setembro 21, 2026

Céu de verão no hemisfério sul: Órion, Sirius, Canopus, o Cruzeiro baixo e a Grande Nuvem de Magalhães

Mapa do céu inteiro em 15 de janeiro, 21h, latitude 23° S: Órion e o Cão Maior altos a leste e nordeste, Canopus, Carena e Vela ao sul-sudeste, Eridano e Achernar a oeste-sudoeste, o Cruzeiro do Sul rente ao horizonte sudeste e o polo sul celeste quase 23° acima do horizonte sul

Quando as nuvens abrem no verão brasileiro, o que aparece de dezembro a fevereiro é uma das paisagens mais ricas do céu inteiro: a maior concentração de estrelas brilhantes de todo o ano. Sirius, a mais brilhante de todas, Canopus, a segunda, Rigel, Betelgeuse, Aldebaran, Capella, Procyon e Achernar estão todas acima do horizonte ao mesmo tempo às 21 horas. Junte-se a isso a Via Láctea atravessando o céu do leste ao sul, a Grande Nuvem de Magalhães como um pedaço solto da Galáxia e o Cruzeiro do Sul nascendo no sudeste, e você tem um roteiro de observação para o verão inteiro.

Este guia trata do céu do hemisfério sul de meados de dezembro a meados de fevereiro, com o mapa do dia 15 de janeiro, às 21 horas locais, na latitude do Rio de Janeiro (23° S). É o mesmo céu, nas mesmas noites e horas, que os observadores do hemisfério norte veem no inverno deles. O que muda é o ponto de vista: eles enxergam Órion alto ao sul e o Grande Carro subindo ao nordeste, e você enxerga Órion quase sobre a cabeça, de cabeça para baixo, e a região das constelações austrais, que eles nunca veem.

O mapa e como lê-lo

Mapa do céu inteiro em 15 de janeiro, 21h, latitude 23° S: Órion e o Cão Maior altos a leste e nordeste, Canopus, Carena e Vela ao sul-sudeste, Eridano e Achernar a oeste-sudoeste, o Cruzeiro do Sul rente ao horizonte sudeste e o polo sul celeste quase 23° acima do horizonte sul
Céu de verão no hemisfério sul: 15 de janeiro, 21h locais, latitude 23° S (Rio de Janeiro). Visto olhando para cima, com o norte em cima e o leste à esquerda. O centro do mapa é o zênite, a borda é o horizonte; as constelações do verão (Órion, Cão Maior, Popa, Carena, Vela, Eridano) ocupam o centro e o lado esquerdo, e o polo sul celeste fica perto da borda inferior.

O mapa mostra o céu como se você estivesse deitado olhando para cima: o centro é o zênite, a borda é o horizonte e, como se olha para o céu e não para o chão, o leste fica à esquerda. A linha dourada é a eclíptica, por onde passam o Sol, a Lua e os planetas; a linha azul é o equador celeste. Em janeiro, às 21 horas, a eclíptica cruza a metade norte do céu, por Touro e Gêmeos. Alturas citadas vêm do cálculo do projeto para o Rio de Janeiro, no centro de cada constelação.

Como se orientar

O Cinturão de Órion. É o ponto de partida do verão. As Três Marias (Alnitak, Alnilam e Mintaka) formam uma linha curta de estrelas azuis quase alinhadas, a nordeste do zênite. No hemisfério sul, Órion aparece de cabeça para baixo em relação às figuras dos livros do norte. Betelgeuse, o ombro vermelho, fica à esquerda e mais alta do que o pé, Rigel, que fica embaixo e à direita, e a espada, com a nebulosa M 42, aponta para o alto em vez de para baixo.

A partir do Cinturão, três alinhamentos abrem o céu do verão:

  1. Para o sudeste (para a esquerda e para baixo), o Cinturão aponta para Sirius, a estrela mais brilhante do céu, a cerca de 8,6 anos-luz de distância (SIMBAD). Ela não tem como ser confundida: branco-azulada, cintilante, e no Rio de Janeiro o Cão Maior está a cerca de 61° de altura às 21 horas.
  2. Para o lado oposto, o noroeste e o alto, o mesmo alinhamento leva à Aldebaran, a estrela alaranjada de Touro, a 66 anos-luz, e, mais adiante, às Plêiades.
  3. Ao norte de Órion, Betelgeuse, Sirius e Procyon (no Cão Menor) formam o triângulo que os observadores do norte chamam de Triângulo de Inverno; no sul, é o mesmo desenho, visto no céu de verão. Procyon está a 11,5 anos-luz.

As estrelas-farol do sul. Canopus, na Carena, é a segunda estrela mais brilhante do céu (magnitude −0,74). Está a 309 anos-luz pelo SIMBAD, e não a 600 como diz o Vieira (Vieira, p. 86). Às 21 horas de janeiro ela está a sudeste, com o céu escuro ao seu redor, sem nenhuma outra estrela brilhante por perto, e por isso é fácil de achar. Achernar, no fim do rio Eridano, a 139 anos-luz, marca o sudoeste. O Vieira relata que Miaplacidus (113 anos-luz) e Avior (605 anos-luz) completam o núcleo da região da Carena (Vieira, p. 86).

O polo sul celeste. Diferentemente do norte, com Polaris, o polo sul não tem estrela brilhante. A mais próxima que dá para ver a olho nu é Sigma Octantis, de magnitude 5,4, a cerca de um grau do polo, fraca demais para a cidade (Ridpath, p. 227). No Rio de Janeiro, o polo fica a 23° de altura, direção sul, bem abaixo do meio do céu. Há dois métodos práticos. O primeiro é prolongar o eixo maior do Cruzeiro do Sul cerca de quatro vezes e meia o seu comprimento. O segundo usa os Apontadores, Alfa e Beta do Centauro: trace uma perpendicular no meio da linha entre elas e siga em direção ao sul. Onde essa perpendicular cruzar o prolongamento do Cruzeiro, está o polo (Ridpath, p. 134). Em janeiro, às 21 horas, o Cruzeiro está muito baixo, a cerca de 8° de altura no sudeste, e os Apontadores só nascem depois; por isso, o polo é mais fácil de achar mais tarde na noite ou no outono, quando a cruz está em pé.

As constelações do sul que dominam o verão

Carena, Vela e Popa: o antigo navio Argo

O céu do sul tem uma região que era uma só constelação, o Navio Argo, e hoje é dividida em três: Carena (a quilha), Popa e Vela (as velas) (Vieira, p. 86). Às 21 horas de janeiro, a Popa está a leste, a cerca de 56° de altura; a Carena e a Vela estão a sudeste, a 34° e 28°. Todas cruzam a Via Láctea, o que as torna um paraíso para binóculos.

Carena. Canopus, a estrela alfa, é uma supergigante branco-amarelada, 200 vezes mais luminosa do que o Sol pelo cálculo do Vieira, ou muito mais pelos valores atuais (Vieira, p. 86). Miaplacidus (beta) e Avior (epsilon) completam a figura. O grande tesouro é a Nebulosa de Carina (NGC 3372), em volta de Eta Carinae, visível a olho nu como uma mancha luminosa e mais bonita, no dizer do Vieira, do que a Nebulosa de Órion (Vieira, p. 86). Os aglomerados abertos NGC 2516, NGC 3293 e NGC 3532 enchem o campo de um binóculo. O IC 2602, as Plêiades do Sul, completa o conjunto.

Vela. Traz uma segunda pista para não confundir a Falsa Cruz com o Cruzeiro do Sul: a Falsa Cruz é formada por estrelas da Carena e da Vela, é maior e mais fraca do que a verdadeira (Ridpath, p. 212). Para o binóculo, o aglomerado IC 2391 e o NGC 2547 são alvos fáceis. Para o telescópio, há um remanescente de supernova, a tênue nebulosa de Vela, cuja explosão, segundo o Vieira, aconteceu há cerca de 10 mil anos (Vieira, p. 87).

Popa. Sua estrela alfa, Naos (zeta), é uma das mais quentes e luminosas que se veem a olho nu: está a 1.083 anos-luz e é uma estrela de tipo O. O Kambič dedica dez páginas aos aglomerados abertos da Popa, todos fáceis em binóculos (Kambič, p. 397-406): M 46, M 47, M 93 e o rico NGC 2477. Em M 46, o Vieira cita a planetária NGC 2438, que parece estar no aglomerado mas não faz parte dele (Vieira, p. 86-87).

Eridano e Achernar

O Eridano é o rio que serpenteia por 58° de declinação, a maior extensão entre as 88 constelações, e sua única estrela notável é Achernar, de magnitude 0,5, na ponta sul (Ridpath, p. 208). Comece perto de Rigel e siga o rio para oeste, para baixo e para o sul, até Achernar, a sudoeste, a 139 anos-luz, azulada e muito achatada pela rotação. Perto do meio do rio está a espiral barrada NGC 1300, a 75 milhões de anos-luz, com uma barra maior do que a da nossa Galáxia (Ridpath, p. 208). Na vizinha Fornax (Forno), o campo de galáxias inclui NGC 1097 e NGC 1365.

Dourado, Reticulum e a Grande Nuvem de Magalhães

O Dourado (Dorado) não tem estrelas brilhantes, mas abriga a maior parte da Grande Nuvem de Magalhães (um pouco entra em Mesa) (Ridpath, p. 223-224). Essa galáxia satélite da nossa está a cerca de 170 mil anos-luz no livro (por volta de 160 mil hoje) e parece uma nuvem solta da Via Láctea, com uns 12 diâmetros da Lua cheia, visível a olho nu (Ridpath, p. 223). O nome, no relato do Ridpath, homenageia Fernão de Magalhães, mas a Nuvem aparece antes no relato árabe de Al-Sufi, no século X (Ridpath, p. 223).

No verão, às 21 horas, a Nuvem está a cerca de 53° de altura, ao sul, e nas noites de janeiro é fácil de achar com o céu escuro: fica na direção de Canopus para o polo. O melhor alvo dentro dela é a Nebulosa da Tarântula (NGC 2070), visível a olho nu, que abriga o núcleo de estrelas recém-nascidas e, perto dela, a SN 1987A, a primeira supernova visível a olho nu em quase 400 anos (Ridpath, p. 223). Para telescópio, há ainda as galáxias NGC 1566 e NGC 1672.

A Pequena Nuvem de Magalhães e o glóbulo 47 Tucanae (NGC 104), em Tucano, ficam a sudoeste e mais baixos, e são mais fáceis a partir do fim do verão e no outono (Ridpath, p. 220). Ao lado dela, o NGC 362 completa o campo.

As circumpolares do Rio

Hidra Macho, Peixe Voador, Mesa, Camaleão, Oitante, Mosca e Ave-do-Paraíso nunca se põem no Rio de Janeiro, mas não têm estrelas notáveis; servem de referência em volta do polo. Pintor, Cinzel, Pomba e Relógio, também austrais, estão altos em janeiro (dados do projeto).

O Cruzeiro do Sul no verão

Em janeiro, às 21 horas, o Cruzeiro do Sul está apenas nascendo no sudeste, a 8° de altura (dados do projeto): deitado e ainda escondido pelos prédios, mas já visível de um horizonte aberto. É o momento em que ele se mostra "de lado"; depois da meia-noite, ele sobe e se levanta, e em abril e maio está em pé, no ponto mais alto, no início da noite (Ridpath; Moore). Para vê-lo bem no verão, prefira as horas depois das 23h, com o eixo mais alto. A Falsa Cruz, mais alta, aparece antes.

As equatoriais e zodiacais: o que o verão tem em comum com o outro hemisfério

As constelações perto do equador celeste são vistas dos dois hemisférios, com alturas diferentes.

Órion. No Rio, Órion está a 59° a nordeste. Da latitude 40° N, ele culmina ao sul, a 54° (dados do projeto). O guia de Órion conta as estrelas, e a Grande Nebulosa (M 42) é um dos alvos mais fáceis do céu, junto com o Homem Correndo (NGC 1977). Rigel está a 863 anos-luz e Betelgeuse a cerca de 500 (SIMBAD, paralaxe imprecisa). Para o Capacete de Thor, veja NGC 2359, no Cão Maior.

Cão Maior, Lebre, Unicórnio. O Cão Maior traz Sirius e o aglomerado M 41, a cerca de 4° ao sul dela, além de NGC 2360 e NGC 2362. A Lebre, sob os pés de Órion, está a 78° de altura, a mais alta de todas. O Unicórnio (50°) tem M 50, a Roseta (NGC 2237 e NGC 2244) e o Cone (NGC 2264). O Cão Menor (38°) só é notável por Procyon.

Touro, Gêmeos, Câncer. No Rio, Touro está a 52° ao norte, com as Plêiades e as Híades, e Gêmeos, a 33° a nordeste, com M 35, sobe depois de Órion; Câncer nasce mais tarde, e o Presépio já aparece de madrugada. No guia de Touro, Aldebaran está a 66 anos-luz. O Caranguejo M 1 e a Nebulosa Esquimó (NGC 2392) ficam no mesmo lado do céu.

O que o hemisfério norte vê de diferente

O céu de verão no sul é o céu de inverno no norte, e a lista dos dois hemisférios tem uma parte em comum e outra bem diferente (dados do projeto para a latitude de 40° N):

Constelação Rio de Janeiro (23° S) Nova York ou Madri (40° N)
Órion 59°, a nordeste, de cabeça para baixo 54°, ao sul, de pé
Touro 52°, ao norte 65°, ao sul
Cocheiro 23°, ao norte 75°, a leste
Cão Maior 61°, a leste 21°, a sudeste
Eridano 70°, a oeste 19°, ao sul
Carena e Vela 34° e 28°, a sudeste não aparecem
Cruzeiro do Sul 8°, a sudeste não aparece
Ursa Maior abaixo do horizonte 25°, a nordeste, circumpolar
Cassiopeia abaixo do horizonte 52°, a noroeste, circumpolar

Alturas do centro de cada constelação em 15 de janeiro, às 21 horas locais, calculadas pelo projeto; constelações grandes se estendem além do ponto usado.

Em resumo: no hemisfério norte o céu do inverno é dominado pelo Cocheiro, Perseu, Touro e Órion altos, com Sirius baixa e Canopus sempre abaixo do horizonte; no sul, o mesmo céu tem Órion e Sirius quase sobre a cabeça, e as regiões austrais (Carena, Vela, Dourado, Cruzeiro) aparecem inteiras ou nascendo. O Cruzeiro do Sul e a Grande Nuvem não são vistos pela maior parte da Europa e dos Estados Unidos. Do mesmo modo, Cassiopeia e a Ursa Maior, sempre visíveis lá, ficam abaixo do horizonte no Rio de Janeiro (dados do projeto).

Dicas de observação

  • Melhor horário. As 21 horas são a hora do mapa. Em dezembro, a mesma vista chega uma ou duas horas depois; em fevereiro, uma ou duas horas antes. As cartas mensais do Ridpath trazem uma tabela de horas por quinzena e um ajuste de uma hora para o horário de verão (Ridpath, p. 233); confira o horário vigente na sua região.
  • Cidade e Bortle 7. Em um céu de Bortle 7, como o do Rio de Janeiro, os alvos de olho nu são as estrelas brilhantes, as três Marias, Sirius, Canopus, Achernar e a cor de Betelgeuse. Para o binóculo, funcionam os aglomerados abertos: M 41, M 46, M 47, M 35, as Plêiades, NGC 2516 e IC 2602. M 42 aparece mesmo em cidade.
  • Planetas. Se houver um planeta brilhante na noite, procure-o ao longo da linha dourada (eclíptica) do mapa; as posições mudam a cada mês.

Considerações finais

Órion, Sirius, Canopus, Achernar e a Grande Nuvem juntos numa só noite são boa razão para sair ao ar livre em janeiro. Para ver o mesmo céu do outro lado da Terra, leia o Céu de inverno no hemisfério norte: as mesmas noites, com Órion de pé, Cassiopeia e Ursa Maior circumpolares e o Cruzeiro fora de alcance.

Referências

  • KAMBIČ, Bojan. Viewing the Constellations with Binoculars: 250+ Wonderful Sky Objects to See and Explore. New York: Springer, 2010. Popa: aglomerados abertos M 46, M 47 e NGC 2477, p. 397-406; Vela e IC 2391, p. 485-486.
  • MOORE, Patrick. The Observer's Year: 366 Nights of the Universe. 2. ed. London: Springer, 2005. Cruzeiro do Sul (noite de 26 de abril), p. 121-122.
  • MOURÃO, Ronaldo Rogério de Freitas. Dicionário enciclopédico de astronomia e astronáutica. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987. Verbete "Doradus".
  • RIDPATH, Ian. Astronomia (Guia Ilustrado Zahar). 4. ed. Rio de Janeiro: Zahar. Como achar o polo sul, p. 134; Cão Maior e Sirius, p. 192-193; Eridano, p. 208; Falsa Cruz, p. 212; Tucano, p. 220; Dourado e Grande Nuvem de Magalhães, p. 223-224; Oitante e o polo sul, p. 227; cartas de verão e comparação norte-sul, p. 229-237.
  • VIEIRA, Fernando. Identificação do céu. Carena, Vela e Popa (o Navio Argo), p. 86-87.
  • SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a magnitudes, tipos espectrais e paralaxes, em 21 set. 2026.
  • HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, usada no mapa do céu; limites e linhas de constelação da IAU e do d3-celestial.