setembro 20, 2026

M 20, a Nebulosa Trífida: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2) de M20 — Nebulosa Trífida — objeto ainda não capturado no observatório

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.

Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. UK Schmidt Telescope (UKST) / AAO–ROE. Créditos

Poucos objetos do céu resumem tão bem o que a astronomia amadora oferece quanto a Trífida. Numa mesma nebulosa há um gás vermelho brilhante, três faixas de poeira que o cortam em pétalas, uma nuvem azul de luz refletida pendurada por cima e, no meio, uma estrela múltipla que acende tudo. Ela fica em Sagitário, a um passo da Nebulosa da Lagoa, e para quem observa do Rio de Janeiro passa quase exatamente sobre a cabeça: a declinação da Trífida é de cerca de −23°, praticamente a mesma latitude do observador. Este guia reúne os dados, o mapa, a altura ao longo do ano e da noite, o que dá para ver com cada instrumento e uma estratégia de captura.

Texto em revisão. Este é um guia de teste do novo formato de objeto. Ele substitui o guia de astrofotografia e a página de exploração do objeto. As fontes estão listadas no final.

Imagem de referência (DSS2) de M20 — Nebulosa Trífida — objeto ainda não capturado no observatório
Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. UK Schmidt Telescope (UKST) / AAO–ROE. Imagem de referência: este objeto ainda não foi fotografado no Observatório. Créditos

Ficha técnica e designações

Visão geral: duas nebulosas em uma

A Trífida é uma nebulosa composta, e é essa a graça dela. A metade sul é uma nebulosa de emissão: hidrogênio ionizado pela radiação ultravioleta de estrelas jovens e quentes, que brilha em vermelho (na linha H-alfa). A metade norte é uma nebulosa de reflexão: poeira que apenas espalha a luz de uma estrela vizinha, e por isso tem cor azulada, como o céu de dia (Kier; Bakich). Coe descreve a diferença de forma bem visual: a região de reflexão é lisa, e a de emissão é "rugosa", cheia de altos e baixos como o terreno da Lua. Um terceiro ingrediente são as sendas escuras, faixas de poeira densa que aparecem em silhueta na frente do gás brilhante.

O nome vem daí. John Herschel batizou o objeto de "trífida", de três lóbulos, por causa das faixas escuras que convergem para o centro e o dividem em três partes (Kier; Bakich). Kambič conta quatro partes, porque uma delas é a fenda extra que separa a nebulosa de reflexão. Não é contradição: o número depende do que cada um chama de "faixa" e do instrumento. Charles Messier a incluiu no catálogo em 5 de junho de 1764 (Bakich).

O motor da nebulosa. No centro há uma estrela múltipla que fornece a radiação. Kier a descreve como um trio muito próximo, que só se separa em imagens de alta resolução. Bakich fala em cinco estrelas quentes. No SIMBAD, o membro principal é a HD 164492, de tipo espectral O7.5 V, uma estrela jovem e muito quente. Ao telescópio, Coe consegue desdobrar a dupla HN 40 (que a 165 aumentos vira uma tripla, com duas estrelas amarelas e uma azul-clara), e Cooke resolve cinco componentes, duas delas separadas por cerca de 2,2″.

Tamanho, brilho e distância. O tamanho aparente é de cerca de 28′ (SIMBAD), com magnitude total de 6,3 (Kier; Kambič). É pouco menos que a largura da Lua cheia, mas a luz se espalha por essa área toda, e o brilho por ponto é modesto: o objeto exige um céu escuro. A distância, pela paralaxe do SIMBAD (0,79 milissegundo de arco), é de cerca de 4.100 anos-luz (livros mais antigos trazem 5.200). A essa distância, a Trífida tem cerca de 33 anos-luz de diâmetro (Moore fala em cerca de 30).

Parente da Lagoa, vizinha de M 21. Já contamos no guia da Nebulosa da Lagoa que as duas nebulosas devem fazer parte da mesma vasta nuvem de gás onde nascem estrelas (Kier; Kambič). Aqui vale o complemento: 0,7° a nordeste da Trífida fica o aglomerado aberto M 21, com cerca de 400 membros, a uns 3.900 anos-luz e 16 anos-luz de diâmetro real; Kambič diz que as estrelas dele provavelmente nasceram no mesmo complexo. Na prática, o campo é uma vitrine de várias idades e formas do mesmo material.

Estruturas notáveis

  • As três faixas escuras. Convergem para o centro e dividem a emissão. Já são fáceis num refletor de 150 mm (Coe).
  • A estrela múltipla central. É o ponto luminoso que acende a nebulosa e o primeiro desafio de resolução: a HN 40 se separa fácil, e a 165× mostra o trio colorido (Coe).
  • A nebulosa de reflexão azul. Fica no limite norte, em torno de uma estrela de magnitude 9, e é a parte mais difícil de ver com filtro (Bakich; Coe).
  • O contraste de texturas. Reflexão lisa, emissão rugosa (Coe). Em fotografias, o vermelho e o azul lado a lado são o traço mais marcante do objeto.
  • O complexo vizinho. A M 21 e a Lagoa, no mesmo campo de binóculo (Kambič; Tonkin).

Como localizar

A Trífida está a 1,5° ao nor-noroeste da Lagoa, no mesmo campo de binóculo (Kambič). Do "bule" de Sagitário, ande de λ Sgr (Kaus Borealis) uns 5° para oés-noroeste até a Lagoa e depois suba pouco mais de um grau. Bakich sugere outro caminho: parta de μ Sgr (mag. 3,8) e vá 3,3° a sudoeste. Procure, a oeste do centro, um belo sistema triplo de estrelas, que orienta a observação. Em binóculo, Tonkin lembra que a Trífida é menor e mais fraca que a Lagoa, e a visão desviada é decisiva.

Do hemisfério sul, olhando para o norte, o objeto está bem alto; o norte celeste fica para baixo, e o leste, à direita. Por isso a nebulosa de reflexão azul, que fica ao norte, aparece embaixo da emissão nas cartas vistas a partir do Brasil, ao contrário de como é publicada nos livros do hemisfério norte.

Carta de localização de M20: as estrelas-guia nomeadas, setas tracejadas com a distância em graus até o alvo, escala em graus e indicação de norte e leste.
Carta de localização (star-hopping), no mesmo estilo das cartas de constelação: norte e leste indicados no canto. Anéis laranja: estrelas-guia; setas tracejadas: o caminho até o alvo, com a distância em graus; anel verde: o alvo (e, com a designação, outros objetos do campo); a barra mostra a escala. As linhas são as oficiais das constelações (d3-celestial), os limites são os da IAU e as estrelas vêm do catálogo HYG.

Quando e como observar

A Trífida culmina no zênite do Rio de Janeiro, com altura de 90° no meridiano. É um benefício enorme para um objeto de brilho por ponto modesto: quanto mais alto, menos ar a luz atravessa, e mais contraste. Observadores do norte a veem baixa, no horizonte sul, e têm de lidar com brilho de fundo e turbulência. Aqui, a Trífida está em sua melhor forma.

A melhor época vai de junho a setembro. No inverno, a Trífida cruza o meridiano entre o fim da tarde e a meia-noite, o que dá tempo de sobra para esperar o céu escurecer e ainda observá-la alta. O primeiro gráfico mostra a altura ao longo do ano para o local do observatório; o segundo, o caminho da noite de hoje. Use o primeiro para escolher o mês e o segundo para escolher a hora.

Altura de Nebulosa Trífida ao longo do anoAltura à meia-noite astronômica e altura máxima da noite, a cada 5 dias. Melhor época: de abril a agosto. O objeto chega a 89° à meia-noite em junho.0°30°60°90°JANFEVMARABRMAIJUNJULAGOSETOUTNOVDEZ20 jun · 89°hoje
Altura ao longo do ano, a cada 5 dias: linha contínua = altura no meio da noite astronômica (Sol abaixo de −18°); tracejada = maior altura durante a noite escura; faixa verde = melhor época; linhas pontilhadas em 30° e 45°. A linha vertical marca hoje. Melhor época para este local: de abril a agosto (objeto acima de 30° no meio da noite). Ponto mais alto: 89° em 20 de junho.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

2026-10-12 · 19:20 – 04:10

Esta noite no céu

Melhores alvos da noite
Melhor horário
19:20 · 51° W
Horas acima de 45°
0,5 h
Lua
Lua crescente · 6 %
Nota da noite
57 / 100
Posição no céu
42
Brilho
62 mag 8,5
Enquadramento
100 ocupa 62 % do campo

Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).

Trajetória de M20 — Nebulosa Trífida pelo céu nesta noiteCéu visto de baixo, zênite no centro e horizonte na borda. O objeto fica acima do horizonte entre 18:20 e 23:10 durante a noite; o ponto mais alto é às 19:20, com 51°. A tabela ao lado traz os mesmos valores.15°30°45°60°75°NNELSESSOONO19:0020:0021:0022:0023:00
Caminho do objeto pelo céu nesta noite, do fim do crepúsculo civil ao amanhecer. Centro = zênite, borda = horizonte; visto olhando para cima (leste à esquerda, oeste à direita). Marcadores a cada 30 minutos.
  • Crepúsculo civil (Sol até −12°)
  • Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
  • Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
  • Altura abaixo de 20°
  • Altura abaixo de 30°
  • Altura abaixo de 45°
  • Hora cheia e meia hora
  • Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
Altura e direção do objeto a cada 30 minutos
Hora Altura Direção Da Lua
19:30 49° W 261° 45°
20:00 42° W 259° 45°
20:30 35° WSW 257° 44°
21:00 29° WSW 255° 44°
21:30 22° WSW 253° 44°
22:00 15° WSW 251° 44°
22:30 9° WSW 249° 43°
23:00 3° WSW 246° 43°
23:30 -4° — 43°
00:00 -10° — 43°
00:30 -16° — 42°
01:00 -21° — 42°
01:30 -27° — 42°
02:00 -31° — 42°
02:30 -36° — 41°
03:00 -39° — 41°
03:30 -42° — 41°
04:00 -44° — 41°
Altura de M20 — Nebulosa Trífida ao longo da noiteAltura em graus a cada 30 minutos. O ponto mais alto é às 19:20, com 51°. A tabela abaixo traz os mesmos valores.0°30°60°90°202122230001020304abaixo do horizonte
Altura em graus ao longo da noite escura (linhas em 30° e 45°). A Lua aparece tracejada.

Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

O que ver

Instrumento O que esperar
A olho nu Não é vista isoladamente, mas a Lagoa vizinha aparece, e a Trífida fica no mesmo campo. Kambič a considera exigente e pede céu completamente escuro.
Binóculo (10×50) Uma pequena mancha nebulosa, mais fraca que a Lagoa, no mesmo campo, com M 21 a nordeste (Kambič; Tonkin). Sem céu escuro, é fácil perder. Use a visão desviada.
Telescópio de 100 a 150 mm Em um refletor de 150 mm com ocular grande angular, a forma trífida é evidente, com cerca de dez estrelas envolvidas e as faixas escuras fáceis de ver (Coe). A HN 40 se separa.
Telescópio de 200 mm ou mais Mais contraste nas faixas e a dupla central desdobrada em componentes coloridos (duas amarelas e uma azul-clara a 165x, segundo Coe; cinco componentes com abertura maior, segundo Cooke).
Com filtro UHC Reduz a nebulosa de reflexão à metade e a deixa mais fraca, mas dá bem mais contraste à emissão (Coe). Cooke observa um tom vermelho e uma leve pista de azul ao norte com filtro.

Um aviso importante: um intensificador de imagem não ajuda na Trífida, porque a nebulosa some (Cooke). A cor vermelha e o azul só aparecem nas fotografias; ao olho, o gás é cinzento (Ridpath).

Astrofotografia: estratégia de captura

Enquadramento

Kier indica que a Trífida sozinha cabe num campo médio, de 30′ a 40′ (a imagem dele mede 52′ × 35′), e que, para colocar a Trífida e a Lagoa juntas, é preciso um campo de 120′ ou mais. Com um telescópio de 1.000 mm de focal e uma câmera como a ASI294MC Pro, o campo é de cerca de 1,1° × 0,75° (calculado a partir do sensor e da focal): a Trífida, de cerca de 28′, cabe folgada e ainda deixa espaço para a nebulosa de reflexão e para a M 21 no canto. Uma focal de 400 a 500 mm mostra a Trífida, a Lagoa e a M 21 no mesmo quadro.

Desafios do alvo

  • Duas cores, dois brilhos. A emissão vermelha é muito mais brilhante que a reflexão azul. É preciso expor o bastante para o azul sem estourar o centro. Combine exposições curtas e longas.
  • Campo estelar denso. A região fica em direção ao centro da Galáxia, cheia de estrelas de fundo. Reduzir as estrelas no processamento ajuda a valorizar o gás.
  • Céu urbano. Em Bortle 7, como no Rio, a reflexão azul é a primeira a se perder no fundo do céu. Como ela reflete luz de estrela e não emite em H-alfa, um filtro dual-band a apaga; se você quer o azul, use quadros sem filtro ou com filtro leve, em noites boas.

Equipamento e filtros

Kier considera a Trífida brilhante o bastante para funcionar bem tanto com o método RGB quanto com uma câmera colorida de tiro único. Como ele fotografa do norte, recomenda RGB em vez de LRGB, porque a refração atmosférica em objetos baixos borra a luminância, e sugere fazer os quadros azuis perto do meridiano para reduzir a extinção. Isso é fácil para nós, porque a Trífida está no zênite. O processamento é rotineiro (Kier). Em câmera monocromática, a banda estreita (SHO) enfatiza a emissão, mas perde a reflexão azul, que é a marca do objeto: o ideal é combinar banda estreita para o vermelho com RGB para o azul.

Exemplo de sessão (ponto de partida)

Tipo de quadro Quantidade Exposição Finalidade
Light RGB ou colorida 60 a 90 120 s Emissão, faixas escuras e reflexão azul
Light curto 20 20 a 30 s Preservar o núcleo e a estrela central
Dark 30 igual aos Lights Calibração do ruído térmico
Flat 30 automática Correção de vinheta e poeira
Bias ou dark-flat 50 mais curta possível Calibração do ruído de leitura

Esses números são um ponto de partida, e não vêm dos livros. Como referência, a imagem de Kier usou uma luminância de 3 exposições de 5 minutos e RGB de 1, 1 e 2 exposições de 5 minutos, com um refrator de 5,5″ f/7.

Smart telescopes e campo de visão

A Trífida é um alvo ideal para smart telescopes: brilhante, alta no céu e compacta. O campo de um aparelho como o Seestar S50 (cerca de 1,3° × 0,7°) a enquadra inteira, com a reflexão azul e as estrelas ao redor; para incluir a Lagoa, é preciso um mosaico de dois painéis. Sob luz urbana, o filtro dual-band do aparelho destaca o vermelho, mas enfraquece o azul: deixe algumas horas sem filtro, em noite escura, se quiser as duas cores. Escolha o seu modelo no mapa abaixo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.

0°

Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.

Considerações finais

A Trífida é, ao mesmo tempo, fácil de achar e difícil de dominar. Um refletor pequeno mostra as três faixas, um filtro UHC ensina a diferença entre emissão e reflexão, e uma boa fotografia junta o vermelho e o azul numa só imagem. Sendo do Brasil, você tem o objeto exatamente sobre a cabeça, o melhor ângulo possível. O próximo passo natural é comparar com a vizinha Nebulosa da Lagoa, ou seguir para o norte, ao longo da Via Láctea, até a Nebulosa do Ômega (M 17) e a Nebulosa da Águia (M 16). Para conhecer a região, veja também o guia da constelação de Sagitário.

Referências

  • BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 509 (M 20).
  • COE, Steven R. Nebulae and How to Observe Them. London: Springer, 2007. M 20, p. 114-115.
  • COOKE, Antony. Visual Astronomy in the Suburbs: A Guide to Spectacular Viewing. London: Springer, 2003. Nebulosas de emissão e filtros (M 20), p. 178.
  • KAMBIČ, Bojan. Viewing the Constellations with Binoculars: 250+ Wonderful Sky Objects to See and Explore. New York: Springer, 2010. Sagitário, M 20 e M 21, p. 416-417.
  • KIER, Ruben. The 100 Best Targets for Astrophotography. New York: Springer, 2009. "August 6-7: Trifid and Lagoon Nebulae", p. 175-177.
  • MOORE, Patrick. The Observer's Year: 366 Nights of the Universe. 2. ed. London: Springer, 2005. Sagitário, Lagoa, Trífida e Ômega, p. 200.
  • MOURÃO, Ronaldo Rogério de Freitas. Dicionário enciclopédico de astronomia e astronáutica. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987. Verbete "Trífida" (p. 805).
  • RIDPATH, Ian. Astronomia (Guia Ilustrado Zahar). 4. ed. Rio de Janeiro: Zahar. Nebulosas de Sagitário, p. 200-201.
  • TONKIN, Stephen. Binocular Astronomy. London: Springer, 2007. Lagoa, Trífida e a Nuvem Estelar de Sagitário em binóculos, p. 142-143.
  • SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, tipos espectrais e paralaxes de M 20, M 21 e HD 164492, em 21 set. 2026.
  • HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.