setembro 21, 2026
NGC 2070 (Caldwell 103), a Nebulosa da Tarântula: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.
Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. UK Schmidt Telescope (UKST) / AAO–ROE. Créditos
Se a Nebulosa de Carina é a rainha do céu do sul dentro da nossa Galáxia, a Tarântula é a rainha que vive fora dela. Ela fica na Grande Nuvem de Magalhães, uma galáxia-satélite da Via Láctea a cerca de 160.000 a 170.000 anos-luz, e mesmo a essa distância é visível a olho nu como uma mancha, o que Mobberley chama de único objeto do catálogo Caldwell que é ao mesmo tempo uma nebulosa grande e brilhante e está fora da nossa Galáxia. Este guia, para quem observa do Rio de Janeiro, reúne os números, o mapa, a altura, o que dá para ver com cada instrumento e a estratégia de fotografia.
Texto em revisão. Este é um dos guias de teste do novo formato de guia de objeto. As fontes estão listadas no final.

Ficha técnica e designações
Visão geral: uma nebulosa de emissão em outra galáxia
Uma nebulosa de emissão é uma nuvem de gás que brilha porque estrelas muito quentes e jovens dentro dela a iluminam. A Tarântula é a maior região desse tipo conhecida em todo o Grupo Local (Mobberley), e Coe a chama de a maior região de hidrogênio ionizado do Universo conhecido: a NGC 604, da galáxia M 33, teria só metade do tamanho, se estivesse à mesma distância. Moore e Rees dão uma medida da grandeza: se estivesse tão perto de nós quanto a Nebulosa de Órion, ela projetaria sombras (Moore e Rees).
A Tarântula em números. O brilho integrado é de magnitude 4 e o tamanho aparente, de 30′ × 20′ (Mobberley), o que, na distância da Grande Nuvem, corresponde a cerca de 1.500 anos-luz na parte interna visível para os amadores (Bakich diz cerca de 1.000), e o complexo inteiro é o dobro disso (Mobberley). No centro está um aglomerado de magnitude 7,3 (SIMBAD), com cerca de 3,5′, e o conjunto de nebulosa e aglomerado é chamado de 30 Doradus (Mobberley). O aglomerado central tem cerca de 3 milhões de anos de idade (Mobberley).
R136. O núcleo compacto, chamado R136, contém estrelas azuis jovens e extremamente massivas (Allison) e cerca de 60 das estrelas mais massivas, brilhantes e quentes que se conhece (Bakich). Allison a classifica como a região de "super aglomerado" de estrelas mais próxima de nós, o que facilita estudar em detalhe o que acontece em galáxias mais distantes. A massa da região não tem valor firme nos livros consultados: Mourão, com dados antigos, dá 3.000 massas solares, e Allison, mais de 100 milhões, o que parece exagerado (ver pendências).
Descoberta e nome. Flamsteed a catalogou como uma estrela, 30 Doradus (Bakich). Lacaille reconheceu a natureza nebulosa em 1751 (Mobberley; Bakich: em 5 de dezembro) e a incluiu no catálogo de 1755. O nome Tarântula vem da forma de aranha com pernas peludas, que Coe encontra logo em pequeno refrator. Smyth chamou de "Nó dos Amantes" as cordas de nebulosidade em volta das regiões escuras, uma imagem dos marinheiros holandeses do século XVI (Bakich).
A supernova de 1987. Para quem nasceu antes de 1970, lembra Mobberley, a Tarântula é lembrada por causa da SN 1987A, a única supernova das vizinhanças da Via Láctea vista a olho nu em mais de 400 anos. O Data Book confirma que ela apareceu na periferia da Tarântula e que foi a única supernova a olho nu do século XX (Moore e Rees).
Estruturas notáveis
- A forma de aranha. Com telescópio de 5″ e 18 mm, Coe vê a nebulosa brilhante, grande, com o meio mais claro e uma figura irregular; com visão desviada, as pernas ficam mais grossas.
- Laços e filamentos. Com 100 mm, o Bakich já cita laços e filamentos, além de uma barra central norte-sul e do aglomerado R136 como uma região estrelada. Duas baías escuras ficam a leste.
- Faixas escuras e curvas de nebulosidade. Em 12″ f/15 com UHC, Coe encontra 26 estrelas no campo, filamentos em curvas saindo do aglomerado central e vias escuras finas por toda a nebulosa; a estrela mais brilhante é laranja.
- Companheiros. Coe cita outros objetos da Grande Nuvem, como NGC 1714, NGC 1761/1763/1769 e NGC 1874/1876, em pequeno refrator, e um laço tênue de cerca de 3° acima da Tarântula.
Como localizar
Primeiro ache a Grande Nuvem, que a olho nu parece uma nuvem fantasmagórica de 11° × 9° no sul de Dorado, esticando-se para dentro de Mensa (Mobberley). A Tarântula fica 1° acima (ao norte) da divisa entre Dorado e Mensa, perto da borda sudeste da Nuvem. A rota do Mobberley: 3½° ao sul e 0,6° a oeste de delta Doradus (magnitude 4,3), ou 16½° ao sul e 5½° a oeste de Canopus. Em binóculo 8×42, a Nuvem tem forma de L, com a Tarântula no lado curto (Coe).

Quando e como observar
A declinação de cerca de −69° faz a Tarântula culminar a cerca de 44° de altura no Rio de Janeiro. Mobberley a classifica como circumpolar abaixo de 21°S; em −23° a Tarântula quase é: no ponto mais baixo, chega a apenas cerca de 2° acima do horizonte sul, e por isso perde a utilidade por várias horas. A melhor época, segundo Mobberley, vai de novembro a fevereiro, com a culminação à meia-noite por volta de meados de dezembro.
Olhando para o sul, o norte fica para baixo e o leste, à esquerda. Como a Nuvem é grande e fica no sul, um ponto de céu escuro do lado sul do horizonte faz muita diferença, mais que a altura.
O primeiro gráfico mostra a altura do objeto ao longo do ano para o local do observatório; o segundo, o caminho da Tarântula pelo céu nesta noite (zênite no centro, cores pela altura e linha pontilhada, tracejada ou contínua conforme o crepúsculo), seguido da altura hora a hora.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
2026-10-13 · 19:20 – 04:10
Esta noite no céu
- Melhor horário
- 04:00 · 44° S
- Horas acima de 45°
- 0,0 h
- Lua
- Lua crescente · 12 %
- Nota da noite
- 60 / 100
- Posição no céu
- 40
- Brilho
- 81 mag 7,3
- Enquadramento
- 100 ocupa 36 % do campo
Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).
- Crepúsculo civil (Sol até −12°)
- Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
- Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
- Altura abaixo de 20°
- Altura abaixo de 30°
- Altura abaixo de 45°
- Hora cheia e meia hora
- Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
| Hora | Altura | Direção | Da Lua |
|---|---|---|---|
| 19:30 | 9° | SSE 163° | 84° |
| 20:00 | 11° | SSE 162° | 84° |
| 20:30 | 14° | SSE 160° | 84° |
| 21:00 | 16° | SSE 159° | 84° |
| 21:30 | 19° | SSE 158° | 84° |
| 22:00 | 21° | SSE 158° | 84° |
| 22:30 | 24° | SSE 157° | 84° |
| 23:00 | 27° | SSE 157° | 84° |
| 23:30 | 29° | SSE 158° | 84° |
| 00:00 | 32° | SSE 159° | 84° |
| 00:30 | 34° | SSE 160° | 84° |
| 01:00 | 37° | SSE 162° | 84° |
| 01:30 | 39° | SSE 164° | 84° |
| 02:00 | 40° | SSE 166° | 84° |
| 02:30 | 42° | S 169° | 84° |
| 03:00 | 43° | S 173° | 84° |
| 03:30 | 44° | S 176° | 84° |
| 04:00 | 44° | S 180° | 83° |
Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
O que ver
| Instrumento | O que esperar |
|---|---|
| A olho nu | Mobberley a descreve como facilmente visível a olho nu: a Grande Nuvem é uma mancha evidente e a Tarântula, uma condensação brilhante na borda dela. Em Bortle 7, isso vale para uma noite transparente, com o alvo alto. |
| Binóculo (7×50 a 15×70) | A Nuvem em forma de L, com a Tarântula como mancha brilhante e alongada no lado curto (Coe). Mais detalhes com 10×50 ou maior, em céu escuro. |
| Telescópio de 100 a 150 mm | Com 100 mm, laços e filamentos, barra central norte-sul e R136 como região estrelada, com duas baías escuras a leste (Bakich). Em 5″, a forma de aranha e as "pernas" com visão desviada (Coe). Mobberley pede 10 cm ou mais e recomenda o filtro UHC. |
| Telescópio de 250 a 350 mm | Em 12″ com UHC, "espetacular": 26 estrelas, filamentos em curva e vias escuras finas (Coe). Baixo aumento: mais do complexo. |
Expectativa honesta: mesmo em Bortle 7, a Tarântula é um dos alvos mais fáceis do céu do sul. Mas em céu urbano a Grande Nuvem perde muito do seu contorno, e a nebulosa fica com menos detalhe do que nas fotos. O UHC ajuda. Uma noite escura, com a Nuvem alta, mostra muito mais.
Astrofotografia: estratégia de captura
Enquadramento
A Tarântula tem cerca de 30′ × 20′. Com um telescópio de 1.000 mm e uma câmera como a ASI294MC Pro (sensor de 19,1 × 13,0 mm), o campo é de cerca de 1,1° × 0,75° (calculado): a nebulosa cabe com folga e o quadro inclui parte da Nuvem e outros aglomerados. Com uma teleobjetiva de 200 a 300 mm, cabe grande parte da Grande Nuvem, de 11° × 9° (Mobberley).
Desafios do alvo
- Altura no Rio. A Tarântula chega a no máximo cerca de 44°, mais baixa que a Carina; é preciso fotografar perto da culminação para reduzir a atmosfera.
- Contraste. O núcleo com R136 é muito brilhante, e as pernas externas são fracas; combine exposições curtas e longas.
- Poluição de Bortle 7. Um filtro dual-band ajuda a isolar o H-alfa e o OIII.
Equipamento e filtros
Mobberley diz que a Tarântula é um "superb LRGB and H-alpha target", isto é, um excelente alvo tanto em cores reais (LRGB) quanto com filtro de H-alfa. Uma câmera colorida com filtro dual-band ou uma câmera monocromática com H-alfa, OIII e S-II funcionam bem.
Exemplo de sessão (ponto de partida)
| Tipo de quadro | Quantidade | Exposição | Finalidade |
|---|---|---|---|
| Light (dual-band ou RGB) | 60 a 90 | 120 a 180 s | Filamentos e pernas |
| Light curto | 20 | 10 a 20 s | Núcleo com R136, sem estourar |
| Dark | 30 | igual aos Lights | Calibração do ruído térmico |
| Flat | 30 | automática | Correção de vinheta e poeira |
| Bias ou dark-flat | 50 | mais curta possível | Calibração do ruído de leitura |
Esses números são um ponto de partida, e não vêm dos livros. Como referência, a imagem de Geoff Wingham no Mobberley é uma composição de mais de 200 minutos de exposições com um SCT de 9,25″ a f/5 e câmera colorida.
Smart telescopes e campo de visão
A Tarântula cabe com folga no campo de um smart telescope como o Seestar S50 (cerca de 1,3° × 0,7°), com espaço para parte da Nuvem em volta. Por ser brilhante, a nebulosa aparece em poucos minutos de empilhamento. Escolha o seu modelo no mapa abaixo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.
Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.
Considerações finais
A Tarântula é o melhor exemplo de que nem tudo que é extragaláctico é difícil: uma nebulosa de outra galáxia que se vê a olho nu, com a forma e o brilho para render horas de observação. Combinada com a Nebulosa de Carina, do lado oposto do céu austral, ela faz do céu do sul o mais rico em nebulosas gigantes.
Referências
- ALLISON, Mark. Star Clusters and How to Observe Them. London: Springer, 2006. 30 Doradus, p. 52.
- BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 966 (NGC 2070).
- COE, Steven R. Nebulae and How to Observe Them. London: Springer, 2007. NGC 2070, p. 66.
- MOBBERLEY, Martin. The Caldwell Objects and How to Observe Them. New York: Springer, 2009. Caldwell 103, p. 212-213.
- MOORE, Patrick; REES, Robin. Patrick Moore's Data Book of Astronomy. Cambridge: Cambridge University Press, 2011. Nebulosas, p. 353.
- MOURÃO, Ronaldo Rogério de Freitas. Dicionário enciclopédico de astronomia e astronáutica. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987. Verbete "Tarântula" (p. 773).
- SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas e dimensões de NGC 2070, em 21 set. 2026.
- HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.