setembro 21, 2026

NGC 2392 (Caldwell 39), a Nebulosa do Esquimó: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2) de NGC 2392 — Nebulosa do Esquimó — objeto ainda não capturado no observatório

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.

Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Créditos

Se você já viu uma foto boa da Nebulosa do Esquimó, sabe por quê: um rosto cinzento, de olhos e narinas formadas pelo gás, cercado por um capuz de pele, como o de uma parca polar. Ao telescópio a coisa muda de figura. O rosto, dizem os livros, não aparece ao ocular (Mobberley), mas o que aparece é bem interessante: um disco pequeno e brilhante, de cor azul ou verde, com uma estrela central bem visível e, em aumento alto, camadas que emergem e somem com a turbulência do ar. Em Gêmeos, a nebulosa é um alvo de verão para nós, do hemisfério sul, e é um dos objetos da lista Caldwell (número 39) que mais rendem em telescópios pequenos e médios. Este guia junta os dados, o mapa, os gráficos de altura e a estratégia de observação e de captura.

Texto em revisão. Este é um guia no novo formato de objeto, ainda em rascunho. As fontes estão no final; as divergências entre elas aparecem como pendências.

Imagem de referência (DSS2) de NGC 2392 — Nebulosa do Esquimó — objeto ainda não capturado no observatório
Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Imagem de referência: este objeto ainda não foi fotografado no Observatório. Créditos

Ficha técnica e designações

Visão geral: o que é uma nebulosa planetária

Nebulosas planetárias não têm nada de planeta. O nome vem de William Herschel, que achou que alguns desses discos esverdeados se pareciam com planetas (Mourão; Moore). Trata-se do envoltório de gás expelido por uma estrela de massa parecida com a do Sol no fim da vida; o núcleo, agora uma anã branca muito quente, ilumina o gás. O Sol deverá ter um fim assim, daqui a bilhões de anos (conhecimento geral). A Esquimó é uma planetária de dupla camada, e é isso que a torna interessante.

A Esquimó em números. A magnitude total é de cerca de 9,7 (SIMBAD; livros trazem 9,2). O tamanho aparente é pequeno: cerca de 20″ (SIMBAD; os livros, contando o halo, chegam a 45″). A estrela central, HD 59088, é de magnitude 10 a 10,5 e é fácil de ver (Mobberley; Bakich; Mollise). Mobberley descreve um anel interno de cerca de 15″ de diâmetro e um halo externo que se estende a mais de 20″ da estrela, com textura e um tom esverdeado.

Distância e idade. A paralaxe do SIMBAD, de 0,55 milissegundo de arco, dá cerca de 6.000 anos-luz (livros mais antigos trazem 3.000 a 4.000). Sobre a idade, Mobberley fala de cerca de 1.000 anos para a camada interna e de 5.000 para a externa; Mollise diz que ela é uma das planetárias mais jovens pelo ritmo de expansão.

Nome e descoberta. William Herschel a descobriu em 1787 (Moore). O apelido vem das fotografias de longa exposição, em que ela lembra um rosto dentro do capuz de uma parca (Mollise; Mobberley). Bakich registra ainda o apelido "Cara de Palhaço". Faz parte da lista Caldwell como C 39.

Estruturas notáveis

  • A camada interna. Um disco brilhante e mosqueado, de cerca de 15″, com a estrela central bem à vista (Mobberley; Bakich). É a parte que se vê em qualquer telescópio.
  • O anel escuro e a camada externa. Bakich descreve uma concha dupla, com a interna brilhante e a externa fraca, separadas por um anel escuro. Em 12,5″ sob céu urbano, Mollise distingue os anéis interno e externo em lampejos, por volta de 300 aumentos.
  • A estrela central. De magnitude 10, acessível a aberturas pequenas. Mobberley diz que já foi registrada em 9,7, com ressalva.
  • O "rosto". Só a fotografia o mostra; ao ocular, quem tem imaginação vê no máximo um nariz no meio de um capuz (Mobberley).

Como localizar

A Esquimó fica em Gêmeos, longe das estrelas dos "gêmeos" propriamente ditos. O ponto de partida mais simples é Wasat (delta Geminorum, de magnitude 3): vá cerca de 2° para leste e 1° para sul (Mobberley). Bakich fala de 2,4° a leste-sudeste de Wasat. Mollise a descreve como quase no ponto médio entre Lambda e Kappa Geminorum. Outro marcador é o aglomerado aberto NGC 2420, 2,5° a leste-nordeste (Mobberley). Veja também o guia da constelação de Gêmeos.

Carta de localização de NGC 2392: as estrelas-guia nomeadas, setas tracejadas com a distância em graus até o alvo, escala em graus e indicação de norte e leste.
Carta de localização (star-hopping), no mesmo estilo das cartas de constelação: norte e leste indicados no canto. Anéis laranja: estrelas-guia; setas tracejadas: o caminho até o alvo, com a distância em graus; anel verde: o alvo (e, com a designação, outros objetos do campo); a barra mostra a escala. As linhas são as oficiais das constelações (d3-celestial), os limites são os da IAU e as estrelas vêm do catálogo HYG.

Quando e como observar

Com declinação de cerca de +21°, a Esquimó culmina a cerca de 46° de altura no Rio de Janeiro (cálculo a partir da declinação; confira no gráfico), ao norte do zênite. Não é uma altura de zênite, e o seeing importa: em aumento alto, cada ponto de altura conta. A melhor época vai de dezembro a março (Mobberley); em fevereiro ela está bem posicionada no início da noite.

Como o objeto passa ao norte do zênite, você observa de frente para o norte: o leste fica à direita e o norte celeste, para baixo, o inverso do que mostram as cartas comuns.

O primeiro gráfico mostra a altura do objeto ao longo do ano para o local do observatório; o segundo, o caminho da Esquimó pelo céu nesta noite, seguido da altura hora a hora.

Altura de Nebulosa do Esquimó ao longo do anoAltura à meia-noite astronômica e altura máxima da noite, a cada 5 dias. Melhor época: de dezembro a fevereiro. O objeto chega a 46° à meia-noite em janeiro.0°30°60°90°JANFEVMARABRMAIJUNJULAGOSETOUTNOVDEZ11 jan · 46°hoje
Altura ao longo do ano, a cada 5 dias: linha contínua = altura no meio da noite astronômica (Sol abaixo de −18°); tracejada = maior altura durante a noite escura; faixa verde = melhor época; linhas pontilhadas em 30° e 45°. A linha vertical marca hoje. Melhor época para este local: de dezembro a fevereiro (objeto acima de 30° no meio da noite). Ponto mais alto: 46° em 11 de janeiro.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

2026-10-12 · 19:20 – 04:10

Esta noite no céu

Melhores alvos da noite
Melhor horário
04:00 · 38° NE
Horas acima de 45°
0,0 h
Lua
Lua crescente · 6 %
Nota da noite
30 / 100
Posição no céu
33
Brilho
44 mag 9,6
Enquadramento
8 ocupa 2 % do campo

Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).

Trajetória de NGC 2392 — Nebulosa do Esquimó pelo céu nesta noiteCéu visto de baixo, zênite no centro e horizonte na borda. O objeto fica acima do horizonte entre 00:40 e 04:50 durante a noite; o ponto mais alto é às 04:00, com 38°. A tabela ao lado traz os mesmos valores.15°30°45°60°75°NNELSESSOONO01:0002:0003:0004:00
Caminho do objeto pelo céu nesta noite, do fim do crepúsculo civil ao amanhecer. Centro = zênite, borda = horizonte; visto olhando para cima (leste à esquerda, oeste à direita). Marcadores a cada 30 minutos.
  • Crepúsculo civil (Sol até −12°)
  • Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
  • Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
  • Altura abaixo de 20°
  • Altura abaixo de 30°
  • Altura abaixo de 45°
  • Hora cheia e meia hora
  • Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
Altura e direção do objeto a cada 30 minutos
Hora Altura Direção Da Lua
19:30 -69° — 115°
20:00 -62° — 115°
20:30 -55° — 116°
21:00 -48° — 116°
21:30 -41° — 116°
22:00 -34° — 116°
22:30 -27° — 117°
23:00 -21° — 117°
23:30 -14° — 117°
00:00 -7° — 117°
00:30 -1° — 118°
01:00 6° ENE 65° 118°
01:30 12° ENE 61° 118°
02:00 18° ENE 57° 118°
02:30 23° NE 53° 119°
03:00 29° NE 48° 119°
03:30 34° NE 42° 119°
04:00 38° NE 35° 119°
Altura de NGC 2392 — Nebulosa do Esquimó ao longo da noiteAltura em graus a cada 30 minutos. O ponto mais alto é às 04:00, com 38°. A tabela abaixo traz os mesmos valores.0°30°60°90°202122230001020304abaixo do horizonte04:00 · 38°
Altura em graus ao longo da noite escura (linhas em 30° e 45°). A Lua aparece tracejada.

Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

O que ver

Instrumento O que esperar
A olho nu Fora do alcance (magnitude 9,7 e tamanho de segundos de arco).
Binóculo (7×50 a 15×70) Só uma estrela um tanto fora de foco, sem a nebulosa. Não espere detalhe.
Telescópio de 100 mm Mobberley diz que, mesmo com 100 mm ou menos, aparecem um centro brilhante, um anel interno e um halo em aumento alto. Sem cor nítida: Monks avisa que a cor não aparece em menos de 100 mm.
Telescópio de 200 mm A cor azul ou verde se torna evidente (Monks; Mollise). Com 10 mm em um SCT de 200 mm (200 aumentos), aparecem as duas camadas (Monks). Bakich indica 250 mm e o maior aumento que o céu permitir.
Telescópio de 300 mm ou mais Mais textura no disco interno e no halo, e a estrela central se destaca. Mollise só vê os anéis interno e externo em lampejos, com 300 aumentos, em 12,5″ sob céu de cidade.

Expectativa honesta: a Esquimó é pequena e responde bem a aumento alto, mas o rosto das fotos não aparece. Mollise a descreve como uma planetária que "pisca": com visão desviada ela aparece e some, como a Blinking Planetary. Em Bortle 7 ela se sai bem, porque tem alto brilho superficial; filtros UHC e OIII funcionam bem (Mobberley; Monks). Mollise propõe uma técnica para tirar partido dos lampejos: anotar cada detalhe no instante em que surge e montar um esboço como uma "exposição longa" desenhada.

Astrofotografia: estratégia de captura

Enquadramento

A nebulosa é pequena (cerca de 20″), e um campo largo a deixaria minúscula. Com um telescópio de 1.000 mm e um sensor de 19 × 13 mm, o campo é de cerca de 1,1° × 0,75° e a Esquimó ocupa cerca de 0,5% dele (cálculo a partir do sensor e da focal). Uma focal de 1.500 a 2.500 mm ou um recorte são o mais indicado.

Desafios do alvo

  • Seeing e escala. Mobberley recomenda 1″ por pixel ou melhor, e Kier, escala menor que 1″ por pixel, noite de seeing excepcional, exposições de até 1 minuto ou menos e muitos quadros.
  • Processamento. Kier sugere ser "brutal" ao rejeitar quadros borrados, fazer deconvolução por canal, afiar mais e suavizar o ruído com um filtro gaussiano; também reduzir a estrela vizinha de oitava magnitude.
  • Altura moderada. Com cerca de 46° de altura máxima, a refração e a turbulência pesam mais que em objetos no zênite; fotografe perto do meridiano, como Kier recomenda para alvos baixos.
  • Camadas. A concha interna brilhante e a externa tênue pedem uma exposição que preserve o núcleo sem perder o halo.

Equipamento e filtros

Câmera colorida com filtro dual-band (H-alfa e OIII) basta para começar; uma monocromática com OIII ajuda a mostrar o contraste do anel interno. Mobberley recomenda que a escala seja fina e o acompanhamento, bom.

Exemplo de sessão (ponto de partida)

Tipo de quadro Quantidade Exposição Finalidade
Light (dual-band ou RGB) 150 a 300 20 a 60 s Muitos quadros curtos, para rejeitar os ruins
Dark 30 igual aos Lights Calibração do ruído térmico
Flat 30 automática Correção de vinheta e poeira
Bias ou dark-flat 50 mais curta possível Calibração do ruído de leitura

Esses números são um ponto de partida e não vêm dos livros. Mollise, a propósito, sugere levar um espelho de bolso para comparar seu rosto com o da nebulosa depois do download.

Smart telescopes e campo de visão

No campo de cerca de 1,3° × 0,7° de um smart telescope como o Seestar S50, a Esquimó tem da ordem de 8 a 10 pixels (cálculo: escala de cerca de 2,4″ por pixel): dá para ver a cor azul-esverdeada e a estrela central, mas não os detalhes internos. É um alvo mais de "identificar" do que de "detalhar". Escolha o seu modelo no mapa abaixo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.

0°

Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.

Considerações finais

A Esquimó é uma planetária que recompensa o aumento alto, o céu estável e a paciência de esperar os lampejos. Ela mostra em pequeno o que as grandes planetárias mostram em grande: dupla camada, estrela central e cor. Para completar a comparação, combine-a com a Nebulosa da Hélice (NGC 7293), muito maior e mais fraca, e com o guia da constelação de Gêmeos.

Referências

  • BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 43 (NGC 2392).
  • KIER, Ruben. The 100 Best Targets for Astrophotography. New York: Springer, 2009. Planetárias pequenas (Medusa, Esquimó e Coruja), p. 63-65 (conferir).
  • MOBBERLEY, Martin. The Caldwell Objects and How to Observe Them. New York: Springer, 2009. Caldwell 39, p. 90-91.
  • MOLLISE, Rod. The Urban Astronomer's Guide: A Walking Tour of the Cosmos for City Sky Watchers. London: Springer, 2006. Nebulosa do Esquimó, p. 226-228.
  • MONKS, Neale. Go-To Telescopes Under Suburban Skies. London: Springer, 2010. Planetárias e filtro OIII, NGC 2392, p. 22-23 (conferir).
  • MOORE, Patrick. The Observer's Year: 366 Nights of the Universe. 2. ed. London: Springer, 2005. Gêmeos e a Nebulosa Esquimó, p. 52 (conferir).
  • MOURÃO, Ronaldo Rogério de Freitas. Dicionário enciclopédico de astronomia e astronáutica. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987. Verbete "planetária, nebulosa" (p. 561).
  • SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, paralaxe e dimensões de NGC 2392, em 21 set. 2026.
  • HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.