setembro 21, 2026

NGC 1977, a Nebulosa do Homem Correndo: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2) de NGC 1977 — Nebulosa do Homem Correndo — objeto ainda não capturado no observatório

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.

Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. UK Schmidt Telescope (UKST) / AAO–ROE. Créditos

Quase toda foto da Grande Nebulosa de Órion tem, logo acima, uma nuvem azulada com faixas escuras que lembram um homem de braços abertos, correndo. É a Nebulosa do Homem Correndo, a NGC 1977, a vizinha esquecida de M 42: mais fraca, mais azul e muito mais difícil de ver com os olhos. Neste guia você vai saber por que ela é tão pouco visual e tão fotogênica, como achá-la a partir de M 42 e de que forma tirar proveito dela do Brasil, onde Órion cruza o céu bem alto.

Texto em revisão. Este guia segue o novo formato de objeto. As fontes estão listadas no final e as dúvidas, nas pendências do cabeçalho.

Imagem de referência (DSS2) de NGC 1977 — Nebulosa do Homem Correndo — objeto ainda não capturado no observatório
Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. UK Schmidt Telescope (UKST) / AAO–ROE. Imagem de referência: este objeto ainda não foi fotografado no Observatório. Créditos

Ficha técnica e designações

Ficha técnica e designações
Designação principalNGC 1977
Outras designaçõesNGC NGC 1977
Tipo de objetoNebulosa de emissão (região H II)
ConstelaçãoOrion
Coordenadas (J2000)RA 05h 35m 16s | Dec −04° 50′ 39″
Distância da Terra~1.300 anos-luz (estimativas de 1.200 a 1.600)
Magnitude aparente—
Tamanho aparente10′
Melhor época (BR)Dezembro, Janeiro, Fevereiro

Visão geral: o que é uma nebulosa de reflexão

Uma nebulosa de reflexão é uma nuvem de poeira fina que brilha por reflexão, sem produzir luz própria: a poeira espalha a luz das estrelas próximas, e o azul é espalhado com mais eficiência do que o vermelho, por isso essas nebulosas são azuladas (explicação geral; Kier registra a cor azul da reflexão). Já uma nebulosa de emissão brilha porque a radiação ultravioleta de estrelas quentes excita o gás. Na NGC 1977 os dois processos convivem, e Monks a descreve como uma nebulosa de reflexão com componentes de emissão.

De onde ela vem. A Nebulosa de Órion é uma parte do complexo molecular de Órion, iluminado por um grupo de estrelas jovens e quentes. A NGC 1973, a NGC 1975 e a NGC 1977 formam outro trecho do mesmo complexo, muito menos iluminado, o que faz com que ele seja ofuscado por M 42 (Monks). Philip's descreve a nebulosidade da NGC 1977 em volta da estrela 42 Orionis, de 5ª magnitude, ao norte de M 42, e, mais ao norte ainda, o grande aglomerado aberto NGC 1981.

Números. O SIMBAD lista a NGC 1977 como aglomerado aberto, o grupo de jovens estrelas que a ilumina, com paralaxe de 2,521 milissegundos de arco, o que dá cerca de 1.300 anos-luz; Monks fala em 1.500. O tamanho aparente depende do que se conta: de 20′ × 10′ (Coe) a 40′ × 45′ (Cooke); Monks estima que o conjunto das três nebulosas tenha pouco menos de 10 anos-luz de diâmetro. O brilho total gira em torno da magnitude 7 (Coe), o que engana, porque a luz está espalhada por uma área grande.

Apelidos. Além de "Homem Correndo" (Running Man), não há outro nome popular nos livros consultados.

Estruturas notáveis

  • As faixas escuras. Duas trilhas de poeira, que se cruzam e desenham os "braços abertos" do homem (Kier).
  • NGC 1973 e NGC 1975. Duas pequenas nebulosas em torno de duas estrelas, de magnitudes 7,3 e 9,7, cerca de 8′ do par 42 Orionis e 45 Orionis (Monks). Monks diz que essas duas são as mais fáceis de ver, por serem menores e mais brilhantes.
  • A estrela 42 Orionis. De magnitude 4,6, é uma das que iluminam a nuvem, bem mais brilhante do que a vizinha 45 Orionis, de magnitude 7, a 4′ dela (Monks).
  • NGC 1981. Um aglomerado aberto grande, mais ao norte de todo o conjunto (Philip's), de magnitude 5,4 na tabela de Cooke.
  • O cenário maior. Tudo isso é apenas uma parte do complexo de Órion, que se estende por muitos graus; Parker propõe enquadrar a Nebulosa de Órion, M 43 e a NGC 1977 no mesmo quadro largo.

Como localizar

Comece na Espada de Órion, achando M 42 (veja o guia da Grande Nebulosa de Órion). A NGC 1977 está cerca de 0,6° ao norte de M 42 (pelas coordenadas do SIMBAD e de Kier), na mesma ascensão reta. Como olhamos para o norte, o norte celeste fica embaixo: a Running Man aparecerá abaixo de M 42. A estrela guia é a 42 Orionis, de 5ª magnitude, visível ao lado da nebulosidade (Monks; Philip's).

Kier descreve a figura como um homem que corre para a esquerda, em imagem com o norte para cima. Como o céu daqui é visto girado 180° em relação às cartas do hemisfério norte, o homem corre para a direita e de cabeça para baixo.

Carta de localização de NGC 1977: as estrelas-guia nomeadas, setas tracejadas com a distância em graus até o alvo, escala em graus e indicação de norte e leste.
Carta de localização (star-hopping), no mesmo estilo das cartas de constelação: norte e leste indicados no canto. Anéis laranja: estrelas-guia; setas tracejadas: o caminho até o alvo, com a distância em graus; anel verde: o alvo (e, com a designação, outros objetos do campo); a barra mostra a escala. As linhas são as oficiais das constelações (d3-celestial), os limites são os da IAU e as estrelas vêm do catálogo HYG.

Quando e como observar

Com declinação de −4,8°, a NGC 1977 culmina a cerca de 72° de altura no Rio de Janeiro (90° menos 18°), a norte do zênite. É uma altura excelente para um alvo tão difuso. A melhor época é a mesma de Órion: de dezembro a março, com o objeto alto logo depois do anoitecer em janeiro e fevereiro, e culminando à meia-noite por volta do fim de dezembro.

O primeiro gráfico mostra a altura do objeto ao longo do ano para o local do observatório; o segundo, o caminho dele pelo céu nesta noite, seguido da altura hora a hora.

Altura de Nebulosa do Homem Correndo ao longo do anoAltura à meia-noite astronômica e altura máxima da noite, a cada 5 dias. Melhor época: de outubro a fevereiro. O objeto chega a 72° à meia-noite em dezembro.0°30°60°90°JANFEVMARABRMAIJUNJULAGOSETOUTNOVDEZ17 dez · 72°hoje
Altura ao longo do ano, a cada 5 dias: linha contínua = altura no meio da noite astronômica (Sol abaixo de −18°); tracejada = maior altura durante a noite escura; faixa verde = melhor época; linhas pontilhadas em 30° e 45°. A linha vertical marca hoje. Melhor época para este local: de outubro a fevereiro (objeto acima de 30° no meio da noite). Ponto mais alto: 72° em 17 de dezembro.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

2026-10-12 · 19:20 – 04:10

Esta noite no céu

Melhores alvos da noite
Melhor horário
04:00 · 72° N
Horas acima de 45°
2,8 h
Lua
Lua crescente · 6 %
Nota da noite
72 / 100
Posição no céu
73
Brilho
50 (sem magnitude cadastrada)
Enquadramento
91 ocupa 23 % do campo

Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).

Trajetória de NGC 1977 — Nebulosa do Homem Correndo pelo céu nesta noiteCéu visto de baixo, zênite no centro e horizonte na borda. O objeto fica acima do horizonte entre 22:00 e 04:50 durante a noite; o ponto mais alto é às 04:00, com 72°. A tabela ao lado traz os mesmos valores.15°30°45°60°75°NNELSESSOONO22:0023:0000:0001:0002:0003:0004:00
Caminho do objeto pelo céu nesta noite, do fim do crepúsculo civil ao amanhecer. Centro = zênite, borda = horizonte; visto olhando para cima (leste à esquerda, oeste à direita). Marcadores a cada 30 minutos.
  • Crepúsculo civil (Sol até −12°)
  • Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
  • Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
  • Altura abaixo de 20°
  • Altura abaixo de 30°
  • Altura abaixo de 45°
  • Hora cheia e meia hora
  • Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
Altura e direção do objeto a cada 30 minutos
Hora Altura Direção Da Lua
19:30 -33° — 131°
20:00 -26° — 132°
20:30 -19° — 132°
21:00 -13° — 132°
21:30 -6° — 132°
22:00 1° E 95° 132°
22:30 8° E 92° 132°
23:00 15° E 89° 133°
23:30 22° E 86° 133°
00:00 29° E 83° 133°
00:30 36° E 79° 133°
01:00 42° ENE 75° 133°
01:30 49° ENE 70° 133°
02:00 55° ENE 63° 134°
02:30 61° NE 54° 134°
03:00 67° NE 42° 134°
03:30 70° NNE 24° 134°
04:00 72° N 2° 134°
Altura de NGC 1977 — Nebulosa do Homem Correndo ao longo da noiteAltura em graus a cada 30 minutos. O ponto mais alto é às 04:00, com 72°. A tabela abaixo traz os mesmos valores.0°30°60°90°202122230001020304abaixo do horizonte04:00 · 72°
Altura em graus ao longo da noite escura (linhas em 30° e 45°). A Lua aparece tracejada.

Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

O que ver

Instrumento O que esperar
A olho nu Nada da nebulosa. Só a Espada de Órion e a estrela 42 Orionis, que fica bem perto de M 42 (Monks).
Binóculo (7×50 a 10×50) A estrela 42 Orionis e o aglomerado NGC 1981; a nebulosa é imperceptível.
Telescópio de 100 a 150 mm Em céu razoável, com campo largo, as pequenas NGC 1973 e NGC 1975 em torno de suas estrelas são as primeiras a aparecer; um filtro de banda estreita ajuda, porque escurece as estrelas e deixa a nebulosidade mais visível (Monks).
Telescópio de 300 a 350 mm Um brilho tênue em torno da 42 Orionis, em céu escuro e com paciência. Mollise observa que a maioria dessas nebulosas de Órion nem existe, visualmente, no céu da cidade.

Expectativa honesta: Mollise avisa que, em céu urbano, é improvável ver o complexo das NGC 1973, 1975 e 1977, e que as nebulosas mais fracas de Órion (a Chama, a Cabeça de Cavalo e o Homem Correndo) são fracas mesmo nos grandes instrumentos e nos melhores céus. Em Bortle 7, a Running Man é um alvo fotográfico. Aproveite a visita a M 42 para varrer as estrelas ao redor.

Astrofotografia: estratégia de captura

Enquadramento

Kier acha que M 42 fica ótima sozinha ou junto à Running Man. Parker sugere enquadrar M 42, M 43 e o Homem Correndo em um único quadro largo, com exposição profunda para mostrar a nebulosidade ao redor. Com um telescópio de 1.000 mm de focal e uma câmera como a ASI294MC Pro, o campo é de cerca de 1,1° × 0,75° (calculado a partir do sensor e da focal): cabe a NGC 1977 com folga, mas M 42 fica de fora ou cortada. Para o conjunto, um refrator curto ou uma lente de 200 mm é melhor.

Desafios do alvo

  • Brilho baixo e fundo poluído. Em Bortle 7, o azul da reflexão é engolido pelo céu urbano; é onde um filtro de poluição luminosa e muitas horas de integração mais ajudam.
  • Estrelas brilhantes. A 42 Orionis e a 45 Orionis criam halos; vale usar exposições curtas para controlar o brilho delas.
  • Alvo "de segunda linha". Parker o considera um pouco difícil para o iniciante e recomenda o máximo de sub-exposições de 6 minutos que se conseguir.

Equipamento e filtros

Uma câmera colorida com filtro leve de poluição luminosa serve para o azul da reflexão. Filtros de banda estreita (dual-band) realçam a parte de emissão, mas escurecem o azul, então a cor final tende ao avermelhado. Uma boa estratégia é combinar os dois: quadros RGB ou de luminância para o azul e H-alfa para o vermelho.

Exemplo de sessão (ponto de partida)

Tipo de quadro Quantidade Exposição Finalidade
Light (RGB ou filtro de poluição luminosa) 60 a 90 180 s Reflexão azul e faixas escuras
Dark 30 igual aos Lights Calibração do ruído térmico
Flat 30 automática Correção de vinheta e poeira
Bias ou dark-flat 50 mais curta possível Calibração do ruído de leitura

Esses números são um ponto de partida e não vêm dos livros; Parker, para referência, sugere sub-exposições de 6 minutos.

Smart telescopes e campo de visão

Um smart telescope como o Seestar S50 (cerca de 1,3° × 0,7°) mostra bem a NGC 1977 com a 42 Orionis, e um campo um pouco maior pega M 42 junto, com o cuidado de que ela sature no centro. Como a reflexão é fraca, use empilhamento longo. Escolha o seu modelo no mapa abaixo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.

0°

Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.

Considerações finais

A Nebulosa do Homem Correndo é uma lição sobre o que a fotografia enxerga e o olho não: uma vizinha discreta de M 42 que só se revela em exposição longa. Se você já fotografou M 42, ela é o passo natural seguinte; para visitar o outro lado do complexo, veja a Cabeça de Cavalo e o guia da constelação de Órion.

Referências

  • COE, Steven R. Nebulae and How to Observe Them. London: Springer, 2007. Apêndice, NGC 1977, p. 142.
  • COOKE, Antony. Visual Astronomy in the Suburbs: A Guide to Spectacular Viewing. London: Springer, 2004. NGC 1977, p. 224.
  • COOKE, Antony. Make Time for the Stars: Fitting Astronomy into Your Busy Life. New York: Springer, 2009. Tabela de objetos de Órion, p. 235.
  • KIER, Ruben. The 100 Best Targets for Astrophotography. New York: Springer, 2009. "January 29: Orion Nebula and Running Man Nebula", p. 28.
  • MOLLISE, Rod. The Urban Astronomer's Guide: A Walking Tour of the Cosmos for City Sky Watchers. London: Springer, 2006. Órion e M 78, p. 206-207.
  • MONKS, Neale. Go-To Telescopes Under Suburban Skies. London: Springer, 2010. NGC 1973, 1975 e 1977, p. 31-32.
  • MOORE, Patrick (ed.). Astronomy Encyclopedia. London: Philip's. Verbete Órion, p. 295.
  • PARKER, Greg. Making Beautiful Deep-Sky Images: Astrophotography with Affordable Equipment and Software. New York: Springer, 2007. Escolha de alvos, p. 55.
  • SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, tipo e paralaxe de NGC 1977, em 21 set. 2026.
  • HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.