setembro 21, 2026
NGC 6193 (Caldwell 82), o aglomerado de Ara e a nebulosa Dragão de Fogo: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.
Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. UK Schmidt Telescope (UKST) / AAO–ROE. Créditos
Alguns aglomerados abertos são só aglomerados; o NGC 6193 é a lâmpada de um cenário maior. Ele fica na parte noroeste de Ara, o Altar, junto à divisa com Norma, e reúne as estrelas mais quentes e brilhantes de uma região de formação estelar recente. Mobberley lembra que, embora a lista Caldwell o trate como um aglomerado aberto, qualquer foto de campo largo mostra bem mais que isso: ele é o cerne da vasta associação Ara OB1, de estrelas quentes e jovens. Ao redor dele se estende a nebulosa NGC 6188, vermelha e cheia de trombas de gás em fotografias, praticamente invisível no ocular. Do Rio de Janeiro, o NGC 6193 é um belo alvo de binóculo e telescópio pequeno, no inverno, e um dos alvos favoritos de quem faz astrofotografia de campo largo no hemisfério sul.
Texto em revisão. Este é um guia de teste no novo formato de objeto. As fontes estão listadas no final e as dúvidas, no campo de pendências.

Ficha técnica e designações
Visão geral: um aglomerado jovem e o gás que ele ilumina
Um aglomerado como o NGC 6193 é jovem, tem só uns 6 milhões de anos (Mobberley) e é dominado por estrelas de tipo O e B, quentes, azuis e de vida curta. Elas emitem ultravioleta em quantidade suficiente para ionizar o hidrogênio ao redor, que então brilha em vermelho. Essa é a nebulosa de emissão NGC 6188, que o guia do Dragão de Fogo trata em detalhes.
O NGC 6193 em números. A distância pela paralaxe do SIMBAD (0,812 mas) é de cerca de 4.000 anos-luz; Mobberley usa 4.300. O diâmetro aparente é de 15′ a 19′ (SIMBAD: 18,7′), o que dá cerca de 20 anos-luz. A magnitude integrada é de cerca de 5 (Mobberley: 5,0; Bakich: 5,2).
A estrela-chave. A estrela mais brilhante e a que efetivamente ilumina a nebulosa é HD 150136, de magnitude 5,6 e tipo espectral O, bem visível no centro do aglomerado (Mobberley). O SIMBAD a classifica como uma binária de tipo O3,5-4 III mais O6 IV, isto é, duas estrelas muito quentes e massivas, e Mobberley registra ainda uma companheira visual de magnitude 6,8 a apenas 8″ a oeste. Uma estrela de magnitude 7 fica na borda oeste, e uma de 8, um pouco a nordeste do centro; uma dúzia de estrelas de 9ª e 10ª magnitude completa o aglomerado, principalmente na parte leste (Mobberley).
Uma associação OB. As associações OB são grupos de estrelas massivas nascidas juntas, muito mais frouxos que um aglomerado, e a Ara OB1 ocupa cerca de 1° de largura (Bakich; Mobberley). É por isso que a região parece bagunçada na fotografia: o aglomerado é só o centro brilhante de uma estrutura maior, cortada por nuvens de poeira. Bakich nota uma nebulosa escura cortando o lado oeste.
Estruturas notáveis
- A estrela HD 150136. O coração do aglomerado, brilhante e azulada, com uma companheira próxima que dá para separar com um telescópio pequeno e boa ampliação.
- A dupla DUN 206. Duas estrelas azul-esbranquiçadas separadas por 10″ (Bakich), um alvo simples para telescópio.
- O formato em cunha. Bakich descreve o aglomerado como uma cunha, com cerca de um quarto de grau de extensão.
- A nebulosa NGC 6188. Mais fraca e maior que o aglomerado, fica ao lado dele; com 4 polegadas a 150× e céu escuro é possível ver um véu tênue, e com 10 polegadas ou mais, uma região escura separando as partes leste e oeste, de borda irregular (Bakich).
- Os aglomerados vizinhos. NGC 6200, 6204, 6167 e 6134 estão a menos de 2° (Mobberley), todos bem mais fracos; a busca do aglomerado certo é parte da diversão.
Como localizar
O ponto de partida mais fácil é Épsilon Normae, de magnitude 4,5: o aglomerado fica 2½° a leste e 1¼° ao sul dela (Mobberley). Outra rota é partir de Alfa Arae e andar cerca de 1° ao norte e 8¼° a oeste. Como é o objeto mais brilhante da vizinhança, deve se destacar dos outros quatro aglomerados fracos que estão a menos de 2°, mas confirme pela estrela central e pelo formato em cunha. A região fica perto do aglomerado NGC 6231, do Escorpião, e da constelação do Escorpião, que servem de referência.

Quando e como observar
Com declinação de cerca de −48,8°, o NGC 6193 culmina a cerca de 64° de altura no Rio de Janeiro. Ele não é circumpolar e fica cerca de 16 horas por dia acima do horizonte (calculado). Mobberley indica a melhor época como maio a agosto, e o objeto culmina à meia-noite por volta do início de junho, no inverno. Ao observar, você olha para o sul, com o leste à esquerda; o que você vê no ocular depende de o instrumento inverter a imagem.
O primeiro gráfico mostra a altura do objeto ao longo do ano para o local do observatório; o segundo, o caminho do NGC 6193 pelo céu nesta noite (zênite no centro, cores pela altura e linha pontilhada, tracejada ou contínua conforme o crepúsculo), seguido da altura hora a hora.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
2026-10-12 · 19:20 – 04:10
Esta noite no céu
- Melhor horário
- 19:20 · 35° SW
- Horas acima de 45°
- 0,0 h
- Lua
- Lua crescente · 6 %
- Nota da noite
- 41 / 100
- Posição no céu
- 27
- Brilho
- 50 (sem magnitude cadastrada)
- Enquadramento
- 72 ocupa 18 % do campo
Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).
- Crepúsculo civil (Sol até −12°)
- Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
- Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
- Altura abaixo de 20°
- Altura abaixo de 30°
- Altura abaixo de 45°
- Hora cheia e meia hora
- Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
| Hora | Altura | Direção | Da Lua |
|---|---|---|---|
| 19:30 | 33° | SW 226° | 35° |
| 20:00 | 28° | SW 226° | 35° |
| 20:30 | 24° | SW 225° | 35° |
| 21:00 | 19° | SW 224° | 35° |
| 21:30 | 14° | SW 223° | 35° |
| 22:00 | 9° | SW 221° | 34° |
| 22:30 | 5° | SW 218° | 34° |
| 23:00 | 1° | SW 216° | 34° |
| 23:30 | -3° | — | 34° |
| 00:00 | -7° | — | 34° |
| 00:30 | -10° | — | 33° |
| 01:00 | -13° | — | 33° |
| 01:30 | -15° | — | 33° |
| 02:00 | -17° | — | 33° |
| 02:30 | -18° | — | 33° |
| 03:00 | -18° | — | 33° |
| 03:30 | -18° | — | 32° |
| 04:00 | -17° | — | 32° |
Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
O que ver
| Instrumento | O que esperar |
|---|---|
| A olho nu | Em céu escuro, um ponto nebuloso de magnitude perto de 5 (Bakich). Em Bortle 7, é difícil, mas a estrela HD 150136 pode aparecer. |
| Binóculo (7×50 a 15×70) | Mobberley recomenda binóculos grandes. O aglomerado aparece como uma mancha compacta com algumas estrelas soltas; a nebulosa fica de fora. |
| Telescópio de 100 a 130 mm | Num refrator de 5 polegadas (120 mm), um observador citado por Coe viu cerca de oito estrelas, com uma dupla, e uma nebulosidade muito fraca; com visão desviada, deu para notar uma linha entre a nebulosa difícil e a região escura (Coe). |
| Telescópio de 250 a 350 mm | Com um SCT de 14 polegadas e ocular de 40 mm, o mesmo relato resolve 12 estrelas, com uma dupla branca e brilhante; o filtro UHC ajuda um pouco, mas a nebulosa não é brilhante (Coe). A nebulosa continua de baixo brilho superficial. |
Expectativa honesta: a nebulosa NGC 6188 é o tipo de objeto que fotografa melhor do que aparece, como observa Coe, em relato de observações feitas na Austrália. Sob o céu do Rio, conte com o aglomerado, não com a nebulosa. Mobberley resume: o aglomerado é bonito num telescópio pequeno, mas é preciso uma imagem de CCD profunda para revelar a nebulosa.
Astrofotografia: estratégia de captura
Enquadramento
O NGC 6193 e a NGC 6188 cabem juntos em um campo de 1,5° a 2°: uma lente ou refrator de 250 a 400 mm de focal com sensor APS-C ou de 1 polegada. A associação Ara OB1 tem cerca de 1° de largura (Bakich; Mobberley), e o enquadramento deve incluir aglomerado e nebulosa. Mobberley classifica o objeto como alvo fácil para CCD e DSLR.
Desafios do alvo
- Contraste da nebulosa. O gás é fraco e vermelho, e o aglomerado é brilhante: a combinação exige um bom controle do histograma para que as estrelas azuis do centro não estourem.
- Nuvens escuras. As faixas de poeira dão profundidade, mas também escondem parte do campo; um bom empilhamento é o que revela isso.
- Poluição luminosa. Em Bortle 7, o fundo do céu perto do Escorpião é bem claro, e o alvo se beneficia de muitas horas de exposição total.
Equipamento e filtros
Como a nebulosa é de emissão, o H-alfa é a escolha natural (conhecimento geral); Mobberley só diz que imagens profundas revelam a nebulosidade. Uma câmera colorida com filtro dual-band (H-alfa e OIII) faz um bom trabalho em Bortle 7, com quadros de alguns minutos e um pouco de RGB curto para não estourar as estrelas do centro; em câmera monocromática, vale acrescentar um canal H-alfa à luminância.
Exemplo de sessão (ponto de partida)
| Tipo de quadro | Quantidade | Exposição | Finalidade |
|---|---|---|---|
| Light (dual-band) | 60 a 90 | 180 s | Nebulosa NGC 6188; o mais importante é o tempo total |
| Light (RGB curto, opcional) | 20 a 30 | 30 a 60 s | Cor das estrelas do aglomerado sem saturar |
| Dark | 30 | igual aos Lights | Calibração do ruído térmico |
| Flat | 30 | automática | Correção de vinheta e poeira |
| Bias ou dark-flat | 50 | mais curta possível | Calibração do ruído de leitura |
Esses números são um ponto de partida e não vêm dos livros.
Smart telescopes e campo de visão
O aglomerado, com 15′ a 19′, cabe com folga no campo de um smart telescope como o Seestar S50 (cerca de 1,3° × 0,7°), e a nebulosa NGC 6188 entra parcialmente. Muitas horas de empilhamento com o filtro dual-band do aparelho revelam bem o gás. Escolha o seu modelo no mapa abaixo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.
Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.
Considerações finais
O NGC 6193 ensina algo que os catálogos escondem: que um aglomerado pode ser apenas o ponto mais brilhante de uma história maior. No ocular, é um grupo bonito de estrelas azuis e brancas; na fotografia, é o centro de uma paisagem de gás e poeira. Vale fazer as duas coisas, na mesma noite, e depois seguir para o guia da nebulosa NGC 6188 e para o NGC 6231, outro núcleo de estrelas quentes, no Escorpião.
Referências
- BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 439 (NGC 6193).
- COE, Steven R. Nebulae and How to Observe Them. London: Springer, 2007. NGC 6188 e NGC 6193, p. 102.
- MOBBERLEY, Martin. The Caldwell Objects and How to Observe Them. New York: Springer, 2009. Caldwell 82, p. 172.
- SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, paralaxe e dimensões de NGC 6193 e HD 150136, em 21 set. 2026.
- HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.