setembro 21, 2026

M 47, o aglomerado solto da Popa: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2) de M47 — objeto ainda não capturado no observatório

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.

Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. UK Schmidt Telescope (UKST) / AAO–ROE. Créditos

Em fevereiro de 1771, Charles Messier anotou um aglomerado em Popa (Puppis), mas errou a posição. O objeto ficou meio esquecido, "perdido" para os astrônomos por mais de um século e meio, até que alguém percebeu que o aglomerado que Messier havia visto era um outro, já catalogado com outro número. Hoje o M 47 é um dos aglomerados mais fáceis de observar do céu de verão austral: brilhante, grande e aberto, com algumas estrelas visíveis a olho nu em noite escura. E ele tem um vizinho, o denso M 46, pouco mais de 1° a leste, no mesmo campo de binóculo. Do Rio de Janeiro, passa a quase 82° de altura, sobre a nossa cabeça, entre janeiro e março. Este guia reúne os dados, o roteiro para achá-lo, o que esperar de cada instrumento e como fotografá-lo.

Texto em revisão. Este é um dos guias do novo formato de objeto, ainda em rascunho. As fontes estão listadas no final.

Imagem de referência (DSS2) de M47 — objeto ainda não capturado no observatório
Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. UK Schmidt Telescope (UKST) / AAO–ROE. Imagem de referência: este objeto ainda não foi fotografado no Observatório. Créditos

Ficha técnica e designações

Visão geral: um aglomerado próximo e jovem

O M 47 (NGC 2422) é um aglomerado aberto: um grupo de estrelas nascidas juntas, ainda ligadas frouxamente e destinadas a se dispersar com o tempo. É mais jovem e muito mais perto que o vizinho M 46: Kier estima cerca de 80 milhões de anos e Monks, 78 milhões, enquanto o brilho vem de estrelas ainda azuis e brancas.

M 47 em números. O SIMBAD dá paralaxe de 2,07 milissegundos de arco, o que equivale a cerca de 1.600 anos-luz, o mesmo valor de Kambič, Kier, Monks e Mollise (Allison dá 1.597; Ridpath, 1.500). O diâmetro aparente no SIMBAD é de cerca de 31′, um pouco maior que a Lua cheia e equivalente a uns 14 anos-luz; os livros dão de 25′ a 30′ e de 10 a 20 anos-luz. A magnitude integrada é 4,4 (Bakich, Kier, Allison), com valores de 4,3 (Mollise) e 5,2 (Kambič) em outros livros. Bakich diz que ele é o 14º aglomerado aberto mais brilhante do céu e que a maior parte do brilho vem de seis estrelas entre as magnitudes 5,7 e 8,0, sobre um campo de cerca de 75 estrelas mais fracas. Ridpath o compara à Lua cheia em tamanho.

Quantas estrelas. As contagens variam bastante: Kier fala em 50 estrelas brilhantes; Allison, em mais de 100, com a mais luminosa na magnitude 5; e Kambič, em 500 membros, 120 mais brilhantes que a magnitude 11. Isso reflete o critério de cada um sobre o que é membro e o que é campo. Kambič destaca que três estrelas de magnitude 6 se veem a olho nu.

A história do "Messier perdido". Mollise conta que Messier o descobriu em fevereiro de 1771 e o anotou com as coordenadas erradas; a ligação com NGC 2422, sua designação original, só foi feita de forma convincente nos anos 1930. Machholz atribui o erro a uma inversão de sinal no deslocamento de posição e cita Oswald Thomas (1934) e T. F. Morris (1959) na identificação. Moore recorda que ainda há alguma dúvida sobre essa identificação, mas defende Messier: com um telescópio minúsculo, ele se saiu bem. Mollise acrescenta que o aglomerado pode ter sido registrado por outros observadores um século antes.

Um vizinho mais fraco: NGC 2423. Bakich o descreve como um aglomerado moderadamente rico, de magnitude 6,7, a cerca de 0,6° ao norte do M 47, com HD 61098 (magnitude 9) no centro. Allison conta 40 membros, com a mais brilhante na magnitude 9, e diz que ele parece menos estruturado e mais espalhado que os vizinhos. Kambič nota que ele não é visível em binóculo.

Estruturas notáveis

  • Seis estrelas brilhantes. É o que dá à figura o aspecto característico: um punhado de estrelas de brilho parecido, sobre um fundo fraco (Bakich).
  • Três estrelas de magnitude 6 visíveis a olho nu. Kambič destaca esse trio como responsável pela mancha que se vê sem instrumento.
  • Uma dupla no meio. Mollise cita uma bela dupla dentro do aglomerado, e Allison fala em várias duplas que se resolvem num telescópio de 4″.
  • O par com o M 46. O contraste entre o solto e brilhante M 47 e o denso e fraco M 46, no mesmo campo, é um dos grandes prazeres da região (Kambič; Monks).

Como localizar

O M 47 fica cerca de 5° ao sul-sudoeste de Alfa Monocerotis (magnitude 3,9) (Bakich). Kambič sugere uma estratégia: posicione Alfa Mon no limite norte do campo do binóculo, e os dois aglomerados aparecem no limite sul. O M 47 fica 1°18′ a oeste do M 46 (Mollise), e Kambič o descreve como pouco mais de 1° a oeste. Como o M 46 é o mais denso e o M 47 o mais solto, é fácil distinguir os dois; só lembre que o M 46 é o do leste e o M 47 o do oeste, e que o buscador costuma inverter a imagem (Mollise).

Uma alternativa é começar em Sirius e varrer dois campos e meio de 5° a leste, mais meio campo ao norte (Tonkin).

Carta de localização de M47: as estrelas-guia nomeadas, setas tracejadas com a distância em graus até o alvo, escala em graus e indicação de norte e leste.
Carta de localização (star-hopping), no mesmo estilo das cartas de constelação: norte e leste indicados no canto. Anéis laranja: estrelas-guia; setas tracejadas: o caminho até o alvo, com a distância em graus; anel verde: o alvo (e, com a designação, outros objetos do campo); a barra mostra a escala. As linhas são as oficiais das constelações (d3-celestial), os limites são os da IAU e as estrelas vêm do catálogo HYG.

Quando e como observar

Com declinação de −14,5°, o M 47 culmina no Rio a cerca de 82° de altura, ao norte do zênite, praticamente sobre a nossa cabeça. É bem o oposto da situação do observador do norte, para quem Mollise diz que o aglomerado fica sempre perto do horizonte e da poluição luminosa. A melhor época vai de janeiro a abril; a culminação acontece perto da meia-noite em meados de janeiro e no início da noite em meados de março. Kier lembra que os autores do norte só veem os dois aglomerados por poucas horas nas noites mais frias, "pairando acima das árvores".

O primeiro gráfico mostra a altura do objeto ao longo do ano; o segundo, a noite de hoje.

Altura de M47 ao longo do anoAltura à meia-noite astronômica e altura máxima da noite, a cada 5 dias. Melhor época: de novembro a março. O objeto chega a 82° à meia-noite em janeiro.0°30°60°90°JANFEVMARABRMAIJUNJULAGOSETOUTNOVDEZ11 jan · 82°hoje
Altura ao longo do ano, a cada 5 dias: linha contínua = altura no meio da noite astronômica (Sol abaixo de −18°); tracejada = maior altura durante a noite escura; faixa verde = melhor época; linhas pontilhadas em 30° e 45°. A linha vertical marca hoje. Melhor época para este local: de novembro a março (objeto acima de 30° no meio da noite). Ponto mais alto: 82° em 11 de janeiro.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

2026-10-12 · 19:20 – 04:10

Esta noite no céu

Melhores alvos da noite
Melhor horário
04:00 · 60° E
Horas acima de 45°
1,2 h
Lua
Lua crescente · 6 %
Nota da noite
72 / 100
Posição no céu
53
Brilho
100 mag 4,4
Enquadramento
100 ocupa 44 % do campo

Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).

Trajetória de M47 pelo céu nesta noiteCéu visto de baixo, zênite no centro e horizonte na borda. O objeto fica acima do horizonte entre 23:40 e 04:50 durante a noite; o ponto mais alto é às 04:00, com 60°. A tabela ao lado traz os mesmos valores.15°30°45°60°75°NNELSESSOONO00:0001:0002:0003:0004:00
Caminho do objeto pelo céu nesta noite, do fim do crepúsculo civil ao amanhecer. Centro = zênite, borda = horizonte; visto olhando para cima (leste à esquerda, oeste à direita). Marcadores a cada 30 minutos.
  • Crepúsculo civil (Sol até −12°)
  • Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
  • Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
  • Altura abaixo de 20°
  • Altura abaixo de 30°
  • Altura abaixo de 45°
  • Hora cheia e meia hora
  • Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
Altura e direção do objeto a cada 30 minutos
Hora Altura Direção Da Lua
19:30 -47° — 101°
20:00 -43° — 101°
20:30 -38° — 101°
21:00 -33° — 101°
21:30 -27° — 101°
22:00 -21° — 102°
22:30 -15° — 102°
23:00 -9° — 102°
23:30 -2° — 102°
00:00 5° ESE 104° 102°
00:30 12° E 101° 103°
01:00 18° E 99° 103°
01:30 25° E 96° 103°
02:00 32° E 93° 103°
02:30 39° E 91° 103°
03:00 46° E 87° 104°
03:30 53° E 84° 104°
04:00 60° E 80° 104°
Altura de M47 ao longo da noiteAltura em graus a cada 30 minutos. O ponto mais alto é às 04:00, com 60°. A tabela abaixo traz os mesmos valores.0°30°60°90°202122230001020304abaixo do horizonte04:00 · 60°
Altura em graus ao longo da noite escura (linhas em 30° e 45°). A Lua aparece tracejada.

Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

O que ver

Instrumento O que esperar
A olho nu Uma mancha fraca contra a Via Láctea, em boas condições (Kambič; Bakich; Monks). Sob Bortle 7 é difícil; procure em noites transparentes.
Binóculo O melhor alvo do par: mais de meia dúzia de estrelas se resolvem facilmente num 10×50, ao contrário do M 46 (Tonkin). Bakich chama o aglomerado de "ótimo em binóculo".
Telescópio de 100 a 150 mm Monks: de 20 a 30 estrelas em qualquer telescópio, e o aglomerado é tolerante à luz da cidade. Allison contou 25 estrelas num 8″ a 133×, com várias duplas num 4″.
Telescópio grande Bakich alerta que ele decepciona acima de cerca de 75×: as estrelas se espalham demais e o conjunto perde coesão. Use um ocular de campo largo.
Filtros Nenhum. Não há nebulosidade no aglomerado.

Expectativa honesta. Perto do horizonte, o ocular de 35 mm clareia o fundo do céu e "devora" estrelas do aglomerado; Mollise prefere oculares de 22 a 26 mm. No Rio, com o objeto quase no zênite, esse efeito é bem menor.

Astrofotografia: estratégia de captura

Enquadramento

Kier trata o M 47 e o M 46 como um quadro só, com NGC 2423 e o pequeno NGC 2425 de bônus, e alerta que aglomerados abertos ficam sem graça se o campo for pequeno demais para separar o objeto do fundo. Com um telescópio de 500 mm e uma câmera como a ASI294MC Pro (campo de cerca de 2,2° × 1,5°, calculado a partir do sensor), o M 47, o M 46 e NGC 2423 cabem com folga. Com 1.000 mm, o campo é de 1,1° × 0,75°, o que enquadra bem o M 47 sozinho.

Desafios do alvo

  • Estrelas brilhantes e blooming. O M 47 tem seis estrelas de 5ª a 8ª magnitude; exposições curtas evitam espigões e halos (Kier).
  • Alinhamento dos canais. Alinhe bem os canais de cor, para não gerar halos coloridos assimétricos (Kier).
  • Um campo sem nebulosidade. Sem gás, o que dá vida à imagem é a cor das estrelas e o enquadramento; combine o M 47 com o M 46 ou com NGC 2423.

Equipamento e filtros

Kier sugere RGB ou câmera colorida de um disparo, sem camada de luminância para aglomerados brilhantes, e refoco a cada troca de filtro em refratores com cor imperfeita. Não há filtro específico: aglomerados são bons alvos sob céu poluído, porque o gradiente do fundo é fácil de subtrair.

Exemplo de sessão (ponto de partida)

Tipo de quadro Quantidade Exposição Finalidade
Light 60 a 90 20 a 60 s Cor das estrelas sem saturar as mais brilhantes
Dark 30 igual aos Lights Calibração do ruído térmico
Flat 30 automática Correção de vinheta e poeira
Bias ou dark-flat 50 mais curta possível Calibração do ruído de leitura

Esses números são um ponto de partida, e não vêm dos livros: ajuste-os ao seu sensor, ao seu telescópio e ao céu da noite.

Smart telescopes e campo de visão

O M 47 mede cerca de 0,5° e cabe com folga no campo de um smart telescope como o Seestar S50 (cerca de 1,3° × 0,7°). O vizinho M 46 fica a 1,3° e só entra num mosaico de dois painéis. Como o brilho é alto e a graça está nas estrelas, poucos minutos de empilhamento bastam. Abra o mapa e escolha o seu modelo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.

0°

Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.

Considerações finais

O M 47 é um alvo perfeito para o binóculo, para quem está começando e para quem quer treinar a observação de aglomerados abertos. A história do "Messier perdido" dá um sabor extra: mostra que até o autor do catálogo errava. Continue pelo vizinho M 46, pelo NGC 2477, em Popa, ou por outro aglomerado do verão, o M 41.

Referências

  • ALLISON, Mark. Star Clusters and How to Observe Them. London: Springer, 2006. M 47 e NGC 2423, p. 141-142.
  • BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objetos nº 50 (M 47) e 51 (NGC 2423).
  • KAMBIČ, Bojan. Viewing the Constellations with Binoculars: 250+ Wonderful Sky Objects to See and Explore. New York: Springer, 2010. Popa, M 46 e M 47, p. 398-401.
  • KIER, Ruben. The 100 Best Targets for Astrophotography. New York: Springer, 2009. "Open Clusters M46 and M47" (1º de março), p. 68-69; regras para aglomerados, p. 39.
  • MACHHOLZ, Don. The Observing Guide to the Messier Marathon: A Handbook and Atlas. New York: Springer, 2007. Objetos estranhos do catálogo, p. 16.
  • MOLLISE, Rod. The Urban Astronomer's Guide: A Walking Tour of the Cosmos for City Sky Watchers. London: Springer, 2006. M 47, p. 219.
  • MONKS, Neale. Go-To Telescopes Under Suburban Skies. New York: Springer, 2011. NGC 2422 (M 47), NGC 2437 (M 46) e NGC 2438, p. 24-26.
  • MOORE, Patrick. The Observer's Year: 366 Nights of the Universe. 2. ed. London: Springer, 2005. Identidade dos objetos de Messier, p. 201.
  • RIDPATH, Ian. Astronomia (Guia Ilustrado Zahar). 4. ed. Rio de Janeiro: Zahar. Popa, p. 211.
  • TONKIN, Stephen. Binocular Astronomy. London: Springer, 2007. M 46 e M 47, p. 140.
  • SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, paralaxes e dimensões de M 47 (NGC 2422) e NGC 2423, em 21 set. 2026.
  • HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.