-esverdeado de oxigênio duplamente ionizado, onde ele é mais intenso (conhecimento geral).
- Nuvens escuras. Faixas de poeira cortam o gás e criam o contraste que faz a região parecer tridimensional.
Como localizar
A Guerra e Paz fica no Escorpião, cerca de 3,3° ao nor-noroeste de Shaula (λ Sco), a estrela do ferrão do escorpião (Bakich). A partir de Shaula e Lesath, as duas estrelas do ferrão, suba para o noroeste e procure um campo estelar denso; a nebulosa está no mesmo campo de binóculo de um grupo de estrelas brilhantes de magnitude 7. Outro caminho é partir de M 7, o aglomerado de Ptolomeu, e andar cerca de 6° para oeste (calculado). Em céu de cidade, use um mapa digital para conferir o ponto; a nebulosa não é visível a olho nu.

Quando e como observar
Com declinação de cerca de −34°, o objeto sobe a quase 79° de altura no Rio de Janeiro, e a passagem meridiana, a melhor hora, acontece perto de meia-noite em meados de junho. A melhor época vai de maio a agosto; em julho e agosto o objeto está bem alto já no começo da noite, o que ajuda quem observa de sacada ou de quintal em cidade. Olhando para o sul, com o norte celeste para cima e o leste à esquerda, a nebulosa fica em uma região do céu com fundo de Via Láctea rico e, para nós, sempre bem acima do horizonte, longe da névoa que atrapalha objetos baixos.
O gráfico abaixo mostra a altura do objeto ao longo do ano para o local do observatório, e o seguinte, a noite de hoje. Use o primeiro para escolher a época e o segundo para escolher a hora.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
2026-10-13 · 19:20 – 04:10
Esta noite no céu
- Melhor horário
- 19:20 · 43° WSW
- Horas acima de 45°
- 0,0 h
- Lua
- Lua crescente · 12 %
- Nota da noite
- 37 / 100
- Posição no céu
- 33
- Brilho
- 50 (sem magnitude cadastrada)
- Enquadramento
- 35 ocupa 9 % do campo
Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).
- Crepúsculo civil (Sol até −12°)
- Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
- Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
- Altura abaixo de 20°
- Altura abaixo de 30°
- Altura abaixo de 45°
- Hora cheia e meia hora
- Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
| Hora | Altura | Direção | Da Lua |
|---|---|---|---|
| 19:30 | 41° | WSW 244° | 25° |
| 20:00 | 35° | WSW 243° | 24° |
| 20:30 | 29° | WSW 242° | 24° |
| 21:00 | 22° | WSW 241° | 24° |
| 21:30 | 16° | WSW 239° | 24° |
| 22:00 | 11° | WSW 237° | 23° |
| 22:30 | 5° | SW 235° | 23° |
| 23:00 | -1° | — | 23° |
| 23:30 | -6° | — | 23° |
| 00:00 | -11° | — | 22° |
| 00:30 | -16° | — | 22° |
| 01:00 | -20° | — | 22° |
| 01:30 | -24° | — | 22° |
| 02:00 | -27° | — | 21° |
| 02:30 | -30° | — | 21° |
| 03:00 | -32° | — | 21° |
| 03:30 | -33° | — | 21° |
| 04:00 | -33° | — | 21° |
Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
O que ver
| Instrumento | O que esperar |
|---|---|
| A olho nu | Nada da nebulosa. Só o campo estelar da Via Láctea nessa região, sem nenhum brilho difuso identificável. |
| Binóculo (10×50 a 15×70) | Numa noite escura e transparente, o aglomerado central pode se destacar como uma pequena mancha com estrelas. Em Bortle 7, espere pouco; é um alvo para quando você viajar a um céu melhor. |
| Telescópio de 100 a 200 mm | Bakich indica filtro de nebulosa; o brilho maior fica a oeste do centro. Com filtro UHC ou OIII e visão desviada, o gás pode aparecer como uma névoa em formato irregular ao redor do aglomerado, em noite boa. Só cerca de um décimo da extensão fotográfica é visível em telescópio amador (Bakich). |
| Telescópio de 250 mm ou mais | Mais estrelas no aglomerado e mais detalhes na borda oeste; com filtro OIII, é possível notar alguns filamentos mais claros. Sob Bortle 7, o ganho é limitado; um céu escuro faz muita diferença. |
Seja realista. A tabela de Coe descreve o objeto como fraco, grande e alongado (F, L, E), sem magnitude integrada. Na cidade, mesmo com filtro, é um dos alvos do Escorpião que mais exigem paciência: dê 15 a 20 minutos para o olho se adaptar, cubra a cabeça com um pano escuro e use visão desviada. Se o que você quer é ver a nebulosa, a câmera é o caminho.
Astrofotografia: estratégia de captura
Enquadramento
O gás ocupa de meio grau a cerca de um grau. Com um telescópio de 1.000 mm de focal e uma câmera como a ASI294MC Pro, o campo é de cerca de 1,1° × 0,75° (calculado a partir do sensor e da focal): cabe a região central com folga, mas o gás mais fraco nas bordas pede atenção ao corte. Uma focal de 400 a 600 mm mostra a nebulosa e seu entorno estelar; com cerca de 300 mm, é possível incluir também a Pata de Gato ao sudoeste, um campo de cerca de 3° que rende uma composição clássica do Escorpião.
Desafios do alvo
- Campo estelar muito denso. A nebulosa está imersa na Via Láctea, com milhares de estrelas de fundo. Trate as estrelas com cuidado no processamento (redução, máscara) para que o gás seja o protagonista.
- Contraste enorme. O aglomerado central é brilhante; o gás das bordas, muito fraco. Faça exposições de duração variada e combine em HDR para não saturar o núcleo.
- Céu urbano. Sob Bortle 7, o gás fraco se perde no fundo do céu. Um filtro dual-band (H-alfa e OIII) ou banda estreita ajuda muito e é quase obrigatório para tirar proveito do alvo.
- Altura. Ao contrário do que acontece no hemisfério norte, o objeto fica alto e a atmosfera atrapalha pouco.
Equipamento e filtros
Como a emissão é dominada por H-alfa, uma câmera monocromática com filtros de banda estreita rende resultado mais limpo em céu urbano; com câmera colorida, um filtro dual-band no trem óptico faz grande parte do trabalho. Uma paleta bicolor (H-alfa em vermelho, OIII em azul-esverdeado) costuma dar bom resultado nessa região. Quem tem apenas uma câmera DSLR pode usar um filtro de emissão para reduzir o brilho de fundo.
Exemplo de sessão (ponto de partida)
| Tipo de quadro | Quantidade | Exposição | Finalidade |
|---|---|---|---|
| Light curto (núcleo) | 30 | 30 a 60 s | Preservar o aglomerado e as estrelas azuis |
| Light longo (gás) | 60 a 100 | 180 a 300 s | Capturar o gás fraco e os filamentos |
| Dark | 30 | igual aos Lights | Calibração do ruído térmico |
| Flat | 30 | automática | Correção de vinheta e poeira |
| Bias ou dark-flat | 50 | mais curta possível | Calibração do ruído de leitura |
Esses números são um ponto de partida, e não vêm dos livros: ajuste-os ao seu sensor, ao seu telescópio e ao céu da noite. Bastam algumas horas de dados no total para uma boa imagem; mais horas rendem detalhe.
Smart telescopes e campo de visão
Com campo de cerca de 1,3° × 0,7°, um smart telescope como o Seestar S50 enquadra a região central da Guerra e Paz, com o aglomerado e o gás mais brilhante. O filtro dual-band do próprio aparelho faz diferença sob céu urbano, e o alvo é ótimo para empilhar por várias noites: cada noite acrescenta sinal ao gás fraco. Abra o mapa abaixo e escolha o seu modelo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.
Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.
Considerações finais
A Guerra e Paz é um objeto para quem gosta de ver o céu revelado pela fotografia. Visualmente é modesta, sobretudo sob Bortle 7; na imagem, é uma das paisagens mais dramáticas do Escorpião. Se o seu interesse é o céu profundo mais fácil, comece por M 7 e pelo aglomerado NGC 6231 no mesmo trecho da Via Láctea. Depois, volte aqui com um filtro e uma câmera, e junte a Pata de Gato num projeto de mosaico.
Referências
- BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 483 (NGC 6357).
- COE, Steven R. Nebulae and How to Observe Them. London: Springer, 2007. Tabela do apêndice (NGC 6357), p. 145.
- SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, tipos e paralaxes de NGC 6357 e Pismis 24, em 21 set. 2026.
- HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.