setembro 21, 2026
NGC 1365, a grande espiral barrada de Fornax: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.
Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. UK Schmidt Telescope (UKST) / AAO–ROE. Créditos
Se existe uma galáxia que faz jus à ideia de que "o céu do sul é mais rico", é esta. NGC 1365 é uma espiral barrada de aparência quase de manual: uma barra brilhante cruzando o núcleo e dois braços largos que saem das pontas, enrolando-se em direção ao exterior. Fica em Fornax, o Forno, uma constelação pequena e discreta que passa muito alta no céu do Rio de Janeiro nas noites de fim de ano. Para quem observa do hemisfério norte, é uma galáxia difícil ou inacessível; para nós, é um alvo respeitável que aparece já em telescópios de 100 mm, com a barra e o núcleo, e que devolve um resultado espetacular em fotografias longas. Este guia reúne os dados, o modo de localizar, o que esperar no ocular em Bortle 7 e uma estratégia de astrofotografia.
Texto em revisão. Este é um guia no novo formato de objeto. As fontes estão listadas no final e as divergências entre elas, nas pendências do artigo.

Ficha técnica e designações
| Designação principal | NGC 1365 |
|---|---|
| Outras designações | NGC NGC 1365 PGC / UGC PGC 13179 |
| Tipo de objeto | Galáxia |
| Constelação | Fornax |
| Coordenadas (J2000) | RA 03h 33m 36s | Dec −36° 08′ 25″ |
| Distância da Terra | ~58 milhões anos-luz (estimativas de 38 milhões a 78 milhões) |
| Magnitude aparente | +10,1 |
| Tamanho aparente | 12′ |
| Melhor época (BR) | Novembro, Dezembro, Janeiro |
Visão geral: o que é uma galáxia espiral barrada
Uma galáxia espiral tem um bojo central de estrelas mais velhas e um disco achatado, onde ficam os braços, ricos em gás, poeira e estrelas jovens. Em cerca de metade das espirais a região central não é redonda: as estrelas se arrumam numa barra reta que atravessa o bojo, e os braços saem das extremidades dela. É a espiral barrada. A barra funciona como uma "esteira": ela conduz gás em direção ao centro, o que alimenta a formação de estrelas e, em alguns casos, o buraco negro supermassivo do núcleo. A nossa própria Via Láctea é considerada barrada.
NGC 1365 é o exemplo que Monks escolhe para lembrar isso: uma espiral barrada de dois braços principais que ganhou fama recente como possível análoga da Via Láctea, já que estudos recentes sugerem que a nossa Galáxia tem só dois braços principais, e não quatro (Monks). Bakich a chama de melhor barrada do céu e lamenta que fique longe do céu do norte.
A NGC 1365 em números. Segundo o SIMBAD, é uma espiral barrada do tipo SB(s)b, com núcleo Seyfert 1 (um núcleo ativo, alimentado por um buraco negro central), de magnitude visual 9,6 e tamanho de cerca de 7,6′ × 4,5′, com o eixo maior quase na direção leste-oeste. A luz total, porém, se espalha por essa área, e o brilho por ponto é baixo: na prática, o que se vê com facilidade é o miolo. A galáxia está a cerca de 55 a 75 milhões de anos-luz, dependendo do método de medida (Monks e Ridpath usam 60 milhões); nessa distância, o diâmetro fica na casa de 150.000 anos-luz para a região brilhante, e Monks, olhando para as partes mais tênues, fala de quase 200.000, o que a coloca entre as chamadas galáxias supergigantes (Monks).
Onde ela mora. Faz parte do aglomerado de Fornax, um grupo de galáxias a cerca de 60 milhões de anos-luz, com cerca de 18 membros mais brilhantes e muitos mais fracos (Kambič). O membro mais brilhante do aglomerado é a NGC 1316 (veja o guia da Fornax A) e, a poucos graus, ficam a NGC 1399, a elíptica central (guia da galáxia central do aglomerado de Fornax), e a barrada NGC 1097.
O que o Hubble mostrou. Bakich lembra que as observações do Hubble indicaram que a galáxia alimenta a região central, dando início a um nascimento estelar massivo, ao crescimento do bojo e à alimentação do buraco negro supermassivo. É uma boa lição: numa barrada, o que parece apenas uma bela forma é também uma máquina de transportar gás.
Estruturas notáveis
- A barra. É a parte mais fácil depois do núcleo: com 100 mm em céu escuro, já se vê a barra e o centro brilhante (Bakich).
- O núcleo elíptico. Em céu suburbano, é o que a maioria dos observadores vê: um miolo elíptico bem brilhante (Monks).
- Os dois braços. Com 200 mm, o braço mais brilhante sai ao norte da ponta oeste da barra, e o outro é mais grumoso, com grandes regiões de formação estelar (Bakich). Em céu urbano, exigem telescópios grandes e ar estável, e mesmo assim são só sugestões (Monks).
- A poeira e as regiões de formação estelar. Só as fotografias as mostram bem: faixas escuras junto à barra e nós rosados ao longo dos braços.
- As galáxias vizinhas do campo. Em fotografias de campo largo, a região tem várias outras galáxias fracas de Fornax.
Como localizar
Fornax é uma constelação pequena e sem estrelas brilhantes; a melhor pista para achá-la é a fileira sinuosa de estrelas de Eridano rotuladas de Tau-3 a Tau-6 nos mapas (Kambič). A partir dali, procure o triângulo das estrelas Chi-1 (mag. 6,4), Chi-2 (5,7) e Chi-3 (6,5) de Fornax, e, de Chi-2, ande cerca de 1,3° para lés-sudeste (Bakich). É um salto curto e o campo se parece pouco com o da fotografia: use um ocular de campo largo para achar o quadrado de estrelas primeiro.

Quando e como observar
A NGC 1365 tem declinação de cerca de −36°, então passa pelo meridiano a cerca de 13° ao sul do zênite do Rio de Janeiro, com uma altura de cerca de 77°. Isso é ótimo para um objeto de brilho por ponto baixo, porque a luz atravessa pouca atmosfera. A melhor época vai de novembro a janeiro: ela cruza o meridiano por volta da meia-noite em meados de novembro e em torno das 21 h no fim de dezembro. Do hemisfério norte, ela quase não sobe: Monks lembra que, no sul da Inglaterra, a vizinha NGC 1097 nasce a menos de 7° do horizonte, e a NGC 1365, mais ao sul, fica ainda pior. Nós temos, portanto, a melhor vista.
O primeiro gráfico mostra a altura da galáxia ao longo do ano para o local do observatório; o segundo mostra o caminho dela pelo céu nesta noite, seguido da altura hora a hora.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
2026-10-12 · 19:20 – 04:10
Esta noite no céu
- Melhor horário
- 02:00 · 77° S
- Horas acima de 45°
- 5,3 h
- Lua
- Lua crescente · 6 %
- Nota da noite
- 80 / 100
- Posição no céu
- 87
- Brilho
- 37 mag 10,1
- Enquadramento
- 100 ocupa 27 % do campo
Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).
- Crepúsculo civil (Sol até −12°)
- Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
- Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
- Altura abaixo de 20°
- Altura abaixo de 30°
- Altura abaixo de 45°
- Hora cheia e meia hora
- Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
| Hora | Altura | Direção | Da Lua |
|---|---|---|---|
| 19:30 | 7° | SE 126° | 121° |
| 20:00 | 13° | SE 124° | 121° |
| 20:30 | 19° | ESE 122° | 121° |
| 21:00 | 25° | ESE 121° | 121° |
| 21:30 | 31° | ESE 120° | 121° |
| 22:00 | 37° | ESE 119° | 121° |
| 22:30 | 43° | ESE 119° | 121° |
| 23:00 | 49° | ESE 119° | 121° |
| 23:30 | 55° | ESE 121° | 121° |
| 00:00 | 61° | ESE 124° | 121° |
| 00:30 | 66° | SE 129° | 121° |
| 01:00 | 71° | SE 139° | 121° |
| 01:30 | 75° | SSE 155° | 121° |
| 02:00 | 77° | S 180° | 121° |
| 02:30 | 75° | SSW 205° | 121° |
| 03:00 | 72° | SW 221° | 121° |
| 03:30 | 67° | SW 231° | 121° |
| 04:00 | 61° | WSW 236° | 121° |
Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
O que ver
| Instrumento | O que esperar |
|---|---|
| A olho nu | Invisível. |
| Binóculo (10×50) | Só num céu muito escuro e com prática; procure uma mancha pequena e fraca. O binóculo é mais útil para achar o campo de Chi Fornacis. |
| Telescópio de 100 a 150 mm | Em céu escuro, a barra e o centro brilhante (Bakich). Em céu urbano, só o miolo. |
| Telescópio de 200 mm | Mais aberturas revelam a barra e os dois braços, o mais brilhante ao norte da ponta oeste da barra, o outro mais grumoso (Bakich). |
| Telescópio de 300 mm ou mais | Em céu escuro, o núcleo, a barra brilhante e sugestões dos dois braços frágeis (Monks). Ar estável e um alvo alto ajudam mais que a abertura. |
Expectativa honesta. Em Bortle 7, como no Rio, a NGC 1365 se resume ao núcleo elíptico e, com sorte, à barra. Monks diz o mesmo de céus suburbanos: o realista é se contentar com o núcleo brilhante. Os braços são um prêmio para noites escuras em serra ou litoral distante das luzes, e Monks lembra do risco de "ver" só o que se sabe que está lá.
Astrofotografia: estratégia de captura
Enquadramento
A galáxia tem cerca de 8′ de tamanho e, com as regiões fracas, chega a uns 12′. Com um telescópio de 1.000 mm e uma câmera como a ASI294MC Pro, o campo é de cerca de 1,1° × 0,75° (calculado do sensor e da focal): a galáxia ocupa uma parte modesta do quadro, o que deixa espaço para as estrelas de campo e pequenas companheiras. Com focais mais longas (1.500 a 2.000 mm), a galáxia enche melhor o quadro, e a barra e os braços ganham detalhe.
Desafios do alvo
- Brilho por ponto baixo nos braços. O núcleo e a barra são brilhantes, mas os braços precisam de muita exposição total. Em Bortle 7, um filtro de poluição luminosa (ou de banda larga, como um "light pollution") ajuda a manter o fundo do céu sob controle.
- Faixa dinâmica. O núcleo Seyfert é muito mais claro que os braços; use exposições mais curtas e empilhe, ou combine séries de duração diferente, para não estourar o centro.
- Cores. Braços azulados e regiões de formação estelar rosadas contra o núcleo amarelado: uma câmera colorida de um disparo já mostra bem isso, mas o tratamento de cor exige cuidado com o ruído.
Equipamento e filtros
Uma câmera colorida de um disparo com um filtro de poluição luminosa é um bom ponto de partida em Bortle 7. Para quem tem câmera monocromática, uma série de luminância (a que traz o detalhe) mais RGB é o caminho clássico; o H-alfa pode realçar as regiões de formação estelar dos braços. Fotografe perto do meridiano, quando o alvo está mais alto, para reduzir a refração e a extinção, algo fácil aqui. A guiagem precisa ser boa em focais longas.
Exemplo de sessão (ponto de partida)
| Tipo de quadro | Quantidade | Exposição | Finalidade |
|---|---|---|---|
| Light (RGB ou filtro de poluição luminosa) | 60 a 120 | 120 a 180 s | Núcleo, barra e braços; o importante é o tempo total |
| Dark | 30 | igual aos Lights | Calibração do ruído térmico |
| Flat | 30 | automática | Correção de vinheta e poeira |
| Bias ou dark-flat | 50 | mais curta possível | Calibração do ruído de leitura |
Esses números são um ponto de partida, e não vêm dos livros.
Smart telescopes e campo de visão
A galáxia, de menos de 10′, cabe com folga no campo de um smart telescope como o Seestar S50 (cerca de 1,3° × 0,7°), mas fica pequena no quadro. Espere ver o núcleo e a barra em poucos minutos de empilhamento e os braços, com paciência, depois de uma ou duas horas em céu escuro. Escolha o seu modelo no mapa abaixo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.
Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.
Considerações finais
A NGC 1365 é um dos melhores exemplos de "galáxia de livro-texto" ao alcance de um telescópio pequeno: uma barra e dois braços que se veem em fotografia e que se sugerem no ocular, numa noite boa. É também uma boa razão para conhecer Fornax, onde a NGC 1097, a NGC 1316 e a NGC 1399 completam uma noite dedicada ao aglomerado. Em Bortle 7, seja honesto sobre o que o ocular entrega, e deixe a câmera fazer o resto.
Referências
- BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 868 (NGC 1365).
- KAMBIČ, Bojan. Viewing the Constellations with Binoculars: 250+ Wonderful Sky Objects to See and Explore. New York: Springer, 2010. Fornax, p. 296 (e p. 150).
- MONKS, Neale. Go-To Telescopes Under Suburban Skies. London: Springer, 2010. NGC 1365, p. 204.
- RIDPATH, Ian. Astronomia (Guia Ilustrado Zahar). 4. ed. Rio de Janeiro: Zahar. Aglomerado de Fornax e NGC 1365, p. 207.
- SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, tipo morfológico, dimensões, magnitude e distâncias de NGC 1365, em 21 set. 2026.
- HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.