setembro 21, 2026

Céu de inverno no hemisfério norte: Órion alto, Hexágono de Inverno e o Grande Carro

Mapa do céu de inverno no hemisfério norte: Órion e Sirius baixos ao sul, Capella perto do zênite, Cassiopeia a noroeste, a Ursa Maior a nordeste e Polaris a 40° de altura ao norte

Para quem mora entre os paralelos 30° N e 50° N, como em Nova York, Madri, Pequim ou Roma, o "céu de inverno" é o mais brilhante do ano. De dezembro a fevereiro, uma noite limpa mostra mais estrelas de primeira grandeza do que em qualquer outra estação, e todas elas ficam agrupadas numa região só do céu, entre o sul e o zênite. É também o céu em que a Ursa Maior nasce de lado no nordeste, Cassiopeia se equilibra a noroeste e Polaris mantém, imóvel, o ponto de referência de todo o resto. Este guia percorre esse céu como ele aparece por volta das 21h do meio de janeiro, com o observador em 40° N, e explica, em cada etapa, o que um leitor brasileiro vê de diferente no mesmo instante.

O céu de inverno do hemisfério norte é o mesmo céu do verão do hemisfério sul. As mesmas noites do calendário, as mesmas horas, as mesmas estrelas no alto e as mesmas do outro lado da Terra. O que muda é o ponto de vista. Quem está em 40° N enxerga o lado norte do céu inteiro e alcança o sul só até uns 50° de altura no ponto mais alto; quem está no Rio de Janeiro vê o lado sul do céu e pega o norte pela metade. O guia irmão deste, o céu de verão no hemisfério sul, conta a mesma noite do outro lado.

O mapa da noite

Mapa do céu de inverno no hemisfério norte: Órion e Sirius baixos ao sul, Capella perto do zênite, Cassiopeia a noroeste, a Ursa Maior a nordeste e Polaris a 40° de altura ao norte
15 de janeiro, 21h locais, latitude 40° N (Nova York, Madri). Mapa do céu inteiro visto olhando para cima, com o norte no alto e o leste à esquerda. Repare em Capella quase no centro (o zênite), no Hexágono de Inverno espalhado do centro para o sul e na Ursa Maior de lado, no alto à esquerda. Estrelas: catálogo HYG v4.1 (CC BY-SA 4.0); linhas e limites: IAU/d3-celestial. Gerado por Astronomia no Telhado.

Como o mapa mostra o céu inteiro de uma vez, o centro é o zênite (o ponto sobre a sua cabeça) e a borda é o horizonte. Segure-o acima da cabeça, com o N do mapa apontando para o norte de verdade. O leste fica à esquerda, e não à direita como nos mapas de parede, porque você está olhando para cima e não para baixo.

Os anéis tracejados marcam 30° e 60° de altura. A linha amarela é a eclíptica, o caminho anual do Sol, sobre o qual passam Lua e planetas; a linha azul é o equador celeste, a projeção do equador da Terra. No inverno do norte, a eclíptica fica baixa no sul, pois nessa época do ano o Sol também caminha baixo, e é por ela que Lua e planetas passam.

Como se orientar: Polaris, Ursa Maior e Cassiopeia

O norte celeste tem uma estrela-guia. Polaris, na Ursa Menor, fica a menos de um grau do ponto exato em torno do qual todo o céu gira, e Patrick Moore lembra que ela parece imóvel enquanto todas as outras estrelas, incluindo Sol e Lua, giram em torno dela uma vez a cada 24 horas. Uma regra clássica vale para quem está no norte: a altura de Polaris sobre o horizonte é praticamente igual à latitude do observador. Em Nova York ou Madri (40° N) ela está a 40° do horizonte norte, mais ou menos meia-distância entre o horizonte e o zênite; em Oslo estaria muito mais alta, e no equador, rente ao chão. Polaris é uma supergigante amarela de tipo F8, a cerca de 430 anos-luz; não é brilhante, apenas está no lugar certo.

Para achá-la, use a Ursa Maior. As duas estrelas da borda da "concha" do Grande Carro, Merak e Dubhe, apontam para Polaris, como diz Moore. Em janeiro às 21h, a concha aparece em pé, a nordeste, com o cabo (Alkaid, Mizar, Alioth) subindo pela esquerda. Prolongue a linha de Merak a Dubhe cerca de cinco vezes a distância entre elas e você chega a Polaris. Do outro lado do polo, o "W" (ou "M", conforme a hora) de cinco estrelas de Cassiopeia faz o papel oposto: as duas giram em lados opostos de Polaris, como uma gangorra, e quando uma está baixa a outra está alta. Na noite do mapa, Cassiopeia está a uns 50° de altura, a noroeste, e a Ursa Maior ainda está subindo, a uns 25°, no nordeste.

Essa é a vantagem do observador no norte: no polo celeste há uma estrela, Polaris, e em volta dela um punhado de constelações que nunca se põem. De 40° N, são circumpolares a Ursa Menor, o Dragão, Cefeu, Cassiopeia e a Girafa, e a Ursa Maior fica quase toda acima do horizonte a noite inteira.

O Hexágono de Inverno

Do zênite para o sul está o desenho mais impressionante da estação: um grande hexágono de estrelas brilhantes, que muitos observadores chamam de Hexágono de Inverno. Começando pelo alto e girando pelo lado leste (esquerda do mapa):

Estrela Constelação Brilho (mag.) Distância aproximada
Capella Cocheiro cerca de 0,1 43 anos-luz
Pollux Gêmeos cerca de 1,1 34 anos-luz
Procyon Cão Menor cerca de 0,4 11,5 anos-luz
Sirius Cão Maior cerca de -1,5 8,6 anos-luz
Rigel Órion cerca de 0,1 860 anos-luz
Aldebaran Touro cerca de 0,8 67 anos-luz

Magnitudes e cores conforme Moore (Observer's Year, noite de 12 de janeiro); paralaxes do SIMBAD (CDS, Estrasburgo), convertidas em anos-luz e arredondadas.

Dentro do hexágono está Betelgeuse (a 500 anos-luz, uma supergigante vermelha e variável) e, no centro do conjunto, o retângulo de Órion. Um atalho é o Triângulo de Inverno: Betelgeuse, Sirius e Procyon, três estrelas do mesmo brilho que formam um triângulo quase equilátero. Note as cores: Sirius é branca, Capella amarela como o Sol, Aldebaran e Betelgeuse alaranjadas, Rigel branco-azulada.

As guias do céu: Órion, o Cinturão e as linhas de mira

Órion cruza o meridiano por volta das 21h a uns 50° de altura para o centro do cinturão, e do meio de janeiro em diante permanece bem posicionado até bem tarde. No hemisfério norte, o caçador aparece de pé: Betelgeuse é o ombro esquerdo (a nordeste), Bellatrix o direito, Rigel e Saiph os pés, e a Espada pende sob o cinturão. Todos os alinhamentos clássicos funcionam do jeito que estão nos mapas, sem espelhamento: Moore os resume assim:

  • Do cinturão para baixo, a linha leva a Sirius, no Cão Maior, a mais brilhante do céu, que está tão perto de nós (8,6 anos-luz) que compensa o que perde em luminosidade real.
  • Do cinturão para cima, a linha passa por Aldebaran (Touro) e prossegue até as Plêiades.
  • De Bellatrix por Betelgeuse, curvando um pouco, chega-se a Procyon.
  • De Rigel por Betelgeuse, a linha aponta para Castor e Pollux.

Para o guia completo da constelação, com as estrelas duplas, a Espada e os objetos de céu profundo, leia Órion, o Caçador. A Grande Nebulosa é o objeto de céu profundo mais fácil da estação e tem guia próprio: M 42, a Nebulosa de Órion; a mancha do "Homem Correndo" está em NGC 1977.

As constelações de inverno do hemisfério norte

Cocheiro e Perseu: o zênite e o noroeste

Cocheiro (Auriga) é a constelação que passa quase sobre a cabeça de quem está em 40° N, e sua estrela-mãe, Capella, quase alcança o zênite: ela é amarela, como o Sol, e forma com as "Cabritas", um pequeno triângulo de estrelas fracas ao lado, uma das marcas mais claras do céu. Em binóculo, o Cocheiro esconde três aglomerados abertos, M 36, M 37 e M 38, todos dentro do pentágono. Vale citar a Épsilon Aurigae, binária eclipsante de período muito longo, a cerca de 3.300 anos-luz,. Perto do limite com Perseu está a Nebulosa da Califórnia, difícil na visual, mas famosa em astrofotografia: NGC 1499.

Perseu, a noroeste do Cocheiro e a uns 70° de altura no centro da constelação, é a ponte entre Cassiopeia e Capella. A estrela Algol é o "olho do demônio" da lenda de Medusa, uma binária eclipsante cujo brilho cai por algumas horas a cada quase três dias. Mirfak (Alfa Persei) fica no centro de um aglomerado de estrelas jovens, bom em binóculo.

Touro: Aldebaran, as Híades e as Plêiades

Touro está bem ao sul, a uns 65° de altura, e reúne dois aglomerados abertos de fama mundial. Aldebaran, a laranja "olho do Touro", parece a estrela principal das Híades, mas está só na frente delas: ela fica a uns 67 anos-luz, e as Híades, a mais de 150. Um pouco além, à esquerda, o pequeno grupo de estrelas em forma de colher que todo mundo reconhece são as Plêiades, ou "Sete Irmãs"; a olho nu seis ou sete estrelas aparecem, em binóculos dezenas. Os guias completos estão em Touro, Aldebaran, Híades e Plêiades, M 45, as Plêiades e Mel 25, as Híades. A ponta do chifre norte, perto do Cocheiro, guarda a Nebulosa do Caranguejo, resto de supernova de 1054: M 1.

Gêmeos, Câncer e as outras constelações do zodíaco

Gêmeos ocupa o leste, a uns 55° de altura. As duas estrelas-guia, Castor e Pollux, ficam a poucos graus uma da outra; Pollux é a alaranjada (cerca de 34 anos-luz), Castor, a mais fraca e branca (na verdade um sistema múltiplo, a uns 51 anos-luz). Um cacho de aglomerados abertos, M 35, fica junto ao "pé" de Castor, bem visível em binóculo: M 35, aglomerado de Gêmeos. Mais a leste, no zodíaco, Câncer é uma constelação fraca, mas guarda o Presépio (M 44) e o aglomerado M 67, que estão a 37° de altura; veja também Câncer, o Caranguejo e Gêmeos, a constelação de Castor e Pollux. Áries e Peixes, a oeste-sudoeste, estão em descida: Áries ainda tem uns 57° de altura no fim da tarde, mas se pôr cedo. O Leão, a leste, está só nascendo, a menos de 10° de altura.

Andrômeda, Triângulo e Pégaso

A oeste, o céu de janeiro ainda guarda o final do outono. Andrômeda, a 43° de altura no oeste, tem a Galáxia de Andrômeda (M 31), o objeto mais distante que dá para ver a olho nu, a cerca de 2,5 milhões de anos-luz; o pequeno Triângulo e o Grande Quadrado de Pégaso, mais baixo, completam a paisagem do poente.

Unicórnio, Cão Maior, Cão Menor e Lebre

Sob Órion e a leste dele ficam as constelações que a tabela do Hexágono já mencionou. O Cão Maior traz Sirius e o aglomerado aberto M 41, o Cão Menor só tem Procyon e a fraca Gomeisa, o Unicórnio guarda a Roseta (NGC 2237 e NGC 2244), o Cone e Árvore de Natal e M 50, e a Lebre, embaixo dos pés de Órion, mal passa dos 30° de altura. Erídano, Pomba e Cinzel ficam rentes ao horizonte sul.

Constelações equatoriais: o que os dois hemisférios têm em comum

As constelações perto do equador celeste, como Órion, Unicórnio, Cão Menor, Baleia, Peixes, Câncer, Áries e Touro, aparecem de todos os pontos habitados da Terra. Nesta noite, elas são as pontes entre o céu do norte e o do sul. Por isso, aprender a achar Sirius, Aldebaran, Procyon e Castor e Pollux com a linha de Órion serve nos dois hemisférios: o que muda é só a orientação de cada figura.

O que o outro hemisfério vê diferente

  • Órion de cabeça para baixo. No Rio (23° S), o caçador cruza o meridiano a cerca de 67° de altura, ao norte do zênite, e a figura aparece invertida: os pés no alto e a cabeça embaixo. No norte, ele fica de pé e mais baixo (uns 50°).
  • Sul alto. O Cão Maior, que em 40° N mal passa de 20° de altura, é uma das constelações mais altas do céu do Rio (uns 60°), e a Pomba e o Cinzel, rasteiros no norte, passam dos 70° lá.
  • Constelações que só um lado vê. Circumpolares no norte (Cefeu, Dragão, Girafa, Ursa Menor) são invisíveis ou rasteiras no Brasil. O Cruzeiro do Sul, símbolo do céu do Sul, está baixo no sudeste às 21h e nunca aparece em 40° N. O Cocheiro e Perseu, altíssimos no norte, ficam baixos a norte no Brasil.
  • Polo. Polaris não existe no céu do Brasil; o polo sul, sem estrela brilhante, fica entre o Cruzeiro e Achernar, segundo Moore.

Para ver o mesmo céu pelo outro lado, leia o céu de verão no hemisfério sul.

Dicas de observação

  • Horário: o inverno tem noites longas, com o céu escuro já às 18h. O Hexágono é melhor entre 20h e 23h, com Órion no meridiano; Touro e o Cocheiro passam pelo alto por volta das 21h a 22h em meados de janeiro.
  • Cidade: cidades grandes como Nova York e Madri têm céu de nível Bortle 8 ou 9 no centro; mesmo assim, as estrelas do Hexágono, Órion, as Plêiades e M 42 continuam visíveis. Aglomerados abertos de Gêmeos e do Cocheiro aparecem em binóculo de 10×50 mesmo em subúrbios.
  • Frio: deixe o telescópio se equilibrar com a temperatura de dez a vinte minutos antes de observar.
  • Via Láctea: no inverno, a Via Láctea passa do Cisne a noroeste, por Cassiopeia e Perseu, até o Cocheiro, os Gêmeos e o Unicórnio a leste e sul, e desce pelo Cão Maior. É mais tênue que a do verão, por não passar pelo centro galáctico.
  • Planetas: a eclíptica cruza o mapa pela região de Touro e Gêmeos, ficando bem alta ao sul, o que ajuda quando o planeta está lá; consulte um almanaque para saber quais estão visíveis em cada noite.

Considerações finais

O céu de inverno do norte é fácil porque tem poucas linhas para memorizar: Polaris marca o polo, a Ursa Maior e Cassiopeia dão a rotação, e Órion aponta para as principais estrelas do Hexágono. A partir daí, cada constelação vira uma parada com aglomerados, nebulosas e duplas para explorar. Vale aprender esse mapa mesmo morando no Brasil: é o nosso céu de verão visto do outro lado. Compare com o céu de verão no hemisfério sul, onde Órion e o Cão Maior dominam o alto do céu.

Referências

  • MOORE, Patrick. The Observer's Year: 366 Nights of the Universe. 2. ed. London: Springer, 2005. Noites de 3 de janeiro ("The Poles of the Sky") e de 12 de janeiro ("Orion, the Hunter", p. 17-19), sobre Polaris, os apontadores da Ursa Maior, os alinhamentos de Órion, Capella, Procyon, Castor e Pollux; noite de 11 de janeiro, classificação espectral (Polaris F8, Capella G, Procyon F, Aldebaran K), p. 15-16 (páginas a conferir).
  • MOORE, Patrick (ed.). Philip's Astronomy Encyclopedia. London: Philip's, 2002. Verbetes "Orion", "Taurus", "Gemini", "Auriga", "Ursa Major" e "Polaris" (páginas a conferir).
  • RIDPATH, Ian. Astronomia (Guia Ilustrado Zahar). 4. ed. Rio de Janeiro: Zahar. Verbetes de constelações de inverno (páginas a conferir).
  • KAMBIČ, Bojan. Viewing the Constellations with Binoculars: 250+ Wonderful Sky Objects to See and Explore. New York: Springer, 2010. Capítulos "Auriga", "Gemini", "Taurus" e "Orion" (páginas a conferir).
  • SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a paralaxes, tipos espectrais e designações de Capella, Sirius, Procyon, Rigel, Betelgeuse, Aldebaran, Pollux, Polaris e Épsilon Aurigae, em 21 set. 2026.
  • HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, usado no mapa do céu; linhas e limites das constelações da IAU e do d3-celestial. Alturas e direções às 21h do dia 15 de janeiro calculadas por Astronomia no Telhado para 40° N.