setembro 21, 2026
M 13, o Grande Aglomerado de Hércules: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.
Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Créditos
Entre os aglomerados globulares do céu, M 13 é o que os livros do hemisfério norte chamam simplesmente de "o Grande". É uma bola de centenas de milhares de estrelas, a cerca de 25.700 anos-luz de nós, que aparece a olho nu como uma estrelinha borrada em um bom céu escuro. O problema, para quem observa do Brasil, é o endereço: ele fica em Hércules, a mais de 36° ao norte do equador celeste, e do Rio de Janeiro nunca passa de uns 30° de altura. Este guia mostra como achá-lo mesmo assim, o que dá para ver e por que, apesar do lugar desfavorável, ele ainda vale a noite de inverno.
Texto em revisão. Este é um guia de teste do novo formato de objeto. As fontes estão listadas no final.

Ficha técnica e designações
Visão geral: o que é um aglomerado globular
Um aglomerado globular é uma esfera densa de estrelas muito velhas, presa pela própria gravidade, que orbita o centro da Galáxia dentro do halo, e não no disco onde estão os braços espirais. Ridpath descreve M 13 como o globular mais famoso do norte, com centenas de milhares de estrelas a cerca de 25.700 anos-luz (os livros arredondam para 25.000). Monks o coloca na classe V da escala de Shapley e Sawyer, que vai da I (núcleo muito concentrado) à XII (aglomerado solto).
M 13 em números. Monks estima cerca de 400.000 estrelas e um diâmetro de 140 anos-luz (em outra passagem, 160). Kambič propõe uma imagem para essa densidade: na parte central, com cerca de 100 anos-luz de diâmetro, um milhão de estrelas dariam uma estrela por meio ano-luz cúbico, contra uma por 360 anos-luz cúbicos na vizinhança do Sol. Se cada estrela fosse um grão de areia de meio milímetro, os grãos ficariam a uns 2 km de distância uns dos outros numa esfera de 340 km. Parece um enxame, mas é, na verdade, um espaço quase vazio. O céu de um planeta no centro, segundo o mesmo autor, teria milhares de estrelas mais brilhantes que Vênus, e provavelmente nunca escureceria de verdade.
Distância e tamanho. O SIMBAD lista uma paralaxe de 0,127 milissegundos de arco, o que dá cerca de 25.700 anos-luz, valor adotado aqui (Ridpath, Kambič e Monks arredondam para 25.000). O tamanho aparente varia bastante de fonte para fonte: 16,6′ no Bakich, cerca de 20′ em Kambič, 36′ em Monks e 33′ no SIMBAD. A diferença vem de onde cada um traça a borda: o núcleo brilhante tem uns 15′ a 20′, e as estrelas fracas do halo se estendem bem além disso. O que se vê depende da abertura e do céu.
Descoberta. Edmond Halley a descobriu em 1714, e Messier a incluiu no catálogo em 1º de junho de 1764 (Bakich). Bakich lembra que M 5 e M 13 são os únicos entre os dez globulares mais brilhantes que ficam no hemisfério norte celeste.
A mensagem de Arecibo. Em 1974, M 13 foi o destino de uma das primeiras mensagens de rádio enviadas de propósito ao espaço, pelo radiotelescópio de Arecibo (Kambič). A viagem leva cerca de 25.700 anos, então uma resposta, se houvesse, só chegaria por volta do ano 51.600. O radiotelescópio, que colapsou em 2020, é hoje só memória, e a mensagem continua a caminho.
Estruturas notáveis
- O núcleo denso. A região central é tão concentrada que nem em telescópios grandes as estrelas ficam separadas; o brilho vem de uma mistura granulada.
- As faixas escuras em "hélice". Três faixas escuras que convergem, deslocadas para um lado do aglomerado, descritas por Lord Rosse no século XIX. Cooke conta que elas "sumiram" dos relatos até cerca de 1980, aparecem em fotografias antigas e podem ser apagadas por longas exposições. Ele sugere mais de 100 aumentos, o registro de estrelas de referência e paciência; o autor mesmo diz que não se sabe se as regiões escuras são reais ou só poeira em primeiro plano.
- O halo de estrelas resolvidas. Nas bordas, as estrelas se separam primeiro, e um telescópio de 200 mm ou mais mostra centenas delas e cadeias de estrelas em arco (Bakich).
- A vizinha M 92. Cerca de 9° dele (Cooke), outro globular de Hércules, menor e mais fraco (magnitude 6,4, cerca de 14′), a 26.700 anos-luz (Kambič); Monks o considera subestimado e mostra que, no ocular, dois globulares parecidos no papel diferem bastante.
Como localizar
M 13 fica na constelação de Hércules, entre Lira e Coroa Boreal (Ridpath). O ponto de partida é o Keystone (a "pedra angular"), o trapézio formado por Zeta, Eta, Épsilon e Pi Herculis (Kambič). M 13 fica no lado mais curto, entre Zeta e Eta, mais perto de Eta, a cerca de dois terços do caminho de Zeta (Bakich; Kambič). Eta é 0,7 magnitude mais fraca que Zeta, e as duas servem de guia. Com um céu escuro, M 13 aparece a olho nu como uma estrela difusa; num binóculo, como uma bolinha de luz com cerca de metade da largura da Lua cheia (Ridpath).
Do Rio, a dificuldade é o horizonte norte, que precisa estar livre de prédios e de luz. Encontre primeiro Arcturo, bem alto, e siga para o norte e para o leste até a Coroa Boreal (o arco de estrelas fracas); o Keystone fica logo depois, na direção de Vega, também baixa ao norte. Como observamos de frente para o norte, o Keystone aparece invertido em relação às cartas do hemisfério norte, com o norte celeste para baixo e o leste à direita. Use o buscador ou um binóculo para confirmar o campo antes de apontar o telescópio.

Quando e como observar
M 13 tem declinação de +36°28′. Para a latitude do Rio (−23°), isso dá uma altura máxima de cerca de 30°, alcançada no meridiano, ao norte. É baixo: a luz atravessa cerca do dobro da atmosfera que atravessaria no zênite, e a poluição luminosa e a bruma do horizonte pesam mais. Por isso os livros de observação do norte, que o veem quase no alto, o tratam como um alvo fácil, e nós temos de fazer mais esforço. Em compensação, M 13 fica acima do horizonte por quase dez horas em cada dia em que está no céu noturno, e o melhor momento é quando cruza o meridiano.
O melhor período vai de maio a setembro. Nos primeiros dias de junho ele culmina à meia-noite; em julho e agosto, já cruza o meridiano no começo da noite, e ainda dá tempo de observar sem esperar o fim da madrugada. Bakich indica junho e observa que, do Brasil, M 13 é melhor no Norte e no Nordeste, onde sobe mais no céu. Do Sudeste e do Sul, é preciso um horizonte norte livre e uma noite transparente. Os gráficos abaixo mostram a altura ao longo do ano e a trajetória nesta noite, e é conveniente conferi-los antes de montar o equipamento.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
2026-10-13 · 19:20 – 04:10
Esta noite no céu
Este objeto não passa de 30° de altura nesta noite (máximo: 6°). Não é um bom alvo hoje.
- Melhor horário
- 19:20 · 6° NW
- Horas acima de 45°
- 0,0 h
- Lua
- Lua crescente · 12 %
- Nota da noite
- 0 / 100
- Posição no céu
- 0
- Brilho
- 100 mag 5,8
- Enquadramento
- 100 ocupa 37 % do campo
Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).
- Crepúsculo civil (Sol até −12°)
- Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
- Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
- Altura abaixo de 20°
- Hora cheia e meia hora
- Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
| Hora | Altura | Direção | Da Lua |
|---|---|---|---|
| 19:30 | 4° | NW 313° | 63° |
| 20:00 | -1° | — | 63° |
| 20:30 | -7° | — | 63° |
| 21:00 | -12° | — | 63° |
| 21:30 | -18° | — | 63° |
| 22:00 | -24° | — | 63° |
| 22:30 | -30° | — | 63° |
| 23:00 | -36° | — | 63° |
| 23:30 | -42° | — | 63° |
| 00:00 | -48° | — | 63° |
| 00:30 | -54° | — | 63° |
| 01:00 | -60° | — | 63° |
| 01:30 | -66° | — | 63° |
| 02:00 | -71° | — | 63° |
| 02:30 | -75° | — | 63° |
| 03:00 | -77° | — | 63° |
| 03:30 | -75° | — | 63° |
| 04:00 | -72° | — | 63° |
Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
O que ver
| Instrumento | O que esperar |
|---|---|
| A olho nu | Em condições muito boas, uma estrelinha difusa, a dois terços de Zeta para Eta Herculis (Bakich). Do Rio, com o objeto a 30° e o céu urbano, é bem difícil sem binóculo. |
| Binóculo (7×50 a 15×70) | Uma bolinha enevoada, sem estrelas separadas, com cerca de metade da Lua cheia (Ridpath; Kambič). É o melhor jeito de confirmar o campo e de apreciar M 92 no mesmo passeio. |
| Telescópio de 75 a 100 mm | Bakich diz que M 13 começa a se resolver com 3 polegadas; as bordas mostram grãos, e o centro continua uma mancha luminosa. |
| Telescópio de 200 mm ou mais | Centenas de estrelas resolvidas, com filamentos e cadeias, e o núcleo granulado (Bakich). Com mais de 200 aumentos, procure as faixas escuras em Y, a "hélice" (Bakich; Cooke). Como regra de partida, Monks sugere um aumento de 0,75 a 1 vez a abertura em milímetros (por exemplo, 150 a 200× em 200 mm), e alguns preferem mais. |
Expectativa honesta. Cooke lembra que os detalhes mais finos foram descritos com telescópios grandes e intensificadores de imagem, então espere menos com os olhos. Do nosso céu, o mais realista é ver M 13 como uma bola cheia de pontos de luz que se resolve nas bordas, e talvez uma sugestão das faixas em noites de excelente transparência. Como ele fica baixo, os dias secos e frios do inverno ajudam.
Astrofotografia: estratégia de captura
Enquadramento
Com cerca de 16′ a 20′, M 13 é pequeno diante de um campo típico. Com um telescópio de 1.000 mm de focal e uma câmera como a ASI294MC Pro, o campo é de cerca de 1,1° × 0,75° (calculado do sensor e da focal): o aglomerado preenche uns 25% do quadro e sobra espaço para as estrelas do halo. M 92 fica a cerca de 9°, longe demais para o mesmo quadro; só entra num mosaico ou numa lente de campo muito largo.
Desafios do alvo
- Altura baixa. A cerca de 30° no melhor momento, há mais atmosfera, mais turbulência e mais bruma. Fotografe perto do meridiano e descarte os quadros ruins.
- Núcleo saturado. O centro é tão brilhante que estoura com exposições longas, e o brilho se espalha. Combine exposições curtas (para o núcleo) com longas (para o halo), ou use tempos mais curtos e empilhe muitos quadros.
- Poluição luminosa. Em Bortle 7, como no Rio, o fundo do céu sobe rápido, e um gradiente aparece no lado norte, onde fica a cidade ou a luz do horizonte; remova-o no processamento.
- Estrelas coloridas. O globular tem gigantes vermelhas e estrelas azuis; cuidado para não saturar as cores.
Equipamento e filtros
Como M 13 é um objeto de luz de estrelas, o filtro de banda estreita (como o dual-band das nebulosas) não ajuda. Um filtro de banda larga contra a poluição luminosa pode ajudar um pouco, mas é opcional. O que mais faz diferença é a montagem bem alinhada, a boa colimação e a focalização precisa, por causa da resolução das estrelas do centro. Uma câmera colorida de um só disparo ou uma monocromática com RGB funciona bem.
Exemplo de sessão (ponto de partida)
| Tipo de quadro | Quantidade | Exposição | Finalidade |
|---|---|---|---|
| Light (RGB ou câmera colorida) | 60 a 100 | 30 a 60 s | Equilíbrio entre o núcleo e as bordas; o empilhamento reduz o ruído |
| Light curto | 20 | 5 a 10 s | Recuperar o núcleo saturado |
| Dark | 30 | igual aos Lights | Calibração do ruído térmico |
| Flat | 30 | automática | Correção de vinheta e poeira |
| Bias ou dark-flat | 50 | mais curta possível | Calibração do ruído de leitura |
Esses números são um ponto de partida, e não vêm dos livros. Ajuste para o seu sensor e o seu céu.
Smart telescopes e campo de visão
M 13 cabe com muita folga no campo de um smart telescope como o Seestar S50 (cerca de 1,3° × 0,7°), e o empilhamento automático se sai bem com um alvo de brilho alto como esse. O cuidado é o horizonte norte: escolha um local com a vista livre, e comece a captura perto do meridiano. Escolha o seu modelo no mapa abaixo para ver o retângulo do campo sobre o aglomerado.
Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.
Considerações finais
M 13 é um exemplo de como a latitude muda o cardápio do céu: o objeto que o hemisfério norte guarda como troféu de verão aparece aqui baixo, ao norte, no inverno. Mesmo assim, é um alvo generoso: fácil de achar, de brilho alto e bom para testar o céu, o telescópio e a paciência. Para quem quer ver globulares no melhor de sua forma, o céu do Sul oferece outros, muito mais altos, como Ômega Centauri e 47 Tucanae, que valem uma noite própria. Os vizinhos de Hércules, como M 92, ficam para uma noite de binóculo. Quando estiver de olho no norte, vale também dar uma volta por M 31, a Galáxia de Andrômeda, que aparece no mesmo lado do céu no fim do ano.
Referências
- BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 441 (M 13).
- COOKE, Antony. Visual Astronomy in the Suburbs: A Guide to Spectacular Viewing. London: Springer (Patrick Moore's Practical Astronomy Series). Globulares, p. 166-176.
- KAMBIČ, Bojan. Viewing the Constellations with Binoculars: 250+ Wonderful Sky Objects to See and Explore. New York: Springer, 2010. Hércules, M 13 e M 92, p. 300-305.
- MONKS, Neale. Go-To Telescopes Under Suburban Skies. London: Springer. M 92, M 13 e M 15, p. 121-123 e 181-182.
- RIDPATH, Ian. Astronomia (Guia Ilustrado Zahar). 4. ed. Rio de Janeiro: Zahar. Hércules e M 13, p. 162.
- SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, paralaxe e dimensões de M 13, em 21 set. 2026.
- HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.