setembro 21, 2026

M 1, a Nebulosa do Caranguejo: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2) de M1 — Nebulosa do Caranguejo — objeto ainda não capturado no observatório

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.

Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Créditos

Poucos objetos do céu profundo têm uma história tão bem documentada quanto M 1. Em 1054, astrônomos chineses registraram uma "estrela-visita" tão brilhante quanto Vênus, visível em pleno dia. Quase 1.000 anos depois, o que sobrou dessa explosão é uma mancha oval fraca, do tamanho de um pedaço pequeno da Lua, com uma estrela de nêutrons que gira cerca de 30 vezes por segundo no meio. É a Nebulosa do Caranguejo, primeiro objeto do catálogo de Charles Messier e um dos mais estudados do céu. Este guia conta essa história, explica como achar M 1 na direção de Touro, o que aparece em cada instrumento e como fotografar um alvo tão pequeno.

Texto em revisão. Este é um guia no novo formato. Os livros consultados trazem muitas divergências sobre M 1 (distância, tamanho, data e nome). O texto usa o SIMBAD para os dados e registra o que difere nas pendências.

Imagem de referência (DSS2) de M1 — Nebulosa do Caranguejo — objeto ainda não capturado no observatório
Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Imagem de referência: este objeto ainda não foi fotografado no Observatório. Créditos

Ficha técnica e designações

Visão geral: o que sobrou de uma supernova

M 1 é um remanescente de supernova, os restos de uma estrela massiva que explodiu. Kier explica que a explosão é do tipo II: uma estrela de pelo menos 9 massas solares fica sem combustível nuclear, o núcleo colapsa e as camadas externas são expelidas (Kier, p. 25). Kambič dá um limite de 11 massas solares para a progenitora do Caranguejo (p. 465-467). Os filamentos que se veem hoje são restos da atmosfera da estrela, iluminados pela radiação de um pulsar no centro (Kier).

Um plerion. Philip's classifica M 1 como plerion, um remanescente preenchido, em vez de uma casca oca (Philip's, p. 104; Moore e Rees, p. 336). A luz azulada vem da radiação síncrotron, emitida por elétrons que giram em espiral em campos magnéticos a velocidades próximas às da luz. Philip's a chama de a única nebulosa síncrotron visível em telescópios pequenos, e descreve filamentos avermelhados de hidrogênio sobre um brilho amarelado.

O pulsar. No centro há uma estrela de nêutrons de 20 a 30 km de diâmetro que gira cerca de 30 vezes por segundo (Kambič; Philip's, p. 105), e emite em todo o espectro, do rádio aos raios gama (Moore, Observer's Year). Ela é fraca demais para ser vista num telescópio pequeno: sua magnitude é da ordem de 15 a 16 (Moore e Rees, p. 336; Coe, p. 81). A descoberta de pulsares, em 1967-1968, e a identificação do pulsar do Caranguejo confirmaram que estrelas de nêutrons existem (Kambič, p. 465-467; Philip's, p. 105).

Distância e tamanho. O SIMBAD lista 2 kpc, ou cerca de 6.500 anos-luz, valor que coincide com Philip's, Moore e Rees e Monks. Moore diz 6.000 e Mollise, 6.300. O tamanho aparente no SIMBAD é de 7′ × 5′, um pouco maior que os 6′ × 4′ de Kier, Kambič e Monks, o que, a 6.500 anos-luz, corresponde a uns 9 a 13 anos-luz (calculado). Kambič estima a velocidade de expansão a partir de 0,2″ por ano nas bordas: cerca de 960 km/s.

A explosão de 1054. Cronistas chineses, japoneses e coreanos registraram a "estrela-visita". Philip's dá a data de 4 de julho de 1054 e menciona duas gravuras rupestres do sudoeste dos Estados Unidos que podem mostrar a supernova ao lado da Lua crescente (Philip's, p. 105). Moore e Rees notam que ela teria sido vista pela primeira vez em abril ou maio, com pico em julho. Monks cita 23 dias visível em pleno dia e 653 noites visível no total, com magnitude de pico próxima de −6 (p. 235-237). Os livros divergem em detalhes de duração e data; o essencial é que ela foi mais brilhante que Vênus por semanas e ficou visível por mais de um ano.

Do céu ao catálogo. John Bevis viu a mancha em 1731. Messier a redescobriu em 28 de agosto de 1758, quando procurava o cometa Halley, e a incluiu no topo do seu catálogo de objetos que se confundem com cometas (Tonkin, p. 236; Kambič; Moore e Rees). Lord Rosse a desenhou nos anos 1840 com o refletor de Birr, e os filamentos lembraram as patas de um caranguejo, o que deu o nome à nebulosa (Ridpath, p. 172-173; Philip's, p. 104).

Estruturas notáveis

  • A elipse. É o que qualquer telescópio pequeno mostra: uma elipse fraca de uns 6 × 4 minutos de arco, alongada no sentido noroeste a sudeste (Bakich; Monks, p. 192).
  • Os filamentos. Redes de hidrogênio avermelhado, em fotografias com filtro H-alfa, cercam o brilho azulado central (Philip's).
  • Uma linha em S. Coe descreve em alta ampliação uma estrutura fina em forma de S de um extremo ao outro, o traço mais visível dos "apêndices" (p. 81).
  • A cor. Coe viu um tom cinza-esverdeado a alta ampliação.
  • O pulsar. Não é visível ao olho ou a um telescópio pequeno, mas dá nome ao que alimenta o brilho da nebulosa.

Como localizar

M 1 fica cerca de 1° a noroeste de Zeta Tauri, a estrela na ponta do chifre sul de Touro (Kambič, p. 461-462; Machholz, p. 117; Bakich). Mollise escreve "sul-sudeste", o que as coordenadas do SIMBAD desmentem. Tonkin nota que Zeta fica na borda de um campo de binóculo em que M 1 está no meio (p. 236).

Do Brasil, olhe para o norte: leste à direita, oeste à esquerda, e o norte celeste para baixo, na direção do horizonte. A orientação nas cartas de livros europeus e americanos vem com o norte para cima; o campo aparece invertido em relação a nós.

Carta de localização de M1: as estrelas-guia nomeadas, setas tracejadas com a distância em graus até o alvo, escala em graus e indicação de norte e leste.
Carta de localização (star-hopping), no mesmo estilo das cartas de constelação: norte e leste indicados no canto. Anéis laranja: estrelas-guia; setas tracejadas: o caminho até o alvo, com a distância em graus; anel verde: o alvo (e, com a designação, outros objetos do campo); a barra mostra a escala. As linhas são as oficiais das constelações (d3-celestial), os limites são os da IAU e as estrelas vêm do catálogo HYG.

Quando e como observar

M 1 tem declinação de +22°, e o Rio está a −23°, de modo que a altura máxima é de cerca de 45°, no norte. É um pouco baixa, mas suficiente. A melhor época vai de novembro a fevereiro: ele passa pelo meridiano por volta das 21 h no fim de janeiro, e por volta da meia-noite no início de dezembro. Mollise recomenda observar perto do meridiano, quando a nebulosa está mais alta (p. 182). No verão, Touro é uma constelação do início da noite, bem posicionada, e você pode combinar M 1 com as Plêiades e as Híades (veja o guia de Touro).

Altura de Nebulosa do Caranguejo ao longo do anoAltura à meia-noite astronômica e altura máxima da noite, a cada 5 dias. Melhor época: de novembro a janeiro. O objeto chega a 45° à meia-noite em dezembro.0°30°60°90°JANFEVMARABRMAIJUNJULAGOSETOUTNOVDEZ17 dez · 45°hoje
Altura ao longo do ano, a cada 5 dias: linha contínua = altura no meio da noite astronômica (Sol abaixo de −18°); tracejada = maior altura durante a noite escura; faixa verde = melhor época; linhas pontilhadas em 30° e 45°. A linha vertical marca hoje. Melhor época para este local: de novembro a janeiro (objeto acima de 30° no meio da noite). Ponto mais alto: 45° em 17 de dezembro.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

2026-10-12 · 19:20 – 04:10

Esta noite no céu

Melhores alvos da noite
Melhor horário
04:00 · 45° N
Horas acima de 45°
0,2 h
Lua
Lua crescente · 6 %
Nota da noite
52 / 100
Posição no céu
42
Brilho
63 mag 8,4
Enquadramento
71 ocupa 18 % do campo

Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).

Trajetória de M1 — Nebulosa do Caranguejo pelo céu nesta noiteCéu visto de baixo, zênite no centro e horizonte na borda. O objeto fica acima do horizonte entre 22:50 e 04:50 durante a noite; o ponto mais alto é às 04:00, com 45°. A tabela ao lado traz os mesmos valores.15°30°45°60°75°NNELSESSOONO23:0000:0001:0002:0003:0004:00
Caminho do objeto pelo céu nesta noite, do fim do crepúsculo civil ao amanhecer. Centro = zênite, borda = horizonte; visto olhando para cima (leste à esquerda, oeste à direita). Marcadores a cada 30 minutos.
  • Crepúsculo civil (Sol até −12°)
  • Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
  • Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
  • Altura abaixo de 20°
  • Altura abaixo de 30°
  • Altura abaixo de 45°
  • Hora cheia e meia hora
  • Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
Altura e direção do objeto a cada 30 minutos
Hora Altura Direção Da Lua
19:30 -42° — 141°
20:00 -36° — 142°
20:30 -29° — 142°
21:00 -22° — 142°
21:30 -16° — 142°
22:00 -9° — 143°
22:30 -3° — 143°
23:00 4° ENE 64° 143°
23:30 10° ENE 61° 143°
00:00 16° ENE 57° 144°
00:30 22° NE 53° 144°
01:00 27° NE 48° 144°
01:30 32° NE 42° 144°
02:00 36° NE 36° 145°
02:30 40° NNE 28° 145°
03:00 43° NNE 20° 145°
03:30 44° N 10° 146°
04:00 45° N 1° 146°
Altura de M1 — Nebulosa do Caranguejo ao longo da noiteAltura em graus a cada 30 minutos. O ponto mais alto é às 04:00, com 45°. A tabela abaixo traz os mesmos valores.0°30°60°90°202122230001020304abaixo do horizonte04:00 · 45°
Altura em graus ao longo da noite escura (linhas em 30° e 45°). A Lua aparece tracejada.

Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

O que ver

Instrumento O que esperar
A olho nu Nada. Mesmo com céu escuro, o objeto é fraco demais.
Binóculo Uma pequena mancha de 1 a 2′, só em noites frias, secas e excelentes, a pouco mais de 1° de Zeta Tauri (Kambič, p. 462). Moore fala em binóculos "fortes"; Tonkin avisa que M 1 decepciona (p. 236). Sob Bortle 7 é improvável.
Telescópio de 100 mm Uma oval cinzenta, alongada, de brilho superficial relativamente alto, visível com visão desviada (Mollise, p. 182-183). Bakich diz que 75 mm já mostram um oval de noroeste a sudeste.
Telescópio de 200 a 300 mm Uma oval mais definida e alongada, "com forma de raio", com bordas filamentosas em 12,5″ de Mollise (p. 183). Em 11″, Coe vê cinza-esverdeado e 4 estrelas de campo nas bordas.
Filtros Há divergência. Monks nota que um filtro de banda larga ajuda sob leve poluição, e que o O-III escurece muito a imagem, mas realça detalhes (p. 192). Mollise só viu filamentos na cidade com um 24″ e filtro O-III (p. 183).

Uma lembrança importante. Em M 1, a foto engana mais do que em qualquer objeto: a imagem longa mostra filamentos coloridos que o olho nunca verá. Mollise resume M 1 como fácil de achar e difícil de ver na cidade. A graça está na história (é a explosão de 1054) e em saber o que se está olhando.

Astrofotografia: estratégia de captura

Enquadramento

M 1 é pequena, com 7′ × 5′. Kier trabalha com um refletor de 12″ f/7 e um campo de 23′ × 15′, com escala de imagem de 0,6″ por pixel (p. 25-27). Com um telescópio de 1.000 mm e uma ASI294MC Pro (calculado: campo de 1,1° × 0,75° e cerca de 0,95″ por pixel), M 1 ocupa apenas cerca de 10% da largura do quadro: dá para fotografá-la, mas com pouco detalhe. Focais de 1.500 a 2.000 mm rendem uma imagem mais interessante, mas a atmosfera passa a ser o limite.

Desafios do alvo

  • Tamanho pequeno. Kier recomenda alta resolução e noites de boa estabilidade atmosférica ("seeing"); é um alvo em que a atmosfera limita mais que o equipamento. Sob Bortle 7 e a 45° de altura, o "seeing" do Rio raramente é excelente: seja realista.
  • Filamentos vs cor. Kier avisa que o H-alfa realça os filamentos, mas pode distorcer a cor e o tamanho das estrelas; luminância vermelha, ou clara mais vermelha, é mais suave.
  • Processamento. Os detalhes têm de sustentar a imagem: afiar com cuidado, balancear a cor e manter o fundo suave (Kier, p. 25).

Equipamento e filtros

Câmera colorida com um filtro dual-band (H-alfa e OIII) ajuda bastante sob Bortle 7 e realça os filamentos vermelhos. Em câmera monocromática, um canal H-alfa acrescenta detalhe à luminância (Kier). Para os que desejam ir além, um SHO tem cores falsas atraentes, mas exige muito tempo total.

Exemplo de sessão (ponto de partida)

Tipo de quadro Quantidade Exposição Finalidade
Light 100 a 200 60 a 120 s Detalhes dos filamentos e cor
Dark 30 igual aos Lights Calibração do ruído térmico
Flat 30 automática Correção de vinheta e poeira
Bias ou dark-flat 50 mais curta possível Calibração do ruído de leitura

Esses números são um ponto de partida, e não vêm dos livros: ajuste-os ao seu sensor, ao seu telescópio e ao céu da noite.

Smart telescopes e campo de visão

M 1 é pequena demais para um smart telescope como o Seestar S50 (campo de cerca de 1,3° × 0,7°): ela aparecerá como uma manchinha no centro, mas um empilhamento longo, com o filtro dual-band do aparelho, já mostra o formato oval e algum realce dos filamentos. Espere uma imagem modesta, mas ela é a mesma explosão que os chineses viram. Abra o mapa abaixo e escolha o seu modelo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.

0°

Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.

Considerações finais

M 1 é um alvo que vale mais pelo que se sabe dela do que pelo que se vê: uma oval cinzenta que guarda uma estrela de nêutrons e a lembrança de uma explosão registrada por seres humanos. Do Rio, fica a uns 45° de altura no verão, alcançável com um telescópio de 100 mm e um céu razoável. Para continuar, leia o guia da constelação de Touro e o da Nebulosa de Órion, outro alvo do verão austral.

Referências

  • BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 951 (M 1).
  • COE, Steven R. Nebulae and How to Observe Them. London: Springer, 2007. M 1, p. 81.
  • KAMBIČ, Bojan. Viewing the Constellations with Binoculars: 250+ Wonderful Sky Objects to See and Explore. New York: Springer, 2010. Touro e M 1, p. 461-467.
  • KIER, Ruben. The 100 Best Targets for Astrophotography. New York: Springer, 2009. "Crab Nebula", p. 25-27.
  • MACHHOLZ, Don. The Observing Guide to the Messier Marathon: A Handbook and Atlas. Springer (Astronomers' Observing Guides). Tabela de objetos, p. 117.
  • MOLLISE, Rod. The Urban Astronomer's Guide: A Walking Tour of the Cosmos for City Sky Watchers. London: Springer, 2006. M 1, p. 182-186.
  • MONKS, Neale. Go-To Telescopes Under Suburban Skies. New York: Springer, 2010. M 1, p. 192-193 e 235-237.
  • MOORE, Patrick (ed.). Philip's Astronomy Encyclopedia. London: Philip's, 2002. Verbete "Crab Nebula", p. 104-105.
  • MOORE, Patrick. The Observer's Year: 366 Nights of the Universe. 2. ed. London: Springer, 2005. Nebulosa do Caranguejo, 16 de dezembro (página a conferir).
  • MOORE, Patrick; REES, Robin. Patrick Moore's Data Book of Astronomy. Cambridge: Cambridge University Press, 2011. "The Crab Nebula, M 1", p. 336.
  • RIDPATH, Ian. Astronomia (Guia Ilustrado Zahar). 4. ed. Rio de Janeiro: Zahar. Nebulosa do Caranguejo, p. 172-173.
  • TONKIN, Stephen. Binocular Astronomy. London: Springer, 2007. M 1 e o catálogo de Messier, p. 236.
  • SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, tamanho e distância de M 1, em 21 set. 2026.
  • HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.