setembro 21, 2026
NGC 6752 (Caldwell 93), o globular do Pavão: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.
Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. UK Schmidt Telescope (UKST) / AAO–ROE. Créditos
Se existe um aglomerado globular que os observadores do hemisfério norte não conhecem e nós temos de graça, é o NGC 6752. Ele fica no Pavão, bem ao sul, longe demais para ter entrado na lista de Messier, e no entanto está entre os poucos globulares que aparecem a olho nu. Só o Ômega Centauri, o 47 Tucanae e o M22 são claramente mais brilhantes; o M4, o M5, o M13 e o NGC 6397 vêm logo atrás, com brilhos parecidos (Mobberley). Pela contagem do Bakich, empata com o NGC 6397 como o quarto globular mais brilhante do céu, e no Rio de Janeiro ele sobe a cerca de 53° de altura, longe do ar carregado do horizonte. Este guia reúne os dados, os gráficos de altura e a estratégia de observação e de captura.
Texto em revisão. Este é um guia de teste do novo formato de guia de objeto, do lote Caldwell. As fontes estão listadas no final.

Ficha técnica e designações
Visão geral: o que é um aglomerado globular
Um aglomerado globular é uma esfera densa de centenas de milhares de estrelas muito antigas, unidas pela gravidade e distribuídas em um halo em volta do centro da Galáxia. Quase todas têm mais de dez bilhões de anos, e por isso são pobres em elementos pesados. O aspecto que vemos no telescópio é o de uma bola de luz cujo brilho sobe depressa em direção ao centro; com abertura suficiente, as bordas se desfazem em pontinhos.
O NGC 6752 em números. A paralaxe do SIMBAD (0,254 milissegundos de arco) coloca o aglomerado a cerca de 12.800 anos-luz (livros trazem 13.000). O tamanho físico é de aproximadamente 75 anos-luz, para os 20′ aparentes, e a idade, cerca de 11 bilhões de anos (Mobberley). Isso o coloca entre os globulares mais próximos, e por isso as estrelas individuais são mais brilhantes do que na maioria: Mobberley fala de estrelas de 13ª e 14ª magnitude, que podem ser vistas isoladas em um telescópio de bom porte. O Data Book o destaca, junto com a variável kappa Pavonis, entre os objetos notáveis da constelação.
Brilho e tamanho. A magnitude integrada aparece como 5,4 (Mobberley), 5,5 (Bakich) e 6,3 (catálogo do site). A diferença é comum em globulares do sul e reflete o quanto de halo cada autor inclui. O tamanho vai de 20,4′ (Bakich e SIMBAD) a 30′ (Mobberley); este guia usa "cerca de 20′", o que equivale a dois terços do diâmetro da Lua cheia. O Ridpath diz que ele cobre metade da largura da Lua cheia e que uma abertura de 75 mm já resolve suas estrelas mais brilhantes.
Nomes. O objeto é também o Caldwell 93. O apelido "Estrela-do-Mar" (Starfish) vem de Mobberley, que observa que alguns observadores enxergam um padrão de estrela-do-mar nas correntes de estrelas; o Bakich também cita "Cata-vento". O olho humano vê padrões em qualquer conjunto de pontos, lembra Mobberley, então não espere um desenho nítido.
Uma estrela do primeiro plano. Uma estrela de magnitude 7,6 fica a 4′ ao sul-sudoeste do centro. É uma estrela dupla, com companheira de magnitude 9,1, e está a cerca de 800 anos-luz, cerca de 16 vezes mais perto que o aglomerado, portanto sem relação com ele (Mobberley). Serve de referência para reconhecer o objeto no campo.
Estruturas notáveis
- O núcleo concentrado. Os 2 a 3 minutos de arco centrais concentram a maior parte da luz. Dentro dele, uma região de apenas 20″ contém estrelas separadas por cerca de um ano-luz (Mobberley). Para nós, é só um ponto brilhante, mas o Chandra achou ali seis fontes de raios X.
- As correntes de estrelas. Em telescópios de 150 mm, o Bakich descreve centenas de estrelas e várias cadeias radiais partindo do centro, base do apelido de estrela-do-mar.
- A estrela dupla do primeiro plano. A 7,6 e 9,1, um par que interrompe a lisura do halo.
- O halo externo. Nas fotos longas, as estrelas se espalham por um campo bem maior que a área de maior brilho.
Como localizar
O Pavão é uma constelação discreta: dentro de cerca de 10° de Peacock (alfa Pavonis, magnitude 1,9), a única outra estrela mais brilhante que a quarta magnitude é delta Pavonis (3,5), lembra Mobberley. A rota clássica é partir de Peacock e andar 3¼° para o sul e 9½° para oeste. O Bakich dá uma rota alternativa: a cerca de 3,2° a nordeste de lambda Pavonis (magnitude 4,2). Como o globular é visível a olho nu em céu escuro, uma vez no campo certo ele aparece como uma estrela nebulosa em um binóculo. A galáxia NGC 6744 (Caldwell 101) está 4° ao sul, e o objeto vale ser visto na mesma noite; veja o guia de NGC 6744.

Quando e como observar
Com declinação de −60°, o NGC 6752 culmina a cerca de 53° de altura no Rio de Janeiro. É uma altura confortável, bem acima do horizonte poluído. Mobberley classifica o objeto como circumpolar abaixo de 31°S; em −23° ele não é: na passagem inferior, passa alguns graus abaixo do horizonte sul, e fica invisível por poucas horas. O período mais favorável, com o objeto alto à noite, vai de junho a outubro (Mobberley), com a culminação à meia-noite por volta do início de julho.
Para observar, olhe para o sul: nessa direção o norte fica para baixo e o leste, à esquerda, o contrário do que se vê ao olhar para o norte, e a orientação no ocular depende do instrumento.
O primeiro gráfico mostra a altura do objeto ao longo do ano para o local do observatório; o segundo, o caminho do NGC 6752 pelo céu nesta noite (zênite no centro, cores pela altura e linha pontilhada, tracejada ou contínua conforme o crepúsculo), seguido da altura hora a hora.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
2026-10-13 · 19:20 – 04:10
Esta noite no céu
- Melhor horário
- 19:20 · 49° SSW
- Horas acima de 45°
- 0,8 h
- Lua
- Lua crescente · 12 %
- Nota da noite
- 67 / 100
- Posição no céu
- 46
- Brilho
- 96 mag 6,3
- Enquadramento
- 100 ocupa 29 % do campo
Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).
- Crepúsculo civil (Sol até −12°)
- Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
- Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
- Altura abaixo de 20°
- Altura abaixo de 30°
- Altura abaixo de 45°
- Hora cheia e meia hora
- Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
| Hora | Altura | Direção | Da Lua |
|---|---|---|---|
| 19:30 | 48° | SSW 201° | 50° |
| 20:00 | 45° | SSW 205° | 50° |
| 20:30 | 42° | SSW 208° | 50° |
| 21:00 | 39° | SSW 210° | 50° |
| 21:30 | 35° | SSW 212° | 50° |
| 22:00 | 32° | SSW 213° | 50° |
| 22:30 | 28° | SSW 213° | 49° |
| 23:00 | 24° | SSW 213° | 49° |
| 23:30 | 20° | SSW 212° | 49° |
| 00:00 | 17° | SSW 211° | 49° |
| 00:30 | 13° | SSW 210° | 49° |
| 01:00 | 10° | SSW 208° | 48° |
| 01:30 | 7° | SSW 206° | 48° |
| 02:00 | 4° | SSW 204° | 48° |
| 02:30 | 1° | SSW 201° | 48° |
| 03:00 | -1° | — | 48° |
| 03:30 | -3° | — | 48° |
| 04:00 | -5° | — | 47° |
Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
O que ver
| Instrumento | O que esperar |
|---|---|
| A olho nu | Em céu muito escuro e transparente, uma estrela nebulosa em meio a um campo vazio. Em Bortle 7, como no Rio, dificilmente, mas em uma noite excelente, com o alvo alto, ele pode aparecer como um pontinho difuso se você o localizar antes com o binóculo (Mobberley; Ridpath). |
| Binóculo (7×50 a 15×70) | Uma bola de luz difusa, maior e mais evidente do que a maioria dos globulares. Nenhuma estrela é resolvida, mas o brilho central é claro (Ridpath). |
| Telescópio de 100 a 150 mm | Com 100 mm, o Bakich já cita dezenas de estrelas nas bordas; com 150 mm, centenas de estrelas e cadeias radiais partindo do centro. Um telescópio de 75 mm resolve as estrelas mais brilhantes, segundo o Ridpath, em céu escuro. |
| Telescópio de 200 a 350 mm | Muitas estrelas de 13ª e 14ª magnitude (Mobberley); em 300x ou mais, o núcleo concentrado começa a se desfazer, mas continua aglomerado no centro. |
Expectativa honesta: em Bortle 7, você verá um objeto muito mais fraco do que nas fotos: o halo se dissolve no brilho do céu e o aglomerado parece menor. Mobberley observa que globulares do sul como este ficam com tamanho aparente bem menor que o catalogado em céu urbano. Ainda assim, ele é um dos melhores globulares para o Rio de Janeiro, porque é alto e brilhante. Não precisa de filtro; o Mobberley recomenda observar sem filtro.
Astrofotografia: estratégia de captura
Enquadramento
Mobberley chama o NGC 6752 de "alvo fácil com campo de meio grau". Com um telescópio de 1.000 mm de focal e uma câmera como a ASI294MC Pro, o campo é de cerca de 1,1° × 0,75° (calculado a partir do sensor e da focal): o aglomerado, de cerca de 20′, cabe folgado. Com uma focal de 500 mm, cabe também a estrela dupla de primeiro plano e mais campo estelar em volta.
Desafios do alvo
- Núcleo estourado. O centro é muito brilhante em comparação ao halo. Use exposições curtas e empilhe muitas, ou faça um HDR com quadros mais curtos para o centro.
- Estrelas por toda parte. O campo é rico, e o guiamento e o foco precisam ser precisos para que as estrelas fiquem pontuais.
- Céu urbano. Em Bortle 7, o halo externo se perde com facilidade; um filtro anti-poluição luminosa ajuda um pouco, mas não muda o resultado de fundo.
Equipamento e filtros
Como Mobberley, não há filtro que ajude: o objeto é de estrelas, não de gás, então filtros de banda estreita não fazem sentido. Uma câmera colorida de um disparo (ou monocromática com LRGB) dá bons resultados. A cor do aglomerado é amarelada, de estrelas velhas, com algumas gigantes vermelhas e estrelas azuis mais quentes espalhadas.
Exemplo de sessão (ponto de partida)
| Tipo de quadro | Quantidade | Exposição | Finalidade |
|---|---|---|---|
| Light (RGB ou colorida) | 60 a 100 | 30 a 60 s | Halo e estrelas; exposições curtas evitam estourar o núcleo |
| Dark | 30 | igual aos Lights | Calibração do ruído térmico |
| Flat | 30 | automática | Correção de vinheta e poeira |
| Bias ou dark-flat | 50 | mais curta possível | Calibração do ruído de leitura |
Esses números são um ponto de partida, e não vêm dos livros.
Smart telescopes e campo de visão
O NGC 6752 cabe com sobra no campo de um smart telescope como o Seestar S50 (cerca de 1,3° × 0,7°), e o quadro inclui a estrela dupla do primeiro plano. Como o aglomerado é brilhante, poucos minutos de empilhamento já mostram um núcleo denso e um halo de estrelas. Escolha o seu modelo no mapa abaixo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.
Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.
Considerações finais
O NGC 6752 é o tipo de objeto que faz o observador do hemisfério sul sentir o privilégio de viver onde vive: um globular quase tão fácil quanto os melhores de Messier, que os norte-americanos e europeus nunca veem direito. Ele é um bom alvo tanto para quem começa com binóculo quanto para quem já tem telescópio. O próximo passo natural é a espiral vizinha, o NGC 6744, a 4° dali, ou uma comparação com outros globulares do sul, como o NGC 362 e o NGC 4833; para comparar com os grandes globulares de nossa latitude, veja também o M22.
Referências
- BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 582 (NGC 6752).
- MOBBERLEY, Martin. The Caldwell Objects and How to Observe Them. New York: Springer, 2009. Caldwell 93, p. 194-195.
- MOORE, Patrick; REES, Robin. Patrick Moore's Data Book of Astronomy. Cambridge: Cambridge University Press, 2011. Verbete Pavão e tabela Caldwell (C 93), p. 462 e 463.
- RIDPATH, Ian. Astronomia (Guia Ilustrado Zahar). 4. ed. Rio de Janeiro: Zahar. Verbete Pavão, p. 226 do arquivo (página impressa a conferir).
- SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, paralaxe e dimensões de NGC 6752, em 21 set. 2026.
- HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.