setembro 21, 2026

NGC 2264, a Nebulosa Cone e a Árvore de Natal: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2) de NGC 2264 — Nebulosa do Cone e Árvore de Natal — objeto ainda não capturado no observatório

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.

Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Créditos

Todo dezembro o hemisfério norte enfeita a árvore de Natal; para nós, no calor do verão, a árvore já está no céu. A NGC 2264 é um pequeno aglomerado de estrelas jovens, em Monoceros (o Unicórnio), cujo desenho lembra uma árvore de Natal de cabeça para baixo, com a estrela variável S Monocerotis fazendo o papel do tronco. Ao redor dele, uma nebulosidade enorme e fraca abriga um dente escuro de poeira, a Nebulosa Cone. O aglomerado é fácil, visto até de cidade; o cone é uma das grandes provas de paciência do céu profundo e, em foto, um dos alvos mais bonitos do inverno do norte e do verão do sul. Este guia junta os dados, os gráficos de altura, o plano de observação e a estratégia de captura.

Texto em revisão. Este guia segue o novo formato de objeto. As fontes estão listadas no final e as dúvidas, nas pendências do cabeçalho.

Imagem de referência (DSS2) de NGC 2264 — Nebulosa do Cone e Árvore de Natal — objeto ainda não capturado no observatório
Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Imagem de referência: este objeto ainda não foi fotografado no Observatório. Créditos

Ficha técnica e designações

Ficha técnica e designações
Designação principalNGC 2264
Outras designaçõesNGC NGC 2264 LBN / LDN LBN 911
Tipo de objetoNebulosa de emissão (região H II)
ConstelaçãoMonoceros
Coordenadas (J2000)RA 06h 40m 58s | Dec +09° 53′ 44″
Distância da Terra~2.300 anos-luz (estimativas de 2.000 a 2.900)
Magnitude aparente+3,9
Tamanho aparente11′
Melhor época (BR)Dezembro, Janeiro, Fevereiro

Visão geral: o que é um aglomerado com nebulosa de emissão

O que chamamos de NGC 2264 é um pedaço de um complexo maior de formação de estrelas. Pela paralaxe do SIMBAD, o conjunto está a cerca de 2.400 anos-luz. Monks lembra que o aglomerado tem entre 3 e 5 milhões de anos, o que o torna um dos aglomerados abertos mais jovens ao alcance do amador, e por ser jovem e relativamente próximo é importante para quem estuda formação estelar. Kier resume: a Nebulosa Cone é um fragmento escuro de uma imensa região de formação de estrelas, e o brilho avermelhado vem de gás de hidrogênio excitado pela luz ultravioleta de estrelas jovens dos tipos O e B.

O que é o quê. Três coisas se sobrepõem. O aglomerado Árvore de Natal é o grupo de estrelas brilhantes que se vê com binóculo. A nebulosa de emissão é o gás de hidrogênio em volta, excitado pela luz ultravioleta das estrelas, e o Cone é uma nuvem escura de poeira que se projeta contra essa nebulosa (Philip's; Monks). A luz que ilumina o gás vem em grande parte da estrela 15 Monocerotis, a mesma S Mon, que forma a base da árvore (Monks; Tonkin).

Números. O SIMBAD trata o objeto como aglomerado aberto e lista uma extensão de 240′ (4°) para a região toda, incluindo a nebulosidade. Nos livros, a "árvore" tem cerca de 20′ (Mollise; Kier; Philip's) e a nebulosidade com filtro chega a 2° (Coe). Kambič dá um diâmetro real de cerca de 15 anos-luz para o aglomerado. A magnitude total é 3,9 (dos livros: Bakich, Kier e Mollise; o SIMBAD não traz magnitude V). A variável S Mon oscila entre as magnitudes 4,2 e 5,0, conforme a fonte.

Outros nomes. Duas partes da nebulosidade ganharam apelido próprio, o Aglomerado Floco de Neve (Snowflake) e a Nebulosa Pele de Raposa (Fox Fur), este último no alto da foto de Kier, onde a poeira reflete a luz azul das estrelas mais brilhantes. Não confunda com a Árvore de Natal de Cassiopeia, o aglomerado M 103, que às vezes leva o mesmo apelido (Monks).

Estruturas notáveis

  • O aglomerado em forma de árvore. As dez estrelas mais brilhantes desenham uma árvore, com S Mon como tronco (Kambič). Monks nota que o aglomerado é bem visível em binóculo e fica melhor num telescópio a partir de 100 mm.
  • A variável S Monocerotis. Ela é a estrela mais brilhante do grupo e ajuda a achar o conjunto (Mollise; Kambič).
  • A Nebulosa Cone. Uma cunha escura de poeira que se projeta contra o gás brilhante. É visível só em céus muito escuros com telescópios grandes e filtro, ou em foto (Coe; Mollise; Monks).
  • A nebulosidade vermelha. Fraca e extensa; o UHC a mostra em 2° de diâmetro num telescópio de 13″ (Coe).
  • A Nebulosa Variável de Hubble (NGC 2261). Uma pequena nebulosa de reflexão em forma de cometa, ligada à Cone (Coe); veja mais adiante.
  • Vizinhança. A Roseta (NGC 2244) fica cerca de 5° a 6° ao sul-sudoeste, e o grande aglomerado fraco Collinder 95 aparece à direita da nebulosa na imagem de Kambič (p. 347). Veja o guia da Roseta.

Como localizar

Comece por Xi Geminorum, uma estrela de magnitude 3,4: a NGC 2264 fica 3° ao sul-sudoeste dela (Bakich; Kambič diz sul-sudeste, mas pelas coordenadas o aglomerado está a oeste). Outro caminho é partir de Betelgeuse: trace uma linha até Beta do Cão Menor, ache o centro e desloque 2° em direção a Gama de Gêmeos (Tonkin). Mollise sugere ainda partir da Roseta e subir cerca de 5° ao norte, com S Mon aparecendo no buscador. Como o objeto cruza o meridiano ao norte e mais baixo que Órion, vale ter uma carta na mão.

Do Brasil, a árvore fica "de cabeça para baixo" em relação às cartas do hemisfério norte. Como olhamos para o norte, o norte celeste fica embaixo; portanto, na foto publicada com o norte para cima, a árvore parecerá invertida para nós.

Carta de localização de NGC 2264: as estrelas-guia nomeadas, setas tracejadas com a distância em graus até o alvo, escala em graus e indicação de norte e leste.
Carta de localização (star-hopping), no mesmo estilo das cartas de constelação: norte e leste indicados no canto. Anéis laranja: estrelas-guia; setas tracejadas: o caminho até o alvo, com a distância em graus; anel verde: o alvo (e, com a designação, outros objetos do campo); a barra mostra a escala. As linhas são as oficiais das constelações (d3-celestial), os limites são os da IAU e as estrelas vêm do catálogo HYG.

Quando e como observar

A NGC 2264 fica na declinação de +10°, ao norte do equador celeste, e culmina a cerca de 57° de altura no Rio de Janeiro (90° menos 33°), a norte do zênite. É uma altura muito boa para um alvo tão difuso, mas mais baixa do que a de Órion. A melhor época vai de dezembro a março: em meados de janeiro ela cruza o meridiano por volta da meia-noite, e no verão já está alta ao anoitecer. Em abril, ela vai sumindo no crepúsculo.

O primeiro gráfico mostra a altura do objeto ao longo do ano para o local do observatório; o segundo, o caminho dele pelo céu nesta noite, seguido da altura hora a hora.

Altura de Nebulosa do Cone e Árvore de Natal ao longo do anoAltura à meia-noite astronômica e altura máxima da noite, a cada 5 dias. Melhor época: de novembro a fevereiro. O objeto chega a 57° à meia-noite em janeiro.0°30°60°90°JANFEVMARABRMAIJUNJULAGOSETOUTNOVDEZ1 jan · 57°hoje
Altura ao longo do ano, a cada 5 dias: linha contínua = altura no meio da noite astronômica (Sol abaixo de −18°); tracejada = maior altura durante a noite escura; faixa verde = melhor época; linhas pontilhadas em 30° e 45°. A linha vertical marca hoje. Melhor época para este local: de novembro a fevereiro (objeto acima de 30° no meio da noite). Ponto mais alto: 57° em 1 de janeiro.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

2026-10-12 · 19:20 – 04:10

Esta noite no céu

Melhores alvos da noite
Melhor horário
04:00 · 53° NNE
Horas acima de 45°
1,0 h
Lua
Lua crescente · 6 %
Nota da noite
70 / 100
Posição no céu
51
Brilho
100 mag 3,9
Enquadramento
100 ocupa 25 % do campo

Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).

Trajetória de NGC 2264 — Nebulosa do Cone e Árvore de Natal pelo céu nesta noiteCéu visto de baixo, zênite no centro e horizonte na borda. O objeto fica acima do horizonte entre 23:30 e 04:50 durante a noite; o ponto mais alto é às 04:00, com 53°. A tabela ao lado traz os mesmos valores.15°30°45°60°75°NNELSESSOONO00:0001:0002:0003:0004:00
Caminho do objeto pelo céu nesta noite, do fim do crepúsculo civil ao amanhecer. Centro = zênite, borda = horizonte; visto olhando para cima (leste à esquerda, oeste à direita). Marcadores a cada 30 minutos.
  • Crepúsculo civil (Sol até −12°)
  • Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
  • Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
  • Altura abaixo de 20°
  • Altura abaixo de 30°
  • Altura abaixo de 45°
  • Hora cheia e meia hora
  • Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
Altura e direção do objeto a cada 30 minutos
Hora Altura Direção Da Lua
19:30 -54° — 123°
20:00 -47° — 123°
20:30 -40° — 124°
21:00 -33° — 124°
21:30 -27° — 124°
22:00 -20° — 124°
22:30 -13° — 125°
23:00 -6° — 125°
23:30 1° E 79° 125°
00:00 8° ENE 76° 125°
00:30 15° ENE 73° 125°
01:00 21° ENE 69° 126°
01:30 27° ENE 65° 126°
02:00 34° ENE 60° 126°
02:30 39° NE 54° 126°
03:00 45° NE 47° 127°
03:30 49° NE 39° 127°
04:00 53° NNE 29° 127°
Altura de NGC 2264 — Nebulosa do Cone e Árvore de Natal ao longo da noiteAltura em graus a cada 30 minutos. O ponto mais alto é às 04:00, com 53°. A tabela abaixo traz os mesmos valores.0°30°60°90°202122230001020304abaixo do horizonte04:00 · 53°
Altura em graus ao longo da noite escura (linhas em 30° e 45°). A Lua aparece tracejada.

Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

O que ver

Instrumento O que esperar
A olho nu Uma mancha fraca e difusa na Via Láctea, visível em céu escuro (Bakich; Coe). Em Bortle 7, é preciso saber onde procurar.
Binóculo (7×50 a 10×50) O aglomerado: cerca de 35 estrelas de magnitudes 7 a 11 (Kambič), em forma de cunha ou árvore, com S Mon em destaque (Tonkin; Coe). A nebulosa não aparece, ou só com muito esforço e filtro (Tonkin).
Telescópio de 100 a 150 mm O aglomerado fica melhor (Monks). Um filtro UHC pode revelar um vestígio da nebulosidade em céu escuro (Tonkin).
Telescópio de 300 a 350 mm Com um UHC e um ocular de campo largo, a nebulosidade se estende por cerca de 2° e, a 100x, o Cone aparece como uma faixa escura empurrando a parte brilhante (Coe). Mesmo em bom céu, a maioria só percebe a ponta mais brilhante do Cone (Monks). Bakich indica 300 mm ou mais para uma faixa de uns 50′ de nebulosidade.

Expectativa honesta: Mollise avisa que o Cone, na cidade, é um caso perdido, e que mesmo no campo pede telescópios grandes e observadores experientes. Em Bortle 7, a Árvore de Natal é o objetivo; o cone é uma fotografia.

Astrofotografia: estratégia de captura

Enquadramento

Kier observa que a região de nebulosidade em torno do Cone é imensa: dá para fotografar um campo de até 3° × 2° com uma lente fotográfica ou fechar no cone com um campo menor. Com um telescópio de 1.000 mm de focal e uma câmera como a ASI294MC Pro, o campo é de cerca de 1,1° × 0,75° (calculado a partir do sensor e da focal): o Cone e o aglomerado cabem juntos, com a Nebulosa Variável de Hubble ao lado num quadro um pouco maior.

Desafios do alvo

  • Nebulosidade fraca. Kier alerta que, em céu de subúrbio, a luminância em H-alfa mostra bons detalhes, mas a poluição luminosa afoga a nebulosa de reflexão azul, fraca.
  • A poeira e o vermelho. O Cone é escuro sobre um fundo avermelhado: pede exposição longa e, de preferência, banda estreita.
  • A estrela S Mon. É brilhante e cria halos; exposições curtas ajudam a controlar o brilho.

Equipamento e filtros

Kier sugere trabalhar com H-alfa como luminância e, no processamento, seguir as dicas que dá para a Água-viva (Jellyfish) e a Roseta (seções de 9 e 12 de fevereiro). Em Bortle 7, um filtro dual-band (H-alfa e OIII) em câmera colorida ou, melhor, a banda estreita em câmera monocromática compensa. Para um campo de 3° × 2°, uma lente fotográfica de 135 a 200 mm é uma boa alternativa. Se quiser um alvo mais fácil no mesmo campo largo, comece pela Roseta ao lado.

Exemplo de sessão (ponto de partida)

Tipo de quadro Quantidade Exposição Finalidade
Light (dual-band ou H-alfa) 60 a 90 180 s Nebulosidade e o dente do Cone; o tempo total é o que mais conta
Dark 30 igual aos Lights Calibração do ruído térmico
Flat 30 automática Correção de vinheta e poeira
Bias ou dark-flat 50 mais curta possível Calibração do ruído de leitura

Esses números são um ponto de partida e não vêm dos livros.

Um vizinho: a Nebulosa Variável de Hubble

Cerca de 1,2° ao sul-sudoeste, a pequena NGC 2261 (Hubble) é uma nebulosa de reflexão em forma de cometa, com a estrela variável R Monocerotis na ponta. Coe conta que a luz e a sombra na sua borda mudam de forma tão depressa que não pode ser movimento de gás, e sim sombras de nuvens que giram perto da estrela; ela está a cerca de 2.600 anos-luz, ligada à Cone. Mollise a descreve com 2′ × 1,7′ e magnitude perto de 4. Vale uma visita a 200 a 300 aumentos, ou como um segundo alvo fotográfico no mesmo quadro largo.

Smart telescopes e campo de visão

O campo de um smart telescope como o Seestar S50 (cerca de 1,3° × 0,7°) enquadra bem o aglomerado com a nebulosa ao redor e o Cone. Com o filtro dual-band do aparelho e muitas horas de empilhamento, a nebulosidade vermelha aparece; sem elas, vai aparecer sobretudo a árvore. Escolha o seu modelo no mapa abaixo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.

0°

Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.

Considerações finais

A NGC 2264 é o tipo de alvo em que o mesmo lugar tem duas caras: uma simples, para quem tem binóculo, e outra difícil, para quem tem paciência e um bom céu. Comece pela árvore, e leve o cone para a lista das fotos de verão, junto à Roseta e à Grande Nebulosa de Órion; para o entorno, o guia da constelação de Órion ajuda a se orientar.

Referências

  • BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 1 (NGC 2264).
  • COE, Steven R. Nebulae and How to Observe Them. London: Springer, 2007. NGC 2264, p. 73; NGC 2261, p. 72.
  • KAMBIČ, Bojan. Viewing the Constellations with Binoculars: 250+ Wonderful Sky Objects to See and Explore. New York: Springer, 2010. Monoceros, NGC 2264, p. 344 e figura na p. 347.
  • KIER, Ruben. The 100 Best Targets for Astrophotography. New York: Springer, 2009. "February 14: Cone Nebula and Christmas Tree Cluster", p. 54.
  • MONKS, Neale. Go-To Telescopes Under Suburban Skies. London: Springer, 2010. NGC 2264 (Cone Nebula, Christmas Tree Cluster), p. 34.
  • MOLLISE, Rod. The Urban Astronomer's Guide: A Walking Tour of the Cosmos for City Sky Watchers. London: Springer, 2006. NGC 2264, p. 221.
  • MOORE, Patrick (ed.). Astronomy Encyclopedia. London: Philip's. Verbete "Cone Nebula", p. 92.
  • RIDPATH, Ian. Astronomia (Guia Ilustrado Zahar). 4. ed. Rio de Janeiro: Zahar. Verbete Unicórnio (Monoceros), página impressa a conferir.
  • TONKIN, Stephen. Binocular Astronomy. London: Springer, 2007. NGC 2264 (Christmas Tree Cluster), p. 196.
  • SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, tipo, paralaxe e dimensões de NGC 2264, em 21 set. 2026.
  • HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.