setembro 21, 2026
NGC 2244 (Caldwell 50), o aglomerado da Roseta: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.
Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Créditos
Uma das armadilhas da Nebulosa da Roseta é que, ao contrário do que as fotografias sugerem, quem olha pelo binóculo não vê nenhuma rosa. Vê um aglomerado de estrelas no meio de um campo cheio, e é ele, NGC 2244, o objeto que Patrick Moore incluiu na lista Caldwell como C50, deixando a nebulosa que o envolve (NGC 2237, C49) como companheira. A nebulosa, dizem os livros, é enorme, bonita nas imagens digitais e muito difícil visualmente; o aglomerado, esse sim, é um alvo de qualquer telescópio ou binóculo. É o coração jovem da Roseta: estrelas nascidas há cerca de um milhão de anos, cuja luz ultravioleta faz brilhar o gás ao redor (Mobberley; Kier). Este guia trata do aglomerado, do modo como observá-lo e de como fotografar o conjunto, e reúne os gráficos de altura e a estratégia de captura.
Texto em revisão. Este é um dos guias do novo formato de objeto, ainda em rascunho. As fontes estão listadas no final.

Ficha técnica e designações
Visão geral: o que é um aglomerado aberto
Um aglomerado aberto é um grupo de estrelas nascidas juntas, da mesma nuvem de gás, e ainda frouxamente ligadas pela gravidade. Ao contrário dos globulares, que reúnem centenas de milhares de estrelas antigas em uma bola apertada, os abertos têm de dezenas a poucos milhares de estrelas e vivem no disco da Galáxia (Kambič). Com o tempo, as interações com as estrelas vizinhas os dispersam, e na maioria dos casos o grupo se desfaz em menos de um bilhão de anos (Kambič). NGC 2244 é uma versão extrema desse ciclo de vida: as estrelas são tão novas que ainda estão envolvidas pela nuvem de gás e poeira que as originou, algo que aparece com clareza nas fotos de longa exposição, mas não ao ocular (Kambič).
NGC 2244 em números. Magnitude integral de 4,8, com tamanho aparente de cerca de 23′ a 30′, próximo do diâmetro da Lua cheia (Bakich; Kier; Mobberley). A paralaxe do SIMBAD (0,617 milissegundos de arco) dá cerca de 5.300 anos-luz (livros mais antigos trazem de 4.500 a 5.500). Mobberley calcula que o conjunto (nebulosa e aglomerado) tenha cerca de 120 anos-luz de extensão; Kier, 115.
A nebulosa. A Roseta em si tem cerca de 80′ × 60′, quase três vezes o diâmetro do aglomerado e um pouco menos de três vezes o da Lua cheia (Mobberley; Kambič). Foi descoberta aos pedaços: NGC 2244 (o aglomerado, por William Herschel, em 1784), NGC 2238 (Marth, 1864), NGC 2237 (Swift, 1883) e NGC 2246 (Swift, 1886) (Bakich). Kambič lista ainda NGC 2239. É uma das maiores nebulosas de emissão da nossa Galáxia, três vezes maior do que a Nebulosa de Órion, mas também três vezes mais distante (Kier).
O aglomerado. É formado por uma dúzia de estrelas entre as magnitudes 6 e 9 e por dezenas de outras até a magnitude 12 (Mobberley). A mais brilhante, 12 Monocerotis, de cor amarelada, não é membro real: está muito mais perto de nós, mas parece pertencer ao grupo (Mobberley; Kambič).
Estruturas notáveis
- O buraco central. Em imagens de longa exposição, o aglomerado ocupa quase o centro do "buraco" que dá à nebulosa seu formato de rosa (Mobberley).
- Um quadrilátero de estrelas. Moore descreve, em The Observer's Year, um quadrilátero de estrelas no aglomerado (a conferir a página impressa).
- As nuvens escuras. Em fotos, a borda superior da nebulosa mostra glóbulos de Bok, nuvens densas de gás e poeira, que podem ser precursoras de novos sistemas solares (Kier). Ao ocular, Coe segue "trombas de elefante" escuras dentro da nebulosa com um telescópio de 13″.
- A cor magenta. No centro da nebulosa há um componente de reflexão que faz a região parecer mais magenta do que vermelha; a transição para o vermelho puro ocorre mais longe (Kier).
- NGC 2264 e a Árvore de Natal. A cerca de 6° ao norte fica NGC 2264, a Árvore de Natal, aglomerado envolto por outra nebulosa ligada à Roseta (Kambič).
Como localizar
O aglomerado fica em Monoceros, uma constelação sem estrelas brilhantes, no triângulo entre Betelgeuse, Sirius e Prócion. Mobberley indica um salto simples: de Betelgeuse (Alfa de Órion), 10° para leste e 2½° para o sul. Kambič sugere outro: se você pegar Épsilon Monocerotis (magnitude 4,3), que fica um pouco ao sul da linha entre Betelgeuse e Prócion, o aglomerado e Épsilon cabem no mesmo campo de binóculo. A estrela 12 Monocerotis, amarelada, é a referência dentro do próprio aglomerado.

Quando e como observar
Em declinação +5°, NGC 2244 culmina a cerca de 62° de altura no Rio, ao norte do zênite, e, ao contrário dos objetos do extremo sul, nasce e se põe (não é circumpolar). A melhor época vai de novembro a fevereiro (Mobberley), e ele é um alvo típico do verão austral: culmina em torno da meia-noite no fim de dezembro e no início da noite em meados de fevereiro. Olhando para o norte, o norte fica para baixo e o leste para a direita.
O primeiro gráfico mostra a altura do objeto ao longo do ano; o segundo, o caminho do aglomerado pelo céu nesta noite, seguido da altura hora a hora.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
2026-10-13 · 19:20 – 04:10
Esta noite no céu
- Melhor horário
- 04:00 · 59° NNE
- Horas acima de 45°
- 1,5 h
- Lua
- Lua crescente · 12 %
- Nota da noite
- 74 / 100
- Posição no céu
- 57
- Brilho
- 100 mag 4,8
- Enquadramento
- 100 ocupa 53 % do campo
Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).
- Crepúsculo civil (Sol até −12°)
- Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
- Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
- Altura abaixo de 20°
- Altura abaixo de 30°
- Altura abaixo de 45°
- Hora cheia e meia hora
- Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
| Hora | Altura | Direção | Da Lua |
|---|---|---|---|
| 19:30 | -49° | — | 134° |
| 20:00 | -42° | — | 134° |
| 20:30 | -36° | — | 135° |
| 21:00 | -29° | — | 135° |
| 21:30 | -22° | — | 135° |
| 22:00 | -15° | — | 135° |
| 22:30 | -8° | — | 135° |
| 23:00 | -1° | — | 136° |
| 23:30 | 6° | E 82° | 136° |
| 00:00 | 13° | E 79° | 136° |
| 00:30 | 20° | ENE 76° | 136° |
| 01:00 | 26° | ENE 72° | 136° |
| 01:30 | 33° | ENE 68° | 137° |
| 02:00 | 39° | ENE 63° | 137° |
| 02:30 | 45° | ENE 57° | 137° |
| 03:00 | 51° | NE 49° | 137° |
| 03:30 | 55° | NE 40° | 138° |
| 04:00 | 59° | NNE 28° | 138° |
Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
O que ver
| Instrumento | O que esperar |
|---|---|
| A olho nu | O aglomerado aparece como uma pequena névoa em torno de 12 Monocerotis em céu escuro (Kambič). O iniciante pode achar que está vendo a nebulosa, mas o que vê é o aglomerado (Mobberley). No Rio, sob Bortle 7, é difícil. |
| Binóculo (7×50 a 15×70) | O aglomerado se resolve em estrelas: cerca de 100 em noites perfeitas e 35 em noites excelentes, com pelo menos 8 delas até a magnitude 8 (Kambič). A nebulosa só aparece em noites muito escuras e calmas (Kambič); um binóculo de 11×80 pode mostrar um "U" muito fraco (Coe). |
| Telescópio de 100 a 150 mm | Cerca de duas dúzias de estrelas brilhantes e uns 100 pontos fracos, com meia dúzia de estrelas de magnitude 8 ou mais; a parte principal é oval, no sentido noroeste-sudeste (Bakich). Um refrator de 4″ sem filtro mostra só uma ferradura; o filtro UHC completa o anel, e o OIII dá muito contraste (Coe). |
| Telescópio de 200 mm ou mais | O Bakich sugere aumento de cerca de 50 vezes com filtro de nebulosa para a Roseta, e o lado oeste da nebulosa é mais brilhante. Um telescópio de 6″ f/6 conta 28 estrelas e quatro faixas escuras, e um de 13″ sem filtro, 71 (Coe). |
Expectativa honesta: a Roseta é uma bela foto e um alvo visual difícil. Mobberley é direto: para a maioria dos observadores de céu poluído, a nebulosa é invisível sem filtros OIII ou UHC, e a Nebulosa de Órion, logo ali, vale cem vezes mais. O aglomerado, por outro lado, é bonito em qualquer instrumento. Do Rio, a estratégia é observar NGC 2244 com prazer e tentar a nebulosa com UHC ou OIII em uma noite excelente.
Astrofotografia: estratégia de captura
Enquadramento
Para incluir toda a nebulosa, é preciso um campo grande. Kier usa cerca de 1,5° × 2°, o que enquadra a Roseta com folga (a nebulosa tem cerca de 80′ × 60′). Com um telescópio de 1.000 mm de focal e uma câmera como a ASI294MC Pro (campo de cerca de 1,1° × 0,75°), você enquadra só o aglomerado e parte do anel; para o conjunto, use uma focal de 400 a 600 mm ou uma lente longa.
Desafios do alvo
- Brilho superficial. A nebulosa é muito mais fraca do que o aglomerado, e o mais importante é o tempo total de exposição e um bom filtro.
- Dois mundos de cor. As estrelas centrais são azuladas e brancas, enquanto a nebulosa é vermelha (H-alfa), com o centro mais magenta por causa da reflexão (Kier). Ajuste o balanço de cores para as estrelas brilhantes e para a nebulosa.
- Foco entre filtros. Kier lembra de refocalizar entre trocas de filtro se o telescópio não for perfeitamente corrigido de cor.
- Poluição luminosa. Em Bortle 7, como no Rio, um filtro dual-band ou uma luminância em H-alfa suprime o fundo do céu e realça a nebulosa (Kier).
Equipamento e filtros
Kier afirma que a nebulosa é brilhante o bastante para ser fotografada com câmera colorida de um disparo ou em RGB, mas que o melhor resultado vem de uma luminância filtrada: em céu escuro, uma luminância com filtro vermelho; em céu poluído, uma luminância em H-alfa. No processamento, ele aplica nitidez nos glóbulos de Bok e mantém as estrelas centrais azuladas. Em câmera monocromática, a banda estreita (SHO) dá cores falsas, mas exige mais horas.
Exemplo de sessão (ponto de partida)
| Tipo de quadro | Quantidade | Exposição | Finalidade |
|---|---|---|---|
| Light (dual-band ou RGB) | 60 a 90 | 180 s | Nebulosa; o mais importante é o tempo total |
| Dark | 30 | igual aos Lights | Calibração do ruído térmico |
| Flat | 30 | automática | Correção de vinheta e poeira |
| Bias ou dark-flat | 50 | mais curta possível | Calibração do ruído de leitura |
Esses números são um ponto de partida, e não vêm dos livros. Como referência, Mobberley mostra uma imagem de Ian Sharp feita com quarenta e oito exposições de 300 segundos, com um astrógrafo de 130 mm f/3,6 e uma câmera Canon 350D modificada.
Smart telescopes e campo de visão
A Roseta inteira (cerca de 80′ × 60′) cabe no campo de um smart telescope como o Seestar S50 (cerca de 1,3° × 0,7°), com pouca folga nas bordas; o filtro dual-band do próprio aparelho é o que faz a diferença, porque realça a nebulosa em céu poluído. Escolha o seu modelo no mapa abaixo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.
Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.
Considerações finais
NGC 2244 é um bom exemplo de como um mesmo objeto pode ser dois: um aglomerado que qualquer instrumento revela e uma nebulosa que só a câmera, ou um filtro muito bem usado, entrega. Comece pelas estrelas, e volte com o filtro quando a noite estiver excelente. Para aproveitar a mesma região do céu, combine com a Nebulosa de Órion (M42), que fica a cerca de 15° dali, e com o guia da constelação de Órion.
Referências
- BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objetos nº 997 (NGC 2237-9) e nº 999 (NGC 2244).
- COE, Steven R. Nebulae and How to Observe Them. London: Springer, 2007. NGC 2244 (Roseta), p. 70.
- KAMBIČ, Bojan. Viewing the Constellations with Binoculars: 250+ Wonderful Sky Objects to See and Explore. New York: Springer, 2010. Aglomerados abertos, p. 110-111; Monoceros, NGC 2244, p. 344-345.
- KIER, Ruben. The 100 Best Targets for Astrophotography. New York: Springer, 2009. "February 12: Rosette Nebula and Cluster", p. 51-52.
- MOBBERLEY, Martin. The Caldwell Objects and How to Observe Them. New York: Springer, 2009. Caldwell 49 e 50, p. 110-111.
- MOORE, Patrick. The Observer's Year: 366 Nights of the Universe. London: Springer. Monoceros, 27 de março (a página impressa a conferir).
- SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas e paralaxe de NGC 2244, em 21 set. 2026.
- HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.